O Mysterio da Estrada de Cintra/VI

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NARRATIVA DO MASCARADO ALTO

 

I

 

Senhor redactor. — A pessoa que lhe escreve esta carta é a mesma que n’essa aventura da estrada de Cintra, popularisada pela carta do doutor ***, guiou a carruagem para Lisboa. Sou já conhecido, com a minha mascara de setim preto e a minha estatura, por todas as pessoas que tenham seguido com interesse a successiva apparição d’estes segredos singulares; eu era nas cartas do doutor *** designado pelo — mascarado mais alto. — Sou eu. Nunca suppuz que me veria na necessidade lamentavel de vir ao seu jornal trazer tambem a minha parte de revelações! Mas desde que vi as accusações improvisadas, sem analyse e sem logica, contra o doutor*** e contra mim, eu devia ao respeito da minha personalidade e á consideração que me merece a impeccavel probidade do doutor *** o vir affastar todas as contradicções hypotheticas e todas as improvisações gratuitas, e mostrar a verdade real, implacavel, indiscutivel. Detinha-me o mais forte escrupulo que póde dominar um caracter altivo: era necessario fallar n’uma mulher, e arrastar pelas paginas de um jornal, o que ha no ser feminino de mais verdadeiro e de mais profundo: a historia do coração. Hoje não me retêem essas considerações; tenho aqui, diante da pagina branca em que escrevo, sobre a minha mesa, este bilhete simples e nobre: — «Vi as accusações contra si e os seus amigos, e contra aquelle dedicado doutor ***. Escreva a verdade, imprima-a nos jornaes. Esconda o meu nome com uma inicial falsa apenas. Eu já não pertenço ao mundo, nem ás suas analyses, nem aos seus juizos. Se não fizer isto, denuncio-me á policia.»

Apesar porém d’estas grandes e sinceras palavras, eu resolvi nada revelar do crime, e contar apenas os factos anteriores que me tinham ligado com aquelle infeliz moço, tão fatalmente morto, motivado a sua presença em Lisboa, e determinado esse desenlace passado n’uma alcova solitaria, n’uma casa casual, ao desmaiado clarão de uma vela, ao pé de um ramo de flores murchas. Outros, os que o sabem, que contem os transes d’essa noite. Eu não. Não quero ouvir apregoar pelos vendedores de periodicos a historia das dores mais profundas d’um coração que estimo.

Senhor redactor, ha tres annos a casa onde eu mais vivia em Lisboa, aquella em que tinha sempre o meu talher, e a minha carta de whist, onde ria as minhas alegrias, e fazia confidencias das minhas tristezas, era a casa do conde de W. A condessa era minha prima.

Era uma mulher singularmente attrahente: não era linda, era peior: tinha a graça. Eram admiraveis os seus cabellos loiros e espessos; quando estavam entrelaçados e enrolados, com reflexos d’uma infinita doçura de ouro, parecia serem um ninho de luz. Um só cabello que se tomasse, que se estendesse, como a corda n’um instrumento, de encontro á claridade, reluzia com uma vida tão vibrante que parecia ter-se nas mãos uma fibra tirada ao coração do sol.

Os seus olhos eram d’um azul profundo como o da agua do Mediterraneo. Havia n’elles bastante imperio para poder domar o peito mais rebelde; e havia bastante meiguice e mysterio, para que a alma fizesse o extranho sonho de se affogar n’aquelles olhos.

Era alta bastante para ser altiva; não tão alta que não podesse encostar a cabeça sobre o coração que a amasse. Os seus movimentos tinham aquella ondulação musical, que se imagina do nadar das sereias.

De resto, simples e espirituosa.

Dizer-lhe que os meus olhos nunca se demoraram amorosamente na pureza infinita da sua testa, e na curva do seu seio seria d’um extranho orgulho. Tive sim, nos primeiros tempos em que fui àquella casa, um amor indefinido, uma phantasia delicada, um desejo transcendente por aquella doce creatura. Disse-lh’o até; ella riu, eu ri tambem; apertámo-nos gravemente a mão; jogámos n’essa noite o écarté; e ella terminou por fazer n’uma folha de papel a minha caricatura. Desde então fomos amigos; nunca mais reparei que ella fosse linda; achava-a um digno rapaz, e estava contente. Contava-lhe os meus amores, as minhas dividas, as minhas tristezas: ella sabia ouvir tudo, tinha sempre a palavra precisa e definitiva, o encanto consolador. Depois, tambem, ella contava-me os seus estados de espírito nervosos, ou melancolicos.

— Estou hoje com os meus blue decils, dizia ella.

Faziamos então chá, fallavamos baixo ao fogão. Ella não era feliz com o marido. Era um homem frio, trivial e libertino; o seu pensamento era estreito, a sua coragem preguiçosa, a sua dignidade desabotoada. Tinha amantes vulgares e grosseiras, fumava impiedosamente cachimbo, cuspia o seu tanto no chão, tinha pouca orthographia. Mas os seus defeitos não eram excepcionaes, nem destacavam. Lord Grenley dizia d’elle admirado:

— Que homem! não tem espírito, não tem mão de redea, não tem ar, não tem grammatica, não tem toilette, e todavia não é desagradavel.

Mas a natureza fina, aristocratica, da condessa, tinha occultas repugnancias, com a presença d’esta pessoa trivial e monotona. Elle no emtanto estimava-a, dava-lhe joias, trazia-lhe ás vezes um ramo de flores, mas tudo isso fazia indifferentemente, como guiava o seu dog-cart.

O conde tinha por mim um enthusiasmo singular: achava-me o mais sympathico, o mais intelligente, o mais bravo; pendurava-se orgulhosamente do meu braço, citava-me, contava as minhas audacias, imitava as minhas gravatas.

Em tempo a condessa começou a descorar e a emagrecer. Os medicos aconselhavam uma viagem a Nice, a Cadix, a Napoles, a uma cidade do Mediterraneo. Um amigo da casa que voltava da India, onde tinha sido secretario geral, fallou com grande admiração de Malta. O paquete da India havia soffrido um transtorno; elle tinha estado retido cinco dias em Malta, e adorava as suas ruas, a belleza da pequena enseada, o aspecto heroico dos palacios, e a animação petulante das maltezas de grandes olhos arabes...

— Queres tu ir a Malta? disse uma noite o conde a sua mulher.

— Vou a toda a parte; mas, não sei porquê, sympathiso com Malta. Vamos a Malta. Venha tambem, primo.

— Está claro que vem! gritou o conde.

E declarou que não fazia a viagem sem mim, que eu era a sua alegria, o seu parceiro de Xadrez e o inventor das suas gravatas, que me roubava n’um navio, e que me deixava seu herdeiro.

Cedi. A condessa estava encantada com a viagem; queria ter uma tempestade, queria ir depois a Alexandria, á Grecia, e beber agua do Nilo; haviamos de caçar os chacaes, ir a Meca disfarçados — mil planos incoherentes que nos faziam rir...

Partimos n’um vapor francez para Gibraltar, onde deviamos tomar o paquete da India.

Passámos no cabo de S. Vicente com um luar admiravel, que se erguia por traz do cabo, dava uma dureza saliente e negra aos asperos angulos d’aquella ponta de terra e vinha estender-se sobre a vasta agua como uma malha de rede luminosa. O mar ali é sempre mais agitado. A condessa estava na tolda, sentada n’uma cadeira de braços, de vime, a cabeça adormecida, os olhos descançados, as mãos immoveis, uma sensação tão feliz na attitude e no rosto.

— Sabe, disse-me ella de repente, baixo, com a voz lenta; — estou com uma sensação tão feliz de plenitude, de desejos satisfeitos...

E mais baixo:

— ... e de vago amor ... Sabe explicar-me isto?

Estavamos sós, no alto mar, sob um luar calmo, o conde dormia; a longa ondulação da agua arfava como um seio, sob a luz; sentia-se já o magnetico calor d’Africa. Eu tomei-lhe as mãos e disse-lhe n’um segredo:

— Sabe que está linda!

— Oh! primo! interrompeu ella rindo. Mas nós somos amigos velhos! Está doido! O que é fallar de noite, sós, ao luar, em amor! Ah! meu amigo, creia que o que senti, inexplicavel como é, não foi por si, graças a Deus, foi por alguem que eu não conheço, que vou encontrar talvez, que não vi ainda. Sabe? Foi um pressentimento... Ahi está! Como o luar é traiçoeiro, meu Deus! E eu que estou velha!

Eu ia responder, rir. Uma luz brilhou a distancia na bruma nocturna: o capitão approximou-se:

— Conhecem aquella luz?

— Nunca viajei n’este mar, capitão — respondi.

— São portuguezes, não?... Aquella luz é o pharol de Ceuta.

Era uma luz melancolica, e humilde. Nenhum de nós se importava com Ceuta. D’ahi a momentos descemos á camara. Eu estava surprehendido, nunca tinha ouvido á condessa palavras que caracterisassem tanto o estado do seu coração. Achava-se n’aquelle periodo em que um amor pode apoderar-se para sempre d’uma existencia.

Que succederia se lhe apparecesse um homem bello, nobre, forte, que lhe dissesse de joelhos, uma noite, sob o luar como ha pouco, as coisas infinitas da paixão?

Na manhã seguinte avistámos o môrro de Gibraltar. Desembarcámos. N’uma praça, á entrada, um regimento inglez, de uniformes vermelhos, manobrava ao som da canção do general Boum.

— Detesto os inglezes, disse a condessa.

— O quê?! gritou o conde com uma voz indignada. Os inglezes! Detestas os inglezes?

E voltando-se para mim, com uma attitude profundamente pasmada e abatida:

— Detesta os inglezes, menino!

II

 

Sr. Redactor. — Em Gibraltar fomos para Club House-Hotel. Os quartos abriam sobre a muralha do mar; viamos defronte, afogada n’uma luz admiravel, uma linha de montanhas, e mais longe, do lado do estreito, nas brumas esbatidas, a terra de Africa.

Fomos passeiar logo n’um d’aquelles carros de Gibraltar que são dois bancos parallelos, costas com costas, assentes sobre duas rodas enormes, puchados por um cavallo inglez robusto, rapido, e tendo já adquirido nas convivencias hispanholas um espirito teimoso.

O bello passeio de Gibraltar é uma estrada, que, a meia vertente por cima da cidade, contorna a montanha, e é orlada de cottages, de jardins, de pomares, cheios já das extranhas e poderosas vegetações do Oriente, aloes, nopaes, cactus e palmeiras; e vê-se sempre, atravez da folhagem, lá no fundo, a azul immobilidade luminosa do Mediterraneo.

A condessa estava encantada: aquella luz ampla e magnifica, a agua pesada pelo sol, o silencio religioso do espaço azul, as brumas vaporosas e róxas das montanhas, a vigorosa força das vegetações, tudo dava áquella pobre alma contraida uma expressão inesperada. Ria, queria correr, tinha verve, e uma luz bailava-lhe nos olhos.

Fomos sentar-nos no jardim de Gibraltar. Os senhores inglezes artilharam-no talvez um pouco de mais. Não ha fontes, mas ha estatuas de generaes; as pyramides de balas estão encobertas pelas moitas de rosas, e a estupida impassibilidade dos canhões assenta sob arbustos de magnolias. Mas que serenidade! Que silencio abstracto e divino! Que ar immortal! Parece que as cousas, os seres vegetaes, a terra, a luz, tudo está parado, absorto n’uma contemplação, suspenso, escutando, respirando sem rumor! Em baixo está o Mediterraneo, liso como um setim, delicado, coberto de luz. Mais longe vaporisadas, docemente esbatidas nas nevoas azues, as duras fórmas do monte Atlas. Nada se move: apenas ás vezes uma pomba passa, voando com uma serenidade ineffavel. Um momento veiu-nos de baixo, onde passava um regimento de Highlanders, o som das cornemuses que tocavam as arias melancolicas das montanhas da Escocia. E os sons chegavam-nos doces, ethereos, como se fossem habitantes sonoros do ar.

A condessa tinha ficado sentada, e immovel, calada, penetrada d’aquella admiravel serenidade das cousas, da beleza da luz, do somno da agua, dos vivos aromas.

— Não é verdade, disse, que dá vontade de morrer aqui, brandamente, só...

— Só? perguntei eu.

Ella sorriu, com os olhos perdidos na bella decoração do horisonte luminoso.

— Só... disse ella, não!

— Ah! minha rica prima, cuidado! cuidado! observei eu. Começa-se scismando assim vagamente, vem um pequeno sonho bem innocente, acampa no nosso coração, começa, a caval-o, e depois, querida prima, e depois...

— E depois vae-se jantar, disse o conde que tinha chegado ao pé de nós, radiante por ter apertado a mão de um coronel inglez, e colhido um cacto vermelho.

Descemos ao hotel. Á noite passeavamos no Martillo. Era a hora de recolher; uma fanfarra ingleza tocava uma melopéa melancolica. Ouviu-se no mar um tiro de peça.

— Chegou o paquete da India, disse o nosso guia. E no alto do morro um canhão respondeu com um echo cheio e poderoso.

— Desembarcam, no dia em que chegam, os passageiros? perguntei.

— Os militares quasi sempre, senhor. Vão desembarcar lá em baixo, com licença do governador.

Quando pelas 10 horas entrámos, depois de termos passeiado ao luar nas esplanadas, sentimos na sala de Club-House, ruido, vozes alegres, estalar de rolhas, toda a feição de uma ceia de homens. A condessa subiu para o seu quarto. Eu entrei na sala, com o conde. Officiaes inglezes que vinham de Southampton, e que iam para a estação de Malta, tinham desembarcado, e ceavam.

Nós tinhamo-nos sentado, bebendo cerveja, quando tive occasião de approximar d’um dos officiaes inglezes que estava proximo de mim o frasco de mostarda. O frasco caiu, sujou-me, elle sorriu com polidez, eu ri alegremente, conversámos, e ao fim da noite passeiavamos ambos pelo braço, na esplanada que ficava defonte das janellas do hotel e que está sobre o mar. Havia um amplo e calado luar que espiritualisava a decoração admiravel das montanhas, a vasta agua immovel.

Eu tinha sympathisado com aquelle official, já pelo seu perfil altivo e delicado, já pela feição original do seu pensamento, já por uma gravidade triste que havia na sua attitude. Era moço, capitão de artilheria, e batera-se na India. Era loiro e branco; mas o sol do Indostão tinha amadurecido aquella carnação fresca e clara, aprofundado a luz dos olhos, e dado aos cabellos uma côr fulva e ardente.

Passeiavamos, conversando na esplanada, quando, repentinamente, abriu-se uma janella, e uma mulher com um penteador branco, apoiou-se levemente na varanda, e ficou olhando o horisonte luminoso, a melancolia da agua. Era a condessa.

O luar envolvia-a, empallidecia-lhe o rosto, adelgaçava-lhe o corpo, dava á sua forma toda a espiritualisação de uma figura de antiga legenda: o seu penteador caia largamente ao redor d’ella, em grandes pregas quebradas.

— Que linda! disse o official parando, com um olhar admirado, e profundo. Quem será?

— Somos um pouco primos, disse eu rindo. É casada. É a condessa de W. Parte para Malta ámanhã no paquete. A bordo levar-lhe-hei o meu amigo para a entreter contando-lhe historias da India. Adora o romanesco aquella pobre condessa! Em Portugal, nem nos romances o ha. Caçou o tigre, capitão?

— Um pouco. Falla o inglez sua prima?

— Como uma portugueza, mal; mas ouve com os olhos, e adivinha sempre.

Separámo-nos.

— Arranjei-lhe um romance, um lindo romance, prima — disse eu entrando na sala, onde o conde escrevia cartas, cachimbando; — um romance onde se caçam tigres com rajahs, onde ha bayaderas, florestas de palmeiras, guerras inglezas, e elephantes...

— Ah! como se chama?

— Chama-se Captain Rytmel, official de artilheria, 28 annos, em viagem para Malta, bigode loiro, um pouco da India nos olhos, muito da Inglaterra na excentricidade, um perfeito gentleman.

— Um bebedor de cerveja! disse ella, desfolhando a flôr de cactus.

— Um bebedor de cerveja! gritou o conde erguendo a cabeça com uma indignação comica. Minha querida, diante de mim, pelo menos, não digas isso se não queres fazer-me cabellos brancos! Estimo os inglezes e respeito a cerveja. Um bebedor de cerveja! Um moço d’aquella perfeição!... murmurava elle, fazendo ranger a penna.

