O Tronco do Ipê/I/X

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
Dois Amigos

No ano de 1850, a fazenda de Nossa Senhora do Boqueirão pertencia ao Barão da Espera.

O modo por que o barão tinha adquirido essa propriedade, e especialmente a rapidez com que enriquecera, surpreenderam as pessoas do lugar, sobretudo aos fazendeiros que o conheciam desde a infância.

Joaquim de Freitas era filho de um simples administrador de fazenda; na idade de treze anos ficara órfão e em extrema pobreza. Seu pai o tinha posto em um colégio de Vassouras, onde ia desenvolvendo o talento natural, e adquirindo instrução notável para seus anos.

No colégio muito se afeiçoara por ele outro menino, filho do Comendador Figueira, o mais rico fazendeiro daquela redondeza, então proprietário do Boqueirão.

Esse fazendeiro respeitável, sabedor do desamparo em que ficara o menino e da amizade que lhe tinha o seu José, tornou-se protetor do órfão; e à sua custa o manteve no colégio até a idade de dezoito anos.

José Figueira era mais velho do que Joaquim de Freitas, cerca de três anos. Tinham gênios opostos, o que de algum modo concorria para ligá-los ainda mais estreitamente. O primeiro comunicava a seu amigo certa paciência e serenidade de ânimo, que deviam fortalecê-lo contra as decepções e contrariedades; o outro, ambicioso, ardente e ousado, infundia na natureza plácida de seu amigo o calor necessário para reanimá-la.

Com a proteção do comendador e do filho, pôde Freitas ajuntar módica soma, que lhe serviu para estabelecer na vila uma pequena casa de negócio, dirigida por um moço português. Quanto a ele, a amizade de José Figueira o retinha na fazenda, ou em passeios pela vizinhança e pela Corte; ocupação esta mais conforme à sua índole.

Figueira casou-se aos vinte e seis anos. Por isso não resfriou a afeição dos dois camaradas de colégio, ainda que o amor reclamasse uma parte do tempo antes exclusivamente consagrado à amizade.

De seu lado, Freitas pensou também no casamento; mas para ele, moço pobre, o casamento era toda a esperança, todo o futuro; era a riqueza tão ardentemente ambicionada. Assim teve o cuidado de pôr em dieta o coração, fiando sua sorte unicamente de um porte elegante e de um rosto distinto que realçavam olhos muito expressivos e bastos anéis do fino cabelo preto.

Ele tinha notícia de todas as filhas de opulentos fazendeiros, que havia nos municípios do sul; e esperando que uma circunstância feliz preparasse a realização do sonho dourado, de sua parte não perdia ocasião de adorar o ídolo, moça rica, sob qualquer forma que se revelava a seus olhos.

Loura, castanha ou morena; rosada, alva ou pálida; alta, baixa ou mediana; bonita, feia ou simpática; espirituosa, parva ou apenas ignorante; não se dava ao trabalho de escolher. Rendia culto a qualquer dessas encarnações do dote.

Mas o coração é um importuno que aparece quase sempre onde não o chamam. O Freitas viu em uma festa, D. Júlia, filha de uma viúva pobre, e ficou ali mesmo cativo de sua formosura. Debalde lutou para arrancar esse amor funesto, que vinha derrocar todos os seus castelos, justamente quando eles pareciam prestes a se realizarem. Foi vencido e subjugado pela paixão, que o atirou como um escravo aos pés da moça.

Por esse tempo ocorreu um acontecimento, que devia exercer sobre o amigo e protetor do moço uma influência bem funesta.

O Comendador Figueira, apesar de ser homem de sessenta anos, e viúvo havia mais de vinte, por um capricho de velho casou-se com uma sobrinha que educara. Esse casamento inesperado alterou as relações entre o pai e o filho; além da desigualdade da união dava-se a circunstância de estar José mal com a prima, a quem tinha em conta de enredeira, e acusava de o ter intrigado com o pai.

