O Sertanejo/II/XI

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O Sertanejo por José de Alencar
Segunda Parte, Capítulo XI: Adolescência

O sol descambava.

D. Flor abriu as gelosias da janela e divagou os olhos pela floresta, que arreava-se então de toda a sua pompa vernal com a estação das águas.

Naquele extenso painel de verdura, cada árvore debuxava-se com uma forma e um matiz diverso. Viam-se todos os moldes da arquitetura desde a coluna e a pirâmide até a cúpula e o zimbório. O pincel do mais fino colorista não imitaria a gradação daquela admirável palheta desde o verde negro do jacarandá até o verde gaio do espinheiro.

Próximo à casa havia uma árvore sêca, mas a exuberância da seiva não consentindo que no seio da esplêndida transfiguração hibernal se destacasse um indício de ruína e perecimento, cobrira aquele esqueleto de um manto de púrpura, tecido com as flores de uma bignônia.

Um passarinho saltava do galho superior da árvore a outro mais baixo; e com êsse vôo compassado e alterno imitava perfeitamente o movimento da laçadeira, donde lhe veio o nome de rendeira, com que o designaram os povoadores.

D. Flor acompanhando o gracioso afã do passarinho, distraiu-se outra vez, e foi de novo levada por misterioso fio às cenas da infância.

Quem sua imaginação via, já não era o menino mal trajado e rôto, com a cara coberta de poeira, os cabelos cheios de carrapichos, e as mãos sujas de sangue. Agora aparecia um rapazinho de quinze anos, rude como sertanejo que era, mas trazendo com certo garbo nativo as vestes de couro de veado, que seu pai lhe tinha feito.

Arnaldo estava então na adolescência. Já ajudava o pai a campear; mas desde aquele tempo manisfetara-se sua repugnância para todo o serviço obrigatório, feito por ordem e conta de outro. Tinha êle paixão pela vida de vaqueiro, e passava dias e semanas no campo fazendo voluntariamente o trabalho de dois bons ajudantes, e entregando-se com entusiasmo a todos os exercícios daquele mister laborioso. Se, porém, lhe determinavam tarefa, desaparecia e ganhava o mato, onde se divertia a caçar.

Dois meninos tinham aumentado a sociedade infantil da Oiticica. Eram Alina, que ficara órfã pouco tempo antes, e fôra com sua mãe recolhida por D. Genoveva, e Jaime Falcão, um sobrinho do capitão-mór, e também órfão, o qual esteve quatro anos na fazenda, até os quinze anos, em que foi para Lisboa viver na companhia do avô.

Êsse Jaime, a-pesar-de mais velho que Arnaldo, lhe ficava muito inferior na fôrça, destreza, coragem e em todos os dotes físicos. Nos folguedos a cada instante revelava-se esta desigualdade que contrariava o vencido, e acabou por gerar um despeito concentrado.

Arnaldo não se ofendia com o afastamento, nem com as picardias de Jaime. Tomara-lhe amizade; e procurava todas as ocasiões de agradar-lhe. Até evitava mostrar a sua agilidade para não desgostar o companheiro. Tudo quanto possuia o vaqueirinho, fruta, pássaro, caça, era de Jaime, salvo se D. Flor o desejava, porque essa era a senhora de todos.

Jaime porém, se era invejoso, tinha o brio e a dignidade de seu ressentimento. Embora fosse muita a cobiça por alguma novidade que Arnaldo trazia do mato, não a pedia, e oferecida, recusava-a. Era D. Flor que então acabava a briga: fazendo seu o objeto, o dava ao primo, que daquela mãozinha mimosa não se animava a rejeitá-lo.

Alina, mais moça do que os outros, e de gênio sossegado, não tinha ainda naquela sociedade infantil uma fisionomia própria, a não ser a sua risonha e afetuosa brandura. Só em um ponto sua vontade pronunciava-se: era quando os companheiros voltavam-se contra Arnaldo, porque então ela tomava seu partido e abraçava-se com êle, e chorava para enternecer os outros.

