O Parocho da Aldeia/III

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O Parocho da Aldeia por Alexandre Herculano
Capítulo III: Uma Escorregadela

A proposito do que o padre prior era de casamenteiro ainda me lembra uma velha viuva, a senhora Perpetua Rosa (Deus lhe fale na alma!) que morava ao cabo do logar n’uma barraquinha á beira do rio muito caiada, com seu rodapé de vermelhão, e sombreada por cinco ou seis choupos que nasciam da agua. Tinha ella (a velha, não a barraquinha) uma filha, formosa rapariga, chamada Bernardina. Era uma das leiteiras mais desenxovalhadas de que se gabavam os arredores de Lisboa: bonita, que não havia mais dizer: alva como toalha de freira, airosa como pinheirinho de quatro annos. Uns poucos de rapazes da aldeia andavam doudos por ella. Nas noites dos domingos, em que havia dança e viola na casa da brincadeira, [1]a tia Jeronyma, que era capaz de espreitar este mundo e o outro, mirando da sua rotula o que se passava á entrada da rustica sala do baile, pouco distante do presbyterio, notava que, apenas a Bernardina apparecia, os rapazes entravam após ella com muita mais furia e pressa do que pela manhan haviam corrido para a igreja ao ultimo toque da missa do dia. Antes d’isso já a boa da velha tinha reparado no modo por que elles se encostavam aos cajados para lados oppostos, em frente uns dos outros, nos motejos do cantar ao desafio, no pôr dos barretes á banda, nos olhares que mutuamente se lançavam, no pegarem em seixos e atirarem-nos a grande distancia a modo de competencia, sem dizerem palavra, como se cada um quizesse mostrar aos seus rivaes a robustez do proprio braço. D’isto tudo tirava a tia Jeronyma agouro de muita pancadaria,—­“por amor daquella delambida—­dizia a ama do prior em suas caridosas murmurações—­que anda toda arrebicada por baralhotas, em quanto a pobre da mãe moureja todo o sancto dia ao sol e á neve naquelle rio, para ganhar um bocado de pão sem vergonha da cara. Havia de ser comigo!”

E o mais é que a tia Jeronyma não se enganava nas suas previsões. Chegou vespera de Reis: houve á noite brincadeira ou baile extraordinario: passou-se ahi tudo na melhor ordem: riu-se, tocou-se viola, dançou-se, cantou-se ao desafio, e cada qual se recolheu a esperar entre os lençoes os sanctos Reis magnos, designação popular dos magos do Oriente, cuja vinda a Bethlem se memora na Epiphania.

Houve, porém, nessa noite um saloio mais cortez, que esperou vestido e ao relento, no caminho da serra, a vinda dos tres sanctos personagens. Foi o Manuel da Ventosa, estendido com uma tremebunda e magnifica massada, de que esteve ido, a ponto de dar ao padre prior uma daquellas noitadas que suscitavam a colera da tia Jeronyma, e de que já acima fiz honrosa e especifica menção.

O Manuel da Ventosa era filho unico d’um moleiro ricaço, chamado Bartholomeu, velho honrado, mas avarento como seiscentos Satanáses. Teve a ventura (o rapaz, entende-se) de caír em graça á Bernardina. Amoricos d’aqui, amoricos d’acolá, janella na cara a um, respostas tortas a outro, segredar e rir de vizinhas, raivas de desprezados: somma total—­zás, uma sova mestra no Manuel da Ventosa, por ter tido a negregada dita de merecer a preferencia daquella que era o enlevo de todos os corações.

Mas enganaram-se. O amor redobrou com o sacrificio; os desprezos cresceram com a vingança. O que começára por passatempo converteu-se em paixão violenta: um fogo íntimo devorava a alma de Bernardina, e desbotava-lhe as faces, d’antes tão frescas e rosadas como as de um seraphim da peanha da Senhora da Conceição, obra de esculptor insigne. No Manuel da Ventosa, isso não falemos: quando melhorou da doença andava entre parvo e abstracto: attribuia-o o licenciado dos sitios a depressão cerebral produzida por alguma ripada nas vertebras; mas, se existia depressão de cerebro, outra era a sua origem. Certa mulher de virtude que havia na aldeia jurava e tresjurava que o moço moleiro tinha a espinhela caída. Historias. Eu, apesar de ser então uma creança, sabia bem onde batia o ponto; por isso nunca fui para ahi.

