O Vigário

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O Vigário
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


(Imitado de Rodolphe Bringer)

A festa da Conceição em São Domingos do Rio do Peixe era o maior acontecimento de toda aquela zona do sul de Minas. Ia gente de toda a parte. E como fosse uma boa oportunidade para trabalhar pela maior glória da Religião, os bispos da diocese escolhiam, de ano em ano, essa ocupação para entrar em contato com as suas ovelhas. Esse foi o motivo de estar em São Domingos, nesse dia, Sua Excelência Revma, o bispo Dom José, que foi recebido festivamente por toda a população e, particularmente, por padre André de Sampaio, vigário da paróquia.

Padre André de Sampaio era uma figura seca, e alta, se sertanejo do norte. Moreno queimado, cabelo duro, cortado à escovinha, e já entremeado de fios brancos, andava pelos seus quarenta e oito anos. Era tolerante com os seus paroquianos, gente pouco igrejeira; e estes lhe pagavam a gentileza com os mesmos sentimentos, não indagando, jamais, do que ocorreria na casa do vigário, nem, mesmo, do que se passava na sacristia.

Metido na sua batina nova, Padre José mantinha-se atencioso, solícito, irrepreensível, como o chefe do episcopado. Já lhe havia mostrado o edifício da Câmara, o Foro, as capelas, a Santa Casa, e mostrava-lhe o dispensário da Matriz, quando Dom José indagou:

— E onde mora Vossa Revma.?

Ante essa curiosidade, padre André escondeu o seu sorriso. Mas aquiesceu:

— Moro aqui mesmo, atrás, no presbitério.

Minutos depois, percorriam os dois, o bispo e o vigário, o pequeno prédio que se levantava por trás da igreja, e que, pela sua exiguidade, espantou Dom José.

— E onde dorme Vossa Revma.? — perguntou o bispo.

— Aqui, Sr. bispo, aqui, neste quarto.

— E ela?

A essa pergunta, à queima-roupa, o sacerdote estremeceu, sentindo-se apanhado em flagrante.

— Aqui, também. Não há outro quarto no presbitério.

— Na mesma cama?

— Sim, Sr. bispo. Falta de lençóis. Mas nós pomos uma tábua entre nós. Aquele que a transpõe primeiro, paga dois mil réis de multa.

Nesse momento, a porta entreabriu-se, e a Gertrudes aparece.

— Lá isso é certo, Sr. bispo! — exclama a rapariga.

E batendo no ombro do padre André:

— Mas, também, o que é verdade, é que ele me ainda me deve quatorze mil réis da semana passada...