O Primo Basílio/XII

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Primo Basílio por Eça de Queirós
Capítulo XII


Nessa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de gala, encontrou a secretaria fechada e voltou para casa ao meio-dia. Joana à porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancela em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, surpreendeu Juliana comodamente deitada na chaise longue, lendo tranqüilamente o jornal.

Ergueu-se, muito vermelha, mal o viu, balbuciou:

— Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação tão forte...

— Que se pôs a ler o jornal, hem?... - disse Jorge, apertando instintivamente o castão da bengala. - Onde está a senhora?

— Deve estar para a sala de jantar - disse Juliana, que se pôs logo a varrer, muito apressada.

Jorge não encontrou Luísa na sala de jantar; foi dar com ela no quarto dos engomados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito aplicada e muito desconsolada.

— Tu estás a engomar? - exclamou.

Luísa corou um pouco, pousou o ferro. - A Juliana estava adoentada, juntara-se uma carga de roupa...

— Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora?

A sua voz era tão áspera, que Luísa fez-se pálida, murmurou:

— Que queres tu dizer?

— Quero dizer que te venho encontrar a ti a engomar, e que a encontrei a ela lá embaixo muito repimpada na tua cadeira, a ler o jornal!

Luísa, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, começou a remexer, a desdobrar, a sacudir com a mão trêmula...

— Tu não podes fazer idéia do que aqui vai por fazer - ia dizendo. - É a limpeza, são os engomados, é um servição. A pobre de Cristo tem estado doente...

— Pois se está doente que vá para o hospital!

— Não, também não tens razão!

Aquela insistência em defender a outra, que se repoltreava embaixo na sua chaise longue, exasperou-o:

— Dize cá, tu dependes dela? Havia de dizer que tens medo dela!

— Ah! Se estás com esse gênio! - fez Luísa com os beiços trêmulos, uma lágrima já nas pálpebras.

Mas Jorge continuava muito zangado:

— Não, essas condescendências hão de acabar por uma vez! Ver aquele estafermo, com os pés para a cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendê-la, a fazer-lhe o serviço, ah! Não! É necessário acabar com isso. Sempre desculpas! Sempre desculpas! Se não pode que arreie. Que vá para o hospital, que vá para o inferno.

Luísa lavada em lágrimas assoava-se, soluçando.

— Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras? Ela não respondia, num grande pranto.

— Por que choras, filha? - perguntou ele com uma impaciência comovida, chegando-se a ela.

— Para que me falas tu assim? - dizia, toda soluçante, limpando os olhos. Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau gênio para mim! O que me sabes dizer são coisas desagradáveis.

— Coisas desagradáveis! Minha filha, eu disse-te lá nada desagradável! - E abraçou-a, ternamente.

Mas ela desprendeu-se, e com a voz cortada de soluços:

— Então é algum crime estar a engomar? Porque trabalho, porque trato das minhas coisas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A mulher tem estado doente! Enquanto se não arranja outra é necessário fazer as coisas... Mas tu falas, falas! Para me afligir!...

— Estás a dizer tolices, filha. Não estás em ti. Eu o que não quero é que te canses!

— Para que dizes então que tenho medo dela? - E as lágrimas recomeçavam. - Medo de quê? Por que hei de eu ter medo dela? Que despropósito!

— Pois bem, não digo. Não se fala mais na criatura. Mas não chores... Vá, acabou-se - Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a docemente: - Vá, o ferro agora. Vem! Que criança que tu és!

Por bondade, por consideração com os nervos de Luísa, Jorge durante alguns dias não falou na criatura. Mas pensava nela; e aquele estafermo, com os pés para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite em que ela desmaiara, aquela bondade ridícula de Luísa!... Achava aquilo estranho, irritante!... Como estava fora de casa todo o dia, e diante dele Juliana só tinha sorrisos para Luísa, muitas atitudes de afeto, imaginava que ela se soubera insinuar e, pelas pequenas intimidades de ama a criada, se tomara necessária e estimada. Isso aumentava a sua antipatia. E não a disfarçava.

Luísa vendo-o às vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adotara de falar dela com uma veneração irônica; chamava-lhe "a ilustre D. Juliana, a minha ama e senhora!" Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se espantado: "Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa tão perfeita!" Tinha gracejos que gelavam Luísa.

— A que sabia o filtro que ela te deu? Era bom?

