O Orador

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O Orador
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


(William Jacob)

Um negro encontra-se com outro negro, amigo seu, em plena rua, e queda suspenso ao vê-lo de terno novo, chapéu novo, sapatos novos, e outras demonstrações de prosperidade.

— Qu e é isso? — exclama. — Tão elegante? Fizeste algum bom negócio, Tom?

— Mas do que um bom negócio, Willian. Tenho agora uma profissão.

— Uma profissão?

— Sim; sou orador!

— Orador? E que é isso de ser orador?

— Não sabes? — estranha o calunga; — pois vou explicar-te o que é um orador. Se tu, encontrando-se com um amigo qualquer, lhe perguntares quanto são dois e dois, ele te responderá, simplesmente: "dois e dois são quatro". Se, porém, fizeres a mesma pergunta a um orador, o orador te dirá isso desta forma: "Quando, no curso dos sucessos históricos; quando, através da marcha ininterrupta da humanidade pelo caminho dos tempos chegam a ser uma necessidade ininterrupta da Humanidade pelo caminho dos tempos chegam a ser uma necessidade imprescindível o uso e a prática da numeração e o emprego e aproveitamento das quantidades que os algarismos exprimem e especificam; — é forçoso, é ineludível, é fatal, a exigência de somar o conceito matemático que significamos com o duplo da unidade, com a abstração aritmética que representamos, com igual quantidade homogênea, e, nesse caso, ninguém poderá contestar-nos se afirmarmos, resolutamente, decididamente, claramente, que um mais um são dois, e dois e dois são, invariável e eternamente, quatro". Isto é ser orador; compreendes?