D. Flor reviu em sua imaginação aquele rancho de quatro crianças, os folguedos em que se entretinha, as zangas que às vezes o perturbava, para logo depois se desfazerem em novas festas e travessuras.

Então os quadros mais salientes dêsse viver jovial se desenharam em sua memória como painéis ainda vivos.

Uma parda, que fôra ama de D. Genoveva, era a incumbida de acompanhar Flor e Alina quando estas saíam a passeio pelos arredores da fazenda. Já quebrada pela idade e também pelos achaques, a velha Filipa cansava logo e deixava-se ficar sentada ao pé de um algodoeiro, cujos capulhos ia cardando para entretaer o tempo.

Se D. Flor queria continuar, a velha que não sabia resistir ao rôgo da feiticeira menina, dava o seu consentimento:

— Está bom: podem ir meus netinhos,; mas, olhem lá, bem sossegados; e há de ser por aquí pertinho. Cuidado com o capeta do Arnáo, que aquilo não é gente. Cruzes!... O Jaime, êste é bom menino; sai ao pai, coitadinho, o defunto sr. Lourenço Falcão, rapaz do meu tempo, que ainda me conheceu moça, quando eu era uma rapariga sacudida, que hoje não presto mais; estou uma velha coroca. Deus tenha sua alma, que foi um homem bom, mesmo pela palavra; só tinha que não podia ver cabeção de cacundê que não ficasse logo como pipoca na frigideira! Eu que o diga! Ai! ai! tempo!

Os meninos não ouviam senão as primeiras frases desta ladainha, o que não impedia a velha de a continuar até o fim; e era tal às vezes, que durava até à volta do rancho. Da recomendação faziam o mesmo caso; e seguiam Arnaldo que era o seu guia constante, aonde êste os queria levar.

Uma tarde chegaram a um aberto, onde crescia uma touceira de catolezeiros, ainda novos. Um boi mal encarado rodeava as palmeiras, e empinando-se conseguia alcançar os cachos com a bôca e colhêr os frutos, de que o gado é mui guloso.

Flor, vendo as pinhas de coquinhos amarelos, cobiçou-os, e pediu os catolés. Arnaldo encaminhou-se à touceira. O boi sentindo-lhe os passos lançou-lhe de esguelha um olhar de ameaça, que não o atemorizou, mas tornou-o cauteloso. Dando volta e aproximando-se sutilmente, pôde o rapazinho apanhar uma porção de côcos, derrubados pelo animal.

Alina achou-os deliciosos; a filha do capitão-mór rejeitou-os desdenhosamente.

— Eu quero o cacho! disse ela terminantemente.

— Pois vá querendo, respondeu-lhe Arnaldo resoluto.

— Êle está com mêdo do boi! disse Jaime triunfante.

— Arnaldo não tem mêdo de nada! acudiu Alina.

Flor, porém, que desejava ardentemente o acho de catolés, empregou o meio que ela sabia infalível para render Arnaldo. Pousando-lhe a mãozinha mimosa no ombro, disse-lhe com meiguice de rôla:

— Tire um cacho pra mim, sim, Arnaldo? Tire que eu lhe quero muito bem.

— Pois então ponha-se no poleiro, que o boi é manhoso.

Arnaldo levantou as duas meninas e deitou-as de sobrado nos ramos das árvores; o Jaime deixou-se ficar no chão, mas por segurança junto ao pé do pau.

Quando o boi percebeu que Arnaldo ia direito aos catolezeiros, voltou-se raivoso; o rapazinho atirou um galho sêco ao animal, que investiu furioso. As meninas gritavam estremecendo aos urros medonhos; e Jaime já estava de palanque para ver correr aquele touro.

Arnaldo esperou o boi a pé firme; seus companheiros, vendo o animal cair sôbre êle, julgaram-no esmagado. Mas o intrépido vaqueirinho segurou os chifres da fera e saltou-lhe no cachaço.

Abalou-se o touro, e lá foi pelo campo aos corcovos, fazendo esforços desesperados para arrojar de si o rapazinho, que divertia-se com essa fúria vã. Afinal correu o boi para os catolezeiros e começou a esfregar o lombo no tronco das palmeiras, como um meio de arrancar o fardo das costas.