Luísa agora, diante dele, já nem se atrevia a falar a Juliana com um modo natural; temia os sorrisos malignos, os apartes: "Anda, atira-lhe um beijo, conhece-se na cara que estás com vontade de lho atirar!" E, receando as suspeitas dele, querendo mostrar-se independente, começou na sua presença, a falar a Juliana com uma dureza brusca, muito afetada. A pedir-lhe água, uma faca, dava à voz inflexões de um rancor postiço.

Juliana, muito fina, tinha percebido tudo, e suportava calada. Queria evitar toda a questão que a perturbasse no seu conchego. Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que não podia dormir com aflições asmáticas, punha-se a pensar com terror - se fosse expulsa daquela casa, para onde iria? Para o hospital!

Tinha por isso medo de Jorge.

— Ele está morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de mim - dizia ela à tia Vitória -, mas não lhe hei de dar esse gosto, ao boi manso!

E Luísa, pasmada, vira-a pouco a pouco recomeçar a fazer todo o serviço, com zelo, aparentemente; e todavia às vezes não podia, vencida pela doença; tinha flatos que a faziam cair numa cadeira, arquejando, com as mãos no coração. Mas reagia. Uma ocasião mesmo vendo Luísa a passar um espanejador pelas consolas da sala, zangou-se:

— A senhora faz favor de se não meter no meu serviço? Eu ainda posso! Ainda não estou na cova!

Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava sopinhas, croquetes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de galinha à noite.

— Com o meu corpo o pago - dizia ela a Joana -, que trabalho como uma negra! Arraso-me!

Um dia, porém, que Jorge se irritara mais com a figura amarelada de Juliana, e que estava nervoso, ao achar à noite o jarro vazio e o lavatório sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente.

— Não estou para aturar estes desleixos! Irra! - gritou.

Luísa veio logo, inquieta, desculpar Juliana.

Jorge mordeu o beiço, curvou-se profundamente e com a voz um pouco trêmula:

— Perdão! Esquecia-me que a pessoa de Juliana é sagrada! Eu mesmo vou buscar água!

Luísa então zangou-se: se havia de estar sempre com aqueles remoques, era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ela amava de paixão Juliana? Se a conservava é porque era uma boa criada. Mas se ela se tornava a causa de maus humores, de questões, se ele lhe ganhara tamanho ódio, bem, então que se fosse! Era uma seca aquela ironia constante... Jorge não respondeu.

E durante a noite Luísa, sem dormir, pensava que aquilo não podia durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tirania, e ouvir a todo o momento ditinhos, alusões, ah, não! Era demais! Bastava! Ele começava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ela mesma chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que mostrasse as cartas, acabou-se! Se ele a metesse num convento, se separasse dela, bem! Sofreria, morreria! Tudo, menos aquele martírio reles, às picadinhas, medonho e grotesco!

— Que tens tu? - perguntou Jorge meio a dormir, sentindo-a inquieta.

— Espertina.

— Coitada! Conta cento e cinqüenta para trás! - E voltou-se, enrolando-se comodamente na roupa.

Ao outro dia Jorge levantara-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, o espanhol das minas, e jantar com ele no Gibraltar. Depois de vestido foi à sala de jantar - eram dez horas - e voltou dizer a Luísa, com uma cortesia profunda, espaçando as palavras: - que não estava a mesa posta! Que as chávenas do chá « da véspera estavam ainda por lavar! E que a senhora D. Juliana, a ilustre senhora D. Juliana tinha saído, a seu passeio!

Eu disse-lhe ontem à noite que me fosse-me ao sapateiro... - começou Luísa, que vestia o seu roupão.

— Ah, perdão! - interrompeu Jorge muito cerimoniosamente.

— Esqueci-me outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão!

Luísa acudiu logo:

— Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um cobro...

Subiu logo à cozinha, desesperada:

— Você por que não pôs a mesa, Joana, se a outra saiu?

Mas a rapariga não ouvira sair a Sra. Juliana! Imaginara que estava para baixo, para sala! Como ela agora é que queria fazer tudo!...

Quando Joana trouxe o almoço daí a pouco Jorge veio sentar-se à mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes com um sorriso mudo para ir buscar uma colher, o açucareiro. Luísa via-lhe os músculos da face contraídos: mal podia comer, atarantada; a chávena, quando a erguia, tremia-lhe mão; com os olhos baixos espreitava Jorge às furtadelas, e o seu silêncio torturava-a.

— Tu falaste ontem que ias jantar fora hoje...

