O Pintor

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O Pintor
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


O salão de pintura havia aberto, naquele ano, com uma concorrência desusada de trabalhos de mérito. Amoedo, os Timóteos, Santiago, Fanzers, Bicho, haviam concorrido com verdadeiras galerias. Ao lado de animais domésticos pintados para o almoço por um artista de São Paulo, via-se uma salada de alface de João Batista da Costa, seguida, logo, de uma abundante sobremesa de frutas, preparada por Augusto Petit para a Sociedade Nacional de Pomicultura.

O grande sucesso desse ano era, porém, a contribuição de Pedro Rogério, o artista vitorioso com que o Rio Grande do Sul acabava de brindar o Brasil. Forte, musculoso, bonito, com uma forte cabeleira negra e uns olhos negros como os cabelos, o jovem pintor brasileiro especializara-se em pintar bebês, de quatro anos para baixo. A sua galeria de crianças era um encanto, pela graça, pela inocência, pela verdade com que ele apanhava, num traço, numa atitude, num sorriso, toda a complexidade da alma infantil. Despeitados com o sucesso do provinciano de gênio os companheiros aventuraram pilhérias:

— Você já viu a Maternidade?

Ou, então:

— Já foi ver a "creche" do Paulo Rogério?

A afluência de visitantes era, entretanto, cada vez maior, mais numerosa. E toda essa gente se ia aglomerar, exatamente, ao longo do muro de que pendiam as telas do pintor riograndense, cujos pirralhitos, nas atitudes mais pitorescas e originais, faziam sorrir, com gosto, as pessoas que as olhavam.

Alma de "elite", com uma paixão acentuada pelas coisas da arte, mme. Torres Mota não se conteve, ao visitar a exposição, e foi, com toda a graça da sua elegância, apertar, efusivamente, a mão do artista.

— Seria um prazer, meu caro professor, acredite — dizia ela, toda num sorriso, sacudindo nervosamente a mão a Paulo Rogério; — seria um prazer para mim recebê-lo em nossa casa... Apareça!... Vá tomar um chá conosco...

Abigail Torres Mota morava, então, na Voluntários da Pátria, no riquíssimo palacete que o comendador Torres Mota, o velho e opulento capitalista das minas de enxofre de Panaguarú, havia mandado reconstruir. E era ali, nesse ambiente de luxo, de gosto, e de elegância requintada, que o pintor e Abigail fumavam, íntimos, a "cigarrette" da fraternidade na Arte, quando o comendador penetrou, repentinamente, no salão, a barriga servindo de proa, o rosto em fogo, os passinhos miúdos.

— João!... — exclamou madame, pulando do divã, e correndo a abraçar o marido. — É este o artista de que te falei... O professor Paulo Rogério...

E as mãos juntas, os olhos no teto, num entusiasmo que se confundia com o êxtase:

— Ah, João!... — rugiu o capitalista, os olhos fora das órbitas.

E segurando a mulher com o braço esquerdo, enquanto, com o direito, apontava ao artista a porta do salão:

— Já por ali, "seu" patife!

E empurrando-o, porta a fora:

— Quando você quiser "fazer" meninos, compre tela... Ouviu?