Ao outro dia subiamos para bordo do paquete da India, o Ceylão. Eram 7 horas da manhã. O morro de Gibraltar mal acordada tinha ainda o seu barrete de dormir feito de nevoeiro. Havia já viajantes e officiaes sobre a tolda. O chão estava humido, havia uma confusão violenta de bagagens, de cestos de fructa, de gaiolas de aves; a escada de serviço via-se cheia de vendedores de Gibraltar. A condessa recolheu-se á cabine, para dormir um pouco. Ás 9 horas quasi todos os passageiros que tinham entrado de Gibraltar e os que vinham de Southampton estavam em cima; o vapor fumegava, os escaleres affastavam-se, o nevoeiro estava desfeito, o sol dava uma côr rosada ás casa brancas de Algesiras e de S. Roque, e ouvia-se em terra o rufar dos tambores.

A condessa, sentada n’uma cadeira indiana, olhava para as pequenas povoações hispanholas que assentam na bahia.

O official inglez, Captain Rytmel, conversava a distancia com o conde, que adorava já a sua figura captivante e altiva, as suas aventuras da India, e a excentrica fórma do seu chapeu, que elle trazia com uma graça distincta e audaz. O capitão tinha na mão um album e um lapis.

— Captain, disse-lhe eu tomando-lhe o braço, vou leval-o a minha prima, a senhora condessa. Esconda os seus desenhos, ella é implacavel e faz caricaturas.

A condessa estendeu ao inglez uma pequena mão, magra, nervosa, macia, com umas unhas polidas como o marfim de Dieppe.

— Meu primo disse-me, Captain Rytmel, que tinha mil historias da India para me contar. Já lhe digo que lhe não perdôo nem um tigre, nem uma paisagem. Quero tudo! adoro a India, a dos Indios, já se vê, não a dos senhores inglezes. Já esteve em Malta? é bonita?

— Malta, condessa, é um pouco de Italia e um pouco de Oriente. Surprehende por isso. Tem um encanto extranho, singular. De resto é um rochedo.

— Demora-se em Malta? perguntou a condessa.

— Uma semana.

A condessa estava torcendo a sua luva; ergueu os olhos, pousou-os no official, tossiu brandamente, e com um movimento rapido:

— Ah! vae deixar-me ver o seu album.

— Mas, condessa, está branco, quasi branco; tem apenas desenhos lineares, apontamentos topographicos.

— Não creio; deve ter paisagens da India, ha de haver ahi um tigre, pelo menos, a não ser que haja uma bayadera!

E com um gesto de graça victoriosa, tomou o album da mão do official.

O capitão fez-se todo vermelho. Ella folheou o livro e de repente deu um pequeno grito, córou, e ficou com o album aberto, os olhos humidos, risonhos, os labios entreabertos. Olhei: na pagina estava desenhada uma mulher com um penteador branco, debruçada a uma janella, tendo defronte um horisonte com montanhas e o mar. Era o retrato perfeito da condessa. Elle tinha-a visto assim na vespera, ao luar, á janella do Club-House.

O conde tinha-se approximado.

— Como! como! És tu, Luiza! Mas que talento! É um homem adoravel, capitão. Que desenho! Que verdade!

— Oh! não! não! disse o capitão. Hontem estava no meu quarto, em Club-House; instinctivamente tinha o album aberto, e o lapis, sem eu querer, sem intenção minha, espontaneamente, fez este retrato. É um lapis que deve ser castigado.

— O quê! gritou o conde, é um lapis encantado. Capitão, está decidido que vae jantar commigo, logo que cheguemos a Malta. Já o não largo, meu caro! Ha de ser o nosso cicerone em Malta. Mas que talento! Que verdade!

E fallando em portuguez para a condessa:

— E um bebedor de cerveja, hein?

N’esse momento uma sineta tocou: era o almoço.

III

 

Talvez extranhe, senhor redactor, a escrupulosa minuciosidade com que eu conto estes factos, conservando-lhes a paizagem, o dialogo, o gesto, toda a vida palpavel do momento. Não se admire. Nem tenho uma memoria excepcional, nem faço uma invenção phantasista. Tenho por costume todas as noites, quando fico só, apontar n’um livro branco os factos, as idéas, as imaginações, os dialogos, tudo aquillo que no dia o meu cerebro cria ou a minha vida encontra. São essas notas que eu copio aqui.

Á mesa do almoço estavam já sentados os passageiros. O nosso logar era ao pé do capitão. O commandante do Ceilão era um homem magro, esguio, com uma pelle muito vermelha, d’onde sahiam com a hostil aspereza com que as urzes saem da terra, duas duras suissas brancas.

Ao seu lado sentavam-se duas excentricas personalidades de bordo: o Purser, que é o commissario que vela pela installação dos viajantes e pelos regulamentos de serviço, e mr. Colney, empregado do correio de Londres. O Purser era tão gordo que fazia lembrar um grupo de homens robustos mettidos e apertados n’uma farda de marinha mercante. Mr. Colney era alto e secco, com um immenso nariz agudo e enristado, em cuja ponta repousava pedagogicamente o aro de ouro dos seus oculos burocraticos. O Purser tinha uma fraqueza que o dominava — era o desejo de fallar bem brazileiro. Tinha viajado no Brazil, admirava o Maranhão, o Pará, os grandes recursos do imperio. A todo o momento se approximava de mim para me perguntar certas subtilezas de pronuncia brazileira. Mister Colney, esse, era gago e tinha a mania de cantar cançonetas comicas. Os outros passageiros eram officiaes, que iam tomar serviço na India, algumas misses alegres e loiras, um clergiman com doze filhos, e duas velhas philantropicas, pertencentes á Sociedade educadora dos pequenos patagonios.

Logo que Captain Rytmel entrou na sala, seguindo a condessa, um homem que se debatia gulosamente no prato com a anatomia de uma ave fria, encarou-o, ergueu-se, e com uma alegria ruidosa gritou:

Viva Dios! É Captain Rytmel! Eh! querido! mil abraços! Está gordo, hombre, está mais gordo!

Envolvia-o nos braços robustos, olhava-o ternamente com dois grandes olhos negros. Captain Rytmel depois do primeiro instante de surpreza, em que se fez pallido, apressou-se a ir apertar a mão a uma senhora, extremamente bella, que estava sentada ao pé d’aquelle homem guloso e expansivo, o qual era um hispanhol, negociante de sedas, e se chamava D. Nicazio Puebla.

A senhora, que se chamava Carmen, era cubana, e segunda mulher de D. Nicazio; era alta, de fórmas magnificas, com uma carnação que fazia lembrar um marmore pallido, uns olhos pretos que pareciam setim negro coberto de agua, e cabellos annelados, abundantes, d’esses a que Beaudelaire chamava tenebrosos. Vestia de seda preta e com mantilha.

— Estavam em Gibraltar? perguntou Captain Rytmel.

— Em Cadix, meu caro, disse D. Nicazio. Viemos hontem. Vamos a Malta. Volta para a India? Ah! Captain Rytmel, que saudade de Calcuttá! Lembra-se hein?

— Captain Rytmel — disse sorrindo friamente Carmen — esquece depressa, e bem!

No emtanto nós olhámos curiosamente para Carmen Puebla. O conde achava-a sublime. Eu admirado tambem, disse á condessa:

— Que formosa creatura!

— Sim! Tem ares d’uma estatua malcreada, respondeu ella seccamente.

Olhei para a condessa, ri:

— Oh prima! É uma mulher adoravel, que devia ser em miniatura para se poder trazer nos berloques do relogio; uma mulher que de certo vou roubar, aqui no alto mar, n’um escaler; uma mulher cujos movimentos parecem musica condensada! Oh prima! confesse que é perfeita... Menino! accrescentei para o conde, passa-me depressa a soda, preciso calmantes...

No emtanto Captain Rytmel, sentado junto de Carmen, fallava da India, de velhos amigos de Calcuttá, de recordações de viagens. A condessa não comia, parecia nervosa.

— Vou para cima, disse ella de repente, mandem-me chá.

Quando a viu subir, Rytmel ergueu-se, perguntando ao conde:

— Está incommodada a condessa?

— Levemente. Precisa de ar. Vá-lhe fazer um pouco de companhia, falle-lhe da India. Eu, não posso deixar este carril...

Eu tinha interesse em ficar á mesa defronte da luminosa Carmen, concentrei-me sobre o meu prato. O capitão tinha tomado logo o seu excentrico chapeu indio, orlado de veus brancos.

Ao vel-o seguir a condessa, a hispanhola empallideceu. Momentos depois ergueu-se tambem, tomou uma larga capa de seda á maneira arabe de um bournous, enrolou-a em roda do corpo, e subiu para a tolda, apoiada n’uma alta bengala de castão de marfim.

O almoço tinha acabado. Fallava-se da India, do theatro de Malta, de lord Derby, dos Fenians; eu enfastiava-me, fui apertar a mão ao commandante, e fumar para cima um bom charuto, sentindo a brisa fresca do mar.

A condessa estava sentada n’um banco á pôpa; ao pé d’ella o capitão Rytmel, n’um pliant de vime.

Carmen passeava rapidamente ao comprido da tolda; ás vezes, firmando-se nas cordagens, subia o degrau que contorna interiormente a amurada, e ficava olhando para o mar, emquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam de vento, e lhe davam uma apparencia ondeada e balançada, que a assimilhava áquellas divindades que os esculptores antigos enroscavam no flanco dos galeões!

IV

 

D. Nicazio Puebla, que o Purser me apresentara já, viera fumar para o pé de mim.

— Esteve na India, Caballero? perguntei-lhe eu.

— Dois annos, em Calcuttá. Foi lá que conheci o capitão Rytmel. Conviviamos muito. Jantavamos sempre juntos. Fui á caça do tigre com elle. Cacei o tigre. Deve ir a Calcuttá! Que palacios! Que fabricas!

— O capitão é um valente official.

— É alegre. O que nós riamos! E bravo, então! Se lhe parece! Salvou-me a vida.

— N’alguma caçada.

— Eu lhe conto.

Tinhamo-nos approximado da pôpa, fallando. N’este momento vi eu a hispanhola encaminhar-se para o logar em que a condessa fallava com Rytmel, e com uma resolução atrevida, a voz altiva, dizer-lhe:

— Capitão, tem a bondade, dá-me uma palavra?

A condessa fez-se muito pallida. O capitão teve um movimento colerico, mas ergueu-se e seguiu a hispanhola.

Eu approximei-me da condessa.

— Quem é esta mulher? Que quer?... disse-me ella toda tremula.

Eu soceguei-a e dirigi-me a D. Nicazio.

— Viu aquelle movimento de sua mulher?

— Vi.

— É inconveniente: e o cavalheiro responde de certo pelas phantasias ou pelos habitos d’aquella senhora...

— Eu! gritou o hispanhol, eu não respondo por coisa alguma. O senhor que quer? É um monstro essa mulher! Livre-me d’ella, se póde! Olhe: quel-a o senhor? Guarde-a. Está sempre a fazer d’estas scenas! E não lhe posso fazer uma observação! É uma furia, usa punhal!

— Esta mulher, fui eu dizer á condessa, é uma creatura sem consideração e parece que sem dignidade. Não a olhe, não a escute, não a perceba, não a presinta. Se houver outra inconveniencia eu dirijo-me ao commandante, como se ella fosse um grumete insolente. É pena... é terrivelmente linda!

A hispanhola no entanto, junto da amurada, fallava violentamente ao capitão Rytmel que a escutava frio, impassivel, com os olhos no chão.

O conde subiu n’este momento. Outras senhoras vieram, os grupos formavam-se, começavam as leituras, as obras de costura, o jogo do boi...

Eu approximei-me de D. Nicazio e disse-lhe sem lhe dar mais importancia:

— Então esta sua senhora dá-lhe desgostos?

— É sempre aquillo com o capitão. Foi desde a tal caçada ao tigre... Quer que lhe conte?...

— Diga lá.

Sentei-me na tenda onde se fuma, accendi um charuto, cruzei as pernas, recostei a cabeça e, emballado pelo lento mover do navio, cerrei os olhos.

— Um dia em Calcuttá, começou o hispanhol, dia de grande calor...

Mas não, senhor redactor. Eu quero que esta historia a saiba do proprio capitão. Ahi tem a tradução fiel de uma das mais vivas paginas de um dos seus albuns de impressões de viagem.


* * *

...«Sabes, escrevia elle a um amigo, que o sonho de todo o negociante que chega á India é caçar o tigre.

D. Nicazio Puebla quiz caçar o tigre. Sua mulher Carmen decidiu acompanhal-o. Essa, sim, que tinha a coragem, a violencia, a necessidade de perigos de um velho explorador Hundodo! Eu estimava aquella familia. Combinámos uma caçada com alguns officiaes meus amigos, então em Calcuttá. A duas leguas da cidade sabiam os exploradores que fora visto um tigre. Tinha mesmo saltado, havia duas noites, uma palliçada de bambus, na propriedade d’um doutor inglez, antigo colono, e tinha devorado a filha de um malaio. Dizia-se que era um tigre enorme, e formosamente listrado.

Partimos de madrugada, a cavallo. Um elephante, com um palanquim, levava Carmen. Um boi conduzia agua em bilhas encanastradas de vime. Iam alguns officiaes de artilheria, cipaios, tres malaios e um velho caçador experimentado, antigo brahmane, degenerado e devasso, que vivia em Calcuttá das esmolas dos nababos e dos officiaes inglezes. Era destemido, meio louco, cantava extranhas melodias do Indostão, adorava o Ganges, e dormia sempre em cima de uma palmeira.

Nós levavamos espingardas excelentes, punhaes recurvados, espadas de dois gumes, curtas, á maneira dos gladios romanos, e o terrivel tridente de ferro que é a melhor arma para a lucta com o tigre. Ia uma matilha de cães, forte e dextra, da confiança dos malaios.

Ás 11 horas do dia penetravamos em plena floresta. O tigre devia ser encontrado n’uma clareira conhecida. Iamos calados, vergando ao peso implacavel do sol, entre palmeiras, tamarindos, espessuras profundas, n’um ar suffocado, cheio d’aromas acres. Toda aquella natureza estava entorpecida pela calma: os passaros, silenciosos, tinham um vôo pesado; as suas pennas coloridas, vermelhas, negras, roxas, doiradas, resplandeciam, sobre o verde negro da folhagem. O ceu mostrava uma côr de cobre ardente; os cavallos marchavam com o pescoço pendente; os cães arquejavam; o boi que levava a agua mugia lamentavelmente; só o elephante caminhava na sua pompa impassivel, em quanto os malaios para esquecer a fadiga, diziam, com a voz monotona e lenta, cantigas de Bombaim.

Estavamos ainda distantes do tigre: nem os cavallos tinham rinchado, nem o elephante soltara o seu grito melancolico e doce. Todavia achavamo-nos proximo da clareira.

Eu cheguei ao palanquim de Carmen e bati nas cortinas. Carmen entreabriu-as: estava pallida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Anciava pela lucta, pelos tiros, pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de cognac e agua...

Eu desde que a conhecia tinha muitas vezes olhado Carmen com insistencia, e tinha visto sempre o seu olhar negro e acariciador envolver-me respondendo ao meu.

Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que n’um terrasso em Calcuttá, olhavamos as poderosas constellações da India, o ceu pulverisado de luz, ella tinha um momento esquecido as suas mãos entre as minhas. A sua belleza perturbava-me como um vinho muito forte. E alli, n’aquella floresta, sob um céo affogueado, entre os aromas das magnolias, Carmen apparecia-me com uma belleza prestigiosa, cheia de tentações, a que se não foge.

— Ah Carmen, disse eu, quem sabe os que voltarão a Calcuttá!

— Está rindo, capitão...

— Na caçada do tigre póde-se pensar n’isto: o tigre é astuto; tem o instincto do inimigo mais bravo e do que é mais lamentado.

— Ninguem hoje seria mais lamentado que o capitão.

— Só hoje?

— Sempre, e bem sabe por quê.

De repente o meu cavallo estacou.

— O tigre! o tigre! gritaram os malaios.

Os cavallos da frente recuaram; os cipaios entraram nas fileiras da caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturaes, e o elephante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa solemne e triste, e um vento muito quente passou nas folhagens.

Estavamos defronte de uma clareira coberta de um sol faiscante. Do outro lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia. Voltei-me para D. Nicazio: vi-o pallido e inquieto.

— D. Nicazio! dê o primeiro tiro, o signal d’alarma!

D. Nicazio picou rapidamente o cavallo para mim, murmurou com uma voz suffocada:

— Quero subir para o elephante. Carmen não deve estar só; póde haver perigo...

Fallei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde se sobe ao dorso dos elephantes. O Carnak dormia encruzado no vasto pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremeçou-se para dentro do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas, espreitava com o olho faiscante e medroso.

Mas estão foi Carmen que não quiz ficar dentro do palanquim, pediu, gritou, queria montar a cavallo, sentir o cheiro á fera.

— Tirem-me d’aqui, tirem-me d’aqui! Não fiz esta jornada toda para ficar dentro d’uma gaiola...

Não havia sella em que mulher montasse, nem cavallo bastante fiel; não se podia consentir que Carmen descesse. Mas eu tive uma idéa extranha, perigosa, tentadora, imprevista: era pôl-a á garupa do meu cavallo. Disse-lh’o.