— Vou - disse secamente. E acrescentou: - Graças a Deus!

— Estás de bom humor!... - murmurou ela.

— Como vês!

Luísa fez-se pálida, pousou o talher; tomou o jornal para disfarçar uma lagrimazinha que lhe tremia na pálpebra; mas as letras confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou. Era a outra, decerto!

Jorge, que se ia erguer, disse logo:

— Há de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras...

E ficou de pé, junto à mesa, aguçando devagar um palito.

Luísa, a tremer, levantou-se também:

— Eu vou-lhe falar...

Jorge reteve-a pelo braço, e tranqüilamente:

— Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!...

Luísa recaiu na cadeira, muito pálida.

Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranqüilamente o seu palito.

Luísa então voltou-se para ele, e batendo as mãos, aflita:

— Não lhe digas nada!...

Ele fixou-a, assombrado:

— Por quê?

Juliana neste momento abriu o reposteiro.

— Então que desaforo é este, sair e deixar tudo por arrumar? - disse-lhe Luísa logo, erguendo-se.

Juliana, que vinha sorrindo, estacou à porta, petrificada: apesar de sua amarelidão, uma vaga cor de sangue espalhou-se nas feições.

— Não lhe torne acontecer semelhante coisa, ouviu? A sua obrigação é estar em casa pela manhã... - Mas o olhar de Juliana, que se cravava nela terrivelmente, emudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos trêmulas. - Deite água neste bule, vá!

Juliana não se mexeu.

— Você não ouviu? - berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada à mesa, que fez saltar a louça.

— Jorge! - gritou Luísa, agarrando-lhe no braço.

Mas Juliana fugira da sala, correndo.

— E logo na rua! - exclamou Jorge. - Faze-lhe as contas e que se vá. Ah! Estou farto! Nem mais um dia! Se a tomo a ver, desfaço-a! Até que enfim! Chegou-me a minha vez!

Foi buscar o paletó, muito excitado, e antes de sair, voltando à sala:

— E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora a mais! Há quinze dias que a trago aqui atravessada. Para a rua!

Luísa veio para o quarto quase sem se poder suster. Estava perdida! Estava perdida! Uma multidão de idéias, todas extremas e insensatas, redemoinhava no seu cérebro como um montão de folhas secas numa ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas que Juliana lhe entregava, lendo: "Meu adorado Basílio!" Então uma cobardia imensa, amoleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana, ia suplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martirizasse!... E depois? Diria que a Juliana chorara, se atirara de joelhos! Mentiria, cobri-lo-ia de beijos... Era nova, era bonita, era ardente - convencê-lo-ia!

Juliana não estava no quarto. Subiu à cozinha; estava lá, sentada, com os olhos chamejantes, os braços nervosamente cruzados, numa raiva muda. Apenas viu Luísa, deu um salto sobre os calhares, e mostrando-lhe o punho, berrou:

— Olhe que a primeira vez que você me torne a falar como hoje, vai aqui tudo raso nesta casa!

— Cale-se, sua infame! - gritou Luísa.

— Você manda-me calar, sua p...! - E Juliana disse a palavra.

Mas a Joana correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez cair, com um gemido, sobre os joelhos.

— Mulher! - bradou Luísa arremessando-se sobre a Joana, agarrando-a pelos braços.

Juliana, assombrada, fugiu.

— Ó Joana! Ó mulher! Que desgraça, que escândalo! - exclamava Luísa as mãos apertadas na cabeça.

— Racho-a! - dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como brasas - Racho-a!

Luísa andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pálida como repetindo, toda a tremer:

— O que você foi fazer, mulher! O que você foi fazer!

A Joana, ainda toda revolvida de sua cólera, com o rosto manchado de vermelho, remexia furiosamente as panelas.

— E se ela me diz uma palavra, acabo-a, aquela bêbeda! Acabo-a!

Luísa desceu ao quarto. No corredor saiu-lhe Juliana, com a cuia à banda, as dedadas escarlates na face, medonha.

— Ou aquela desavergonhada vai já para a rua - gritou ela - ou eu vou-me pôr lá embaixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe tudo!...

— Pois mostre, faça o que quiser! - disse Luísa, passando, sem a olhar.

Fora uma desesperação, um ódio que a tinham decidido. Mais valia acabar por uma vez!...