Por encurtar razões: os dous amavam-se como loucos. As pessoas desinteressadas achavamnos um par completo; e com bom fundamento: o Manuel da Ventosa era um galhardo mancebo, unico herdeiro de ginja abastado, e Bernardina uma rapariga honesta. As beatas da aldeia, ás quaes, conforme a direito, incumbia pôr ao soalheiro a vida privada de cada uma, no capitulo da honra nunca se tinham atrevido a ir devassar a barraquinha de Perpetua Rosa. Podia a senhora Perpetua Rosa gabar-se dessa! E de feito, muitas vezes, mettida no rio até os joelhos, em discussões acaloradas com as suas illustres amigas, as outras lavadeiras pelo circulo de Lisboa, a ouvi empraza-las para que formulassem precisamente certas interpellações infundadas, rejeitando com desprezo alguns remoques bernardos relativos a Bernardina, e appellando para a opinião do paiz representada pelos seus orgãos, as beatas do soalheiro.

Mas se os dous se amavam com tanto extremo, e eram feitos e talhados para puxarem o mesmo carro matrimonial, porque não íam pedir ao padre prior o conjungo vos? Ahi é que certo animal torcia certa parte do corpo, que eu e o leitor sabemos. Por não terem pedido esclarecimentos sobre o facto é que as lavadeiras faziam declamações vagas.

Eis o caso: o Bartholomeu da Ventosa era rico e avaro; mas bestialmente avaro: Perpetua Rosa pobre, pobrissima. Por mal de peccados fôra ella antigamente lavadeira do casal do moinho, ou antes dos moinhos, porque para a exacção historica deve-se advertir que o moleiro possuia dous. Uma vez, que levára grande porção de roupa, tinha perdido tres saccas velhas e rotas. Bartholomeu quando tal soube quiz morrer.—­“Juro por esta—­dizia elle esbravejando e beijando os dous dedos indices cruzados sobre a bôca:—­juro que Perpetua Rosa me ha-de pagar as minhas tres saccas novas em folha, que me perdeu, a desalmada!”—­Mas nem novas nem velhas; porque a verdade era que ella não tinha com que as pagasse. Forçado foi, portanto, ao moleiro fartar a vingança com ordenar-lhe que não lhe tornasse a rapar os pés á porta. Desde este fatal dia nunca mais Bartholomeu da Ventosa pôde encarar com a lavadeira: o seu odio vivia involto e aquecido na imagem das tres saccas gravada naquelle coração de avarento. Assim para elle seria cousa monstruosa e abominavel só o imaginar a possibilidade de seu filho Manuel casar com Bernardina, a quem a pobreza fôra de sobra para impedimento dirimente, quanto mais o ser filha de semelhante mãe. Tal era a difficuldade insuperavel que se oppunha á união dos dous amantes.

E os mezes íam passando, e as murmurações crescendo, e saltando já das lavadeiras para as beatas. Tinham visto mais de uma vez (dlzia-se: valha a verdade) o moço moleiro rondando a deshoras a barraquinha da beira do rio. Havia tambem quem dissesse que nas madrugadas de alguns domingos, quando a senhora Perpetua Rosa saía para a missa das almas, se enxergava ao lusco fusco um vulto, que, cosendo-se com os choupos, se aproximava da porta da Bernardina, e... e etcaetera. Era muito vêr! Mas a cousa ía correndo, e no fim de contas quem ganhava com essas historias eram as linguas dos maldizentes, que se refocillavam na palangana da murmuração, e o diabo que se lambia para, por estas e por outras, os catrafilar a seu tempo.

Veio a quaresma: sancta quadra; mas que por isso mesmo é ás vezes boa de mais. Desobriga vae, desobriga vem, sabe-se muita cousa. O padre prior andava já com a pedra no sapato; porque elle não era cégo nem mouco. Meu dicto, meu feito. Certo dia (por signal que era uma sexta-feira), quando o sacristão veio abrir a porta da igreja, estavam já no adro á espera Perpetua Rosa e Bernardina para se confessarem. Não tardou o prior. Aviou-se a mãe: ajoelhou a filha: persignou-se, benzeuse, disse mea culpa, e começou sua confissão.

Se isto fosse uma historia de polpa, cortesan e culta, viria neste ponto o casus foederis de eu tomar a postura tragica a la moda, carregando as sobrancelhas, e dizendo em tom soturno e lento:—­“O que ahi se passou entre o veneravel ancião e a donzella ninguem o soube!—!—!—!—­Mysterio!—!—!—! Acontecimento horrivel e fatal!—!—!—! As lagrymas ardentes do velho caíram sobre a cabeça da infeliz ajoelhada a seus pés, cujo futuro (não o dos pés, mas o da infeliz) era de maldicção!—!—!—!” Limitada, porém, a minha narrativa a chan e plebéa recordação de um pobre parocho d’aldeia, reflectirei em summa, que me não é licito revelar o segredo do confessionario. Os sigillistas já deram que fazer ao marquez de Pombal, cuja consciencia, como todos sabem, era delicadissima em materias de orthodoxia catholica, e em tudo. Calo-me, porque não quero caír no erro que elle condemnou. Direi só que foi mui demorada a confissão de Bernardina, e que, ao alevantar-se d’ante os pés do prior, ella trazia os olhos como punhos: e digo-o, porque o viram os circumstantes, a saber, o sacristão e a senhora Perpetua Rosa, que devotamente ía descabeçando a penitencia em quanto a filha se desobrigava.