Ella teve um gesto de alegria, quasi se deixou escorregar, agarrando-se ás cordas do palanquim, pelo ventre do elephante; correu, pôz o pé no meu estribo, enlaçou-me a cintura, e com um lindo pulo, sentou-se á garupa. Os officiaes exclamavam que era uma imprudencia. Ella queria, instava e apertava-me contra a curva do seu peito, rindo, jurando que nem as garras do tigre a arrancariam d’alli...

Os malaios preparavam os tridentes, dispunham a matilha. Eu, como levava Carmen á garupa, tinha-me collocado atraz do grupo, cerrado, com os pés firmes nos estribos, attento, os olhos fitos na espessura dos tamarindos.

Mas nem se ouviam rugidos, nem um estremecimento de folhagem.

Carmen apertava-me exaltada.

— Vá! Vá! pediu-me ella baixo. O tigre, o tigre! Dê o signal.

Ergui um rewolver e disparei. O echo foi cheio e poderoso. E logo ouviu-se um rugido surdo, lugubre, rouco, que era a resposta do tigre. Estava perto, entre os primeiros tamarindos. A matilha rompeu a ladrar...

— Que ninguem se alargue! disse o velho brahmane, que tinha trepado a uma palmeira, e de lá olhava, farejava, ordenava!

Todos conservavam a espada ou tridente inclinado em riste, esperando o salto do tigre. Eu déra uma cuchilla a Carmen, tinha na mão da redea um forte rewolver e na outra um punhal curvo...

De repente os arbustos estremeceram, as altas hervas curvaram-se, sentiu-se um bafo quente, um cheiro de sangue, e o tigre veiu cair, com um rugido, diante dos caçadores, no meio da clareira, estacado, e immovel.

Era muito comprido, de pernas curtas e espessas, a cabeça ossea, os olhos fulvos, ferozes, n’um movimento perpetuo e convulsivo; e a lingua vermelha como sangue coalhado, pendia-lhe fóra da bocca.

Um momento o tigre arrastou-se, batendo os ilhaes com a cauda. Depois com um gemido profundo, saltou. Mas os cães, arremessando-se, tinham-no prendido no ar, pelas orelhas, pela pelle espessa do pescoço, pelas pernas, vestindo-o de mordeduras, rasgando-o, rugindo, cobrindo-o todo. Alguns ficaram logo despedaçados.

E no instante em que a fera tendo cuspido todos os cães, ficou só, magnifico, e de cabeça alta o brahmane fez um signal. Duas balas partiram. O tigre rugiu, rolou-se freneticamente no chão. Estava ferido. Immediatamente ergueu-se, arremessou-se sobre os homens. Todos tinham o tridente e os punhaes enristados, o ventre da fera veio rasgar-se nas laminas agudas. Prendera porém um malaio entre as garras, e rasgava-lhe o peito. Á uma todos enterravam as facas no corpo do animal, e elle, succumbindo sob o peso, sob as feridas, varado por uma bala, debatia-se ainda ferozmente, esmigalhando na agonia os membros do pobre malaio.

— Nada de bala! nada de bala! gritava o brahmane.

Eu estava fascinado. Carmen convulsivamente apertada a mim, com os olhos chammejantes, vibrando por todo o corpo, dava gritos surdos d’excitação. O tigre ficara estendido, escorrendo sangue. Eu devorava-o com a vista, seguia-lhe a mais pequena contracção dos musculos. Vi-o arquear-se de repente, e com um pulo vertiginoso arremessar-se sobre mim e sobre Carmen. Com uma determinação subita, disparei um tiro do meu rewolver no ouvido do cavallo que montavamos. O animal caiu sobre os joelhos, nós rolámos no chão. O tigre levava um pulo elevado, roçou pelas nossas cabeças, foi cair a distancia, revolvendo-se na terra. Ergui-me, arrojei-me a elle, cravando-lhe o punhal entre as patas dianteiras com um movimento rapido, que lhe foi ao coração. O tigre ficou morto. Abaixei-me, e com uma faca malaia em fórma de serra cortei-lhe uma pata, e apresentei-a a Carmen.

— Hurrah! gritaram todos, e o echo d’este grito estendeu-se pela floresta.

Carmen tinha-se approximado do tigre morto, acariciava-lhe a pelle aveludada, tocava-lhe com as pontas dos dedos no sangue que escorria.

— Hurrah! hurrah! continuavam gritando os caçadores.

Carmen, então, arremessando-se aos meus braços, beijou-me na testa com enthusiasmo, dizendo alto:

— Salvou-me a vida! Devo-lhe a vida!...

E mais baixo, murmurou-me ao ouvido:

— Amo-te.

A tarde cahia. Sentiamos os braços fracos, e grande sede. Começámos a dirigir-nos para Calcuttá. Descançámos n’uma plantação de indigo. E ao começar da noite, com archotes accesos e cantando, partimos alegremente para a cidade, pela floresta, n’um caminho conhecido e seguro. As luzes davam á ramagem attitudes phantasticas; passaros acordando esvoaçavam; e sentia-se o fugir dos chacaes. Era como a volta d’uma caçada barbara, das velhas legendas da India. Carmen tinha aberto as cortinas do palanquim. Eu montava, ao lado d’ella, o cavallo do malaio morto. Ella inclinou-se para mim e com a voz abafada:

— Juro-te, disse-me, que te amo, como só no nosso paiz se ama. Juro-te que em todas as circumstancias, sempre darei a minha vida pela tua, quererei os teus perigos, serei a tua creatura, e só te peço uma cousa.

— O quê?

— É que de vez em quando, quando não tiveres melhor que fazer, te lembres um pouco de mim.

O momento, o sitio, os perfumes acres, as phantasticas sombras da floresta, a luz dos archotes, a belleza maravilhosa e fatal de Carmen, os tiros, os sons das trompas, os relinchos dos cavallos, os gritos dos chacaes, tudo me tinha perturbado, exaltado, e esquecendo o senso e a logica, disse-lhe:

— Juro-te que te amo, que sempre te serei leal, e que no dia em que vires que te esqueço, quero que me mates!

Ella segurou a mão que lhe estendi, e com uma caricia humilde, com um gesto de fera que rasteja, curvou-se toda na grade do palanquim, e beijou-me os dedos.

A noite, no entanto, enchia-se de enormes estrellas scintillantes...»

V

 

Ao terceiro dia de viagem do Ceylão, um dia antes de avistarmos Malta, um official inglez, ao almoço, lembrou que n’aquelle dia fazia 28 annos o principe de Galles. Quasi todos os officiaes que estavam a bordo conheciam o principe, estimavam o seu caracter, o seu temperamento eminentemente byroneano. Resolveram, com accedencia do commandante, celebrar a data e valsar á noite, na tolda, á luz d’um punch collossal.

O jantar foi já ruidoso; o Champagne resplandeceu como opala liquida nas taças facetadas; a pesada pale ale espumou; o Xerez ferveu na soda water. Carmen, pela sua belleza e pela extranha verve da sua agitação, foi a alegria d’aquelle pesado e longo banquete de annos reaes.

Houve toasts, á rainha e aos principes inglezes, ao lord-almirante, á companhia P. and O.; e um inglez rico fez um speech aos estrangeiros: The count and countess of W.

— Peço um toast, disse Carmen, de repente.

Os copos tiniram, estalaram as rolhas.

— Á caçada do tigre! aos palanquins de cortinas brancas! aos caçadores que salvam as damas que têem á garupa!

A maior parte não comprehendeu, alguns riram, mas como o toast era excentrico, foi escoltado d’applausos.

Oh! shocking! disse ao meu lado uma velha irlandesa, que tinha pelo amplo ventre do Purser uma fascinação concentrada.

Not at all, Madam! disse eu, é apenas o sangue meridional. Aquella viveza, aquelles olhos luzentes, é o sangue meridional: se ella agora quebrasse todas as garrafas de encontro ao tecto da sala, era o sangue meridional...

A ingleza escutava, como quem se instrue.

— ... Se ella tomasse de repente a roda do leme e arremessasse o paquete contra um rochedo, era o sangue meridional; se ella ousasse arrancar com mãos impias os seus oculos, milady...

— Ouh! gritou ella.

— ... era ainda o sangue meridional!

Oh! very shocking the sangue meridional.

Os officiaes inglezes, esses, estavam enthusiasmados com Carmen.

No emtanto, as senhoras tinham-se erguido; e em volta do conde juntára-se um grupo de bebedores convictos e serios. Serviu-se o cognac e os alcools. Carmen ficára entre os homens, bebendo licôr, rindo e fumando cigarrettes.

A condessa subira pelo braço de Captain Rytmel.

D. Nicazio, esse, comia impassivelmente o seu queijo adornado de mostarda, de salada, de vinagre, de sal, de rabanos e d’um leve pó apimentado de Ceylão.

Não sei como, fallou-se de mulheres, e de caracteres femininos.

— Eu, disse logo Carmen, comprehendo a gravidade devota das misses: como senhoras inglezas é sua educação; nasceram para serem hirtas, loiras, frias e leitoras da Revista d’Edimburgo. Estão na verdade do seu caracter: um pouco menos vivas seriam de biscuit, um pouco mais seriam shockings. Mas o que eu detesto, são as canduras allemãs, os modos virginaes de creaturas que, pelo seu clima, pelo sol do seu paiz, pertencem ao que a vivacidade tem de mais petulante. Uma hispanhola, uma italiana, uma portugueza, caindo no missismo, e dando-se ares vaporosos, hypocritas e beatos, serve sempre para esconder um amante, quando não serve para esconder dois.

Aquellas palavras eram evidentemente uma allusão sanguinolenta ás maneiras reservadas da condessa, que, sendo loira, discreta, suave, contrastava poderosamente com aquella trigueira e ruidosa hispanhola.

— Perdão, señora, disse-lhe eu em hispanhol: hoje as verdadeiras maneiras não são o salero, são a gravidade. O salero póde ser bom no theatro, na zarzuella, nos corpos de baile, nas gravuras de uma viagem á Hispanha, mas é de todo o ponto inconveniente n’uma sala.

Ella empallideceu levemente, e fitou-me:

Caballero, perguntou, es usted pedante de rhetorica?

Eu ri-me, estendi-lhe a mão, e tudo acabou com um novo toast.

Mr. Cokney, que escutava a hispanhola, tinha attendido ás nossas palavras, tinha achado um som pittoresco e extranho n’aquelle dizer — pedante de rhetorica, e exclamava para os outros inglezes, rindo:

Oh yes, Pedantt de Rhetoric, it is very phantastic!

Entretanto, a noite caia. Eu senti-me pesado, recolhi á cabine, adormeci ligeiramente. Pelas nove horas subi á tolda. Fiquei surprehendido.

Não havia luar, nem estrellas, nem vento. Ao fim da tolda ardia o punch. Era enorme, a sua chamma larga, azulada, phantastica, subia, palpitava, fazia sobre o navio toda a sorte de reflexos e de sombras. Dos logares escuros saiam risadas de flirtations. Havia uma flauta, e uma rebeca. E já um ou outro par valsava em roda da clara-boia da tolda.

A mastreação do navio, tocada em grandes linhas azuladas pela luz do punch, fazia lembrar um galeão de legenda, o paquete de Satan.

Algumas senhoras estavam vestidas de branco, e quando nos circulos da valsa passavam sob a zona da luz, e eram envolvidas n’uma claridade phosphorica, os vestidos brancos tomavam tons espectraes, os cabellos louros luziam com um encanto morto, havia em tudo aquillo como uns longes de dança macabra...

Carmen estava possuida da mesma agitação da chamma do punch, travava do braço a um, valsava com outro, escarnecia, tinha replicas, batia o leque. D. Nicazio, esse resonava perto da amurada. De vez em quando entornavam-lhe punch pela bocca: elle abria uma frestado olho:

Thank you, caballeros! e adormecia.

— Onde está captain Rytmel? disse de repente Carmen. Tragam-n’o... Quero valsar com elle.

Rytmel conversava com a condessa socegadamente, longe da luz.

— Rytmel! Rytmel! chamaram varias vozes.

Vimol-o approximar-se contrariado, mas rindo.

— Uma valsa, gritou-lhe a hispanhola.

A flauta começou: ella tomou os hombros do capitão, e despediram em grandes circulos; os vestidos de Carmen enchiam-se d’ar, os seus cabellos desmanchavam-se; a luz do punch tremia; ao compasso rapido, os giros vertiginosos, enlaçados, pareciam vôos, lembravam a valsa do diabo cantada por Byron. Ella vergava nos braços de Rytmel, com a cabeça errante, os olhos cerrados, os beiços entreabertos e humidos.

— Bravo! Bravo! gritavam os inglezes em roda.

A luz do punch erguia-se, balançava-se, valsava tambem. Carmen e Rytmel passavam como sombras, levados por um vento leve, cheios dos reflexos idealisadores da chamma azul. O som frenetico da flauta perseguia-os; parecia que elles iam voar, desapparecer entre as cordagens, dissipar-se na noite. Os inglezes gritavam, erguendo os chapeus:

— Hip! hip! hip!

Eu notava na condessa, entretanto, uma vaga sobre-excitação: estava observando de longe com os olhos resplandecentes, o seio arquejante. Apenas a valsa findou, ella tomou o braço do capitão, e ouvi-lhe dizer n’uma voz grave e reprehensiva:

— Não dance mais.

Fiquei surprehendido. Que havia? Um segredo? Pois a condessa, tão altiva, tão casta, tão timida!...

Approximei-me d’ella.

— Prima, é tarde. Não quer descer?...

Ella olhou-me serenamente, sorrindo.

— Não. Porquê?

E affastou-se com o capitão Rytmel para ao pé da tenda onde de dia se fumava, e agora deserta e quasi escura.

Eu machinalmente fui-os seguindo, cheguei-me imperceptivelmente pelo lado opposto, e quasi sem querer ouvi.

O capitão dizia-lhe:

— Mas porque duvida? Eu desprezo aquella mulher. A nossa amisade nada perde, e nada soffre. Ella foi para mim um capricho, e historia de um momento. Agora nem uma recordação é...

Continuaram fallando baixo, e melancolicamente. Eu fui encostar-me um momento á amurada. Erguera-se vento, e o vapor começava a jogar...

Quando me approximei de novo dos grupos ruidosos, ouvi casualmente Carmen que dizia:

— Onde se some aquelle capitão Rytmel? Desappareceu outra vez com a condessa, não viram? Vamos procural-os.

Comprehendi a traição. Corri rapidamente, sem ser percebido, á tenda fumoir, entrei, sentei-me n’um banco, conversando alto, ao acaso. A tenda estava apenas allumiada por uma lanterna. A condessa ao ver-me apparecer assim tão bruscamente, fizera-se pallida de colera.

Mas n’este momento chegavam alguns officiaes, gritando:

— Rytmel! Rytmel!

Eu adiantei-me, dizendo:

— Que é? Estamos aqui; não queremos dançar mais...

Os officiaes affastaram-se. A condessa percebeu que eu a tinha salvado de uma situação penosamente equivoca, e o seu olhar agradeceu-me, profundamente.

— Desça, condessa, desça, segredei-lhe eu.

Ella disse com um sorriso melancolico a Rytmel:

— Está frio, adeus!

Rytmel e eu voltámos para o grupo dos officiaes.

Eu queria-me vingar-me de Carmen; lembrou-me o tornal-a o centro de ruido, e d’orgia.

— Señorita! disse-lhe eu, cante-nos uma seguidilla ou uma habanera! Faz um bello effeito no alto mar. Estão aqui gentlemen que nunca ouviram a musica dos nossos paizes.

— Sim, sim, gritaram todos. Uma seguidilla!

Ella queria recusar-se, descer ao beliche.

— Não, não, cante, mylady, cante!

Os pedidos eram instantes, e ruidosos. Ella cedeu, ergueu a voz, no meio do silencio, acompanhada pelo monotono ruido do vapôr e pelo vento crescente, e cantou com uma voz forte e languida:

    Á la puerta de mi casa     Hay una piedra mui larga...

Os inglezes estavam extaticos. No fim os applausos estalaram como foguetes, encheram-se os copos, um gritou:

— Pela señorita Carmen! hip! hip! Hurrah!

Os applausos echoaram no mar.

Ella estava extremamente embaraçada, comprehendia que só, no meio d’aquellas acclamações de homens, a sua posição era equivoca e ousada.

— Ora vejam! disse eu então, com uma bonhomia mephistophelica, é pena que as senhoras não ouvissem, e que estejamos aqui sós, entre rapazes, na pandiga.

Carmen deitou-me um vivo olhar de odio: eu estava vingado.

Um dos inglezes, no entanto, Mr. Reder, continuava, erguendo o copo, cheio de punch:

— A Carmen Puebla! Hip! hip! hip!

— Hurrah! responderam os outros enthusiasmados.

