O Matuto/III

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Uma légua antes de Goiana, a estrada geral que vai do Recife à Paraíba, atravessa um lugar de presente aumentado, mas ao tempo desta historia apenas formado de uma casa de barro, e duas ou três palhoças espalhadas não longe dela, por dentro dos matos circunvizinhos, sem regular alinhamento, a uso das casas que, para assim escrevermos, se improvisam nas entranhas das florestas.

A casa de barro ficava à embocadura da mata de Bujari, a qual por então tinha, não como hoje, meia légua, mas quase uma de comprido. O lugar supramencionado, já nesse tempo aprazível e risonho, era alguns anos antes um como prolongamento dessa mata, menos fechado — é certo - , mas não menos ermo e desabitado do que ela. De um cajueiro velho que se mostrava, na beira do caminho, ao que saia da espessura, adveio-lhe o nome, que hoje designa o lugar, e tem por se a autoridade da consagração do povo e do tempo.

Fizera-se subitamente a transformação daquela seção da floresta como nos contos antigos mudam as situações ao puro querer de um gênio ou de uma fada. Eis como a coisa se deu.

Um matuto passando por ali, de jornada para Tejucupapo, ficou encantado pela amenidade e beleza da situação. Do cajueiro para dentro estendia-se larga planície coberta de arvores meãs, sombrias e graciosas. Em arvores semelhantes há algum tanto das donzelas faceiras e namoradas com que se arreiam os salões e que são as graças mimosas do lar. Era o intermédio entre a espessura úmida e medonha, e a campina nua, fresca, monótona, que se seguia à planície adornada com a vegetação moderada e pitoresca. Emgim era, em escala ascendente, a transição natural para a mata virgem.

Na volta entendeu-se o matuto (que não era outro senão Francisco) com o senhor do engenho Bujari a quem as terras pertenciam, e que consentiu em que ele levantasse casa de morada e abrisse roçado.

Francisco cortou madeiras, aparelhou-as e arrumou a casa ao pé do cajueiro. Havia barro perto. As palmeiras mais formosas daquela zona estavam agitando suas longas folhas verde-negras na espessura vizinha. Enfim, em menos de uma semana, aqueles que, de passagem para o Recife, tinham visto a casa apenas envarada ou encaibrada, vinham encontra-la agora fechada e coberta; e os que, tendo passado por ali antes destes últimos, voltavam ao mesmo tempo que eles da capital, ficavam admirados e satisfeitos de verem uma habitação nova e risonha, onde quinze dias atrás tinham deixado a solidão e o mato fechado.

Esta novidade era obra das mãos abençoadas de Francisco, homem de trabalho e paciência.

Forte de constituição física; ajudado, senão animado, pela energia de seu espirito; afeito desde os mais verdes anos a ganhar pela força de vontade, que era o seu primeiro dote natural, a vida honesta, os dias suados mas tranqüilos, as noites sem remorso, o sono solto e largo, estava o matuto habilitado a levar efeito prodígios semelhantes, e outros ainda maiores e mais admiráveis.

Francisco era semi-branco, corpulento, espadaúdo e de boa estatura. Tinha no semblante a expressão da virilidade e da resignação do que luta quase incessantemente com a pobreza, e a vence a pouco, por ventura mais forte, mas nunca invencível.

Os matutos podem dividir-se em diferentes espécies, mas as mais comuns são as dos lavradores e almocreves. Os primeiros são os que dispõem de alguns meios, a saber, escravos, cavalos, terras, os quais sem darem para ter um engenho ou, ao menos, para move-lo, por se sós habilitam o que os possuem, a cultivar a cana nas terras do engenho alheio, posto que sujeito a dividir com o respectivo proprietário o açúcar apurado em cada safra. Os últimos são os que se alugam com sua pessoa e seu cavalo para a condução de cargas, por ajustado frete. Os lavradores são matutos limpos, que entram muitas vezes nos negócios íntimos do grande proprietário, merecem a estima deles, a pesam com seu conselho na decisão dos interesses comuns. Aos almocreves já não sucede o mesmo. Paga-lhes o senhor de engenho o salário, e eles retiram-se a seus casebres onde vão comer, com a mulher e com a ninhada de filhos que ordinariamente contam, o escasso pão que lhes deram o cavalo magro e o trabalho puxado e cansado.

E pois o cavalo é, para assim escrevermos, a primeira riqueza do almocreve, visto que por ele é que vem a sua sustentação e a de sua família; ter um cavalo é a primeira aspiração do pobre no mato. O almocreve não vota mais afeto à sua mulher do que a seu animal. Por ele dá muitas vezes a vida. Para o reaver, se lho furtam, vai ao fim do mundo e mata o ladrão.