Ao sol posto desse mesmo dia o prior espairecia a vista pela veiga coberta de verdura, assentado no cruzeiro, segundo o seu costume. A brisa da tarde era fria e aguda, porque a primavera começava apenas; mas o velho parocho parecia não a sentir, embebido em cogitações; e tão fundas íam estas, que, em vez de traçar na terra com a bengala as usuaes figuras geometricas, ou anti-geometricas, conservava-a immovel e perpendicular, com as mãos cruzadas sobre o castão, firmando a barba em cima. Conhecia-se-lhe no olhar e no mecher tremulo dos beiços, que algum grande cuidado o inquietava. E tanto assim, que nem reparou nos tres signaes das ave-marias, deixando-se ficar sentado, e até, oh profanação! com o chapeu na cabeça. Felizmente não passava ninguem naquelle momento, que podesse notar a involuntaria irreverencia do distrahido pastor.

Mas um vulto assomou lá ao longe, e os olhos do velho brilharam como animados por vida nova. Quem quer que era descia do monte, e vinha para a banda do rio. O caminho passava perto do adro: o prior ergueu-se, estendendo a mão, e brandindo a bengala na direcção do vulto.

“Oh Manuel! psio, Manuel! chega á fala! Oh rapaz!”

O filho do moleiro (porque era elle) hesitou um pouco. Alguma cousa lhe roía na consciencia. Mas vendo o prior em pé com ar de quem estava resolvido a ir atravessar-se-lhe diante, cortou para elle com o barrete azul e vermelho na mão.

“Boas tardes, padre prior: quer alguma cousa?”

“Quero que você chegue aqui, porque temos que falar.”

O tom com que estas palavras foram proferidas, e mais que tudo aquelle você, fizeram estremecer o Manuel da Ventosa. O prior tractava todos por tu, e o você na bôca delle era presagio infallivel de temporal.

O rapaz parou diante do velho com os olhos cravados no chão, torcendo e destorcendo a orla do barrete que tinha entre as mãos. O padre prior mediu-o de alto a baixo, e começou ex abrupto:

“Então que historias são estas da Bernardina, sô velhaco da conta benta? Sabe o que fez, grandessissimo tractante? Aonde foi você aprender isso? (Esta pergunta era asnatica). É a doutrina que eu lhe ensinei em pequeno? De que tem servido os exemplos de modestia e honra que lhe dá seu pae? De ser um vadío, um seductor, um... Deixe estar: a cadeia não se fez para as aranhas, e elrei nosso senhor (o bom do parocho puxava em politica para a eschola historica) ainda não mandou queimar a náu de viagem...”

“Eu, padre prior... como lhe ía dizendo—­interrompeu atarantado o saloio, coçando na cabeça, e procurando atar o fio das suas idéas inteiramente confundidas.

“Cale-se; não me responda:—­proseguiu o velho parocho, achando talvez pouco cinco perguntas para ouvir uma resposta.—­Diga-me: que tenções eram as suas enganando uma rapariga honesta?”

“Eu...”

“Não me replique; já lh’o disse. Lembre-se de que é o seu pastor que lhe fala. Ahi está porque você ainda não veio desobrigar-se. Pensava que, por ella ser miseravel e sua mãe uma triste viuva, não tinham ninguem neste mundo? Enganou-se. Tem-me a mim. Saiba que a poder que eu possa ha-de ír bater com o costado na India, ou casar com a Bernardina.”

Aqui o pobre rapaz atirou-se de joelhos a chorar aos pés do velho, e exclamau soluçando:

“E é isso o que eu quero!... Juro-o por aquella arvore da bella cruz que alli está...”

“Vera cruz, salvage! vera cruz!—­interrompeu o prior, visivelmente abrandado com o pranto, humildade, e declaração categorica do moço moleiro.

“Mas, como eu ía dizendo—­proseguiu este—­por’mor daquella diabrura das saccas meu pae não póde tragar a senhora Perpetua Rosa. Se lhe falasse em tal, fazia-me os ossos tão miudos como a picadura da mó. Se a Bernardina tivesse dote, ainda talvez elle consentisse... Mas sem isto; bem lhe sabe do genio. Se o padre prior podesse adivinhar o que me tenho ralado, havia de ter dó de mim. Não como, não durmo, ando doudo. Não basta a massada que gramei... Ahn! ahn! ahn!”

Chorava em berreiro, e o chôro não o deixava continuar. As lagrymas começaram tambem a bailar nos olhos do prior, que ficou por alguns momentos pensativo.