E o echo triste do mar, repetiu:

— Hurra!

Tocou uma sineta. Eram onze horas. Apagaram se as luzes. Quasi todos desceram rapidamente. Havia um forte vento de noroeste. O balanço do navio crescia. Navegavamos então á vista da terra d’Africa. Quando a tolda ficou deserta, sentiu-se mais vivamente o vento uivar nas cordagens, e bater a grande pancada do mar.

De espaço a espaço a sineta marcava os quartos: e a voz melancolica do marinheiro de vigia, dizia, pausadamente:

All is well.

Havia duas horas que eu tinha descido ao beliche. Estava n’aquella confusa penumbra que não é o somno, nem a vigilia, mas um vago sonho vivo que se sente e que se domina: via a condessa passar n’uma nuvem com Rytmel, alegre, bebendo cerveja; via Carmen vestida de monge, dançando sobre a corda bamba; e estas visões confundiam-se com o balanço e com o bater do helice.

De repente senti uma pancada pavorosa. O navio estremeceu, parou, ressoou um grande grito.

VI

 

Dei um salto, corri á porta do beliche:

Stewart! Stewart!

Stewart,(Criado dos quartos.) apareceu esguedelhado, quasi nú.

— Que é? Estamos perdidos? Batemos n’um rochedo?

— Não sei. Não ha de ser nada, o navio é seguro.

Ouvia em cima marinheiros correndo, o movimento que se faz n’um perigo.

— Estamos perdidos, pensei eu, vestindo-me com uma precipitação angustiada.

A cada momento esperava ver o navio descer, afundar-se, e uma enorme onda pesada entrar, alagar a cabine.

Corri á tolda. Giravam lanternas. Quasi todos tinham subido: os vestidos brancos, os penteadores das mulheres, davam aos grupos um vago mais lugubre. A officialidade estava impassivel.

— Que foi? que foi? perguntei a alguem.

— Não se sabe, quebrou-se a machina. Mas temos sobre nós um terrivel vendaval...

— Estamos perdidos!

— O navio é seguro, respondeu o outro.

Ao lado diziam:

— O capitão devia deitar as lanchas ao mar.

O ceu estava limpo: luziam estrellas. O vento assobiava mais forte. O navio tinha aquella oscillação lugubre de bombordo a estibordo, que têem os grandes peixes mortos quando boiam ao cimo d’agua. Olhei os astros, o ceu impassivel, a agua negra, — e senti um immenso despreso pela vida.

Em roda de mim a cada instante ouvia-se versões contradictorias. Uns diziam que ficariamos á capa, esperando firmemente o mau tempo; outros que o navio estava perdido... Um official disse ao passar:

— Oh, senhores! isto não vale nada: concerta-se; já me aconteceu duas vezes d’Aden a Bombaim.

Não havia a menor confusão ; tudo continuava tão sereno e regular, como se caminhassemos n’um largo rio, á clara luz do sol. O commandante, emfim, appareceu:

— Meus senhores, disse elle, é apenas um contratempo. Houve um desarranjo grave na machina. Não sei se poderei navegar. Com calmaria, talvez. Mas com o vento que vem sobre nós, é caso para um atrazo de quatro ou cinco dias.

No emtanto, o vento crescia. Havia por todo o mar flocos de espuma. Ouvia-se no horisonte um ruido surdo, como o marchar de mil batalhões.

A maior parte dos inglezes, pesados de somno e de vinho, tinham voltado para as cabines, indifferentes ao perigo. Algumas ladies, tranzidas, mas graves, ficaram no convez.

Em baixo, os engenheiros e os machinistas trabalhavam poderosamente, e sem cessar.

Captain Rytmel approximou-se de mim.

— É um perigo, e é um perigo sem lucta. Este imbecil d’este commandante navegou de mais para sul. Estamos perto da costa d’Africa. Se o vendaval nos apanha agora atira-nos para lá... Todavia o nosso engenheiro de bordo, Pernester, é um homem de genio. Onde está a condessa?

Descemos á sala commum. A condessa lá estava, encostada á mesa, serena e pallida.

— Suba, prima, suba, disse eu. Ao menos em cima vê-se o ceu, a agua e o perigo!

Viemos encostar-nos á amurada, agarrados ás cordagens. As estrellas davam uma claridade nebulosa. As ondas profundamente cavadas, orladas de espuma, reluziam sob aquella luz vaga. O vento era terrivel.

— Porque não deitam lanchas ao mar? dizia a condessa. Ao menos luctava-se, havia a coragem. Mas ser arremessado o paquete para a Africa como uma baleia morta!...

Ella quis passear, mas o movimento do navio era muito violento; era necessario encostar-se ao braço de Captain Rytmel. Eu difficilmente me equilibrava. A pancada da onda contra o costado tinha um som lugubre. A sineta de bordo tocava com uma voz desconsolada as horas e os quartos. Tinham-se accendido mais pharoes no alto dos mastros. O ruido do vento de temeroso, parecia uma passagem violenta de almas condemnadas.

Desci á camara para beber cognac, porque o frio era agudo. Carmen, sentada no sophá, no alto da sala, estava ali immovel, com os olhos vagos, as mãos crusadas.

— Morremos, hein? perguntou ella.

— Tem medo? disse eu.

— Um pouco, de morrer affogada. D’uma bala ou d’uma facada, não me custava. Mas aqui, estupidamente, n’este antipathico elemento, é cruel! Ao menos não morro só! Lá se vae a sua linda prima!...

— Porque odeia a pobre condessa? disse-lhe eu, sorrindo.

— Eu! de modo algum. Acho-a piegas, detesto aquelles ares sentimentaes, deshonra a Peninsula. Ahi está.

— Não é isso: é porque suppõe que Captain Rytmel se interessa de mais por ella.

— E que me importa a mim esse cavalheiro?

E deu uma curta risada.

No emtanto o ar abafado da sala, o movimento do navio perturbava-me. Subi á tolda. A condessa e Rytmel não passeavam. Tinham-se sentado, segundo deprehendi, debaixo da tenda. Eu, de pé, atravez da lona podia escutar, apesar do ruido do vento.

Uma curiosidade indomavel, a necessidade de comprehender a situação do espirito da condessa, a certeza de que estavamos na afflição d’um perigo, — e as acções humanas n’esses momentos não se podem sujeitar ao criterio da vida trivial, — tudo me levou a ir escutar, apesar das repugnancias do meu caracter. Acerquei-me, fiz ouvido d’espião:

— E custa-lhe morrer?

— Muito e nada, respondia a condessa. Muito porque morre commigo o primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua amisade; nada, porque, francamente, sou eu feliz?

— Se a minha amisade é para si um interesse profundo...

A condessa calou-se.

— Oh! comprehendo-a bem, disse Rytmel. Sabe por que não é feliz, apesar da minha amisade? É porque não é a minha amisade o que o seu coração precisa. Oh! deixe-me fallar! É o amor profundo, inalteravel, omnipotente, que esteja em todos os momentos da sua vida e em todas as idéas do seu espirito; que viva do prazer e viva do sacrificio; que seja a ultima rasão da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que ha de mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que ha de mais elevado prenda a sua alma...

— Cale-se, cale-se, dizia a condessa. É uma loucura fallar assim... Vamos passear, vamos ver o mar.

O vento agora era terrivel. O mar estava como agua de sabão a perder de vista. O navio oscilava perdidamente, e sem rumo. No emtanto, na machina trabalhava-se sempre.

Rytmel continuava fallando á condessa.

— Cale-se, cale-se, dizia ella, baixo, e como vencida.

— Não; devo dizer-lh’o: esta palavra «amisade» é falsa. D’aqui a duas horas talvez, estamos perdidos. Ao pé da morte a sinceridade é uma justiça. Digo-lh’o. Amo-a. Não se erga. O vento levará comsigo esta confissão. Amo-a. Se estamos culpados depois d’estas palavras, o mar é um bom tumulo e o mar lava tudo. Amo-a...

— Não diga isso. É um engano; é apenas sympathia. Demais o amor a que nos levaria? ou ao despreso ou á tortura...

Eu ouvia mal. Elles fallavam baixo. A tormenta chegava. O navio gemia lamentavelmente. As cordagens, que o vento quebrava de repente, assobiavam como cobras. Os marinheiros corriam. Sentiam-se a voz do commando, os martellos, os trabalhos na machina. Uma vaga entrou, alagou o convez.

De repente senti um movimento dentro da tenda: a condessa ergueu-se; a sua voz era alta e vibrante:

— Captain Rytmel, pensa em sua honra que vamos morrer?

— Penso, condessa.

— Pois bem, quero dizer-lh’o então: amo-o!

E depois de um momento:

— Oh! amo-o, repetiu ella com uma explosão de paixão. Já que tenho a certeza de que morro pura, quero morrer sincera. Adoro-o.

N’este momento um ruido extranho tomou o navio.

Percebi uma forte dominação de oscillação, uma resistencia contra a vaga. Os movimentos da embarcação já não pareciam inertes. Via-se que ella tinha retomado a sua vitalidade... Então senti o helice... o helice! O navio movia-se. Via-se a onda esmigalhada pela prôa. Caminhavamos! Eu saltei para a abertura que desce á machina.

— Que é? perguntei a um official que subia.

— Um milagre de Pernester!

Todos tinham corrido. Era uma anciedade.

O capitão trepou rapidamente pela escada de ferro polida que do interior da machina sobe ao pavimento do navio.

Estava radiante.

— Imaginem que Pernester...

— Sim, sim, interrompi, mas então?

— Vamos a caminho. Agora sopra, tormenta, sopra! Ámanhã estamos em Malta.

— Bravo, Pernester! bravo! gritavam todos.

O grande homem subiu a escada da machina, offegante, impassivel, vermelho, grave, ainda com a gravata branca do jantar. Esponjou a calva, e disse n’um tom suave:

Now, I should enjoy a nice glass of beer...

VII

 

No dia seguinte chegámos a Malta. Era de noite, não havia estrellas. A agua da bahia estava immovel e negra. Via-se defronte La Valette, elevada como uma collina, altiva como um castello, pespontada de luzes. Em redor do paquete as gondolas corriam silenciosamente tendo á popa, esguia e alta, uma lanterna pendente. Havia um grande silencio, uma suavidade ineffavel. Os gondoleiros remavam calados. Aquillo era doce e regular. Sentia-se o mysterio italiano e a policia ingleza.

Desembarcámos: fomos para Clarence Hotel, na Strada-Reale, defronte da celebre igreja de S. João. Rytmel hospedou-se em casa dos officiaes inglezes. D. Nicazio e Carmen vieram para Clarence-Hotel, tambem. Os tres primeiros dias em Malta foram occupados em percorrer os monumentos: o palacio dos grã-mestres, os palacios chamados Estalagens, e que eram pertencentes ás differentes nacionalidades da ordem, as grandes ruas brancas, com elevadas e altivas casas no gosto da Renascença, e os arredores de Malta, Citta-Vechia, Bengama, Boschetto, e a ilha de Calypso, que tem tantos encantos em Homero e que é um rochedo humido, cheio de cavernas tenebrosas. Desde o primeiro dia, Rytmel e alguns officiaes iam jantar a Clarence-Hotel. A condessa comia sempre nos seus quartos. O ruido, a petulancia da mesa, era Carmen. Deixara-se logo seguir sempre por um rapaz francez, espirituoso e ligeiro, louro e ardente, um Mr. Perny, viajante por tedio, dizia elle.

Carmen não se approximava de Rytmel. Havia entre elles como uma separação combinada e discreta. Rytmel, pelo contrario, não se affastava de nós em todas as excursões ao campo, ás fortificações, á bahia; todas as noites nos acompanhava ao theatro. O conde tinha ficado logo captivado das grandes tranças louras d’uma rapariga que nós viamos sempre na 1ª ordem do theatro, com a tez ingleza e os olhos malteses, d’uma frescura de miss e movimentos de andaluza, e que era uma radiosa Mademoiselle Rize, dançarina em disponibilidade. De resto, o conde não podia separar-se de Rytmel.

Ali, em Malta, os movimentos da condessa e do official não estavam tanto sob o dominio da minha vista. Eu, ás vezes, não via a condessa um dia, dois dias, absorto na companhia de alguns officiaes inglezes, em passeios no mar, no campo, em ceias e no jogo. Comprehendia porém que aquella paixão da condessa a dominava absolutamente. Rytmel parecia-me tambem perdidamente namorado.

Não lhe quero dizer, senhor redactor, os raciocinios interiores, que me determinaram a ser indifferente áquella situação. Comprehenderá claramente os motivos por que resolvi não saber, não olhar, não perceber, isolar-me n’uma discripção completa e delicada.

Pouco tempo depois de chegarmos a Malta, tinhamo-nos relacionado com lord Grenley, que estava ali passando o inverno e curando os seus blue devils. Tinha vindo de Inglaterra n’um lindo yacht, chamado The Romantic, que nós viamos todos os dias na bahia bordejar, fazendo reluzir ao sol os seus cobres polidos e o seu esvelto costado branco. Lord Grenley ligára-se muito com o conde. Era tambem o Intimo de Rytmel.

Carmen tinha-se encontrado pouco com a condessa, a não ser no theatro, onde a crivava de olhares impertinentes, em plena e altiva indifferença da condessa. Carmen, irritada, não vivendo nas relações de ladies, não a encontrando, como nos sete metros do tombadilho do paquete, sob a acção dos seus largos gestos e das suas asperas ironias, desforrava-se á mesa de Clarence-Hotel, envolvendo indirectamente Rytmel em toda a sorte de allusões e de palavras causticas. A sua ultima tactica era instigar sempre Mr. Perny contra o official, arremessal-o contra todas as idéas, todas as opiniões de Rytmel; não sei se com a esperança perversa de um duello, se apenas pelo gosto de o vêr contrariado...

Um dia fallava-se da India. Rytmel dizia a transformação fecunda que a Inglaterra lhe tinha feito. Uma grande risada interrompeu-o. Era Perny.

— Ri-se? disse Rytmel, levemente pallido.

— Rio-me? Estalo de riso, tenho apoplexias de riso. Que transformação fecunda fez a Inglaterra á India? A transformação da poesia, da imaginação, do sol, n’uma coisa chata, trivial e cheia de carvão. Eu estive na India, meus senhores. Sabem o que fizeram os transformadores inglezes? A traducção da India, poema mysterioso, na prosa mercantil do Morning Post. Na sombra dos pagodes põem fardos de pimenta; tratam a grande raça india, mãe do ideal, como cães irlandezes; fazem navegar no divino Ganges paquetes a tres schellings por cabeça; fazem beber ás bayaderas, pale ale, e ensinam-lhes o jogo do criket; abrem squares a gaz na floresta sagrada; e, sobre tudo isto, meus senhores, desthronam antigos reis, mysteriosos, e quasi de marfim, e substituem-n’os por sujeitos de suissas, crivados de dividas, rubros de porter, que quando não vão ser forçados em Botany-Bay, vão ser governadores da India! E quem faz tudo isto? Uma ilha feita metade de gelo e metade de rosbeef, habitada por piratas de collarinhos altos, odres de cerveja!

Captain Rytmel ergueu-se risonho, approximou-se de mim, e disse:

— Peço-lhe que no fim do jantar pergunte áquelle engraçado doido o seu logar, a sua hora e as suas armas.

E foi sentar-se serenamente. Eu, á sobremesa, affastei-me com Perny, e transmitti-lhe as palavras do meu amigo.

Perny riu, disse que estimava os inglezes, que apreciava os seus serviços na India, que tinha sido instigado por Carmen a contrariar Rytmel, que o achava um adoravel gentleman, que pedia das suas palavras as mais humildes desculpas, que o seu logar era por toda a parte, as suas armas quaesquer...

— Mas, dadas essas explicações, disse eu, nada temos que vêr com as armas...

— Ah! perdão; disse o francez, ha ainda uma pequena cousa: é que eu acho que o penteado de Captain Rytmel é profundamente offensivo do meu caracter e da dignidade da França. Isto é que exige reparação.

Nomearam-se padrinhos n’essa noite. Combinou-se que o duello não fosse em Malta: Rytmel era official, e os duellos nas praças d’armas têem as mais severas penalidades. Era difficil, porém, estando n’uma ilha ingleza, não se baterem em territorio inglez. Resolveu-se então que o duello fosse no alto mar, a um tiro de canhão da costa ingleza. Lord Grenley emprestou o seu yacht e partimos de madrugada com um vento fresco e um sol alegre. As cousas foram rapidas. Puzemo-nos á capa a 5 milhas de Malta, arriámos o pavilhão inglez, a marinhagem subiu ás vergas, e como havia egualdade de nivel, um dos adversarios foi collocado á pôpa e outro á prôa. O sol davanos de estibordo. Éram 7 horas, pequenas nuvens brancas esbatiam-se no ar. O duello era ao primeiro tiro, havendo ferimento grave. Lord Grenley deu o signal, os dois adversarios fizeram fogo. Perny deixou cahir a pistola, e abateu-se sobre os joelhos. Estava gravemente ferido com a clavicula partida. Foi deitado n’uma cabine preparada. Levantou-se o pavilhão inglez e navegámos para Malta. Vinha cahindo a tarde.

