O Pavor de Jack Goldson

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O Pavor de Jack Goldson
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


(História Inglesa)

Minutos após o derradeiro suspiro, viu-se Jim Barret arrastado pelo peso das suas faltas, às portas escuras do Inferno. Ao vê-lo, Belzebu consultou rapidamente a sua escrituração, e comunicou-lhe, coçando o ventre com os chavelhos: — O amigo tem de escolher entre estes dois suplícios: o fogo eterno ou o rio de fezes humanas. Decida-se!

— Pode-se ver antes de escolher? — indagou Jim Barret, com a sua franqueza de inglês e de homem prudente.

— Naturalmente, — declarou o demônio. `Aqui não se engana ninguém.

E fazendo-lhe um sinal, conduziu-o à fogueira enorme, crepitante, em que os corpos danados se torciam, se enrodilhavam, como se fossem pedaços de madeira inflamável.

— Vamos ver o rio de fezes, — pediu o desventurado, arrepiando-se todo ao ver, com os olhos fora das órbitas, o espetáculo horrendo, que ele jamais imaginara.

Transportado à margem do rio de imundices, o condenado quase desfalece. Era horrível de ver, e, mesmo, de imaginar. Pesada, grossa, vagarosa, a corrente escura descia, de modo quase imperceptível, no seu leito de podridão. Aglomerava-se ali, compondo-a, o produto de todos os esgotos da terra. O cheiro e a vista daquele horror causavam náuseas, tonturas, vertigens.

Jim hesitava, com a mão no nariz, na escolha daquele suplício para toda a eternidade, quando descobriu, fazendo esforços inomináveis para conservar a cabeça fora do rio, o seu amigo Jack Goldson, velho companheiro de deboche, que tinha ido prestar contas, antes dele, à justiça divina.

De um golpe de vista, Jim examinou a situação do antigo camarada. O nível do rio atingia, justo, abaixo do seu lábio inferior, não obstante as tentativas desesperadas do condenado, no sentido de levantar o rosto um pouco mais, e ficar com o queixo de fora.

— É horrível este suplício, — observou Jim Barret a Belzebu; — mas, parece que eu prefiro isto à fogueira.

A estas palavras, ditas em meio tom, ouviu o antigo estroina uma voz estrangulada, que subia da corrente de fezes.

— Tu vens aqui para o rio, Jim?

O inglês olhou para baixo, reconhecendo a voz de Jack Goldson.

— Vou, sim, — confirmou o recém-chegado.

Horrorizado, com a podridão até à borda do lábio inferior, Jack Goldson ergueu os olhos, numa súplica. Ao seu entendimento de antigo estudante de física, surgiu aquele princípio científico, segundo o qual um corpo sólido mergulhado num líquido aumenta o nível deste. E foi com essa idéia horrível, que pediu, de baixo:

— Por Deus, Jim, desce devagarinho.

E sentindo a imundice do rio à altura do seu lábio inferior:

— Não faças onda... Sim?