Mal haviam decorrido três meses, que a arrogância de D. Alina, orgulhosa com sua nova posição, forçou o enteado a retirar-se da casa paterna. Esse fato, habilmente explorado pelo gênio intrigante da madrasta, ainda mais indispôs o espírito do Comendador Figueira contra o filho, a quem chegou a atribuir projetos sinistros a respeito de sua existência.

Levadas as cousas a este ponto, cessaram completamente as relações de família. José Figueira, que até então se empregara exclusivamente no serviço da fazenda aumentando o patrimônio que devia um dia pertencer-lhe como filho único, vítima de sua lealdade, ficou reduzido a ganhar a vida pelo trabalho e a aceitar o auxílio de alguns fazendeiros a quem indignara o procedimento do comendador.

Nestas estreitas circunstâncias lembrou-se o moço, que sua mãe devia ter-lhe deixado por legítima uma parte dos bens do casal, na época de seu falecimento. Até então não se preocupara com isso; e nunca durante tantos anos fizera a seu pai a menor alusão a esse respeito. Nem mesmo sabia se haviam feito inventário e partilhas; confiava tudo da honradez proverbial do velho fazendeiro.

A situação porém era outra agora. Estava reduzido à penúria, e tinha não só de sustentar-se com decência, como de prover ao futuro incerto de sua mulher e filho: Mário contava então dois anos; e o pai muitas vezes embalando o berço do menino para o acalentar, enxugava a furto as lágrimas que lhe rolavam pelas faces e iam umedecer as brancas faixas.

Obteve José Figueira de um fazendeiro, amigo íntimo do pai, o favor de falar-lhe sobre a questão do inventário. O comendador declarou positivamente que na ocasião do falecimento de sua primeira mulher, ele não possuía mais do que dívidas, pagas depois com os lucros das colheitas. Se o filho duvidava disso, lhe pusesse demanda, que havia de provar em juízo o que dizia.

Concluiu pedindo ao amigo que não lhe falasse mais do filho ingrato, ao qual ele já fazia muito em não deserdar. O comendador não falava certamente da deserdação solene por testamento, nos casos da lei, mas desse meio indireto de que usam muitos pais, colocando simuladamente os bens em nome de terceiro.

D. Alina por muitas vezes tinha insistido na necessidade de tomar essa medida; seus esforços haviam redobrado desde que dera à luz um menino, mais velho ano e meio que Mário. O comendador porém resistia; a voz do sangue apesar de tudo ainda repercutia em seu coração.

Sabia-se geralmente pelas murmurações dos escravos o que a este respeito ocorria na Casa Grande, e referiam-se até com todas as particularidades, as altercações violentas que haviam frequentemente entre marido e mulher. O comendador estava sofrendo a punição da leviandade de seu casamento.

José Figueira continuava a viver pobremente, trabalhando com o próprio braço. Graças a seu gênio laborioso, à sua calma perseverança, e ao auxílio de um fazendeiro generoso que emprestou-lhe dez contos de réis, tinha esperança de criar ao cabo de alguns anos a abastança para a família e de garantir o futuro.

Freitas andava depois de certo tempo um tanto arredio, naturalmente por causa dos olhos de D. Júlia, que o traziam atribulado entre penas e esperanças. Embora ocupado de todo na labutação da roça, contudo Figueira sentia às vezes a ausência do amigo de infância, especialmente à noite, na hora do repouso e serão de família, quando é tão grato vazar em seio dedicado a confidência dos próprios trabalhos, e beber em palavras sinceras e leais a coragem para a luta.

Essa hora porém, Freitas a passava em casa de D. Isabel, mãe de Júlia, curtindo mágoas e desesperos a troco de umas fagulhas de esperança com que o acalentavam de tempos em tempos. Algumas noites, quando se recolhia a desoras, protestava não voltar mais; e no dia seguinte era dos primeiros que chegavam.