Eu dirigi-me logo aos quartos de D. Nicazio. Carmen estava só.

— Sabe o que fez? disse-lhe eu. Perny está ferido.

— Isso cura-se, eu mesma o curarei... agora o que é sério, é o que se está tramando aqui dentro d’este hotel... Eu não sei bem o que é, desconfio apenas... Diga ao conde que vigie a condessa!

Eu encolhi os hombros, dirigi-me ao quarto da condessa: estava o conde, Rytmel, e Lord Grenley. O ferimento de Perny fôra declarado sem perigo, o capitão estava tranquillo. Conversava-se alegremente. Combinava-se uma visita á ilha de Gozzo, a oito kilometros de Malta. Grenley tinha proposto a excursão, e offerecia o seu yacht. O conde esquivava-se, dizendo que o mar o incommodava, no estado nervoso em que estava.

— Menino, é aquella maldita Rize! veio-me elle dizer em voz baixa, tenho-lhe para amanhã promettido um passeio a Bengama.

— Mas, então?

— Acompanha tu a condessa. Vae Grenley e Rytmel. Faze-me isto. Bem vês! Mademoiselle Rize é exigente, mas pobresinha d’ella, tem o sangue maltez!

Mais tarde, quando eu atravessava para o meu quarto, um vulto veiu a mim no corredor e tomou-me pela mão.

— Escute, disse-me uma voz subtil como um sopro.

Era Carmen.

— Se é um homem de honra, cautella amanhã com o passeio a Gozzo.

E desappareceu.

VIII

 

No outro dia ás seis da manhã fui a casa de Rytmel. A condessa havia estado durante a noite sob o dominio d’uma extrema agitação nervosa, mas não queria renunciar ao passeio de Gozzo. Encontrei Lord Grenley com Rytmel, tomando chá.

Pareceu-me pela fadiga das suas physionomias, que se não tinham deitado: lord Grenley decerto que não, porque estava de casaca, como na vespera, e tinha ainda na boutonniêre um jasmim do Cabo, murcho e amarellado.

— Bonita madrugada! disse Rytmel.

Tinham aberto a janella, o ar fresco entrava; nas arvores do jardim cantavam os passaros.

— Adoravel! disse eu. A condessa esteve toda a noite doente, mas não se transtorna o passeio... Outra cousa: tem um rewolver, Rytmel?

— Para quê?

— Disseram-me que era muito curioso atirar aos passaros que se escondem nas cavernas, em Gozzo. Ha um echo excentrico. Precisamos de uma arma.

Rytmel deu-me um pequeno rewolver marchetado.

— Leve-o: eu tenho as algibeiras cheias da albuns e de canetas para tirar desenhos... Ah! Sabe que este Grenley não vae?

— Porque? como assim, mylord?

— Um jantar official com o governador disse Lord Grenley, é horrivel. Tenho uma pena immensa...

Ás sete horas fomos buscar a condessa. O marido acompanhou-nos até o caes Marsa-Muscheto.

Notei ao entrar no yacht que a equipagem estava augmentada e havia um piloto arabe.

Largámos com um vento fresco, ás oito horas da manhã; as gaivotas voavam em roda das velas, as casas brancas de La Valette tinham uma côr rosada, ouviam-se as musicas militares, o ceu estava d’uma pureza encantadora.

A condessa, um pouco excitada, olhava com uma alegria avida, para o vasto mar azul, livre, infinito, coberto de luz.

— O que são as mulheres! pensava eu. Esta, tão altiva e tão discreta, está encantada por se vêr só, com rapazes, n’um yacht, no alto mar. É para ella quasi uma aventura!

Eu, confesso, estava embaraçado. A minha situação era um pouco pedante. Representar eu alli o marido, a familia, o dever, diante de duas creaturas moças, bellas, namoradas, e ser eu, aos vinte e quatro annos, ardente e apaixonado, o encarregado de fazer a policia d’aquelle romance sympathico! Á la grace de Dieu! O mar é largo, o ceu profundo, a honra existe, daqui a duas horas estamos em Gozzo, passeamos, rimos, jantamos, e ao anoitecer, quando Deus espalhar o seu rebanho de estrellas, voltaremos na viração e na phosphorescencia, calados, ouvindo o piloto arabe cantar as doces melopeas da Syria, ao ruido languido da maresia...

Rytmel tinha descido a dar as ordens para o almoço. A condessa ficara de pé, á prôa, com um vestido curto de xadrez, botinas altas, envolta n’uma manta escoceza, de largas pregas. Nunca eu a vira tão linda.

Costeavamos Malta com vento oeste.

Approximamo-nos da ilha de Cumino. Rytmel veio-nos dizer que deveriamos almoçar, e que ao fim de meia hora desembarcavamos em Gozzo, na Calle Maggiara; iriamos vêr as curiosidades da ilha, tornariamos a embarcar para tornear Gozzo, e vêr as terriveis cavernas, onde o mar se abysma e se perde, e ao anoitecer tocariamos o caes de La Valette.

O almoço foi muito alegre. Havia Champagne, um Rheno adoravel, um guizado arabe e um piano na camara. Captain Rytmel, cujo aspecto me parecia ter uma preoccupação inexplicavel, fez ao piano depois do almoço interminaveis improvisações. Caminhavamos sempre. Casualmente, tirei o relogio, e tive um sobresalto! Havia duas horas e meia que tinhamos descido! Ora quando o almoço começára, faltava-nos meia hora para desembarcar em Maggiara! Porque seguiamos então? Subi rapidamente á tolda. O piloto arabe estava ao leme. Não se via quasi a terra: iamos no mar alto, navegando com uma extraordinaria velocidade sob o vento.

— Onde está Gozzo? gritei ao arabe em inglez, depois em francez, depois em italiano.

O arabe nem sequer se dignou olhar-me. N’este momento Rytmel e a condessa subiam.

— Onde está Gozzo? perguntei eu a Rytmel.

— Ha talvez uma bruma, respondeu elle vagamente e voltando o rosto.

O horisonte porém estava limpo, puro, sem mysterio, a perder de vista. Ao longe via-se uma sombra indefinida que denunciava a terra: e nós affastavamo-nos d’ella!

Corri á bussola. Navegavamos para Oeste.

— Navegamos para Oeste, Captain Rytmel! affastámo-nos de Malta! Que é isto? Para onde vamos?

Rytmel olhou longamente a condessa, depois a mim e disse:

— Vamos para Alexandria.

Num relance comprehendi tudo. Rytmel fugia com a Condessa!...

Eu fitei Rytmel, e disse-lhe tremendo todo:

— Isso é uma infamia!

Elle empallideceu terrivelmente; mas a condessa, interpondo-se, com uma voz vibrante:

— Não! sou eu! Sou eu que vou para Alexandria.

— N’esse caso sou eu o infame, prima.

Houve um silencio. Os olhos da condessa estavam humidos. Correu para mim, tomou-me uma das mãos, murmurou entre soluços:

— Que quer? Ninguem tem culpa. Amo este homem, fujo com elle.

Rytmel tomara-me a outra mão.

— Agora, dizia, é impossivel voltar. É um passo dado, irreparavel...

Eu estava succumbido: aquella situação imprevista, deixava-me sem raciocinio, sem voz, sem vontade.

Eu, amigo do conde!... Eu, cumplice d’aquella fuga! Além d’isso, alli, no meio d’aquelles dois amantes encantadores, que me supplicavam apertando-me as mãos, eu sentia-me ridiculo — e isto augmentava o meu desespero. A condessa, no entanto, continuava:

— Primo, disse ella, que importa? Estou deshonrada, bem sei. Mas que queria? que eu ficasse ao lado de meu marido, amando este, n’uma mentira perpetua, vivendo alegremente instalada na infamia? Essa situação nunca! É suja! Ao menos isto é franco. Rompo com o mundo, sou uma aventureira, fico sendo uma mulher perdida, mas conservo-me para um só e sendo pura para elle.

— Captain Rytmel, disse eu, então mande deitar uma lancha ao mar.

— Que quer fazer? gritou a condessa.

— Eu? ganhar a terra. Acha que tambem não é uma infamia installar-me n’este navio?

— Está louco, disse Rytmel, ha só um escaler a bordo. O vento cresce, o mar incha. O escaler não se aguentará dez minutos.

— Melhor! Um escaler ao mar! gritei eu.

— Ninguem se mecha! bradou Rytmel.

E voltando-se para a condessa:

— Mas diga-lhe que é a morte! Que cumplicidade tem elle? Foi forçado, foi levado. Não responde por nada.

— Um escaler ao mar! gritava eu.

Mas, de repente, Rytmel tomando um machado correu ao bordo d’onde pendia o escaler, cortou as correias de suspensão; o barco cahiu na agua com um ruido surdo, ficou jogando sobre as ondas meio voltado, sobrenadando como um corpo morto.

Eu bati o pé, desesperado.

— Ah que infamia! capitão Rytmel! Que infamia!

E por uma inspiração absurda, querendo desabafar, fazendo alguma cousa de violento, gritei para alguns marinheiros que estavam á prôa:

— Ha algum inglez ahi que preze a sua bandeira?

Todos se voltaram admirados, mas sem comprehender.

— Pois bem! gritei eu, declaro que esta bandeira cobre uma torpeza, tem a cumplicidade da deshonra, e que é sobre toda a face ingleza que eu cuspo, cuspindo no pavilhão inglez.

E correndo á popa cuspi, ou fiz o gesto de cuspir sobre a larga bandeira ingleza. Um dos marujos então de certo comprehendeu porque teve um movimento de ameaça.

— Ninguem se mova! gritou Rytmel. Eu sou o offendido. Meu amigo, disse elle com a voz suffocada, tem razão: desde que abandonei Malta, deixei de ser official inglez. Sou um aventureiro. Esta bandeira, com effeito, não tem que fazer aqui!

Adeantou-se, arreou o pavilhão de tope da popa.

E n’uma exaltação tão insensata como a minha, arremessou o pavilhão ao mar; as ondas envolveram-n’o, e por um estranho acaso, no encontro das aguas, a bandeira desdobrou-se, e ficou estendida sem movimento, serena, immovel, á superficie do mar, até que se afundou.

Rytmel, então, por um impulso romanesco e apaixonado, tomou um lenço das mãos da condessa, amarrou-o á corda da bandeira, e içando-o rapidamente, gritou:

— De ora em diante o nosso pavilhão é este!

Eu achava-me no meio de todas aquellas scenas violentas, como entre as incoherencias d’um sonho.

N’um movimento que fiz, senti no bolso o rewolver: não sei que desvairadas ideias de honra me hallucinaram, tirei-o, engatilhei-o, brandi-o, gritei:

— Boa viagem!

— Jesus! bradou a condessa.

IX

 

Rytmel precipitou-se sobre mim e arrancou-me o rewolver.

Eu murmurei simplesmente:

— Bem! Será no primeiro porto a que chegarmos.

A condessa então adiantou-se, livida como a cal e disse (nunca me esqueceu o som da sua voz):

— Rytmel, voltemos para Malta.

— Voltar para Malta! Voltar para Malta! Para quê, santo Deus!

Eu interpuz-me, disse as cousas mais loucas:

— Rytmel, dê-me esse rewolver, sejamos homens. Que as nossas acções tenham a altura dos nossos caracteres. Nada mais simples. Nem a paixão póde retroceder, nem a honra condescender. A solução é a morte. Eu mato-me, fugi vós para bem longe...

Mas a condessa, que era a unica que parecia ter ainda uma luz de razão dentro de si, repetiu, com a mesma firmeza, onde se sentia a dôr oculta:

— Rytmel, voltemos para Malta.

Elle olhou-a um momento: a consciencia da nossa odiosa situação pareceu então invadil-o, subjugal-o; vergou os hombros, obedeceu, foi dizer algumas palavras ao capitão do yacht.

D’ahi a um instante corriamos sobre Malta.

Houve um grande silencio, como o cançasso d’aquella lucta da paixão. Rytmel passeava rapidamente pelo convez, e sob a serenidade do seu rosto, sentia-se a tormenta que lhe ia dentro.

— Aqui está! disse elle de repente, parando e cruzando os braços, com um extranho fogo nos olhos. Acabou tudo! Voltamos para Malta. Que mais querem? Que nos resta agora? Dizer-nos adeus para sempre, para sempre! Iamos a Alexandria; estavamos salvos, sós, novos, felizes! E agora? Felicidade, amor, paixão, esperança, alegria, acabou tudo. Ah, pobre ingenuo! Fallam-te na honra! Que honra a que me vae matar todos os dias, a que me arranca do meu paraiso, a que me torna o ultimo desditoso! Honra! Que me resta a mim? Uma bala na India. Morrer para ali, só, como um cão.

A condessa não dizia nada, com os olhos perdidos no mar.

E Rytmel vindo para mim, tomando-me o braço, com um gesto desesperado:

— Vês tu! Vês isto? Eu soffria tudo por ella; a deshonra, a infamia, o desprezo; abandonava o mundo, renegava a minha farda, queria a pobreza, o escarneo, tudo por ella. Diz-se a um homem — amo-te, vae-se fugir com elle, está-se n’um navio, e de repente, a meia hora da felicidade e do paraiso, quando já se não vê terra, vem um escrupulo, uma mágoa, uma saudade do marido talvez, uma lembrança d’um baile, ou d’uma flôr que ficava bem — e adeus para sempre! e quer-se voltar; e tu, miseravel, soffre, chora, arrepella-te, e morre para ahi como um cão. Meu amigo, eu não tenho voz, nem força: previna o piloto: a senhora condessa tem pressa de chegar a terra!...

— William! William! gritou a condessa, precipitando-se, tomando-lhe as mãos. Mas tu não percebes nada? Em Malta, como em Alexandria, eu sou tua, só tua... tua deante de Deus, tua deante dos homens...

N’este momento ouviu-se a voz distante de um sino!

Eram os sinos de Malta. A terra ficava defronte.

A suavidade da hora era extrema; o ar estava ineffavelmente limpido. Viam-se já as aldeias brancas, o altivo perfil de la Valette. O sol descia. Os seus ultimos raios obliquos faziam scintilar os miradouros. Distinguiam-se no caes os vendedores de flores. Duas gondolas corriam para nós. Houve um grande ruido nas velas, assobios de manobras, o navio parou, e a ancora caiu na agua! Tinhamos chegado. Os sinos de Malta continuavam repicando.

X

 

Quando desembarcámos corri ao hotel. O conde ainda não tinha vindo do seu passeio a Bengama com Mademoiselle Rize. Rytmel foi encerrar-se em casa, n’um triste estado de exaltação e de paixão.

Carmen veio logo procurar-me ao meu quarto. Entrou rapidamente, perguntou-me:

— Voltaram? como foi?

— Sabia então alguma cousa? interroguei admirado.

— Tudo. Por um acaso. Sabia que queriam fugir. Durante toda a noite Rytmel andou fazendo preparativos. Era uma combinação de ha trez dias. Lord Grenley sabia. E agora?

— Agora, disse eu, tudo terminou. A condessa naturalmente parte no primeiro paquete.

— Duvido. Mas se não partem, ha uma desgraça. É uma fatalidade, bem o sei, mas que quer? Amo aquelle homem, amo Rytmel. Demais é uma obrigação, salvou-me a vida. É sobretudo uma paixão estupida que me roe, que me mata. E ainda me não mata tão depressa como eu queria. Faço tudo para me matar. Ponho-me a suar, levanto-me e vou apanhar o orvalho para o terraço. Para que vivo eu? Vivia d’esta paixão. Cresceu desde que o vi agora. E diga-me quem o não ha de adorar? Ás vezes lembra-me matal-o!...

Conversámos algum tempo. A pobre creatura tinha nos olhos um fulgor febril, na face uma pallidez de marmore. Eu procurei calmal-a. Começava a sympathizar com ella...

A condessa não sahiu do seu quarto dois dias. Eu contei ao conde que ella tivera em Gozzo um susto terrivel, porque tinhamos estado em perigo, na visita ás cavernas da costa, onde a navegação é cheia de desastres. Estive quasi sempre, depois, com Rytmel. Lentamente a esperança renascia no seu espirito. Accommodava-se, ainda que com certas repugnancias, a uma situação mais racional, ainda que menos pura. Era um convalescente da paixão. E, ao fim de cinco dias, senhor redactor (tanto a natureza humana é cheia de conciliações!) ao fim de cinco dias a condessa appareceu no theatro, fresca, radiante, e ao lado da brancura dos seus hombros reluziam as dragonas de ouro de Captain Rytmel!