Quando o almocreve, firmando-se pelos dois primeiros dedos do pé, sempre descalço, sobre a raiz da curva da perna do seu cavalo, ganha de um pulo a cangalha, se ele está descarregado, ou a anca se o animal tem carga, considera-se mais feliz e garboso do que um general de mil batalhas. A seus olhos aquela altura que o homem de pé atinge com a mão, lhe parece superior a todo poder humano. Dai não teme o agente da autoridade publica, nem o golpe ou o tiro mortal que lhe desfechem. Reputa-se inacessível a todos os males da terra. Entre suas pernas, querendo-o ele, o cavalo é uma locomotiva que se perde na imensidade dos caminhos ou dos descampados; é a faisca elétrica que corre terra a terra e desaparece, rompendo fechados e abatendo folhagens, na massa densa e sombria das selvas. O touro afasta-se, a onça recua, para o deixar passar livremente na vertiginosa carreira.

De ordinário, porém, a marcha do animal do almocreve não sai do rojão de todo dia. Tendo sempre presente na lembrança o muito que lhe custou ganhar o seu precioso bem, poupa-lhe as forças quanto pôde, e só em caso extraordinário exige dele a corrida afanosa, os saltos súbitos, o galope, o cansativo esquipar.

Do numero dos almocreves saem os cantadores e os repentistas, que, não obstante as privações ordinárias de sua vida quase errante, têm dias de consolação e regozijo.

Pelas festas do ano ajuntam-se na casa dos camaradas para cantar, dançar e beber.

A esses saráos campestres, conhecidos por sambas, não faltam as moças mais desembaraçadas das vizinhanças, - fadas da roça, que com suas chinelas de marroquim, seus vestidos de chita ou de cassa de florões, nos lábios, que estão a verter sangue e frescura, o riso vergonhoso e a promessa duvidosa, os cabelos enastrados de jasmins, manjericões e malmequeres, dão alma a pastoris episódios, a curiosos melodramas e muitas vezes a tragédias medonhas e fatais. Algumas delas mais desgarradas trazem os seios mal cobertos por vistosos cabeções de que pendem, não sem acertadas combinações e fantasias, bicos e rendas bem feitas e elegantes.

Tais festas têm o seu lado bom e providencial, - fazem esquecer as magoas passadas e as privações presentes. O primeiro e o mais proveitoso resultado delas é o seguinte: diminuem a estatística dos crimes graves e infamantes.

Pobres matutos!

Quantas vezes, ao ver-vos descalços, mal vestidos e mal passados, não senti apertar-se-me o coração com pena de vós?! Esta pena redobrava sempre que, passando pela frente dos vossos casebres, eu descobria ai por mobília um banco tosco, uma caixa grosseira, um pote de água suspenso entre os braços de uma forquilha enterrada no canto da salinha, e por leito de dormida para vós e vossos filhinhos uma esteira ou um giráo de varas!

Então eu compreendia a razão por que em nossos encontros nos caminhos éreis vós os primeiros que tiráveis o vosso chapéu e me salváveis com mostras de profunda humildade, sem saberdes sequer quem eu era. É que vós tínheis sempre presente no entendimento a consciência da vossa pobreza e consequentemente vossa fraqueza. Esta consciência, este aguilhão intimo, que nunca se embota, vos dava uma falsa idéia de superioridade de minha parte sobre vós. Pobres criaturas sois vós, ó matutos, mais dignos de compaixão e amparo do que do riso mofador de que vos fazem alvo os que na ignorância, na simplicidade e na miséria alheia acham assumpto para desenfado e divertimento próprio! Pobres sois vós dobradamente: porque recebestes de vossos pais por herança esta lamentável condição, e porque não podeis deixar em dote a vossos filhos condição diferente desta!

Francisco pertencia — é verdade — à classe dos almocreves; mas tinha seu cavalo, que não era qualquer, antes pelo contrario, era passeiro, carregava baixo e esquipava tão maciamente que quem nele ia, levava a ilusão de que era conduzido e embalado em uma rede.

Entremeava o oficio de almocreve com o de trabalhador de campo. Tinha mesmo plantações, posto que fracas.

Por felicidade sua casará com Marcelina, cabocla ainda nova das proximidades da Alhandra, trabalhadeira poupona e ajuntadeira, que com as escassas economias de suas industrias ajudava o marido a achar a felicidade no seio da pobreza, e guardava a idéia de libertar-se deste estado às custas do seu esforço.