“Levanta-te, rapaz dos meus peccados:—­disse elle por fim, puxando pelo braço do moleiro.—­Vamos; confessa a verdade: estás arrependido do que fizeste?”

“Estou, sim senhor! Ahn! ahn!”

Nesta parte, apesar do chôro e soluços, parece-me que o saloio mentia.

“Promettes casar com Bernardina, se teu pae consentir?”

“Prometto, sim senhor! Ahn!”

“Ora, pois, socega, e não chores. Deixa o caso por minha conta. Volte para casa, e não me torne a rondar pela beira do rio. Entende? Olhe que!...”

O prior estendeu a bengala para o lado dos moinhos, que assobiavam lá no alto, e Manuel da Ventosa voltou cabisbaixo e a passos lentos pelo caminho por onde viera. Sentia confusamente que se aproximava a crise mais temerosa da sua vida.

Então o padre prior assentou-se outra vez no poial do cruzeiro, e recaíu em profunda meditação. Depois de um bom quarto de hora, poz-se em pé e encaminhou-se para o presbyterio. Tinha anoitecido. De memoria de homens nunca ceiára tão tarde!

E andando, o velho sacerdote repetia aquellas palavras do livro de Job, onde, entre parenthesis, ha mais philosophia que n’um aduar inteiro de philosophos:

Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc. [2]

O porque o dizia, bem o sabia elle! Ceiou sem dar palavra: resou o breviario: deitou-se, e apagou o candieiro. Contra o costume, Fr. Bernardo de Brito e Fr. Diogo do Rosario ficaram aquelle serão na estante. A ama sentiu-o assoar-se, tomar tabaco, e escarrar até muito tarde. Cousa rara! signal evidente de que tinha negocio de vulto, que lhe embargava o dormir!

Peior foi pela manhan. Apenas luziu o buraco, o padre prior saltou da cama; calçou os sapatos engraixados; vestiu a loba nova; pediu o chapeu de tres ventos, a bengala de castão de prata, e os oculos fixos, que só punha em dias de missa cantada, e disse á ama que se aviasse com o almoço, porque tinha de saír cedo.

Emquanto a tia Jeronyma, para maior brevidade, fazia umas papas de milho, o prior abriu um contador enorme, destes que os nossos grandes amigos inglezes nos vão agora levando em logar de vinho do Porto, tirou para fóra uma folha de papel almasso, e bradou:

“Jeronyma! oh Jeronyma!”

A velha chegou ao corredor da cozinha com o abano na mão.

“Estão quasi feitas:—­disse ella.—­Tenha paciencia um instantinho.”

“Não é isso, mulher:—­replicou o prior.—­Ouve cá: vae ao forro da escada e traze-me aquillo.”

“Isso, eu lá ponho. Mas, com sua licença, d’onde veio maquia grossa? Hontem não houve baptisado nem enterro...”

E a tia Jeronyma estendia a mão esquerda coberta com a ponta do avental, para não sujar a maquia de que falava, e ao mesmo tempo volvia olhos ávidos, ora para o bofete, ora para o prior.

“Qual carapuça!—­replicou elle fazendo-se vermelho.—­Tira-se; não se põe. Faça o que lhe digo, e dê ao démo o que sabe.”

A ama empallideceu. As palavras tira-se; não se põe eram de ruim agouro; mas vendo já o padre prior azedo, calou-se e obedeceu.

D’alli a pouco o velho parocho começava a tirar de um pé de meia uma, duas, tres peças de ouro; foi tirando até setenta: restavam apenas obra de uma duzia dellas.

“Basta:—­rosnou o prior.—­Póde occorrer uma doença. Então, Jeronyma, vem essas papas?!”

E dizendo isto embrulhava muito bem as setenta peças na folha de papel que tinha sobre o bofete, e mettia-as na algibeira da loba.

“Guarde isso, Jeronyma:”—­disse elle á ama, que entrava com as papas. E empurrou pela mesa fóra o exangue pé de meia. A ama, ao vêr aquella horrorosa sangria, esteve a ponto de largar a frigideira no chão, e de deixar o bom do padre sem almoço.

Quando voltou para a cosinha, ouviu-a o prior soluçar.

Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc.

Murmurando esta profunda sentença da Biblia, o reverendo parocho saiu pela porta fóra. A ama, vendo-o saír, andava como pasmada.

Nestas idas e voltas havia nascido o sol. O Bartholomeu da Ventosa, afanado com a sua lida, em pé á porta de um dos moinhos, bracejava, ralhava, praguejava como um possesso. Os brutos dos moços tinham-lhe quebrado já duas cordas ao enquerir as cargas de uma récua de machos pimpões presa á argola do moinho.

De repente viu um castão de bengala saír-lhe por cima do hombro. Voltou-se: era o prior.