Entrámos então n’uma vida serena, sem romance e sem lucta. Os corações tinham calmado, e fallavam baixo. O conde passeava no campo com mademoiselle Rize; lord Grenley fumava, cheio de tédio, o seu cachimbo de opio; eu jogava as armas com os officiaes inglezes; D. Nicazio negociava; Rytmel tinha um ar feliz e mysterioso; a condessa recebia, guiava os seus poneys, e todas as noites, no theatro, fazia reluzir ao gaz o louro esplendor dos seus cabellos e a pallidez preciosa das suas perolas. Santa paz!

O tempo estava adoravel. Malta resplandecia, a bahia reluzia ao sol, os jardins floresciam, os olhos das maltezas suspiravam. Era o tempo das flôres da laranjeira. Só Carmen emmagrecia e vivia retirada.

Mr. Perny entrava em convalescença: passava o tempo deitado n’um sophá, de dia compondo uma opera comica, á noite jogando com alguns officiaes, e salpicando a gravidade britannica de calembourgs bonapartistas.

Uma occasião, ao sair de casa d’elle, onde tinha perdido algumas duzias de libras, recolhia eu a Clarence-Hotel levemente irritado, e sentindo um prazer excentrico em cantar o fado pela ruas de Malta, a mil legoas do Bairro Alto. O pavilhão que nós habitavamos em Clarence-Hotel dava sobre um jardim todo escuro d’arvores e de moitas de flôres.

Ordinariamente o conde e eu entravamos pelo jardim. Tinhamos uma pequena chave que abria a portinha verde no muro, todo coberto de musgo e de copas d’arbustos orientaes. N’essa noite, ao abrir a porta, cantando em voz alta, senti sumir-se rapidamente na espessura das folhagens um vulto. O ar estava sereno, accendi um phosphoro, e áquella luz trémula, entrei na sombra, para descobrir o vulto, entre as ramagens. Mas a pessoa, vendo-se seguida, e sentindo a impossibilidade de se esquivar rapidamente, retrocedeu, com uma naturalidade visivelmente artificial, e proferiu o meu nome. Era Carmen.

— Que faz aqui? disse eu.

— Mato-me. Não lhe disse que sempre que suava de noite, me erguia e vinha apanhar o orvalho?

Mas ella estava completamente vestida de seda preta, e tinha sobre os hombros uma larga capa escura, de fórma arabe, com grande capuz!

— Ah! minha cara, disse eu, mata-se mas é d’amores. A esta hora, com essa toillette, n’este jardim, com este aroma de laranjeiras!... Que historia me vem contar d’orvalhos e de suor?

— Digo-lhe a verdade. Imagina que eu não preferiria aqui n’esta sombra encontrar alguem?...

— E D. Nicazio? Peça a D. Nicazio que lhe faça a côrte. Que lhe dê uma serenada, que suba por uma escada de corda, que a seduza n’este jardim...

Emquanto eu fallava, davam horas na Igreja de S. João, e Carmen mostrava uma agitação impaciente. A todo o momento olhava para a porta do jardim, torcendo freneticamente uma luva descalçada.

Eu comprehendi que ella esperava alguem. Alguem, isto é, el querido, el precioso, el saleroso, el niño de toda a legitima andaluza. Affastei-me discretamente, como um confidente, e no momento que pisava a rua areada que levava ao pavilhão, senti a porta do jardim ranger com uma ternura plangente.

— É elle, pensei eu. É o niño. Pobre Carmen! Bebe vinagre, apanha os orvalhos por causa de Rytmel, e mal chega a noite, não póde ser superior a vir receber debaixo das laranjeiras algum cabelleireiro francez com voz de tenor, ou algum tenor maltez com bigodes de cabelleireiro.

Subi ao meu quarto, mas não tinha somno; a noite era suave e languida, mordia-me uma aspera curiosidade, e com a astucia d’um ladrão napolitano, desci as escadas, costeei o muro do jardim, debrucei-me, espreitei, e vi Carmen. Estava só! Extrema surpreza!

— E el querido? perguntei-lhe eu rindo.

Ella voltou-se em sobresalto e perguntou-me com a voz agitada:

— Qual querido?

— O que entrou agora?

— Não entrou ninguem.

— Eu vi.

— Conheceu?

— Não, onde está?

— Abriu as asas, voou! disse ella rindo-se e affastando-se em direcção aos seus quartos.

— Diabo! pensei eu. É uma segunda edição da Torre de Nesle. Recebe-os, parte-os aos bocadinhos e enterra-os na areia!

No emtanto, tinha a curiosidade excitada. Alguem tinha entrado mysteriosamente, com uma chave falsa de certo, porque só o conde e eu tinhamos a chave d’aquella porta do jardim. Mas onde estava esse alguem? Teria entrado, e saído logo? N’esse caso não era uma entrevista d’amor! Mas se não era um segredo de coração, para que era o mysterio, a hora escura, o silencio, a chave falsa?

Alguem teria ficado escondido no jardim? Corri-o todo, arbusto por arbusto, jasmim por jasmim. Estava deserto.

Deitei-me preoccupado com aquella aventura. No outro dia, ao almoço, um criado em voz alta declarou que se tinha achado no jardim um pequeno punhal e que o hospede a quem elle pertencesse o reclamasse em baixo, no office. Era um punhal, de fórma curva como se usa no Hindustão. Tinha sido encontrado n’uma moita de buxo, de tal sorte que não parecia perdido, mas voluntariamente arremessado. Ninguem reclamou o punhal.

Tudo isto me causava uma singular curiosidade.

— Diabo! dizia eu commigo, estamos em terra italiana, apesar da policia ingleza, e é provavel que apesar da muita cerveja que habita Malta, ainda por ahi haja alguma agua tufana. Sejamos prudentes.

Na noite seguinte, pela uma hora, eu, sentado á minha secretaria, escrevia para Portugal, quando senti no corredor passos rapidos, e a porta abriu-se violentamente.

Abafei um grito de terror. De pé, á entrada do quarto, livida, com os cabellos desmanchados, um penteador branco cheio de sangue, estava a condessa.

— Que foi? bradei.

Ella tinha caido n’um sophá, muda, com os olhos fixos, meio loucos, os dentes trémulos.

Eu borrifava-a d’agua, tomava-lhe as mãos, fallava-lhe baixo, e perguntava-lhe, aterrado, dando-lhe os nomes mais doces para a serenar:

— Que foi, minha querida, que foi?

Via-lhe os vestidos cheios de sangue.

— Feriram-n’a?

Ella fez um gesto negativo.

— Então? então? disse eu.

A pobre senhora queria fallar, erguia-se, suffocava, anciava, parecia n’uma agonia.

De repente atirou-se aos meus braços e desatou a chorar.

— Fale, diga, insistia eu.

— Mataram-n’o, disse ella.

— Mataram quem?

— Rytmel.

— Como? Onde?

— No jardim... Vá!

XI

 

Corri ao jardim. Os meus passos instinctivamente, apressaram-me para o lado da pequena porta verde aberta no muro.

Estava aberta. Ao lado, junto de uma moita de baunilhas, estendido no chão, levemente apoiado no cotovello, vi Rytmel.

— Então? gritei-lhe, abaixando-me anciosamente para elle.

— Só ferido...

— Como? onde?

Não respondeu, os olhos cerraram-se e desfalleceu sobre a relva.

Corri ao tanque, trouxe um lenço ensopado em agua, molhei-lhe as faces e as mãos: a ferida era na parte superior do peito, do lado direito, por baixo da clavicula. Vi que não era mortal.

Eu estava n’uma extrema hesitação. Para onde levar aquelle homem?

O mais racional era conduzil-o a um quarto do hotel; mas isso era dar ao facto uma publicidade ruidosa, fazel-o cair sob o dominio da policia, arrastar até á acção dos tribunaes inglezes o nome da condessa. Porque eu tinha comprehendido tudo. Sabia agora, bem, quem na vespera entrára rapidamente pela porta verde com uma chave falsa. Sabia bem a quem pertencia o punhal indio achado nas moitas de buxo. Comprehendia a commoção de Carmen, quando eu a surprehendera ali, no jardim, embuçada n’um burnous, esperando. E comprehendia desgraçadamente a que quarto se dirigiam os passos de Rytmel dentro do jardim de Clarence-Hotel.

Era, pois, necessario encobrir aquella aventura. E Rytmel, apesar dos obscurecimentos do desmaio e da dôr, tinha-o pensado tambem, porque me disse com uma voz expirante:

— Escondam-me em qualquer parte!

Sahi logo á rua. Passava um daquelles carros ligeiros, d’um só cavallo, que percorrem, com extrema velocidade, e com immensa doçura, as ruas inclinadas de La Valette. O vatturino era italiano. Fallei-lhe vagamente n’um duello, dei-lhe um punhado de shellings, ameacei-o com os policemen, e pul-o absolutamente ao serviço do meu segredo.

Collocámos Rytmel no carro; com mantas fizemos-lhe uma especie de ninho, commodo e molle, e o cavallo trotou rapidamente, pela rua de S. Marcos, para casa de Rytmel. Ahi grande rumor entre os officiaes inglezes. Eu contei uma incoherente historia d’assalto ao florete, em que a minha arma subitamente se tinha desembolado. A historia era inacceitavel; mas era facil comprehender que havia por traz d’ella um segredo delicado, e isto era o bastante para a altiva reserva de gentlemen.

Rytmel, aos primeiros curativos, serenou e adormeceu.

Tudo tinha sido feito em silencio, desapercebidamente. Fui tranquilizar a condessa. Eram tres horas da noite. Havia temporal, e eu sentia quebrar o mar nas rochas da bahia. Tudo dormia em Clarence-Hotel.

— Agora nós! disse eu. E dirigi-me ao quarto de Carmen.

Havia luz. Abri a porta, corri o reposteiro, entrei. A luz era frouxa, desmaiada. Ao principio não distingui ninguem e ouvi apenas soluçar. Emfim sobre um sophá, deitada, enroscada, sepultada, vi Carmen, com a cabeça escondida, o penteado solto, coberta de sangue e abraçada a um crucifixo. Ao pé, sobre uma mesa, havia uma garrafa de cognac e um pequeno frasco azul facetado. Quando sentiu os meus passos no tapete, Carmen levantou-se um pouco no sophá. N’aquelle momento a sua belleza era prodigiosa.

Tinha os cabellos soltos: os olhos reluziam como aço negro, e o penteador, aberto sobre o peito, deixava vêr a belleza maravilhosa do seio.

Confesso que não foi a idéa da vingança e do castigo que me tomou o espirito diante d’aquella mulher tão terrivelmente possuida da paixão. Lembraram-me as figuras tragicas da arte, lady Macbeth e Clithemnestre, e tanta belleza, tanto esplendor, fizeram-me subir ao cerebro um vapor de amores pagãos.

Ella tinha-se erguido e, com uma voz secca:

— Que quer?

Eu fiquei calado.

— Bem sei. Vem buscar-me. Fui eu que o matei. Está ahi a policia, não? Estou prompta. É pôr um chale.

— Ninguem o sabe, disse-lhe eu baixo, e, sem saber por quê, commovido.

— Que me importa? Não o occulto. Matei o meu amante. Fui eu. Ah! pois quê? nós outras damos a nossa vida, a nossa alma, entregamos todo o nosso ser, pomos n’isto toda a nossa existencia, a nossa honra, a nossa salvação na outra vida, e lá porque vem outra que tem os cabellos mais loiros ou a cinta mais fina, adeus tu, para sempre! olá creatura! despreso-te, tu foste para mim o momento, o capricho, a futilidade. Ah! sim? Então que morra. Que quer mais? Vá buscar os policemen.

Eu disse-lhe então, em voz baixa:

— Fui encontral-o banhado em sangue.

Ella olhou-me desvairadamente um momento, e de repente, arremessando-se sobre o sophá, abraçou-se ao crucifixo e com grandes lagrimas, com um delirio de soluços:

— Ah, meu Deus, perdoae-me! Perdoae-me, Jesus! Perdoae-me! Fui eu que o matei! Estou doida de certo. Pobre Rytmel! Rytmel da minha alma! Não o torno a vêr, não lhe torno a fallar! Acabou-se para sempre!... Jesus, o que eu sinto na cabeça!... Em Calcuttá adorou-me, aquelle homem. Ajoelhava aos meus pés, eu queria morrer por elle. Diga-me,escute: enterraram-n’o? Está muito ferido? Eu não o feri no rosto? não, isso não! Vá depressa. Vá buscar a policia!... Mas porque me não prendem? Ah meu pobre Rytmel! eu morro, eu morro, eu morro! D’aqui a pouco começam a tocar os sinos!..

Ergueu-se com gestos de louca, foi ao espelho, compoz o cabello com ar desvairado, e de repente voltou a abraçar, apaixonadamente, o crucifixo negro.

— Escute, disse-lhe eu. Rytmel não morreu.

— Não morreu? gritou ella.

De repente, arrojou-se aos meus braços que a ampararam, tomou-me a cabeça entre as mãos, e fitando-me com uma grande angustia:

— Dize-me: não morreu? Está salvo?

— Está, disse eu.

— Juras?

— Juro.

— Quero vêl-o, quero vêl-o já! gritou ella. O meu chale, o meu chale! Procure-me ahi o meu chale. Aposto que não lhe fizeram bem o curativo... Positivamente não lh’o fizeram! Se não lhe acudo! Que diz elle? Chora? Pobresinho! Adormeceu? Onde é a ferida? Maldita seja eu! maldita seja eu!

Com uma exaltação delirante procurava abrir as gavetas, derrubava os moveis, arremessava as roupas, fallando, gesticulando, e ás vezes cantando.

— Meu Deus, faz-se tarde! Que ando eu a procurar? Que horas são? Elle falou no meu nome?

Veio tomar-me o braço:

— Vamos.

— Onde?

— Vêl-o. Quero vêl-o. Quero! não me diga que não. Quero pedir-lhe perdão, amal-o, servil-o, ser a sua criada, a sua enfermeira...

Parou, e desprendendo-se do meu braço:

— E a outra? Não a quero vêr lá! Ella está lá? Não quero que ella o trate. Mato-a, se a vejo. A outra, não, não, não! Não a deixe chegar ao pé d’elle. Peço-lhe a si. Não, não a deixe chegar. Eu só, só eu basto.

Subitamente cerrou os olhos, estremeceu, deu um grande suspiro, e caiu no chão immovel.

Levantei-a, deitei-a no sophá, borrifei-a d’agua; e ella com uma voz expirante:

— Eu morro! eu morro... chame um padre. Não lhe tinha dito... Envenenei-me.

— Envenenou-se? gritei aterrado.

— N’aquelle frasco, alli!

XII

 

O medico, apressadamente chammado, declarou que não havia perigo. Carmen tinha tomado o veneno n’um preparado fraco, e n’uma porção diminuta. Podia porém receiar-se que a sua extrema susceptibilidade nervosa, a exaltação dos seus espiritos, provocassem uma febre cerebral. Mas, ao despontar do dia, adormeceu, vencida por uma prostração absoluta, em que a vida só se fazia sentir pelos ais soluçados que se lhe desprendiam do peito.

Fui então vêr a condessa. Não se tinha deitado. Ficára embrulhada n’um chale, sentada aos pés da cama, n’uma attitude absorta de dôr e de inercia que me encheu de piedade. Era dia. Mas as janellas conservavam-se fechadas, e as luzes ardiam melancolicamente. As jarras estavam cheias de flôres.

Sobre uma pequena mesa havia um serviço de chocolate, de porcelana azul, para duas pessoas. O chocolate tinha arrefecido, as flôres murchavam.

— Então? disse ella quando me viu.

— Então! elle está curado, e bom n’um mez. A condessa deve partir dentro de quinze dias.

— Ao menos quero dizer-lhe adeus... um momento, um instante que seja! Não me póde impedir isto: não m’o impeça, não?

— De modo algum, prima. Eu mesmo lh’o facilito.

— E ella?

— Ella, minha prima? Entrei no quarto d’ella para a arrastar ao primeiro policeman que passasse. Sahi jurando que em toda a parte aquella mulher me havia de achar a seu lado para a defender e, se ella o quizesse, para a amar.

— Tem talvez rasão. É uma verdadeira mulher.

— É mais do que isso, minha prima... Se alguma vez a paixão se encarnou n’este mundo n’um aspecto divino foi n’aquella mulher. É a deusa da paixão. De resto tem a grande qualidade: — a logica.

Eu, na realidade, tomara por Carmen uma grande admiração! Eu, que na sua saude e na sua belleza nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora nas suas horas de dôr e doença, o seu fiel cavalliere serviente. Vi-a convalescer sob os meus cuidados: D. Nicazio tinha ido para Sicilia. Sustentei os primeiros passos que ella deu no seu quarto, extremamente magra, com o olhar quebrado, uma transparencia morbida na physionomia, e a imaginação doente.

