O Tronco do Ipê/I/XVII

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
O Juramento

Seriam oito horas da noite.

Reunidos na sala da Casa Grande, os hóspedes do barão, sentados no sofá, conversavam em tom moderado sobre o acontecimento do dia.

O Conselheiro Lopes tinha feito um discurso filosófico sobre o fenômeno das coincidências, citando alguns fatos históricos dos mais notáveis. Era esta face por que o desastre acontecido à Alice o tinha mais impressionado; a intervenção de Mário e a data de 15 de janeiro prendiam esse acontecimento como dois elos de bronze à morte de José Figueira, ocorrida havia onze anos.

D. Luíza, além da parte que tomara na aflição da família de Alice, estremecia de horror, lembrando-se que podia ter Adélia corrido o mesmo ou maior perigo. D. Alina, essa às vezes desmerecia na ação de Mário, figurando-a como cousa facílima; outras vezes insinuava, embora de longe, que o culpado de tudo era o menino com sua travessura.

— Quem sabe? talvez se Alice fosse sozinha com Adélia, ou com o meu Lúcio, que é tão sossegado, não lhe acontecesse nada. Esses rapazes traquinas deitam os outros a perder.

Junto à mesa, onde ardia o candelabro, Lúcio estava muito aplicado em levantar castelos de cartas para entreter Adélia.

Feliz idade em que a imaginação entre risos de prazer edifica palácios com essas figuras coloridas! Mais tarde, em vez de castelos de carta, são os castelos de vento, edificados com as ilusões e as esperanças de nossa alma. Vem um sopro de criança e arrasa o suntuoso palácio. O menino reúne as cartas e levanta novo castelo. O homem debalde tenta coligir as ilusões que tombaram: não encontra nem o pó; desfizeram-se em fumo.

O castelo de Lúcio era um pretexto. Cada carta precisa para a construção, tinha de ser tomada a Adélia, senhora de quase todo o baralho. Quanto mais se elevava o castelo, mais tentações tinha a menina de abatê-lo de um sopro, ou derrubá-lo com a unha rosada, que disfarçadamente brincava sobre a verde cobertura da mesa.

Dando tais assaltos direito à defesa, a mão de Lúcio animava-se a interceptar nos lábios da menina o sopro destruidor, a prender e conservar cativo o dedinho pérfido, e finalmente a sentir esses rápidos toques da cútis acetinada, que lhe sabiam como raios da polpa deliciosa do cambucá.

De vez em quando D. Luíza erguia-se do sofá e penetrava no interior por uma porta lateral. Pouco depois voltava trazendo informações a respeito do estado de Alice.

Transportada para casa nos braços do pai, a menina passara algumas horas sem grave alteração, embora muito abatida. À tarde porém se declarara febre com dores lancinantes pelo corpo. O médico, prevenido à primeira notícia do desastre, já estava na fazenda. Seu prognóstico foi favorável. A menina, em virtude do abalo por que passara e do longo resfriamento, sofria de um acesso nevrálgico. Os calmantes receitados não tardariam a debelar o mal.

— Está na mesma. Agora chegaram os remédios que o doutor mandou buscar, disse D. Luíza voltando da alcova.

— O barão devia ter aqui uma botica sempre bem sortida! ponderou o conselheiro.

— O comendador, meu marido, tinha, acudiu D. Alina.

A porta do corredor abriu-se dando passagem a D. Francisca e seu filho. Este vinha manifestamente contrariado; sua fisionomia e até seu passo o indicavam.

Depois de duas horas de sono, que sua mãe não se animou a interromper, Mário despertara à sombra das árvores onde se havia deitado. No primeiro momento admirou-se de ver a mãe ali perto dele; mas logo percebeu vagamente o que tinha passado, e com isso satisfez-se a sua curiosidade.

Vendo porém no rosto da senhora traços de fadiga e aflição, Mário ficou de mau humor e contrariado. À veemência das carícias maternas respondeu apenas com um frio abraço.

— Minha roupa já está enxuta? perguntou.

Benedito tivera tempo de trazer outra roupa, e café para o menino tomar apenas acordasse. Um fogo vivo além de conservar a quentura da chaleira, derramava um doce calor sobre o menino adormecido.

Recolhidos à sua habitação, nem a mãe, nem o filho tinham desejos de tornar à Casa Grande naquele dia. D. Francisca ficara prostrada com as emoções; Mário queria fugir à impertinente curiosidade dos hóspedes do barão. Repugnava-lhe contar sua ação a gente de quem não gostava. Todas as pessoas da amizade do rico fazendeiro incorriam na antipatia do menino.