Tempos depois de mudado de Cruangi, onde ao principio morou, para o seu sitio do Cajueiro, nome que ficou pertencendo não só ao sitio mas ao lugar de que Francisco foi o fundador, teve ele umas maleitas tremedeiras na força de rigoroso inverno. A moléstia pegou-o desprevenido, sem vintém nem dez réis, como diz o povo — ilustre saibo que versa a ciência da linguagem com autoridade e propriedade que lhe invejam os sábios de maior conta.

Mas durante ela nunca lhe faltaram remédios nem dietas: Marcelina supria as faltas e a casa com admirável prontidão.

— Donde lhe veio dinheiro para tudo isto? Perguntou uma vez Francisco à sua mulher.

— E os cestos que laço não haviam de dar dinheiro? Respondeu-lhe ela com graciosa e móvel expressão. Veja estas rodilhas de cipó que comprei ontem. Chegam para uma dúzia de cestos. Logo que estiverem prontos, não há de faltar quem os queira. Os outros, que pendurei da banda de fora, não levaram uma semana a ser vendidos.

— Ora, Marcelina, disse o marido com manifesto pesar. Para que se cansa tanto? Eu quero muito bem a meu cavalo, mas vai um cavalo hoje, virá outro amanhã. Por isso sou de parecer que, em lugar de estar a trabalhar tanto para a casa, veja antes se alguém quer comprar o pedrez. Ele está em boas carnes e pôde achar bom dinheiro.

— Quem? O seu cavalo pedrez? Vende-lo? Não, senhor, que você precisia dele para quando ficar bom. Você mesmo bem sabe que um cavalo não vem assim tão depressa camo está dizendo. Não estamos ainda em ponto de vender o nosso único bem para remir as nossas necessidades, Deus louvado.

— Deus mesmo havia sempre de ajudar-me a comprar outro.

— Mas que necessidade temos nós de nos desfazermos do animalzinho? Só se eu estivesse doida o venderia. Deus me livre.

Não tinha medidas o amor que Francisco votava a Marcelina, exclusiva possuidora do seu coração.

Os matutos não casam por mera conveniência. Suas uniões, ordinariamente precoces, não deixam por isso, em regra, de ter o principal fundamento na estima reciproca daqueles que as contraem. Grandes desgraças têm procedido das junções prematuras, mas no mato não constituem a regra geral. Ao reverso, tais junções são principio de moralidade no lar e no povoado matuto, porque, despertando cedo no homem os afetos conjugais e paternais, enfreiam e moderam, antes das erupções naturais dos primeiros anos, as paixões juvenis, que, quando de todo soltas, têm arrojos inconvenientes e efeitos desastrosos.

A paixão que Marcelina inspirará a Francisco, se tinha serenado, como sucede a cabo de certo tempo a todos os sentimentos, ainda aos mais veementes e exaltados, não arrefecera, antes se apurara com as mil retribuições do coração da cabocla, nunca brandamente estremecido ou amorosamente agitado senão pelo matuto.

Mas a infelicidade é fatalmente na essência humana. Ainda no meio das mais intemeratas serenidades, a idéia de poder ser de um momento para outro desgraçado punge o homem e o faz reputar as venturas por ilusões, cujo principal efeito é aguar-lhe os gostos no melhor deles e entristece-lo, quando não na face — espelho da alma, na consciência — centro de muitas suspeitas que nascem e morrem ignoradas do mundo, como os musgos interiores das cavernas inacessíveis.

Marcelina podia ter a esse tempo de vinte e dois a vinte e cinco anos. O tipo caboclo estava nela representado com opulência e genuinidade. Tez abaçanada, cabelos corridos e pretos, olhos rasos e grandes, cara cheia e redonda, estatura abaixo da média, formas corretas, mãos e pés pequenos — eis o conjunto harmônico e admirável em que a raça a mostrava revestida.

Quando Marcelina batia sua roupa no banco que ficava debaixo da meia-agua de palha levantada por Francisco para resguardar do sol o poço algumas braças da casa de morada, os matutos, que passavam pelo caminho e a não conheciam, cravavam nela olhares cúpidos, e alguns às vezes de lá lhe atiravam xêtas que ele fingia não ouvir, ou a que, se lhe parecia, dava em resposta um muxoxo ou um olhar de mofa e desprezo, pelos quais ficavam sabendo que a matuta não era do pano que eles supunham.

Muitos deles só retiravam os olhos de sobre ela quando tinham de dar a volta da estrada ou entrar na mata. A tazão era porque a saia, que Marcelina por essas ocasiões trazia a tiracolo pela enfiadura, lhe punha à mostra o principio da perna — monumento de estaturia que deixava adivinhar, mas não descobria, os vendados tesouros da perfeição de que a dotará, por especial capricho, a natureza, mãe tão pródiga para ela como mesquinha para tantas outras.