Começou logo a entregar-se a longas orações, a leituras piedosas. O seu intento era entrar n’um convento em Hespanha, e ali, matar o seu corpo na penitencia e na dôr. Passava agora os dias nas egrejas. Estava mudada nos seus habitos e nas suas maneiras. A sua belleza mesmo tomava uma expressão ascetica. Tinha-se verdadeiramente desligado do mundo. Ás vezes olhava-me, e dizia de repente, lembrando o convento:

— É triste! Aos vinte e oito annos!

Mas a exaltação religiosa retomava-a, e então perdia-se em esperanças, idéas de uma redempção pela oração, pelo jejum, pelo silencio e pela contemplação. N’aquelle espirito visitado por todas as paixões, e sempre n’uma vibração exaltada, entrava por seu turno o sombrio catholicismo hispanhol, e vendo o logar deserto das outras idéas do mundo, acampava lá serenamente.

Um dia pediu-me para ir vêr Rytmel antes de partir para Hispanha.

— É como irmã da caridade que o quero vêr!

Levei-a a casa de Rytmel, uma noite. O quarto estava mal alumiado pela desmaiada luz de velas de stearina. A pallidez de Rytmel era dolorosa sobre a brancura do seu travesseiro. Carmen entrou, arremessou-se de joelhos ao pé da cama d’elle, tomou-lhe uma das mãos e ficou ali soluçando longo tempo. Rytmel chorava tambem.

Eu tinha-me encostado á parede, e sentia invadir-me uma tristeza, profunda e insondavel como a noite. Um visinho, cuja janella abria para o estreito pateo, para onde dava tambem uma janella de Rytmel, tocava n’esse momento na sua rebeca, com uma melancholia plangente, a walsa do Baile de mascaras, que, sendo doce e tenebrosa, desperta não sei que idéas de festa e de morte, de amor e de claustro.

Rytmel queria levantar Carmen, fallar-lhe. Mas ella estava prostrada, com o rosto escondido na beira de leito, soluçando; e apenas a espaços dizia:

— Perdôe-me, perdôe-me!

Rytmel por fim, com uma ternura insistente, ergueu-a, tomou-a nos braços, disse-lhe as coisas mais elevadas e mais doces; e com uma meiguice e um encanto infinito beijou-a nos olhos.

A pobre creatura córou, eu senti renascerem-se as lagrimas. Querido e pobre Rytmel! como elle teve n’aquelle momento a ternura ideal, e o divino encanto do perdão!

Ella com uma simplicidade, em que já se sentia a immensa força interior que lhe dava a fé, fallou a Rytmel de Deus, do convento em que queria entrar, da ordem que preferia, com palavras naturaes e tocantes, que nos enchiam de magoa. Por fim beijou a mão do seu amante.

— Adeus, disse ella. Para sempre! Resarei por si.

E ia sahir, de vagar, succumbida, quando de repente, á porta do quarto, parou, voltou-se, olhou-o longamente; os olhos encheram-se-lhe de uma luz sombria e terrivelmente apaixonada; o peito arquejou-lhe; empallideceu, e com os braços abertos, os labios cheios de beijos, n’um impeto da sua antiga natureza, correu para se atirar aos braços d’elle com o phrenesi das velhas paixões. Mas quando tocou no leito, estacou, cahiu de joelhos, e n’um grande silencio e n’um grande recolhimento beijou-lhe castamente os dedos! Depois tomou-me o braço, e sahimos.

Ao outro dia chamou as criadas e repartiu por ellas todos os seus vestidos, rendas e toilettes. Deu as suas joias a um padre inglez para as distribuir pelos pobres. Frascos, bijouterias, essencias, tudo destruiu. Confessou-se, esteve todo o dia resando na egreja de S. João e preparou-se para partir. Todos os que a conheciam choravam.

Á noite, quando fazia a sua pequena mala, mandou-me chamar, fechou a porta do quarto e entregou-me o seu testamento, para eu o deixar depositado em Malta, de sorte que D. Nicazio o recebesse á sua volta da Sicilia. Deixava-lhe tudo.

Depois foi silenciosamente ao espelho, tirou uma rede da cabeça e o seu immenso cabello caíu, quasi até ao chão, em grossos anneis, esplendido, forte, immenso, e d’uma poesia sensual.

Tomou uma thesoura, e febrilmente, a grandes golpes, abateu aquellas tranças admiraveis, que teriam sido uma gloria publica no tempo da Grecia.

Eu estava absorto pela belleza, magoado com o desastre. Parecia-me já aquillo o começo do claustro.

Carmen apanhou o cabello caído, embrulhou-o n’um lenço, e, entregando-m’o, disse:

— Guarde essa lembrança. É a verdadeira Carmen, a outra que eu lhe deixo ahi. Agora peço-lhe uma derradeira cousa. Prepare tudo e leve-me a Cadiz. Ámanhã... é possivel?

— Ámanhã não; mas dentro d’uma semana, juro-lh’o, teremos visto do mar as montanhas de Valencia.

Ella no entanto passava rapidamente as mãos pelos cabellos, dando-lhes uma feição masculina. Era encantadora assim. A sua belleza tomava uma expressão ingenua de um extraordinario mimo. Ella sorria ao espelho, eu olhava-a, e via, entre as duas luzes, a sua imagem, como n’um leve vapor azulado e luminoso. Ella, lentamente, esquecida, tinha tomado o pente e compunha o geito do cabello. Eu por traz d’ella sorria. Ella, no enlevo do espelho, na surpreza de se achar linda com o cabello cortado, sorria tambem. Parecia-me ver-lhe as faces tomarem a côr da vida e o seio a ondulação das paixões. Ia dizer-lhe alguma cousa doce, chamal-a ao mundo... De repente arremessou o pente, e curvando a cabeça, foi silenciosamente ajoelhar diante de uma cruz grande, que havia junto do seu leito, e sobre a qual agonisava um Christo com a cabeça pendente, a testa gottejante, os braços distendidos, o peito constellado de chagas!

XIII

 

D’ahi a doze dias, a condessa e o conde voltavam no paquete da India a Gibraltar. O conde partia triste: Mademoiselle Rize ficava, e o Chiado esperava-o! De mais, o estar só com a condessa embaraçava-o: as melancholias d’ella, as suas lagrimas inexplicaveis, a sua pallidez apaixonada, toda a incoherencia do seu caracter, que aquelle excelente libertino explicava pelo nervoso e pelo histerismo, davam-lhe uma certa fadiga enfastiada, e, como elle dizia, embirrava com romantismos. A condessa, essa, partia resignada: Rytmel depois da sua convalescença iria para a Italia, para aquecer as forças ao sol de Napoles, e mais tarde em Paris, e depois em Lisboa, teriam alguns mezes livres, para, como diziam os antigos poetas, os tecerem d’ouro, seda e beijos.

Foi com saudade que os vi embarcar. Eu ali ficava para cumprir um dever melancholico: acompanhar a Cadiz aquella infeliz Carmen, ainda ha pouco de uma belleza tão radiante, e agora vencida pelas amargas penitencias.

Lord Grenley, que ia para Cadiz dentro de quatro dias, tinha-nos offerecido, a Carmen e a mim, o seu yacht. Aceitei com alegria. Era um transporte commodo e livre, e lord Grenley uma companhia symphatica, porque me assustava a idéa de ver durante uma longa viagem no mar, a debilidade de Carmen estiolar-se ao meu lado. Emfim uma tarde partimos.

Era ao escurecer, o ceu estava nublado, quasi chuvoso. Carmen ia profundamente doente. Magra, transparente, livida, sem poder suster-se, sem dormir, alimentando-se quasi só de chá, a sua vida parecia estar a todo o momento a passar os limites humanos. Não erguia os olhos dos seus livros de orações. Aquella exaltação a que faltava a terra procurava febrilmente todos os caminhos do ceu.

Foi com uma grande tristeza que vi Malta sumir-se nas brumas da noite. Nunca mais tornaria a ver aquella branca cidade. Não fôra ali feliz. Mas amamos todos aquelles logares em que por qualquer sentimento ou por qualquer idéa a nossa natureza palpitou fortemente. E ali tinham ficado lagrimas minhas.

Logo no primeiro dia de viagem, Carmen esteve expirante. Havia um forte balanço. O mar era grosso, e nós receavamos mau tempo quando nos avisinhassemos das correntes do golpho de Lião.

Carmen quasi sempre queria estar na tolda, ao ar, ao sol, vendo o mar. Arranjava-se-lhe uma cama, e ali ficava, olhando, scismando, soffrendo, e conversando com o capellão de lord Grenley, velho cheio d’uncção, que tinha um encanto singular fallando das cousas do ceu. Aquella scena era profundamente triste, sobretudo de tarde; o sol cahia, a immensa sombra começava a cobrir o mar: Carmen fallava baixo: nós, em redor, escutavamol-a, ou, calados, seguiamos o correr da maresia, olhavamos o fim da luz. Um marinheiro escossez vinha ás vezes cantar as arias das suas montanhas, cantos de uma tristeza suave e larga como a vista de um lago.

Ao terceiro dia de viagem, Carmen, subitamente, teve um grande accesso de febre e quiz confessar-se. O medico disse-nos que ella não chegaria a ver as montanhas da Hispanha. Que horas dolorosas! Não imagina, senhor redactor, que intensidade têem, na vasta extensão das aguas, as dôres humanas! Junta-se-lhes o sentimento da immensidade, e não sei que terrivel instincto do irreparavel.

A confissão de Carmen foi longa. Quando terminou quiz fallar-me.

— Adeus! disse-me ella, vou morrer.

Disse-lhe que não, quiz dar-lhe esperanças ephemeras.

— Não, não, respondeu ella, nada de enganos. Tenho coragem. Quem a não tem para ser feliz? Chame lord Grenley.

Começou então diante de nós a fallar da sua vida. Disse-nos qual fôra a sua mocidade, os desvarios do seu coração, a exigencia das suas paixões, e fallou-nos da sua ligação com Rytmel, com elevação, como de um sentimento quasi legitimo. Não teve uma queixa, uma saudade, um desdem. As ultimas palavras da sua vida eram dignas. Depois tirou um rozario do seio.

— Veiu de Jerusalem, disse-me, dê-lh’o a ella.

Eu tinha os olhos humedecidos, Carmen, entretanto, empallidecia terrivelmente.

— Levem-me para cima, quero vêr o mar, quero vêr a luz.

Era uma manhã nebulosa e triste. O mar estava mais sereno. Collocámos Carmen cuidadosamente sobre almofadas e mantas, voltada para Malta. Lá tinha ficado a sua vida. Esteve muito tempo calada, com as mãos cruzadas.

— Que terra é aquella? perguntou mostrando com a mão tremula, uma linha escura no horisonte.

— A Africa, respondeu lord Grenley.

Ella ficou olhando vagamente:

— Fui uma vez a Tanger, disse com uma voz lenta, era nova então! Era feliz! Estava um dia lindo... Era em maio...

Calou-se. E voltando-se para mim:

— Faz agora mezes que passámos n’esta altura, lembra-se? E aquelle punch a bordo do Ceylão? Quando eu cantei uma habanera! Eu cantava então... O que é ser alegre! Tudo acabou, nunca mais! nunca mais!

E como fallando comsigo mesma:

— Tanta paixão, tanta inquietação! E aqui está: venho morrer só, no meio d’este mar. Pobre de mim! E no fim, se eu em nova, em solteira, o tivesse encontrado, a elle... Eu pedia pouco então: um coração leal. Tive gostos simples sempre. As loucuras vieram depois... O marinheiro que canta as arias escocezas, onde está? Chamem-n’o. Não, não o chamem que me vae fazer chorar.

Nós escutavamol-a; a sua alma fallava como um passaro canta ao morrer. As nuvens desfaziam-se, o azul aclarava, ia apparecer o sol.

— Vejam isto, continuou ella. Em nova diziam-me és bonita, amo-te! E agora que morro aqui, quem se lembra de mim? Os que me conheceram onde estão? Uns mortos, todos esquecidos. Estão agora alegres, amam outras, vão para os theatros. E eu estou aqui a morrer. E elle? lembrarse-ha de mim? Tambem não. Choro, choro, quando penso que o não vejo, que não está aqui, que morro e que elle se não lembra de mim!

E soluçava, com a cabeça escondida no travesseiro.

— Rytmel é uma alma nobre. Estima-a, creia...

— Mas esquece-me! dizia ella suspirando e limpando os olhos. De resto, de mim ninguem se lembra. Eu não sou uma mulher de quem se seja enfermeiro. «Estás boa? estás alegre? amo-te». «Estás a morrer? Vae-te fazer enterrar para outro sitio!» É bem triste este mundo!

Lord Grenley, com os olhos rasos d’agua, mordia convulsamente o seu cachimbo.

— Guarde bem os meus cabellos, sim? dizia-me ella. Diziam que eram bonitos. Se eu por acaso não morresse, haviamos de ir todos a Sevilha. Que lindo que é Sevilha. Á tarde, nas Delicias, todo o mundo traz um ramo de flores.

De repente abriu demasiadamente os olhos como deante d’uma cousa pavorosa; levou as mãos á face, gritou:

— Meu padre, meu padre, tenho medo. Não é já o castigo, não? Se cáio no inferno, meu Deus!

— O inferno é uma visão, minha pobre senhora! dizia o capellão. Os castigos de Deus não são feitos com o fogo.

— Tem razão, tem razão. Sinto-me morrer, venham todos. Lembrem-se de mim, sim?

Alguns marinheiros tinham-se approximado. O capellão ajoelhou: todos tiraram os barretes, resavam baixo. Lord Grenley ficara de pé, descoberto, immovel. Grossas nuvens escuras corriam outra vez no ceu. O vento começava a assobiar.

— Adeus, disse-me ella. Dê-me a sua mão. Bem. Fui uma boa rapariga, por fim... Um pouco estroina, talvez... Lord Grenley, obrigada. Que tristeza, ter morrido alguem no seu yacht!... Que é aquillo, além, ao longe? É a terra? São nuvens. Ah! meu querido Rytmel! ah! meu amor, ouve-me, onde estás tu?

Duas grandes, tristes lagrimas, correram-lhe na face: teve ainda força para as enchugar. Depois sorrindo:

— Olhem, não pensem em mim com tristeza. Sómente ás vezes, quando estiverem juntos, e elle estiver tambem, lembrem-se d’esta pobre rapariga que para aqui morreu no mar... E digam: pobre Carmen! ahi está uma que sabia amar devéras!

E dizendo isto, estremeceu, fallou desvairadamente em Malta, em Sevilha, em Rytmel, e, dando um gemido profundo, morreu.

O sino de bordo começou a tocar lentamente, Lord Grenley curvou-se, beijou-lhe a testa, e cerrou-lhe os olhos. Eu chorava.

Então um velho marinheiro approximou-se, e sobre aquelle corpo, que fôra Carmen, estendeu a bandeira ingleza.

XIV

 

Imagine, senhor redactor, em que lamentavel estado de espirito nós ficámos. Lord Grenley encerrou-se no seu camarote, eu e o capellão ficámos velando junto do cadaver. A tarde descia. Uma nevoa extensa cobria o mar. O rugido do vento era lugubre. Todos estavam profundamente apiedados. A velhos marinheiros, que tinham naufragado no mar da India e dobrado o Cabo, eu vi saltarem as lagrimas...

— Pobre creança! diziam elles.

Para aquellas rudes naturezas simples, essa mulher nova, vestida de branco, pallidamente linda, era a miss, a virgem, a creança! Um arranjou-lhe uma corôa d’algas seccas, e foi piedosamente pôr-lh’a sobre o peito. Era o ramo de flôres do mar.

Eu pensei algum tempo em conduzir o corpo de Carmen até Hispanha, mas o piloto observou-me que teriamos ainda 4 ou 5 dias de viagem, e o corpo não podia esperar na sua pureza durante esta longa demora. Por isso resolvemos deital-o ao mar, quando viesse a noite. Assim, ficámos o capellão e eu, durante a tarde, junto do cadaver, lembrando as suas bellezas e as suas desgraças.

A noite caiu; cobriu as aguas. O capellão desceu. Fiquei só. Havia sobre o cadaver, pendente d’uma corda, uma lampada. Descobri-lhe o rosto, afaguei-lhe os cabellos. A sua belleza tinha-se fixado n’uma immobilidade angelica, como se a morte lhe tivesse restituido a virgindade. A curva adoravel do seu seio apparecia em relevo na bandeira que a cobria: nunca tanta força tinha produzido tanta graça! Olhei-a durante muito tempo, enlevado na sua contemplação. As lagrimas cahiam-lhe dos olhos.

