O Seccar das Folhas

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O Seccar das Folhas
por Charles-Hubert Millevoye, traduzido por Alexandre Herculano
Poema originalmente publicado no jornal O Panorama, em 30 de dezembro de 1837, sendo posteriormente agrupado em Poesias (1850).

Das ruinas destes bosques
O outomno alastrou o chão:
A selva perdeu seus mimos;
Os rouxinoes mudos são.

No bosque, amigo da infancia,
Triste um joven vagueiava;
Na sua aurora a doença
Para o sepulchro o inclinava.

«Adeus floresta querida!
Vestes lucto por meu fim?
Como te cai folha e folha
A morte me segue assim.

Intima voz, que revela
Seu fado extremo aos mortaes,
Me diz:―vês cahir as folhas?
São essas só: não ha mais!

Sobre esta pallida fronte
O torvo cypreste ondeia,
Como o que, pharol de mortos,
Sobre campas se meneia.

Antes da vide na encosta,
Antes da relva no prado,
Os dias da juventude
Terão para mim murchado!

Minha linda primavera
Qual a van sombra passou!
Eu morro: o euro gelado
Da vida a seiva mirrou.

Cáe, oh passageira folha;
Vem esta senda cobrir;
Esconde ao pranto materno
Logar onde vou dormir.

Mas se vier minha amante,
Involta em véu luctuoso,
Ao pôr do sol, na lameda,
Dar-me um suspiro saudoso,

Com o teu leve rugido
Desperta, oh, desperta o morto;
Que assim sua sombra tenha
Ainda allivio e conforto!»

Disse: afastou-se, e não volve:
Ultima folha cahiu:
Era o signal: seu sepulchro
Sob o carvalho se abriu.

Mas sua amante não veio:
E só do valle o pastor
Quebrou com som de passadas
Repouso do trovador.