Logrou-o, porém, o menino, que erguendfo-se em pé sôbre a alcatra, alcançou o cacho de catolés e cortou-o. Depois do que, saltando em terra, veio apresentar a Flor a sua conquista, tão gloriosa como a dos pomos de ouro das hespérides.

Flor ainda estava pálida do susto que sofrera, e agradecendo a Arnaldo com a voz trêmula, distribuiu os côcos pelos companheiros.

— E você, Flor? perguntou Arnaldo.

— Eu não devo comê-los, por meu castigo.

E lançando um olhar cheio de desejos ao cacho de côcos, afastou-se sem prová-los, a-pesar-das instâncias dos camaradas.

Outra vez foi à margem do Sitiá.

Era no meio do inverno; o rio com a cheia tinha uma torrente caudalosa e rolava com fragor medonho. O rancho aproximou-se receoso, parecendo-lhe que essa torrente empolada ia saltar de seu leito e arrebatá-lo.

Da outra banda um maracujazeiro dessa espécie delicada que alí chamam suspiro, prendendo-se aos galhos das árvores, formava entre lindas grinaldas de flores, um mimoso colar de seus lindos frutos dourados e fragrantes.

— Que bonitos maracujás! exclamou D. Flor. Quem me quisesse bem, não me deixava aguar com a vista deles.

— Não sou eu, disse Jaime.

— E você, Arnaldo?

— Mas êle morre! exclamou Alina.

— Ora, que mêdos!

Arnaldo já não estava alí; tinha-se metido no mato para tirar a roupa, amarrando a camisa à cintura como uma tanga, e acabava de arrojar-se à corrente. Êle já conhecia êsse rio, e tinha lutado com êle, quando mais criança.

O menino nadava com pausa, poupando suas fôrças e investigando com olhar rápido a veia do rio. Se algum madeiro enorme, arrancado pela cheia, vinha remoinhando pela água abaixo, êle mergulhava para escapar ao embate que o esmagaria. A travessia foi longa; e durante ela Flor e Alina ajoelhadas e de mãos postas rezavam pela salvação do camarada.

Quando Arnaldo alcançou terra e colheu os maracujás, que enrolou ao pescoço, elas sossegaram um pouco; mas preparando-se o rapazinho para voltar, recomeçaram os gritos; tanto uma, como a outra, suplicava-lhe que esperasse até passar a maior correnteza.

Arnaldo não lhes deu ouvidos e tornou afoitamente pelo mesmo caminho. Ao receber as frutas que êle trazia-lhe, Flor tinha o rosto perlado de lágrimas, e sorria-se da alegria de ver salvo o camarada. Dos maracujás ninguém comeu; ela os guardou como jóias até que secaram de todo.

Nessa noite Flor pediu à mãe um cordão de ouro para o pescoço de Nossa Senhora, a quem o havia prometido.

O cumprimento dessa promessa deu causa a um novo e singular capricho da menina. Reparou ela que a Virgem da capela pisava a cabeça de um dragão, em cuja figura a tradição católica simbolizava o inimigo. Aquela circunstância ficou-lhe gravada, trabalhou-lhe no espírito e afinal deu de si. Um dia Flor lembrou-se de pisar a cabeça de uma cobra.

Os outros riram-se; mas Arnaldo achou aquilo muito natural.

No outro dia, quando saíam a passeio, o filho da Justa levou o rancho a um oitizeiro, onde mostrou-lhes a curiosidade que alí tinha guardada. Era uma cascavel amarrada pelo pescoço ao pé da árvore, e furiosa por escapar-se.

Jaime avistando a cobra quis matá-la, pelo que Arnaldo ia brigando com êle. Alina deitou a correr e Flor, a-pesar-de corajosa, ficou um tanto passada.

— Não tenha mêdo; arranquei-lhe todos os dentes.

Dizendo o que, Arnaldo agarrou a serpente pelo pescoço, abriu-lhe a bôca ensanguentada, e meteu nesta os dedos. Animada com isso, D. Flor aproximou-se, e segurando Arnaldo a cauda da cascavel para que não se enrolasse na perna da menina, satisfez esta o seu capricho, ecalcou com o tacão de seu lindo borzeguim a cabeça do monstro.