Sentia então como um alívio doloroso, em ver o fim do seu longo martírio! Havia meses que ele durava. E pensando em tudo o que tinha feito e que tinha sofrido, as infâmias em que chafurdara e as humilhações a que descera, vinha-lhe um tédio de si mesma, um nojo imenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espezinhado; que nela nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena lutar por uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, a morte uma purificação maior... - E onde estava ele, o homem que a desgraçara? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, governando os seus cavalos, dormindo com outras! E ela morreria ali, estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, nem uma palavra de resposta; nem a julgara digna do meio tostão da estampilha! O que ele lhe dizia pelas terras da Pólvora acima, naquela cupê: - Dar-lhe-ia toda a sua vida, viveria à sombra das suas saias! O infame! Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! Enquanto ela fora a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra um lindo colo - então bem, pronto! Mas teve uma dificuldade, chorou, sofreu - ah! não, isso não! "És um belo animal que me dás um grande prazer - perfeitamente, tudo o que quiseres; mas tornas-te uma criatura dolorida que precisa consolações, talvez uns poucos de centos de mil réis - então boas noites, cá vou no paquete!" Oh, que estúpida que é a vida! Ainda bem que a deixava!

Foi-se encostar à janela. Estava um dia muito azul, muito doce. O sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade aveludada. O Paula, em chinelas de tapete, aquecia-se à porta do estanque. Então, diante do lindo ar de inverno, enterneceu-se. Todos eram felizes naquela manhã de rosas, só ela sofria, pobre dela! E ficou a olhar, como esquecida numa vaga saudade, com uma lágrima na pálpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a esquina - e daí a pouco voltar com um galego, velho e pesado, que trazia o seu saco ao ombro.

Ia-se embora! - pensou Luísa. - Mandava por fora os baús! E depois? Remetia as cartas a Jorge, ou entregava-lhas ela mesma, no portal! Santo Deus! - E parecia-lhe ver Jorge aparecer no quarto, lívido, com as cartas na mão!...

Veio-lhe um terror alucinado: não queria perder o seu marido, o seu Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se dela a revolta da fêmea contra a viuvez; aos vinte e cinco anos ir murchar para um convento! Não, com os diabos!

Foi direita ao quarto de Juliana.

— Vem ver se lhe levo alguma coisa? - gritou logo a outra, furiosa.

Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo chão botinas embrulhadas em jornais velhos.

— E ainda cá me ficam quatro camisas, dois pares de calcinhas, três pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica aí o rol. E quero as minhas contas!...

— Escute, Juliana, não se vá. - Mas a voz desapareceu-lhe, as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

Juliana pôs-se a olhar para ela do alto, triunfando, com uma botina de duraque em cada mão.

— É mandar aquela desavergonhada embora, e está tudo acabado! - E com uma voz aguda, batendo as solas das botinas: - Fica tudo como dantes, na paz do Senhor!

Uma alegria extraordinária acendia-lhe o olhar. Vingava-se!

Fazia-a chorar! Expulsava a outra! E não perdia os seus cômodos!

— É pôr a bêbeda na rua! É pô-la na rua!

Luísa curvou os ombros, foi à cozinha devagar; os degraus da escada pareciam-lhe imensos, infindáveis. Deixou-se cair num banco, e limpando os olhos:

— Joana, venha cá, escute, você não pode continuar na casa...

A rapariga ficou a olhar para ela, espantada.

— O que a Juliana disse foi num repente... Tem estado a chorar, a arrepender-se. É a criada mais antiga. O senhor estima-a muito...

— Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora?

Luísa insistiu, baixo, envergonhada:

— Foi um repente, tem estado a pedir perdão...

— Eu foi para defender a senhora! - exclamou a rapariga abrindo os braços aflita.

Luísa sentiu-se indignada; e impaciente, para acabar:

— Bem, Joana, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa...

— Vou-lhe fazer as contas.

— Olha que pago este! - gritou Joana, então, desesperada. E com uma solução, batendo o pé: - Pois o senhor é que há de dizer! Eu vou dizer tudo ao senhor! Hei de lhe contar tudo o que se passou! A senhora não tem razão!...

Luísa olhava-a, estúpida. Agora era aquela! Era daquela rapariga, teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era demais! Veio-lhe um terror, sobrenatural, como um espanto da consciência, e apertando as fontes nas mãos abertas:

— Que expiação! Que expiação, Santo Deus!

