O Ermitão da Glória/IV

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O Ermitão da Glória por José de Alencar
Capítulo IV: A Canoa

Saltando a bordo, foi Aires recebido ao portaló pela maruja um tanto surpresa da visita.

— Doravante quem manda aqui sou eu, rapazes; e desde já os aviso, que esta mesma tarde, em soprando a viração, fazemo-nos ao largo.

— Com o barco da maneira que está? observou o gajeiro.

Os outros resmungaram aprovando.

— Esperem lá, que ainda não acabei. Esta tarde pois, como dizia, conto ir mar em fora ao encontro do primeiro pechelingue que passar-me por davante. O negócio há de estar quente, prometo-lhes.

— Isso era muito bom, se tivesse a gente navio; mas numa capoeira de galinhas como esta?...

— Ah! não temos navio?... Com a breca! Pois vamos procurá-lo onde se eles tomam!

Entreolhou-se a maruja, um tanto embasbacada daquele desplante.

— Ora bem! continuou Aires. Agora que já sabem o que têm de fazer, cada um que tome o partido que mais lhe aprouver. Se lhe não toa a dança, pode-se ir à terra, e deixar o posto a outro mais decidido. Eia, rapazes, avante os que me seguem; o resto toca a safar e sem mais detença, se não mando carga ao mar.

Sem a mais leve sombra de hesitação, dum só e mesmo impulso magnânimo, os rudes marujos deram um passo à frente, com o ar destemido e marcial com que marchariam à abordagem.

— Bravo, rapazes! Podeis contar que os pichelingues levarão desta feita uma famosa lição. Convido-vos a todos para bebermos à nossa vitória, antes da terceira noite, na taberna do Simão Chanfana.

— Viva o capitão!...

— Se lá não nos acharmos nessa noite, é que então estamos livres de uma vez desta praga de viver!...

— É mesmo! É uma canseira! acrescentou um marujo filósofo.

Passou Aires a examinar as avarias da balandra, e embora a achasse bastante deteriorada, contudo não demoveu-se por isso de seu propósito. Tratou logo dos reparos, distribuindo a maruja pelos diversos misteres; e tão prontas e acertadas foram suas providências, que poucas horas depois os rombos estavam tapados, o aparelho consertado, os outros estragos atamancados, e o navio em estado de navegar por alguns dias.

Era quanto dele exigia Aires, que o resto confiava à sorte.

Quando levantou-se a viração da tarde, a balandra cobriu-se com todo o pano e singrou barra fora.

Era meio-dia, e os sinos das torres repicavam alegremente. Lembrou-se Aires que estava a 14 de agosto, véspera da Assunção de Nossa Senhora, e encomendou-se à Virgem Santíssima.

Deste mundo não esperava mais cousa alguma para si, além de uma morte gloriosa, que legasse um triunfo à sua pátria. Mas o amigo de infância, Duarte de Morais, estava arruinado, e ele queria restituir-lhe o patrimônio, deixando-lhe em troca do chaveco desmantelado um bom navio.

Há momentos em que o espírito mais indiferente é repassado pela gravidade das circunstâncias. Colocado já no limiar da eternidade, olhando o mundo como uma terra a submergir-se no oceano pela popa de seu navio, Aires absorveu-se naquela cisma religiosa, que balbuciava uma prece, no meio da contrição da alma, crivada pelo pecado.

Uma vez chegou o mancebo a esclavinhar as mãos, e as ia erguendo no fervor de uma súplica; mas deu cobro de si, e disfarçou com enleio, receoso de que o tivesse percebido a maruja naquela atitude.

Dobrando o Pão d'Açúcar, com a proa para o norte, e o vento à bolina, sulcou a balandra ao longo da praia de Copacabana e Gávea. Conhecia Aires perfeitamente toda aquela costa com seus recantos, por tê-la frequentemente percorrido no navio de seu pai, durante o cruzeiro que este fazia aos pichelingues.

Escolheu posição estratégica, em uma aba da Ilha dos Papagaios onde o encontramos, e colocou o velho gajeiro Bruno de atalaia no píncaro de um rochedo, para lhe dar aviso do primeiro navio que aparecesse.

Se o arrojado mancebo tinha desde o primeiro instante arrebatado a maruja pela sua intrepidez, a presteza e tino com que provera aos reparos da balandra, a segurança de sua manobra por entre os parcéis, e a sagacidade da posição que tomara, haviam inspirado a confiança absoluta, que torna a tripulação um instrumento cego e quase mecânico na mão do comandante.

Enquanto esperava, Aires vira do tombadilho passar uma canoinha de pescador, dirigida por uma formosa rapariga.

— Para aprender o meu novo ofício de corsário vou dar caça à canoa! exclamou o mancebo a rir. Olá, rapazes!

E saltou no batel, acompanhado por quatro marujos que a um aceno esticaram os remos.

— Com certeza é espia dos calvinistas! Força, rapazes; carecemos de agarrá-la a todo o transe.

Facilmente foi a canoa alcançada, e trazida a bordo a rapariga, que ainda trêmula de medo, todavia já despregava dos lábios no meio dos requebros vergonhosos um sorriso brejeiro.

Vira ela e ouvira os chupões que lhe atirava à sorrelfa a boca de Aires apinhada à feição de beijo.

— Tocam a descansar, rapazes, e a refrescar. Eu cá vou tripular esta presa, enquanto não capturamos a outra.

Isto disse-o Aires a rir; e os marujos lhe responderam no mesmo tom.