“Olé, vossenhoria por aqui a estas horas?!... Psio, oh Zé Dorna, olha o rabicho daquelle macho!... Grande novidade, padre prior! grande novidade!... Raios te partam! Que tal’stá o filho do diabo?!”

Estas duas ultimas jaculatorias eram acompanhadas de dois reverendissimos pontapés na barriga de uma das cavalgaduras, que já estava carregada, e que parecia achar mais prudente deitar-se em quanto as outras se aviavam.

O moleiro dava assim a modo d’umas lembranças de Napoleão dictando ao mesmo tempo a dous secretarios.

“Falaste, Bartholomeu!—­replicou o prior.—­Novidade, e grande! Ha quarenta annos que sou parocho desta freguezia, e é a primeira vez que tal me succede. É negocio intrincado, e quero ouvir o teu conselho, porque tens caixa para as cousas. Rapazes—­accrescentou dirigindo-se aos moços do moinho—­safa d’aqui, que tenho que dizer ao patrão em particular.”

“Rua!—­gritou o moleiro correndo com força ambas as mãos pelo colete e pelos calções, donde saíu um nevoeiro de farinha.—­Entre vossenhoria.”

O prior entrou, e foi assentar-se n’uma tripeça que estava a um canto: Bartholomeu assentou-se sobre um sacco de trigo defronte delle. Os dous velhos mediram-se com os olhos por momentos, como se cada um delles tentasse ler no rosto do outro os pensamentos que lhes vagavam na alma. A primeira idéa que occorreu ao moleiro foi a de alguma festa que o parocho pretendia fazer, e para que lhe vinha pedir dinheiro. Batia-lhe o coração com violencia, e já imaginava trinta mentiras para evitar essa calamidade.

“Homem—­disse por fim o prior—­tenho em minha mão uma somma avultada; mais de quinhentos mil réis (o moleiro estendeu o pescoço); pertencem a um devoto, que os quer dar em dote a uma rapariga pobre desta freguezia. Encarreguei-me do negocio, e deitei as minhas linhas para dar no vinte. Mas temo não acertar, e venho bater comtigo. És honrado, meu Bartholomeu, posto que um tanto sovina: falo-te com o coração nas mãos, e...”

“Isso é o que dizem por ahi essas linguas perversas—­interrompeu o moleiro, fazendo-se vermelho de colera;—­essas mandrionas do soalheiro, porque lhes não metto no bandulho o meu remedio. Os diabos me levem...”

“Tá, ta!—­acudiu o prior.—­Ajustaremos contas na desobriga. Vamos agora ao que serve. Sem refolhos: a quem te parece que dêmos este dote? Parafusa lá.”

O moleiro poz-se a scismar, alevantando os olhos para o tecto, estendendo e revirando a mandibula inferior, e batendo de quando em quando na testa.

“Nada ... a Genoveva da Theresa não:—­ disse por fim.—­Tal mãe, tal filha. Aquella está arrumada.”

“Nem pensar n’isso é bom:—­retrucou o prior.—­Libera nos Domine. Anda, vê se atinas.”

“A Clara da Fonte tambem não...”

“Uhm!—­rosnou o clerigo, abanando a cabeça.

“A Catharina Carriça menos. Heim?”

“Tó carapuça! Ahi vae já! Fundia-me o dote em menos de um anno com tafularias tolas. Adiante.”

O leitor póde prever que o Bartholomeu da Ventosa e o seu parocho estavam no caso de duas linhas parallelas, que, prolongando-se indefinidamente, nunca podem encontrar-se: o pensamento do prior dirigia-se a Bernardina, e o moleiro já tinha affastado por tres vezes do espirito essa lembrança como uma idéa importuna.

“Eu—­disse elle finalmente, coçando na cabeça—­tinha cá uma idéa... mas não sei... Não digo nada... Acabou-se.”

“Desembuxa lá, homem! Foi para te ouvir que vim aqui.”

“Então sempre lh’o direi. Minha sobrinha Joanna é um anjo. Boa rapariga! famosa rapariga! Meu irmão Barnabé não pede esmola, é verdade; mas anda atrapalhadote. O casal dos Caniços arrasou-o este anno: deve-me já vinte moedas, e...”

O prior cortou-lhe o enthusiasmo pelos seus parentes com uma gargalhada estrondosa. O moleiro ficou de bôca aberta no meio daquelle destampatorio.

“Oh, oh, oh! querias que o meu dote servisse para pagar as tuas vinte moedas?! Não é assim?—­E, voltando immediatamente ao seu serio, proseguiu:—­Bartholomeu! Bartholomeu! Por causa da iniquidade da sua avareza me irei, e o feri: diz o propheta. A cubiça que te cega ha-de baldear-te no inferno, como tu baldêas alli para a ribanceira as mós que já não prestam. Queres mentir á tua consciencia, enganar o teu pastor, quando elle te vem pedir que o aconselhes? Isto não é bonito, Bartholomeu! Não é bonito!”

