O Jockey

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O Jockey
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


O comendador Bartolomeu Barata era, naquele tempo, no Rio, o maior entusiasta do "turf". Criador inteligente, os seus parelheiros raramente perdiam, sendo notáveis, nas corridas do Derby, as vitórias do "Pimenta", filho de "Camaleão", sobre o "Bolina I", que havia derrotado a égua "Uberaba", em São Paulo, e a "Graciosa", em Buenos Aires.

O grande fator dos triunfos obtidos pela coudelaria do comendador Bartolomeu não estava, entretanto, nos seus cavalos, mas, sobretudo, no jockey que os montava: o Rafael, rapaz de mão segura na brida, e que, lépido, ágil, risonho, se escanchava em uma sela, no prado, como quem se escancha em uma cadeira, num salão.

Com vinte e seis anos, moreno, olhos agateados, o jockey era duplamente célebre: pelos prêmios que levantava seguidamente, todos os anos, e pela simpatia com que era olhado pelas mulheres, principalmente pela Julita, amante do próprio comendador, a qual, mal este saia, telefonava logo para a cocheira, chamando o Rafael.

Não há nada, porém, mesmo em matéria de amores secretos, que se não venha a saber. Escondem-se dois amantes no céu, todos os dias, por trás de uma nuvem, e dias depois, toda a gente saberia do caso, na mais remota constelação. Foi o que sucedeu com a Júlia, o Rafael e o comendador, que, ao fim de pouco tempo, era inteirado, por uma carta anônima, dos encontros dos dois.

Informado da hora em que o jockey, deixando a cocheira, se ia meter na casa da rapariga, o velho "turfman" preparou-se para surpreendê-los. Escondido em um botequim da esquina, viu-o entrar, olhando de um lado e de outro, na denúncia do seu mau pensamento. E não havia decorrido meia hora entre a chegada do Rafael no palacete da Julita, quando Bartolomeu irrompeu pela alcova, indo encontrá-los, pasmados, uns nos braços do outro.

De um pulo, enquanto a traidora mergulhava sobre a colcha, o jockey estava no meio do quarto, de meias, sem gravata, o cabelo desgrenhado.

— Sim, senhor, sr. Rafael!... — fez o comendador, balançando a cabeça.

Olhou-o de frente:

— Quanto o senhor tem a receber, na cocheira?

— Seiscentos mil réis, — informou Rafael.

O comendador tirou três cédulas de duzentos, e entregou-lhas.

— Pronto; aqui estão.

Indicou-lhe a porta:

— Já! Ponha-se fora!

E sem ligar uma coisa com outra:

— Não quero mais que monte em cavalo meu!