O azar de lidar com cemitério

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Mexer em cemitério abalou carreiras[editar]

“Não sou supersticioso, mas depois desse trabalho aconteceram alguns fatos desagradáveis comigo, com o Neves e outros envolvidos”. Mário Thomasi (1928–1996), um dos primeiros servidores municipais, que na vida comunitária saneou o Tuiuti Esporte Clube e chegou a ser delegado de polícia e vereador, foi o encarregado de fazer o fechamento do antigo cemitério distrital, na década de 50. O cemitério ficava encravado entre os patrimônios Velho e Novo, na esquina das atuais ruas Rio Grande do Sul e Voluntários da Pátria (debaixo da Badotti Alimentos, antigo Moinho Corbélia).

Quando o Município surgiu, em 1952, e a cidade começou a crescer para o lado do Patrimônio Novo, o velho cemitério se tornou um entrave ao desenvolvimento urbano e em agosto de 1953 o prefeito José Neves Formighieri (1916–2002) determinou seu fechamento. Mário Thomasi acreditava que foi essa a razão de Neves nunca mais ter conseguido voltar a ser candidato a prefeito ou a deputado, pois uma urucubaca se abateu sobre sua carreira política. Depois de preso e torturado pela ditadura, Neves abandonou de vez a política.

Os servidores da Prefeitura de Cascavel não queriam, em hipótese alguma, trabalhar na remoção do velho cemitério. O tratorista que trabalhava no período noturno se apavorou com a perspectiva de lidar com o cemitério e assim Mário Thomasi, primo do prefeito, que dirigia o Serviço Rodoviário do Município, foi deslocado para a tarefa. Ele não pôde recusar, mas veio a se arrepender amargamente de ter assumido a missão. Jamais deixou de acreditar que todas as dificuldades que ele e todos aqueles que lidaram com cemitérios passaram a ter em suas vidas e principalmente carreiras políticas se deveram a alguma espécie de “maldição” por perturbar os mortos.

Vereadores contra o projeto[editar]

No velho cemitério estavam enterrados os verdadeiros pioneiros de Cascavel e muitos posseiros assassinados pelos jagunços e também os jagunços mortos em emboscadas de represália armadas pelos posseiros, gente que, segundo a crença popular, não conseguiu morrer em paz. Neves Formighieri condenou a área e decidiu fazer a remoção dos corpos, mas como era final de gestão, o novo cemitério foi concluído e inaugurado, na rua Carlos Gomes, em plena mata, pelo prefeito seguinte – Helberto Schwarz.

O novo prefeito, que era vereador na gestão anterior e sabia que a medida precisava ser tomada, enfrentou muita oposição, mas havia uma lei a ser cumprida e era realmente necessário agir. Mas os novos vereadores não gostavam da idéia de transferir o cemitério do centro da cidade para a rua Carlos Gomes, que então era um enorme matagal, longe do centro urbano, a caminho para o Cascavel Velho.

Na década de 60, já esgotado o prazo para a transferência dos corpos ao novo cemitério, o Departamento Autônomo de Águas e Esgotos da Prefeitura (hoje, Sanepar) começou a abrir valetas para a canalização de água e na altura do futuro Moinho Corbélia foram encontrados crânios e ossos. Alguns moleques chegaram a jogar futebol com um crânio.

Mário Thomasi teve seus motivos para a acreditar na maldição do cemitério. Ele tinha um brilhante futuro pela frente, como um dos principais lideres da comunidade, mas acabou sendo obrigado a ir embora de Cascavel a contragosto. Neves Formighieri jamais pôde concorrer novamente à Prefeitura. Helberto Schwarz teve o desgosto de ter a Prefeitura destruída pelo fogo praticamente às vésperas de encerrar seu mandato e também jamais voltou a concorrer a qualquer cargo público. Era a maldição do cemitério, no entender de Thomasi. “Acho que esse negócio de mexer com cemitério não é bom”, dizia ele.

Eles não tiveram medo[editar]

Depois de fazer a transferência do cemitério do centro da cidade para a rua Carlos Gomes, o prefeito Helberto Schwarz sofreu a agonia de ter a Prefeitura criminosamente incendiada em seu último dia de administração. Alguns acreditam que ele foi atingido pela maldição do cemitério, que já havia alcançado Neves Formighieri e Mário Thomasi.

Por um triz Schwarz não foi linchado e mesmo tendo escapado espetacularmente via aérea, jamais conseguiu retomar sua até então bem-sucedida carreira política. Octacílio Mion, mesmo tendo feito uma segunda administração cheia de conquistas – iniciou a industrialização, o saneamento básico e o ensino superior – não conseguiu eleger seu sucessor, o deputado estadual Odilon Reinhardt, e jamais voltou a se destacar na política, a não ser apoiando terceiros.

Três vereadores signatários de projetos que redundariam na criação da Administração dos Cemitérios e Serviços Funerários (Acesc) enfrentaram problemas das mais diversas origens, em suas vidas pessoais e na carreira política. Hostílio Lustosa, que foi vereador, secretário municipal e vice-prefeito, depois de apresentar projeto referente aos cemitérios jamais voltou a se destacar na cena principal do mundo político local, embora esteja em plena atividade e não se deixe perturbar por tais histórias.

O vereador Reinaldo Rodrigues, que também demonstrou preocupação com os serviços funerários – foi o primeiro a propor o sistema de gavetas para o cemitério –, elegeu-se apenas uma vez, em 1992. Quando concorreu à reeleição, em 1996, obteve menos da metade dos votos recebidos quando se elegeu, mas certamente isso se deveu a problemas internos do PMDB. O que reacendeu o temor popular sobre a maldição do cemitério foi o que aconteceu com o ex-vereador Celso Demoliner. Autor do projeto que criou a Acesc, ele foi o justamente o primeiro administrador da autarquia, criada em 1989. Desde então sua carreira política se arruinou e chegou inclusive a enfrentar sérios problemas com a polícia e a Justiça.

Tolentino retardou a "maldição II"[editar]

Mas o ex-prefeito Fidelcino Tolentino parece ter superado a “maldição”, pois em sua primeira administração (1987) criou o cemitério do Jardim Guarujá e isso não o impediu de se eleger para a Prefeitura em 1992, embora depois disso sua carreira política também tenha sofrido sérios reveses. Os ex-prefeitos Salazar Barreiros e Edgar Bueno fizeram várias melhorias em cemitérios da cidade e dos distritos e só gente muito impressionável pode acreditar que as derrotas sofridas por eles respectivamente nas eleições legislativa de 2002 e municipal de 2004 tenha algo a ver com espíritos perturbados.

Hoje, a extrema necessidade de construir um novo cemitério está mexendo novamente com os espíritos. Entretanto, os espíritos que se agitam atualmente estão muito bem encarnados e participam de um jogo em que a habilidade política e a correção administrativa contam bem mais que pragas e maldições.

O cabeleireiro Sebastião de Jesus Miranda, o popular Bastroco, testemunhou vários casos de jagunços que desembarcavam no aeroporto para executar “serviços” de matança de posseiros. “Os caras encomendavam e os jagunços matavam mesmo”, contou ele. “Aqui em Cascavel tem gente com mansão de uma quadra que não sabe que está morando em cima de um cemitério. E fica bem aqui no centro da cidade. Se cavar um pouquinho, vai tirar caveira debaixo da terra”.

(Fonte: Alceu A. Sperança, jornal O Paraná, seção dominical Máquina do Tempo)