O Ermitão da Glória/VIII

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O Ermitão da Glória por José de Alencar
Capítulo VIII: A Volta

Dezesseis anos tinham decorrido.

Era sobre tarde.

Grande ajuntamento havia na esplanada do Largo de São Sebastião, ao alto do Castelo, para ver entrar a escuna Maria da Glória.

Os pescadores tinham anunciado a próxima chegada do navio, que bordejava fora da barra à espera de vento, e o povo concorria para saudar o valente corsário cujas surtidas ao mar eram sempre assinaladas por façanhas admiráveis.

Nunca ele tornava do cruzeiro sem trazer uma presa, quando não eram três, como nessa tarde em que estamos.

Tornara-se Aires com a experiência um consumado navegante, e o mais bravo e temível capitão de mar entre quantos sulcavam os dois oceanos. Era de recursos inesgotáveis; tinha ardis para lograr o mais esperto marítimo; e com o engenho e intrepidez multiplicava as forças de seu navio a ponto de animar-se a combater naus ou fragatas, e de resistir às esquadras de pichelingues que se juntavam para dar cabo dele.

Todas estas gentilezas, a maruja bem como a gente do povo as lançava à conta da proteção da Virgem Santíssima, acreditando que a escuna era invencível, enquanto sua divina padroeira a não desamparasse.

Aires tinha continuado na mesma vida dissipada, com a diferença que a sua façanha da tomada da escuna lhe incutira o gosto pelas empresas arriscadas, que vinham assim distraí-lo da monotonia da cidade, além de lhe fornecer o ouro que ele semeava a mãos-cheias por seu caminho.

Em sentindo-se aborrido dos prazeres tão gozados, ou escasseando-lhe a moeda na bolsa, fazia-se ao mar em busca dos pichelingues que já o conheciam às léguas e fugiam dele como o diabo da cruz. Mas dava-lhes caça o valente corsário, e perseguia-os dias sobre dias até fisgar-lhes os arpéus.

Como o povo, também ele acreditava que à intercessão de Nossa Senhora da Glória devia a constante fortuna que uma só vez não o desajudara; e por isso tinha uma devoção fervorosa pela divina padroeira de seu navio, a quem não esquecia de encomendar-se nos transes mais arriscados.

Tornando de suas correrias marítimas, Aires, da parte que lhe ficava líquida depois de repartir a cada marujo o seu quinhão, separava metade para o dote de Maria da Glória e a entregava a Duarte de Morais.

A menina crescera, estava moça, e a mais prendada em formosura e virtude que havia então neste Rio de Janeiro. Queria-lhe Aires tanto bem como à sua irmã, se a tivesse; e ela pagava com usura esse afeto daquele que desde criança aprendera a estimar como o melhor amigo de seu pai.

O segredo do nascimento de Maria da Glória fora respeitado, conforme o desejo de Aires. Além do corsário e dos dois esposos, só o gajeiro Bruno, agora piloto da escuna, sabia quem realmente era a gentil menina; para ela como para os mais, seus verdadeiros pais foram Duarte de Morais e Úrsula.

Nas torres os sinos a repicarem trindades, e da escuna um batel a largar enquanto roda o cabrestante ao peso da âncora. Vinha no batel um cavalheiro de aspecto senhoril, cujas feições tostadas ao sol ou crestadas pela salsugem do mar respiravam a energia e a confiança. Se nos combates o nobre parecer, assombrando-se com a sanha guerreira, infundia terror no inimigo, fora, e ainda mais neste momento, a expansão jovial banhava-lhe o semblante de afável sorriso.

Era Aires de Lucena esse cavalheiro; não mais o gentil e petulante mancebo; porém o homem tal como o tinham feito as pelejas e trabalhos do mar.

Na ponta da ribeira, que atualmente ocupa o Arsenal de Guerra, Duarte de Morais com os seus, ansioso esperava o momento de abraçar o amigo, e seguia com a vista o batel.

De seu lado Aires também já os avistara do mar, e não tirava deles os olhos.

Úrsula estava à direita do marido, e à esquerda Maria da Glória. Esta falava a um mancebo que tinha junto de si, e com a mão lhe apontava o batel já próximo a abicar.

Apagou-se o sorriso nos lábios de Aires, sem que ele soubesse explicar o motivo. Sentira um aperto no coração, que se dilatava naquela abençoada hora da chegada com o prazer de volver à terra, e sobretudo à terra da pátria, que é sempre para o homem o grêmio materno.

Foi pois já sem efusão e com o passo moroso que saltou na praia, onde Duarte de Morais abria-lhe os braços. Depois de receber as boas-vindas de Úrsula, voltou-se Aires para Maria da Glória que desviou os olhos, retraindo o talhe talvez na intenção de esquivar-se às carícias que sempre lhe fazia o corsário à chegada.

— Não me abraça, Maria da Glória? perguntou o comandante com um tom de mágoa.

Corou a menina, e correu a esconder o rosto no seio de Úrsula.

— Olhem só! Que vergonhas!... disse a dona a rir.

No entanto Duarte de Morais, pondo a mão na espádua do mancebo, dizia a Aires:

— Este é Antônio de Caminha, filho da mana Engrácia, o qual vai agora para três semanas nos chegou do reino, onde muito se fala de vossas proezas; nem são elas para menos.

Dito o que, voltou-se para o mancebo:

— Aqui tens tu, sobrinho, o nosso homem; e bem o vedes que foi talhado para as grandes cousas que tem obrado.

Saudou Aires cortesmente ao mancebo, mas sem aquela afabilidade que a todos dispensava. Esse casquilho de Lisboa, que de improviso e a título de primo se introduzira na intimidade de Maria da Glória, o corsário não o via de boa sombra.

Quando à noite se recolheu a casa, levou Aires a alma cheia da imagem da moça. Até aquele dia não vira nela mais do que a menina graciosa e gentil, com quem se habituara a folgar. Naquela tarde, em vez da menina, achou uma donzela de peregrina formosura, que ele contemplara enlevado nas breves horas passadas a seu lado.