O Homem de Maus Costumes

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Homem de Maus Costumes
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


A mulher, quando é inteligente, vale por dois homens; quando, porém, é dura de cabeça, não há esforço que lhe faça compreender o espírito de uma frase. Algumas há, mesmo, em cujo cérebro, como no daquele adversário de Camilo, não penetra uma idéia nem amarrada numa bala de revólver.

Dona Josina Bordalo pertencia, para desgraça, mais do marido do que dela própria, a essa classe de criaturas desprotegidas do céu. Às vezes, em uma reunião, alguém emitia uma expressão espirituosa; toda a gente ria, satisfeita; ela, entretanto, esbugalhava os lindos olhos castanhos, pousando-os, ora no rosto de um, ora no de outro, como a indagar onde estava o espírito da pilhéria.

Não obstante essa falta de agudeza, Dona Josina fazia ao marido as grosserias mais surpreendentes. E a mais espantosa foi, sem dúvida, a que lhe saiu de um jato, na tarde em que berrou, numa terrível ameaça:

— Olhe, "seu" Custódio, no dia em que você me azucrinar muito a paciência, eu ganho a rua e vou lhe enganar, ali defronte, com o Joaquim padeiro.

— Enganar-me a mim, com o Joaquim Padeiro? — fez o Sr. Bordalo.

E numa gargalhada gostosa:

— Eu sempre queria ver!... Eu sempre queria ver!...

Essa expressão do marido, tomada ao pé da letra, irritou Dona Josina. E foi com os olhos em fogo, que ela trovejou, avançando para o desgraçado:

— Você?... Mas você quer ver, p'ra que?

E num gesto de nojo, de desprezo, de repugnância:

— Eu não sabia que você tinha esse mau costume...