“Mas, padre prior...”

“Qual mas, nem meio mas! Deixemo-nos de historias. Bem diz o dictado:—­Fui a casa da vizinha envergonhei-me; vim á minha remediei-me.—­O melhor é seguir a primeira lembrança.”

“Então, se vossenhoria já tinha posto o dedo...”

“Tinha, tinha!—­retrucou o prior:—­Queria só ver se tu concordavas comigo: mas sacas-te com uma exquisitice de fazer arripiar. Não temos feito nada, meu Bartholomeu: não temos feito nada!”

E dizendo e fazendo, o clerigo erguia-se como para saír.

“Pois diga vossenhoria—­acudiu o moleiro ainda atrapalhado com o revertere:—­e enforcado morra eu se...”

“Não praguejes, homem! Ahi vae! Quem ha-de apanhar o dote é a Bernardina d’ao pé do rio...”

A historia das saccas era espinha que ainda lhe estava atravessada na garganta: ouvindo tal nome, o velho não pôde conter-se:

“Quem? A cara de fuinha da filha de Perpetua Rosa? O padre prior está brincando. Olha as lesmas! Umas desmaseladas, e caloteiras! Isso, nas unhas da mãe, era fogo viste, linguiça. Terçans me matem...”

“Espera, homem, espera! Não é isso o que se diz na aldeia. Tu tens osga ás pobres mulheres, e cega-te a paixão. Desmaseladas?! Basta olhar para ellas; como andam limpas na sua miseria. Caloteiras? coitadínhas! É porque não têm com que pagar ao Agostinho da tenda? Pagar-lhe-hão agora. Quinhentos mil réis ainda ficam livres, e Bernardina ha-de com elles achar um bom casamento.”

Emquanto o prior falava, uma idéa bem-aventurada illuminára subitamente a alma do moleiro. As suas tres saccas podiam não estar perdidas de todo; podiam voltar melhoradas ao moinho. Sentiu a colera desvanecer-se-lhe, como a nuvem negra que varre a brisa do norte.

“É verdade que a gente ás vezes tem cá as suas birras:—­disse elle com certo ar que queria ser fino e saía parvo.—­Cega-se com as pessoas! Vossenhoria bem sabe o que faz: dê o dote a quem quizer, que diante de mim ninguem ha-de tugir nem mugir contra vossenhoria.”

“Pois bem!—­proseguiu o prior.—­Esta lebre está corrida. Resta achar um noivo para Bernardina. Isso é bico d’obra que requer escolha e siso. Pensa no caso, Bartholomeu! Vamos a vêr se acertas melhor desta vez. Agora outra cousa. Tu és capaz: tens sabido guardar o teu dinheiro; saberás guardar o alheio. Eu para isso não presto: sou um mãos-rotas. Aqui te deixo setenta louras, que a seu tempo se hão-de entregar a quem tocarem. Incumbes-te d’isto?”

“Vossenhoria manda:”—­respondeu o moleiro, cujos olhos brilharam com o fulgor devorante da avareza ao vêr rolar as peças, que o prior tivera a cautela de desembrulhar sobre a grande arca das maquias. O velho parocho usava de uma esperteza de Satanás para fazer uma obra de Deus.

E, despedindo-se de Bartholomeu, saíu. O moleiro ficou em pé e immovel. Estava, mal comparado, como o asno de Buridan entre as duas medidas iguaes de cevada: nem se podia affastar do ouro, nem ousava faltar á cortezia devida ao padre prior. A final, por um movimento sublime de energia moral, correu pela porta fóra atrás delle, que já ía a certa distancia. Neste correr parecia-lhe sentir estalar o que quer que era dentro do coração.

“Se vossenhoria é servido do nosso almoço”—­bradava o moleiro”—­não tarda ahi um credo. Pobre, mas de boamente.”

“Obrigado! obrigado!”—­respondeu o prior sem se voltar, brandindo para trás a bengala, como quem dizia adeus. E pensava lá comsigo:—­“Fóra, miseravel sovina!”

Apenas o bom do clerigo dobrára a quina, do muro de uma quinta, que se dilatava desde a encosta até a baixa do rio, truz!... Com quem havia d’elle dar de rosto? Com o Manuel da Ventosa, de espingarda ao hombro, rede ás costas, chumbeira e polvorinho a tiracolo. O saloio ficou embaçado.

“Com que, sim, senhor! Já você por aqui me apparece a estas horas,”—­disse o prior com um gesto folgado, que forcejava por ser colerico.—­“Heim?”

“É verdade, padre prior!... Entreter um bocado... A manhan estava boa.”