De repente, como desvairada, agarrou Joana pelos braços, e falando-lhe junto do rosto:

Joana, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada! Despeça-se você! - E perdendo inteiramente todo o respeito próprio, caiu de joelhos, diante da cozinheira, soluçando: - Pelas cinco chagas de Cristo, vá, Joana, minha rica vá! Peço-lhe eu, Joana! Pelo amor de Deus!

A rapariga, assombrada, rompeu num choro estridente:

— Vou, sim, minha senhora!...Vou, sim, minha rica senhora!...

— Sim, Joana, sim. Eu dou-lhe alguma coisa. Você bem vê... Não chore... Espere...

Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas economias, voltou, galgando os degraus, meteu-lhas na mão, dizendo-lhe baixo:

— Faça uma trouxa, eu amanhã lhe mandarei o baú.

— Sim, minha senhora, - soluçava a rapariga, babada de dor - sim, minha rica senhora!

Luísa veio deixar-se cair de bruços sobre a sua chaise longue, num choro convulsivo também, desejando a morte, pedindo, num terror, piedade a Deus!

Mas a voz áspera de Juliana disse bruscamente à porta:

— Então em que ficamos?

A Joana vai-se. Que quer mais?

— Que saia já! disse a outra imperiosamente. - Que o jantar o faço eu. Por hoje, já se vê!

As lágrimas de Luísa secavam-se, de raiva.

— E a senhora agora ouça!

O tom de Juliana era tão insultante, que Luísa ergueu-se como ferida.

E Juliana, ameaçando-a, do alto, com o dedo erguido:

— E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lhas cantarei!...

E voltou as costas, batendo os tacões.

Luísa olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; mas tudo estava imóvel e correto; nem uma prega das cortinas se movera, e os dois pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam pretensiosamente.

Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o corpete, vestiu por cima um casaco largo de inverno, atirou o chapéu para a cabeça despenteada, saiu, desceu a rua tropeçando nas saias, quase a correr.

O Paula saltou para o meio da rua para a seguir; viu-a parar à porta de Sebastião, e veio dizer à estanqueira:

— Em casa do Engenheiro há novidade!

E ficou plantado à porta com os olhos cravados para as janelas abertas, onde as bambinelas de repes verdes caiam com as suas pregas imóveis.

— O Sr. Sebastião? - perguntava Luísa à rapariguita sardenta, que correra a abrir a porta.

E ia entrando pelo corredor.

— Na sala - disse a pequena.

Luísa subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta e correndo para ele, apertando as mãos contra o peito, numa voz angustiosa e sumida:

— Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-ma. Estou perdida!

Ele ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto manchado, o chapéu malposto, a aflição do olhar.

— Que é? Que é?

— Escrevi a meu primo - repetiu, com os olhos cravados nele, ansiosamente - a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida!

Fez-se muito pálida, os olhos cerraram-se-lhe.

Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sofá de damasco amarelo. E ficou de pé, mais descorado que ela, com as mãos nos bolsos do seu jaquetão azul, imóvel, estúpido.

De repente correu fora, trouxe um copo de água, borrifou-lhe o rosto ao acaso. Ela abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor, fitou-o espantada, e deixando-se cair sobre o braço do canapé, com o rosto escondido nas mãos, rompeu num choro histérico.

O seu chapéu caíra. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as flores, pô-lo sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos pés debruçar-se junto dela:

— Então! Então! - murmurava. E as suas mãos, tocando-lhe de leve o braço, tremiam como folhas.

Quis dar-lhe água para a sossegar: ela recusou com a mão, endireitou-se devagar no sofá, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluços.

— Desculpe, Sebastião, desculpe - dizia. Bebeu então um gole de água, ficou com as mãos no regaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lágrimas silenciosas caíam sem cessar.

Sebastião foi fechar a porta - e vindo ao pé dela com muita doçura:

— Mas então? Que foi?

Ela ergueu para ele a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam febrilmente, olhou-o um momento, e deixando pender a cabeça, toda humilhada:

— Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha! - murmurou.

— Não se aflija! Não se aflija!

Sentou-se ao pé dela, e baixo, com solenidade:

— Tudo o que eu puder, tudo o que for necessário, aqui me tem!

— Oh, Sebastião!... - exclamou num impulso de reconhecimento humilde; e acrescentou: - Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho sofrido, Sebastião!

Esteve um momento com os olhos cravados no chão; e agarrando-lhe o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e precipitadas, como os borbulhões de uma água comprimida que rebenta.

— Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao princípio pediu-me seiscentos mil réis. Depois começou a martirizar-me... Tive de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus lençóis, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou eu!... Ameaça-me todos os dias; é um monstro. Tudo tem sido baldado, boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois não é verdade? Ela bem via... O que eu tenho sofrido! Dizem que estou mais magra, até o Sebastião reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge soubesse!... Aquela infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Às vezes tenho de lavar as xícaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, por quem é, Sebastião! Coitada de mim, não tenho ninguém neste mundo!

E chorava, com as mãos sobre o rosto.

Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lágrimas rolavam-lhe também pela

face, sobre a barba. E levantando-se, devagar:

— Mas Santo nome de Deus, minha senhora! Por que não me disse há mais tempo?

— Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive pra lho dizer... Mas não pude, não pude!

— Fez mal...

— Esta manhã o Jorge quis pô-la fora. Embirra com ela, percebe os desmazelos. Mas não desconfia de nada, Sebastião!... - E desviou os olhos, muito escarlate. - Escarnecia-me às vezes por eu parecer tão apaixonada por ela... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora. Apenas ele saiu, veio como uma fúria, insultou-me...

— Santo Deus! - murmurava Sebastião assombrado, com a mão sobre a testa.

— Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!...

— Mas merece a morte, esta infame! - exclamou batendo com o pé no chão.

Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mãos nos bolsos, os seus largos ombros curvados. Voltou a sentar-se ao pé dela, e tocando-lhe timidamente no braço, muito baixo:

— É necessário tirar-lhe as cartas...

— Mas como?

Sebastião coçava a barba, a testa.

— Há de se arranjar - disse, por fim.

Ela agarrou-lhe a mão:

— Oh, Sebastião, se fizesse isso!

— Há de se arranjar.

Esteve um momento calculando - e com o seu tom grave:

— Eu vou-me entender com ela... É necessário que ela esteja só em casa... Podiam ir ao teatro, esta noite.

Levantou-se lentamente, foi buscar o Jornal do Comércio sobre a mesa, olhou os anúncios:

— Podiam ir a São Carlos, que acaba mais tarde... É o Fausto... Podiam ir ver o Fausto...

— Podíamos ir ver o Fausto... - repetiu Luísa, suspirando.

E então, muito chegados, ao canto do sofá, Sebastião foi-lhe dizendo um plano, em palavras baixas, que ela devorava, ansiosa.

Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao teatro... Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao Hotel Gibraltar... E a Joana? A Joana deixara a casa. Bem. Às nove horas, então. Juliana estaria só.

— Vê como tudo se arranja? - disse ele, sorrindo.

Era verdade... Mas daria a mulher as cartas?

Sebastião tornou a coçar a barba, a testa:

— Há de dar - disse.

Luísa olhava-o quase com ternura: parecia-lhe ver, na sua face honesta, uma alta beleza moral. E de pé diante dele, com uma melancolia na voz:

— E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, que fui tão má mulher...

Sebastião corou, respondeu encolhendo os ombros:

— Não há más mulheres, minha rica senhora, há maus homens, é o que há!

E acrescentou logo:

— Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hem?... Uma frisazinha ao pé do palco...

Sorria para a tranqüilizar. Ela punha o chapéu, descia o véu com pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços.

No corredor encontraram a tia Joana com os braços abertos: beijou muito Luísa; aquela visita era um milagre! E que bonita que estava! Era a flor do bairro!

— Está bom, tia Joana, está bom - disse Sebastião, afastando-a brandamente.

Ora que não fosse metediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, também ela agora a queria um bocadinho! Assim é que ele devia ter uma mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena!

Luísa corava, embaraçada.

E o Sr. Jorge? Que era feito dele? Ninguém o via. E a D. Felicidade?

— Está bom, basta, tia Joana! - fez Sebastião impaciente.

— Olha o sôfrego!... Ninguém lhe come a menina!... Cruzes!...

Luísa sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel. Sebastião fê-la entrar logo embaixo no escritório: que escrevesse, ele os mandaria; escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a pena - mais pronto, mais dedicado desde que a sabia infeliz. Luísa fez o bilhete para Jorge; e como apesar das suas aflições, se lembrou com terror de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou num P.S., no bilhete para ela: "o melhor é vires de preto, e não fazeres grande toalete. Nada de decotes nem de cores claras".

Quando entrou em casa, viu um galego saindo com a trouxazita de Joana. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente:

— Torne eu a apanhá-la, que não me sai viva das mãos, sua bêbeda!