Ao cair da noite porém o barão mandou segundo recado insistindo com D. Francisca para levar-lhe o Mário naquela mesma noite. Avaliando pelo seu coração do sentimento daquele coração de pai, e desejando também mostrar seu interesse por Alice, de cuja febre acabava de saber, a viúva acedeu.

Muito custou-lhe persuadir a Mário. A seus rogos o menino respondia:

— Não tenho nada que fazer lá! O sr. barão pode guardar seus agradecimentos, que eu passarei muito bem sem eles. Se cuida que lhe prestei algum serviço, está enganado. Quis mostrar-lhe que um pobrezinho, às vezes, vale mais do que os ricos barões.

D. Francisca amava cegamente o filho, e por isso em vez de o governar, era por ele governada. Ante a resistência que Mário opunha ao seu desejo, não se animou a formular uma ordem; esgotados os rogos, socorreu-se ao argumento supremo, que aplicado a propósito, dobrava a tenacidade do menino.

— Meu filho, lembra-te da recomendação que teu pai deixou em seu testamento. Deves obedecer ao barão como a ele.

Mário mordeu os beiços e acompanhou sua mãe à Casa Grande; mas cedendo embora, ele não podia esconder sua contrariedade. Já não era somente a curiosidade importuna que o afastava, mas também a moléstia de Alice. Incomodava-o a ideia de envolver-se na solicitude afetuosa, que devia inspirar à família e aos amigos o sofrimento de uma pessoa querida. Ele não podia associar-se a esse sentimento; também não devia alegrar-se com ele.

Por outro lado o barão estava triste, abalado ainda com as emoções daquela manhã, aflito com a enfermidade da filha. Não era assim abatido por outras causas, que o menino desejava afrontar seu inimigo. Era no apogeu da fortuna, do alto do seu orgulho, que ele pretendia humilhá-lo.

Estes sentimentos possuíam Mário ao entrar na sala.

— Oh! eis o nosso herói! Venha cá! exclamou o conselheiro chamando-o com a mão.

— A senhora deve estar muito contente com seu filho, D. Francisca; o que ele fez... disse D. Luíza.

Mário levantou os ombros, e respondeu duma vez aos dois, mulher e marido:

— Ora! O que eu fiz!... Aqui na fazenda há um cachorro, o Trovão, que nada e mergulha muito mais do que eu. Se quer ver um herói, mande buscá-lo; ou então um dos marrecos ali do tanque, pois dentro d'água nos vence a ambos.

O conselheiro era homem a quem nada perturbava. Apesar da estranheza da resposta, ele replicou sorrindo com certa magnanimidade magistral:

— Ora, senhor estudante, isto é pura e simplesmente um sofisma. O animal obra por instinto, enquanto o senhor arriscou a vida para salvar...

— Não há tal! Não corri nenhum perigo, tenho feito isso tantas vezes!... Se me pudesse suceder algum mal, decerto que não ia me atirar n'água; não tinha necessidade disso.

Depois de ter assim amesquinhado com um remoque, e sufocado sob uma ostentação de egoísmo, seu rasgo heroico, o menino aproximou-se da mesa, onde estavam os dois camaradas. Adélia, desde a entrada de Mário, não cessava de olhá-lo com um modo de ingênua admiração, o que espremeu no coração de Lúcio a primeira gota de fel; o fel que exsuda o ciúme.

— Mas então, Mário, disse a gentil menina com um sorriso faceiro, se esta rosa que eu tenho no seio, caísse no boqueirão: você ia apanhá-la?

— Ia! respondeu o menino com vivacidade; mas logo retraindo-se, acrescentou: se na ocasião estivesse de veia para brincar.

— Lembra-se? Foi você que me deu esta rosa! Está aqui guardada.

— Pois dê ao Lúcio, que está ali com uns olhos para ela!...

Lúcio corou. O sorriso apagou-se nos lábios de Adélia, como o voo nas asas da borboleta, quando expira a luz que a enleva. Mário voltou-se à voz da mãe que o chamava da porta.

A baronesa, já tranquila a respeito da filha, entrara na sala acompanhada pelo médico. Recebeu a D. Francisca do mesmo modo, com fria altivez; a Mário disse apenas estas palavras:

— Viu em que dão as travessuras? Bom será que lhe fique de lição para emendar-se.