Arnaldo cuidou nesse momento que via a Nossa Senhora da capela, porém ainda mais bonita do que estava na imagem.

Se o vaqueirinho tinha por devoção fazer todas as vontades de Flor, com risco de sua vida e até de seu pundonor, pelo castigo a que muitas vezes expunha-se, em troca não consentia que ninguém o privasse dêsse contentamento.

Foi essa a causa das brigas que teve com Jaime. Tudo suportava êle do outro com paciência; a convicção que tinha de sua vantagem, o tornava calmo e condescendente. Quando, porém, tratava-se de Flor, não havia ninguém mais teimoso e irritadiço.

Eis a prova.

Flor desejou uns ovos de anum que são, como todos sabem, muito lindos pelo azul celeste da côr, e muito cobiçados pelas crianças. Nessa tarde a menina estava amuada com Arnaldo; e talvez mesmo para fazer-lhe pirraça pediu a Jai,e que fosse tirar um ninho feito em um tabocal.

Jaime apressou-se em satisfazer o pedido da prima:

— Não vai, disse Arnaldo.

— Por quê? perguntou Jaime.

— Porque eu não quero.

— Ora!

— Há de ir! disse Flor.

— Eu lhe mostrarei.

— Não vá, Jaime! acudiu Alina suplicando e já com voz chorosa.

— Eu lá faço caso dêste bezerro bravo! exclamou Jaime com arrogância.

Arnaldo se postara diante da touceira de taquaras, para impedir o outro de passar. Jaime investiu por três vezes e de todas o vaqueirinho agarrou-o pela cintura e arremessou-o longe no chão.

Ainda quis voltar ao ataque; mas Flor o reteve. A menina estava muito irritada contra o seu colaço.

— Deixe, Jaime; chegando em casa eu mandarei tirar os ovos do ninhopelo Moirão. Quero ver, se isto pode com êle.

O isto foi pronunciado com um soberano desdém do lábio mimoso, que distendeu-se para indicar o filho da Justa.

— Êste ninho, se o quiser, há de pedir-me a mim, disse Arnaldo.

— Não peço.

— Pois então fica sem êle.

— Vou pedir a meu pai.

— Não tenha êste trabalho.

De um salto Arnaldo ganhou o tabocal e voltou com o ninho cheio de ovos, pois os anuns andam em bandos, em tal regime comunista, que até os filhos são promíscuos.

— Está vendo? disse Arnaldo mostrando o ninho.

Foi tão forte a tentação de Flor à vista dos lindos ovos, azues como turquesas, que a menina esteve por pouco a ceder de sua tenção; mas venceu o capricho. Ela voltou desdenhosamente as costas.

Arnaldo atirou o ninho ao chão e esmagou os ovos com o pé. Alina soltou um gritozinho de dôr, lembrando-se dos passarinhos que alí se estavam gerando e das mãezinhas deles.

Flor levantou os ombros com desprêzo.

— Há muitos ninhos de anuns, disse ela.

— Eu vou tirá-los todos, e quebrar os ovos, como fiz com êste. Juro que você não há de ter nenhum.

Com êste pensamento desapareceu.

Quando o rancho dos meninos chegava à casa, apareceu-lhe Arnaldo, com uma coleção de ninhos de anuns.

— Está vendo? disse a Flor, fazendo menção de arrojar os ocos ao chão.

A menina não resistiu mais; a contrariedade de seu desejo, ela a dominaria; mas foi vencida pela pena que lhe inspiravam as vítimas inocentes de seu capricho e da impiedade de Arnaldo.

— Dê-me, Arnaldo! disse estendendo a mão.

O rapaz entregou-lhos todos, esquecido já da pirraça da menina.

Flor, porém, não lhe perdoou facilmente êsse triunfo. Se desde aí não pediu mais a Jaime coisa alguma, também por muito tempo evitou de manifestar o menor dos seus desejos a Arnaldo.