— Pobre creatura! dizia eu na solidão dos meus pensamentos, pobre creatura! vaes para a mais profunda das covas, para a sepultura errante das aguas. Uma febre d’amor consumiu-te na vida, uma tempestade eterna te agitará na morte! Condiz o tumulo com a existencia! Como o mar tu foste bella, orgulhosa e ruidosa. Como o mar tu tiveste as tuas tormentas, as tuas calmarias occultas, as tuas grutas, os teus monstros secretos, a tua elevação religiosa, a tua espuma immunda. Como sobre o mar, sobre o teu cerebro correram as doces idéas geniaes e puras como vélas de pescadores: as pesadas ambições modernas, rápidas e incisivas como rodas de paquetes; as brutaes exigencias do temperamento, estupidas e victoriosas como monitores armados. Despedaçaste-te de encontro á fria reserva d’um amor que se extingue, como elle se esmigalha contra a escura insensibilidade das rochas. Como elle tem o vento que é o seu tyranno, tu tiveste a paixão. Vae, pobrezinha, repousar em paz, no fundo das algas verde-negras! Triste destino! Quem mais do que tu, sentiu, amou, estremeceu, córou, quiz, venceu? Quantas lagrimas causaste! Quantas loucas palpitações! Quantos desejos para ti voaram como bandos de pombas! Quantas vozes perdidas te chamaram! Quanta fé fizeste renegar! Quanta altivez fizeste succumbir! E tanta vida, tanta acção, tanta vontade, um tão grande centro vital como tu foste, um grumete amarra-lhe duas balas aos pés e atira com elle ao mar! E aqui jaz o ruido do vento, e aqui jaz a espuma da onda!

De que te serviu o ser, o que fizeste ao sangue, á vontade, aos nervos, ao pensamento, que trouxeste do seio da materia? Que idéa deixaste, que memoria, que piedade? Que foste tu mais do que um corpo bello, desejado e photographado? Fizeste parte, durante a vida, d’aquellas insensiveis bellezas naturaes, que o homem usa e arremessa. Foste como uma camelia, ou como a penna d’um pavão. Foste um adorno, não foste um caracter. Nunca tiveste um logar definido na vida, como não terás um tumulo certo na morte! Adeus pois para sempre, oh doce ephemera! o teu destino é a dispersão!

Por isso aqui estás só! Os que te amaram onde estão? onde estão os que tu amaste? Aqui estás só, vestida com o teu penteador branco, na tua manta de xadrez, sobre o convez d’um navio, só, sempre no meio de homens, como na vida! Não ha uma flôr aqui que se te deite em cima, nem uma renda em que se te envolva a face morta. Morres entre cordagens, no meio de rudes marinheiros, que veem agora da sua ração d’aguardente. Nem um padre catholico tens que te falle dos anjos, doces camaradas da tua mocidade. Nem um parente, sequer, te comporá a dobra do teu lençol! Não se cantará nenhum responso em volta do teu caixão. Não farás scismar as noivas que te vissem passar no teu enterro. As mãos alcatroadas de velhos marinheiros te arremessarão ao mar!

Pois bem, minha pobre amiga! que importa? Estás na logica do teu destino, que é a revolta. Viveste longe das estreitas conveniencias humanas, morres em plena liberdade da natureza.

Não verás o teu leito cercado de parentes avidos, de criados indifferentes, de padres que te dêem os santos oleos bocejando, n’um quarto escuro e abafado, entre o cheiro dos remedios: morres diante do ceu, aos emballos do mar, ao cheiro da maresia, entre velhos marinheiros da India, que te choram, sob o sublime ceu, na plena liberdade dos elementos!

Não serás vestida com velhas sedas, não levarás na cabeça antigas corôas funebres, não te cobrirão com galões de ouro falso; irás com o teu penteador branco, como para uma alegria nupcial!

Não te pregarão n’um caixão estreito, nem te apertarão como um fardo; terás o contacto das cousas vivas; as lagrimas do mar correrão sobre os teus cabellos; poderás toucar-te d’algas; os raios do sol poderão ir procurar-te como antigos amantes dos teus olhos, e a tampa do teu esquife será o infinito azul.

Não sentirás em volta de ti no teu enterro cantos em mau latim, o som das campainhas, a voz aguda dos meninos do côro, os commentarios estupidos da multidão, as grosseiras enchadadas do coveiro. Serás lançada á tua cova do mar no meio de um silencio militar, levando por mortalha a bandeira ingleza, ao cantochão infinito dos ventos e das aguas.

Não ficarás para sempre apertada em cinco palmos de terra, sentindo a bôca das raizes pastar o teu seio e a multidão dos vermes entrar no teu corpo como n’uma cidadella vencida. Não! a tua morte será uma perpetua viagem: viverás nas grutas transparentes de luz, guardarás os thesouros mysteriosos, visitarás as cidades de coral que luzem no fundo do mar, amarás o corpo encantado d’algum louro principe, outr’ora pirata normando! Andarás dispersa no elemento, sombra infinita, alma da agua!

Sobre o teu tumulo não virão sentar-se os burguezes, benzer-se os sachristães, cacarejar as gallinhas; sobre a tua azul sepultura errará o vento, melancolico velho que visita os seus mortos.

Não terás um epitaphio metrificado por um poeta elegiaco, e approvado pela camara municipal; serão os reflexos ineffaveis das estrellas que se encruzarão para formar sobre a tua sepultura as lettras do teu nome...

Um marinheiro bateu-me no hombro.

— São 11 horas, disse elle.

Ergui-me em sobresalto, e pensando nas vãs chimeras que se tinham estado formando no meu cerebro n’aquelle triste scismar, disse commigo:

— Pobre de mim! Tinham-me esquecido os tubarões.

Eram 11 da noite. Não havia estrellas. Todos estavam reunidos na tolda. Tinham-se posto lanternas nas cordagens, e accendido archotes.

Dois marinheiros tomaram o cadaver nos braços. O padre abençoou-o. Ligou-se-lhe ao corpo com uma corda a bandeira ingleza. Os grumetes trouxeram duas balas. Uma foi amarrada aos pés, outra ao pescoço. As botinhas d’ella, de seda preta, appareciam fóra da orla do vestido e da bandeira que a envolvia. As luzes dos archotes faziam tremer sobre o mar vagas claridades. No silencio sentia-se o estalar da rezina.

O sino de bordo começou a tocar. Os marinheiros elevaram o corpo á altura proxima da amurada. Então ergueu-se um canto grave, melancolico, de uma infinita tristeza. O padre resava com as mãos impostas sobre o cadaver. E affastando-se, disse:

In eternum sit!

Todos responderam:

Amen!

O vento gemia. Lord Grenley adiantou-se e disse em voz alta:

— N’este dia, a bordo do Romantic, navio inglez, morreu Carmen Puebla, de nação hispanhola, e para eterna protecção do seu corpo, como sendo sepultada em territorio britannico, foi amortalhada na bandeira ingleza. In pace.

Amen! responderam os marinheiros.

— Em nome do Padre, disse o capellão, do Filho e do Espirito, santa seja a sepultura a que ella é deitada, e que fique como em terra sagrada n’estas aguas do mar!

Amen! murmuraram os marinheiros.

— Ao mar! disse lord Grenley com voz forte.

Os dois marinheiros suspenderam o cadaver sobre o mar; todos se approximaram, fazendo circulo com os archotes; o cadaver, arremessado, mergulhou com um som lugubre, desappareceu, e a espuma das vagas correu-lhe por cima.

Os archotes foram apagados n’um triste silencio. O navio affastava-se. Eu, encostado á amurada, tinha os olhos fitos no ponto vago onde o corpo desapparecera. Ella alli ficava morta. Encheu-me o peito uma longa saudade. Lembrava-me d’ella, dançando no convez do Ceylão, rindo á mesa de Clarence-Hotel. Tudo tinha acabado. Nunca mais! nunca mais! Alli ficava com uma bala aos pés!

O vento refrescou.

— Vento d’Eeste! disse o marinheiro de quarto.

— Vem de Malta... pensei eu.

E as minhas ultimas lagrimas cairam sobre o mar...

XV

 

Cheguei ao fim das minhas confidencias.

Quando desembarquei em Lisboa a condessa tinha ido para Cintra. Vi-a, ao fim d’esse verão, em Cascaes. Ella mostrava-se alegre, o que era talvez uma maneira de estar triste! Cascaes estava imbecilmente jovial: batia-se o fado! No inverno seguinte a condessa encontrou-se, em Paris e em Londres, com Rytmel. Voltou d’essa viagem mais triste e mais pallida. Lentamente, pareceu-me que a confiança do seu coração se affastava de mim. Apartei-me, n’uma reserva discreta. Nunca mais nos nossos dialogos, todos exteriores e ephemeros, se alludiu á viagem de Malta.

Eu, no entanto, continuava recebendo de Rytmel as cartas mais expansivas e mais intimas. A nossa amisade, que a exaltação e o acaso das paixões formara, affirmava-se agora n’uma communhão serena de sentimentos e de idéas. N’uma d’essas cartas Rytinel fallava-me de miss Shorn, uma rapariga irlandeza...

«É uma neta dos bardos, uma sombra ossianica, a alma da verde Erin!» dizia-me elle.

No começo d’esta primavera recebi uma carta de Rytmel que continha estas palavras:

«Parto para ahi: um quarto livre e solitario em tua casa; bons charutos; uma casa affastada e livre n’um bairro pobre; um coupé escuro com bons stores; reserva e amisade. — Frater, Rytmel

Executei escrupulosamente as suas determinações.

Ha sessenta dias, talvez, Rytmel chegou, no paquete de Southampton. Pareceu-me mais triste, mais concentrado.

Havia certamente um segredo, uma preoccupação, um cuidado qualquer, que habitava no seu peito. Esperei que elle se abrisse expansivamente commigo n’alguma das longas horas intimas, em que, no jardim de minha casa, fallavamos na essencia dos sentimentos. Nunca dos labios d’elle saiu uma confidencia: apenas duas ou tres vezes o nome de miss Shorn, que segundo elle me disse, era uma relação recente de sua irmã, appareceu vagamente no indefinido da conversação.

A sua vida em minha casa, era de um extremo recolhimento.

Parecia mais um refugiado politico do que um amante amado. Não tinha relações nem convivencias. Ás vezes de manhã saía n’um coupé cuidadosamente fechado, que perpetuamente estacionava á porta.

De tarde, ás oito horas, saía tambem, e só o via no outro dia ao almoço, em que elle apparecia sempre levemente contrariado pelas cartas que lhe vinham de Londres e de Paris. Notei por esse tempo umas certas tendencias mysticas no seu espirito, de ordinario tão positivo e tão rectilineo. Surprehendi-o mesmo uma vez lendo a Imitação.

N’um caracter logico e frio como o de Rytmel, aquelle estado de espirito era de certo o symptoma de uma grave perturbação do coração.

Fallava ás vezes em Carmen, sempre com saudade. Gostava de conversar das cousas de religião e das legendas do ceu. Fallava na Trapa, no socego immortal dos claustros, e nas chimeras da vida. Eu extranhava-o.

Desde que elle viera para Lisboa eu não voltara a casa da condessa, por um certo sentimento altivo de reserva e de orgulho. N’esse tempo estava ella absolutamente livre. O conde achava-se em Bruxellas, onde Mademoiselle Rise o tinha captivo dos nervosos e ageis bicos dos seus pés, que então escreviam pequeninos poemas no tablado do Theâtre du Prince Royal.

Um dia, inesperadamente, recebi da condessa um bilhete que dizia:

«Meu primo: Se um gelado tomado n’um terraço com uma velha amiga não sobreexcita excessivamente os seus nervos, espero-o esta tarde em... (era uma quinta ao pé de Lisboa que ella habitava algumas vezes no verão). Traga o seu amigo Rytmel.»

Mostrei o bilhete a Rytmel, e pelas seis horas da tarde rodavamos na estrada de... n’um coupé com os stores corridos.

A condessa tinha acabado de jantar. Passeámos nas sombrias ruas da quinta, apanhámos flôres, e voltaram aquellas boas horas intimas d’outr’ora, cheias de abandono e de espirito. A condessa estava radiante.

Ás onze horas da noite fomos tomar chá para o terraço. Havia um admiravel luar. O terraço tem na sua base um grande tanque, cheio de plantas da agua, de largas folhas, e de nenufares, e onde poderia navegar um escaler. A agua escorre alli com um murmurio doce. A hora era adoravel. As redondas massas de verdura do jardim, os arvoredos, appareciam como grandes sombras pesadas e cheias de mysterio. Ao longe os campos e os prados esbatiam-se n’um vapor docemente luminoso e pallido. Havia um silencio suspenso. As cousas pareciam contemplar e sonhar.

Sobre uma mesa no terraço estava um bule do Japão e tres pequeninas chavenas de Sévres, uma das quaes, de um gosto original e feliz, era a da condessa. Tinhamos tomado chá, e eu notava a excentrica fórma, o delicado desenho, a pura perfeição d’aquella maravilhosa e pequena chavena, que a condessa chamava a sua taça.

— O rei Arthur só podia beber pelo seu copo de estanho... disse Rytmel, sorrindo.

— E eu só posso tomar chá por esta taça, disse a condessa. Não sei porque, representa para mim o socego, a felicidade. Quando estou triste e bebo por ella parece-me que se dissipa a nuvem. Uma flôr que eu queira conservar ponho-a dentro d’essa chavena, e a flôr não murcha. Demais o chá bebido por ella tem um gosto especial: ora veja, captain Rytmel! beba!

Toda aquella glorificação da chavena tinha tido por fim o poder Rytmel, na minha presença, sem isso ser menos discreto, beber pela chavena da condessa, — encanto supersticioso e romantico, que pertence de grande antiguidade á tradição do amor!

Rytmel agradeceu, deitou uma gota de chá na pequenina chavena dourada. Eu no entanto olhava a condessa.

Estava originalmente linda. Tinha o vestido levemente decotado sobre o seio. E o luar dava-lhe aquelle limbo poetico que todas as claridades mysteriosas, ou venham de astros mortos ou de luzes desmaiadas, dão ás figuras louras.

Havia um piano no terraço; a condessa sentou-se, e sob os seus dedos o teclado de marfim, chorou um momento. O silencio, o infinito da luz, a attitude contemplativa das cousas, o murmuroso chorar da agua nas bacias de marmore, tudo nos tinha insensivelmente lançado n’um estado de suave e vago romantismo...

De repente a condessa elevou a voz e cantou. Era a ballada do Rei de Thule.

Alguem tinha traduzido aquella ballada em rimas populares. E era assim que a condessa gostava de a dizer, em logar d’usar as palavras italianas com a sua banalidade de libretto.

    Houve outr’ora um rei de Thule     A quem, em doce legado,     Deixou a amante ao morrer     Um copo d’ouro lavrado.

Eu ficara junto do piano, fumando. Rytmel, de pé, encostado á balaustrada, enlevado no penetrante encanto d’aquella canção, olhava a agua do tanque, onde tremia a claridade da lua, conservando a taça na mão.

Os dedos da condessa volteavam no teclado de marfim; e a sua voz continuava, triste como a propria ballada:

    Sempre o rei achava n’elle     Um sabor da antiga magoa,     E se por elle bebia     Tinha os olhos rasos d’agua.

— Não cante mais, disse Rytmel de repente, voltando-se.

Á luz da lua eu vi-lhe os olhos humidos como os do rei da canção, e na sua mão tremia a pequena chavena dourada.

Ella voltou para Rytmel um longo olhar triste, e a sua voz proseguiu, vibrando mais saudosa no silencio:

    N’alta esplanada normanda     Batida da fria onda     Reune os seus irmãos d’armas     A uma tavola-redonda...

Parou com as mãos esquecidas sobre o teclado:

— Foi talvez como n’uma noite d’estas, disse ella. Estamos em plena legenda. O terraço batido da agua, a lua, os velhos amigos reunidos, a lembrança da pobre amante, que se apaga na memoria d’elle, o presentimento da morte... Que linda noite para o rei atirar a sua taça ao mar!

E cantou os derradeiros versos da ballada:

    Foi-se com tremulos passos     Na amurada debruçar...     E com as suas mãos antigas     Atirou a taça ao mar!

    Junto ao seu corpo real     Estão os pagens a velar     E a taça vae viajando     Por sobre as aguas do mar...

De repente Rytmel deu um pequeno grito: descuido, movimento, ou irreprimivel impulso d’um coração que se revela, Rytmel deixara cahir a pequena chavena ao tanque, entre as folhas dos nenufares.

A condessa ergueu-se, extremamente pallida, apertando com ambas as mãos o coração: e com os olhos marejados de lagrimas, disse para Rytmel:

— O rei de Thule ao menos esperou que ella morresse!

Elle desculpava-se banalmente, como se todo o mal fosse perder-se aquella fragil preciosidade de Sévres. A condessa deu-me o braço um pouco tremula, e penetrámos na sala.

D’ahi a dias foi a catastrophe. Outros que a contem. Eu deponho aqui a minha penna, com a consciencia de que ella foi sempre tão digna, quanto a minha intenção foi sincera.