D. Júlia teria então vinte anos; era realmente uma beleza. As pastas dos finos cabelos e os grandes olhos pareciam talhados em veludo negro, e embutidos no jaspe de sua tez branca e macia. Tinha a boca lindíssima, e as formas corretas e harmoniosas de uma estátua grega. Se alguma cousa se podia notar nesse tipo de formosura, era a frieza que lhe amortecia as feições.

Filha de uma viúva pobre, tendo de seu apenas a Chica, preta que lhe servira de ama, Júlia da mesma forma que Freitas depositara toda sua esperança no casamento; também para ela, o sonho dourado da juventude fora o dote; e o coração não passava de um travesso a quem se perdoariam os caprichos, enquanto não pudessem comprometer o futuro; pois do contrário não haveria remédio senão pô-lo de jejum, a pão e água.

O acaso, que às vezes toma ares de zombeteiro, reunia essas duas criaturas possuídas de igual pensamento, eivadas da mesma ambição; e não contente de as pôr em face como espelho uma da outra, fez que se amassem, elas que fugiam do amor, como de um fatal contratempo. Mas nenhuma, cedendo à afeição, renunciou à esperança tão afagada do casamento rico.

Bem se avalia pois das torturas por que havia Freitas de passar na casa de D. Isabel, ponto de reunião dos moços da vizinhança, atraídos pela beleza da moça. Júlia graduava sua amabilidade e ternura pela riqueza de cada um desses portadores de dote de todos os moldes e feitios. O namorado, esse na sua condição de superfluidade agradável, vinha em último lugar; apenas lhe tocavam uns sobejos de agrados e carinhos, quando os candidatos mais graduados não se mostravam exigentes, ou se retiravam cedo.

Júlia mostrou-se muito superior a Freitas na realização de seu plano; ao passo que este se deixava arrastar muitas vezes pela paixão que tinha à moça, ela sempre calma e paciente não vacilava, e prosseguia incessantemente para o alvo de sua vida: o casamento rico.

Mas em todo esse trama laboriosamente urdido para colher um dote, a moça não era senão o instrumento de D. Isabel, que a movia como a um autômato. Habituada desde criança a obrar e a pensar pelo influxo da mãe, Júlia, chegando aos dezoito anos, longe de emancipar-se dessa tutela, ainda mais subordinou-se a ela. Sua natureza fria, incapaz de impulsos ardentes, se alguma vez se aquecia com um raio de paixão, caía logo prostrada e exausta, sob a vontade a que porventura tentava subtrair-se.

D. Isabel nutriu a acalentou o coração da moça, como tinha feito outrora à criancinha de colo; e por isso Júlia amava quando, como e a quem a velha desejava. Era esta quem de véspera traçava o programa dos namoros da filha no dia seguinte; quem dava o plano de certos arrufos e esquivanças próprios para atear a chama de algum apaixonado; quem fornecia à filha diversos modelos de atitudes encantadoras para receber uma declaração de amor.

Se a paixão de Freitas pela filha incomodasse D. Isabel, há muito tempo que Júlia teria deixado de prestar atenção ao mancebo; mas ao contrário entrava nos cálculos da velha entreter essa afeição, que ela considerava ao mesmo tempo um auxiliar útil, e uma reserva prudente.

Como auxiliar, o namorico da filha com o Freitas, habilmente dirigido, servia para a propósito excitar o ciúme, um dos mais fortes condimentos do amor. Por outro lado, D. Isabel julgava conveniente não desprezar a probabilidade de casamento com um moço como Freitas, que de um instante para outro podia enriquecer, e assim guardava essa carta para o caso de falharem as outras.

Não era debalde que D. Isabel, ficando viúva na idade de cinquenta anos e com uma filha moça, em vez de permanecer na Corte, foi viver na roça, em uma casa que lhe viera de herança paterna. As amigas a censuravam muito por esse passo, que em sua opinião comprometia o futuro de D. Júlia. Mas a mãe tinha confiança na sua habilidade e na beleza da filha.

Ela sabia que na Corte teria de lutar com a concorrência imensa que já então havia na aquisição dos portadores de bons dotes; e por isso devia procurar um mercado onde não pudesse temer competências.