Mário retrucou arremedando o riso da baronesa:

— Eh! eh!... emendado já estou. Mesmo que a senhora caísse amanhã no boqueirão, não seria eu que a tirasse de lá.

— Já se viu!... exclamou D. Alina.

O conselheiro reprimindo uma risada pensou consigo que, se Mário algum dia fosse deputado, seria um rival do Aprígio, o maior apartista da Câmara; glória até hoje sem sucessor.

— É patetinha, coitado! disse a baronesa a meia voz, voltando-se para o médico.

D. Francisca e seu filho seguiram o Martinho, que os introduziu no gabinete do fazendeiro.

O barão estava ainda na mesma agitação, que dele se apoderara desde a notícia do passeio, e que bem longe de acalmar-se com a salvação de Alice, parecia progredir em intensidade. A dor de perder a filha, essa abrandara vendo-a livre de perigo; mas o acontecimento produzira nele um abalo profundo, uma crise que ainda não tivera remissão.

Antes de deixar a cabana, na ocasião de transportar-se Alice, o barão descera só à Lapa; e ali permanecera um momento com os olhos no remoinho. Seu rosto tinha nessa ocasião uma expressão grave e solene; os lábios balbuciaram palavras não ouvidas; a mão pairou um momento sobre o abismo. Dir-se-ia que prestava um juramento.

Trêmulo, agarrando-se às pedras para amparar os mal seguros passos, voltou à cabana, donde seguiu a rede que transportava a filha. O resto do dia até àquela hora, passara-o à cabeceira de Alice, ou debruçado na mesa do gabinete, murmurando palavras surdas e entrecortadas.

Levantou-se para receber D. Francisca; e abraçou tanto a mãe, como ao filho.

— Mário, eu lhe devo a vida de minha filha; mais do que a minha própria vida, porque é ela, só ela que me prende a este mundo. São dívidas que não se pagam. Foi sempre minha intenção protegê-lo; mas hoje fiz um juramento à memória de seu pai, de... meu amigo, no lugar mesmo onde você salvou Alice. Encarrego-me do seu futuro.

— Não quero paga. Não servi a ninguém! O que eu fiz foi por brincadeira, disse o menino arrebatadamente.

— Bem; falaremos depois a este respeito. Eu combinarei com D. Francisca acerca dos seus estudos. Deve formar-se... em direito ou medicina!

— Que bondade, senhor barão!... disse D. Francisca.

O barão despediu-os com um gesto.

— Vá ver Alice, Mário. Ela tem perguntado muito por você.

A alcova estava em meia obscuridade, esclarecida apenas pela luz opaca de uma lamparina. D. Francisca chegou-se sutilmente; e percebendo que Alice estava acordada e com os olhos abertos, chamou o filho.

Vendo Mário, os lábios da menina se enfloraram com um sorriso.

— Ainda está zangado comigo, Mário? disse ela apertando-lhe a mão. Eu lhe prometo que não hei de fazer mais travessuras. Não quero que você morra por minha causa.

O menino sentiu um movimento de piedade; nesse momento teve pena que Alice fosse filha do barão.

Mas a sua natural repugnância o dominou:

— Não tenha susto!...

Essa palavra podia ser uma segurança que tranquilizasse seu espírito, e Alice compreendeu-a, quis compreendê-la assim; mas ela caíra dos lábios de Mário como uma ironia.

Horas depois toda a habitação estava entregue ao repouso. Alice dormia um sono prolongado, embora um tanto inquieto. Só o barão velava, cruzando a passos lentos o seu gabinete:

— Fazem onze anos! Foi em uma noite como esta; talvez à mesma hora... Que horas serão? Meia-noite. Era mais cedo!... Eu o vi!... Meu Deus; o tempo não apaga esta imagem, ao contrário parece que a aviva!... Há onze anos o vejo... assim... sempre assim!

O barão foi, abafando os passos, contemplar Alice adormecida. Mudo ante o vulto da menina, ele estremecia ao choque dos pensamentos que lhe tumultuavam dentro d'alma. Afinal seus lábios murmuraram estas palavras:

— Serás o anjo do perdão, minha filha.

Defronte via-se a porta entreaberta do oratório. O barão aproximou-se do altar e pousando a mão sobre a ara santa repetiu o juramento solene, cujo segredo ficou entre ele e Deus.