“Pois não! Aos pardaes... bem sei! Ora corte-me para casa, e vá ajudar seu pae, o pobre velho, que lá anda lidando... e você feito caçador das duzias... Caçador! Pensava agora o sonso que me enganava! Vamos marchando!”

Deu alguns passos para diante, emquanto o Manuel da Ventosa fazia o mesmo em sentido contrario. Depois voltou-se de repente. O saloio também parára a olhar para trás.

“Olé. Escuta cá, Manuel!”—­O Manuel aproximou-se.

“Depois d’amanhan é necessario que você se bote aos pés de seu pae, que lhe conte a boa obra que fez, e que lhe peça licença para casar com Bernardina...”

“Pelo amor de Deus, padre prior!”—­interrompeu o triste do rapaz cheio de susto.—­“Com os figados delle, põe-me os ossos n’um feixe.”

“Não se perdia nada:”—­acudiu o velho.—­“Mas não é anno de fortuna. Era melhor que se tivesse lembrado a horas. Faça o que lhe digo, que não lhe ha-de succeder mal nenhum! Vamos.”

“Se vossenhoria entende?!...”

“Entendo, sim, senhor. A paschoa não tarda; e passada a quaresma você ha-de receber-se. Mas d’isto nem palavra! E córte!”

O tom com que o parocho proferiu estas palavras deu uma alma nova ao Manuel da Ventosa. Imaginou logo que o padre prior tinha aplanado o negocio. Não sabia se risse ou se chorasse. Instinctivamente agarrou a mão do clerigo e beijou-a. A sua gratidão era sincera. O padre prior sentia palpitar esse vivo sentimento naquellas mãos callosas, que apertavam a sua mão enrugada, naquelles labios ardentes, que pareciam devora-la. Conheceu que estava arriscado a deslizar da habitual severidade, e, affastando-se rapidamente, bradou com voz aspera, mas alguma cousa trémula:—­“Deixa-me, pateta! Deixa-me! ... e Deus te alumie para que seja esta a ultima das tuas rapaziadas.”

Fez bem em alongar-se: duas lagrymas lhe rolaram pelas faces abaixo.

Naquelle dia a tia Jeronyma chegou a desconfiar de que o padre prior tinha a bola desarranjada. Toda a manhan não fez senão cantarolar, ora um pedaço do Tantum ergo, logo um versiculo do Te Deum Laudamus, e assim por diante. Até andou por mais de meia hora a brincar com o gato do presbyterio. E, para resumir em poucas palavras a extravagancia de que parecia possuido, baste dizer que, ao descalçar-se, arrumou os çapatos para um canto, e depois de ter lido um capitulo da chronica de Cister, pela primeira vez da sua vida metteu na estante essa especie de Carlos-Magno monastico sem o pôr de pernas ao ar. Aquelle coração sentia dilatar-se na sancta paz do Senhor.

E porque não cabia o bom do padre na pelle? Porque tinha feito felizes duas creaturinhas, sacrificando-lhes as suas economias de quarenta annos. Elle achava isso uma cousa naturalissima; mas a providencia dava-lhe uma parte da sua recompensa nessa alegria suave e intima, que nunca pôde entrar nos palacios dos grandes e poderosos do mundo; porque é o premio, não do beneficio insolente da opulencia, mas sim da abnegação caridosa da humildade.

