O Marido Tímido

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O Marido Tímido
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


Desejoso de mostrar ao Paulino de Abreu, seu velho amigo do norte, recentemente chegado ao Rio de Janeiro, os aspectos mais curiosos da cidade, o Lobato Batista levou-o ao Pão de Açúcar, ao Corcovado, à Gávea, ao Jardim Botânico, a Paquetá, aos lugares, em suma, que lhe pareceram originais ou pitorescos. Farto de natureza, o nortista pediu-lhe, afinal, um dia:

— Eu queria visitar uma casa "chic"... Sabes?

— Uma casa de chá?

— Não, filho; coisa mais discreta. Um desses lugares alegres, em que a gente dança, bebe, pula, se diverte. Compreendes?

— Ahn! Compreendo, — fez o outro. — Queres ir numa pensão galante, não é?

O pernambucano confirmou a expressão e o Lobato, que fora sempre um homem sério, grave, sisudo, começou a pensar como seria isso.

— Achei! — exclamou, de repente, batendo na testa. — Vou levar-te à casa da Judith!

Essa Judith, que o Batista Lobato conhecia por informações de amigos, era uma italiana velha, gorda, oxigenada, famosa pelas suas funções de alcoviteira. E foi para o antro da megera que o carioca levou o companheiro, subindo, um atrás do outro, a escadaria coberta por uma passadeira carmesim. Em cima, Lobato baixou-se, olhando pelo buraco da porta do corredor, por onde se divisava a sala das inquilinas, lá dentro. Engastado o olho na cavidade da fechadura, recuou, de repente, convidando o outro.

— Vamos descer, Paulino?

— Por que? Vamos entrar... Anda!

— Não; não entres!

— Mas, eu sou um homem, filho! — obtemperou o nortista. — E não sou tão pudico assim, que não possa ver estas coisas!

— Mas, eu não posso entrar! — insistiu o pobre Batista.

E puxandoo amigo, escada abaixo:

— Minha mulher está aí dentro, e me passaria uma descompostura, se me visse num lugar destes!