— Bufa! Bufa! - gritou de cima Juliana. - Mas vai-te indo para o olho da rua!

Luísa escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma praça! Uma taberna!

— Se eu te apanho! - rosnava a Joana descendo.

— Rua! Rua, sua porca! - gania a Juliana.

Luísa então chamou a rapariga:

— Joana, não procure casa, venha por aqui além de amanhã - disse-lhe baixo.

Juliana em cima cantava a Carta Adorada, com um júbilo estridente.

E daí a pouco desceu, veio dizer, muito secamente, que estava o jantar na mesa.

Luísa não respondeu. Esperou que ela subisse à cozinha, correu à sala de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se no quarto; - e ali jantou, a um canto da jardineira.

Às seis horas um trem parou à porta. Devia ser Sebastião! Foi ela mesma abrir, em bicos de pés. Era ele, animado, vermelho, com o chapéu na mão: trazia-lhe a chave da frisa número dezoito...

— E isto...

Era um ramo de camélias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.

— Oh, Sebastião! - murmurou ela, com um reconhecimento comovido.

— E carruagem, tem?

— Não.

— Eu cá mando. As oito, hem?

E desceu, todo feliz de a servir. Ela seguiu-o com o olhar que se umedecia. Foi à janela do quarto vê-lo sair. - Que homem!" - pensava. E cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia também um prazer doce na proteção dele, nos seus cuidados.

Nós de dedos bateram à porta do quarto:

— Então a senhora não quer jantar? - disse a voz impaciente de Juliana, de fora.

— Não.

— Mais fica!

D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luísa ficou tranqüila, vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço de esmeraldas.

— Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber? - disse logo, muito alegre, a excelente senhora.

Um capricho! - O Jorge tinha jantado fora, ela sentira-se tão só!... Dera-lhe o apetite de ir ao teatro. Não pudera resistir... Tinham de o ir buscar pelo Hotel Gibraltar.

— Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... E estive para não vir - disse, sentando-se, com pancadinhas muito satisfeitas nas pregas do vestido. - Apertar-me depois de jantar! Felizmente não tinha comido quase nada!

Quis então saber o que ia. O Fausto? Ainda bem! De que lado era a frisa? Dezoito. Perdiam a vista da família real, era pena!... Pois estava mais longe daquela noitada de teatro!... - E erguendo-se passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, ajeitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupila luzidia.

Uma carruagem parou à porta.

— O trem! - disse, toda risonha.

Luísa calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? - perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? O lenço?

— Ai! O meu ramo! - exclamou Luísa.

Juliana ficou espantada quando a viu vestida para teatro. Foi alumiar, calada; e atirando a cancela com uma pancada insolente:

— Não tem mesmo vergonha naquela cara! - rosnou.

O trem já rodava quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos vidros:

— Ai? - Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque!

— Pare, cocheiro!

— Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma! - fez Luísa impaciente.

Aquelas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; felizmente, como ela dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja Nossa Senhora, que podia arrotar!

Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se gesticulava, destacavam às portas vivamente alumiadas da Casa Havanesa; os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rápido reluzir de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade, com a sua face jubilosa à portinhola, gozava a claridade do gás nas vitrinas, o ar de inverno; e foi com uma satisfação que viu o guarda-portão do Gibraltar, de calções vermelhos, vir com o boné na mão, à portinhola.

Perguntaram por Jorge.

E caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos derramavam uma luz doce. D. Felicidade, muito curiosa da "vida de hotel", reparou na engomadeira que entrou com um cesto de roupa; depois numa senhora que lhe pareceu estabanada, e que descia, vestida de soirée, mostrando o pé calçado num sapato redondo de cetim branco; e sorria de ver sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando para dentro olhares gulosos.

— Estão a arder por saber quem somos.

Luísa calada apertava nas mãos o seu ramo. Enfim Jorge apareceu no alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito magríssimo, de chapéu ao lado, as mãos nos bolsos de umas calças muito estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da boca. Paravam, gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, falou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no ombro, obrigou-o muito seriamente a aceitar outro charuto - e pondo o chapéu mais ao lado foi conversar com o guarda-portão.

Jorge correu à portinhola do trem, rindo:

— Então que extravagância é esta? Teatro, tipóias!... Eu reclamo o divórcio! Parecia muito jovial. Somente tinha pena de não estar vestido... Ficaria atrás no camarote. E para as não amarrotar subiu para a almofada.