O padre prior tinha tido tempo de estudar individualmente o caracter dos seus freguezes, e por isso seguíra aquelle caminho para chegar ao fim moral que se proposera. De feito o velho moleiro andou abstracto todo o dia. Pois de noite? Não pregou olho! Ás escuras via diante dos olhos as setenta peças a reluzirem como uma visão ao mesmo tempo celeste e infernal. Depois, naquellas horas longas de vigilia punha-se a calcular a acção prodigiosa que ellas teriam incorporadas com mais de outras tantas que elle tinha enterradas. Era o que bastava para dar o harmonioso epitheto de minha á azenha do Ignacio Codeço, e pôr lá o seu Manuel a labutar, e a ganhar dinheiro, muito dinheiro: e elle a tomar-lhe contas ao sabbado: meia moeda ... uma moeda ... duas moedas; e a pilha-lo em uma gaziva de seis vintens; e despertava daquella especie de extasi ao atirar-lhe o primeiro pontapé. Era um regalo! Ria ás vezes ao lembrar-se de uma que elle havia de pregar no outro dia ao Agostinho da tenda. Essa estava segura. Ia-lhe comprar o créto de Perpetua Rosa por metade, por um terço, talvez.—­“Oh sô Agostinho, você não vê que isso é dinheiro perdido? Cinco mil réis! seis mil réis! Vamos; é minha a divida.”—­E tripudiava na cama, e assentava-se, lançando mão dos calções, para ir, para correr, para voar, antes que algum diabo (pensava elle) fosse metter no bico ao usurario do tendeiro a mudança de fortuna de Bernardina. Chegava, naquelle fervor, a enfiar os calções mas recaía na cama ao vêr, ou antes ao não vêr, que era escuro como breu. Momentos havia em que as suas idéas tomavam outro curso: representava-se-lhe seu irmão Barnabé a largar-lhe o casal dos Caniços pelas vinte moedas e por mais umas trinta peças com que o engodava; e elle a fazer estercar as terras, e alqueivar, e lavrar, e semear, e mondar, e ceifar, e a ter na eira uma serra de trigo durazio, e achar uma excommungada de uma velha pedinchona a furtar-lhe á sorrelfa uma abáda daquelle grande trigo, e elle a desanca-la com uma tranca. E saía desse pesadello de homem acordado a ranger os dentes, e com a mão agarrada á maçaneta do catre. D’ahi a pouco vinha-lhe outra enfiada de imaginações, e d’ahi outra, e outra, até que por fim a idéa de que as setenta peças eram suas lhe ficava de tal modo encravada e enraizada na alma, que o arrancar-lh’a de lá seria o mesmo que metter-lhe no bucho uma apoplexia. Então punha-se a scismar no pensamento capital e gerador de todas essas imagens bemaventuradas que lhe luziam no olho, o como chamaria á muxilla as setenta do dote. Abafa-las? Nega-las ao prior? Estremeceu horrorisado; porque Bartholomeu era homem de probidade, a seu modo, que, sem malicia seja dicto, vinha a ser um modo como o de tantos homens honrados que todos nós conhecemos. Nada! Era preciso um meio natural, decente, legitimo de arranjar o negocio. Caíu então no que o prior queria que elle caísse. Casou in mente o seu Manuel com a Bernardina. Feito isto, as peças eram suas; suas porque o Manuel pellava-se com medo delle, e casado ou solteiro havia de ficar-lhe sempre debaixo dos cabeções. Assentado este ponto, o moleiro sentia um certo refrigerio interior que o consolava. Não tardou a adormecer no somno do justo, e em placidos sonhos balouçou-se todo o resto da noite entre a azenha do Ignacio Codeço e o casal de seu irmão Barnabé. Saía ás vezes desta hesitação beatifica sonhando no gatazio que ía pregar ao Agostinho, e ria com um rir de innocencia. Era um sancto velho aquelle Bartholomeu da Ventosa!

O leitor deve estar já sufficientemente aborrecido de tão comprida historia do moleiro, da lavadeira e do prior; por isso não o farei assistir ás explicações entre o pae e o filho. Mais repousado o sangue com o dormir, Bartholomeu reflectiu pela manhan que o propor ao parocho o seu Manuel para noivo de Bernardina tinha suas parecenças com o haver-lhe proposto para ser dotada sua sobrinha Joanna, idéa maldicta que lhe tinha custado uma risada nas suas barbas e um revértere com texto de Biblia. Por outra parte pensava que Manuel era o seu unico herdeiro, e que se Bernardina trazia para a ceia, elle levaria para o jantar, principio consagrado pela philosophia saloia, talvez desde o tempo dos mouros. Emfim o pae nestes vaivens, e o filho com os receios que o leitor póde imaginar, fizeram ao declararem-se uma verdadeira scena de comedia. Ao cabo, porém, de tudo entenderam-se. Assim o padre prior, á custa das suas economias de quarenta annos, teve a consolação de fazer tres sermões, um a Bartholomeu sobre a cubiça e avareza, outro a Manuel sobre o trabalho, sobriedade e mais virtudes annexas á condição de pae de familia, outro finalmente a Bernardina sobre a honestidade, modestia e sujeição das mulheres casadas. Depois, quando veio a paschoa, regalou-se de atar o laço matrimonial entre os dous amantes, acabando por uma vez com as interpellações das lavadeiras, com as espreitaduras dos curiosos, e com as murmurações do beaterio. Custou-lhe a brincadeira setenta peças, e o atirar á rua o sermão sobre a avareza, porque o Bartholomeu continuou a ser sovina até a hora da morte, na qual piamente se deve crer o catrafilou o diabo, não só por ser unhas de fome, mas por ter refinado a ponto, que, perdendo a vergonha, já começava a sizar nas maquias, com escandalo dos freguezes, e grande mortificação de seu filho Manuel.

Agora duas palavras sobre a festa do orago da parochia, o meu rico S. Pantaleão. O leitor vio o padre prior caminhando pela estrada dolorosa da moral evangelica: é necessario que o veja tambem radiante no meio das pompas do culto.


  1. Assim se denominava ainda ha poucos annos uma casa, na proximidade da cada uma das aldeias vizinhas de Lisboa, emprestada por algum ricaço ou alugada, em que se ajunctava nas noites dos domingos para brincar (dançar) a mocidade aldeian.
  2. Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para alli. Job: cap. 1, v. 21.