O canto do nauta!

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O canto do nauta!
por José da Silva Maia Ferreira
Poema publicado em Espontaneidades da minha alma.


NO ALBUM DO


Illm.º Sr. C. J. M.


De pé, só, e sobranceiro,
Em fraco, debil madeiro,
Contemplo aguas sem fim:
Miro nos céus as estrellas,
Tão brilhantes e tão belias,
Qual resplandecente rubim.

Livre sou, navego altivo,
Sempre attento, e nunca esquivo
Ás furias do vendaval;
E na immensidão destes mares
Ás vezes tenho pezares,
Saudades de Portugal!

Gosto de um céu mui puro
Ou do vento ás vezes duro
No seu forte sibillar;
Quando as vagas espumantes,
Raivosas e fumegantes
Vão ao longe rebramar.

12


E em seguida a tempestade
Diviso com potestade
Retumbar em escarcéus;
E apóz do mar as aguas
Em féras — horridas fraguas
Rasgarem nuvens dos céus!

Então lanço mão do leme,
E com coração que não teme
Do forte bramir do mar; —
Escuto a voz da verdade —
Do meu Deos a Magestade,
E vou sempre a caminhar.

Rinzo as vélas; — e se o vento
Cada vez maior tormento
Raivoso me quer soprar;
Reservado, e sempre crente
Espero que brevemente
Suas furias vem findar.

No horisonte apóz diviso.
Como se fôra um sorriso
D’entre uns labios de coral,
Rasgar-se a nuvem ventosa,
Mostrando-me a luz mimosa
Do findar do vendaval.

Depois o céu matisado,
De mil côres enfeitado
Vem-me a mente acalentar;
Solto então todas as vélas —
£ já folgo o vêr como ellas
Correm, voam sobre o mar!

Senhor de todos os mares,
E livre dos crús azares
Que a tempestade nos traz;
Sobrevem-nos a bonança,
E o meu braço ainda não cança
De volver o leme audaz!

Oh! quanto é doce á minh’alma
Depois da procella a calma
Sobre aguas de puro anil; —
Ver o ceu abrilhantado
Inda ha pouco carregado
Na extensão de leguas mil!

Então fresca e meiga aragem,
Como se fôra em ramagem
Bafejada com amor, —
Incha as vélas pressurosas
Por se mostrarem vaidosas,
Ao meu barco de primôr.

Navego e assim caminhando,
Na minha vida scismando,
Contemplo que sou feliz;
Porque aqui rege a natura
Um só Deus — e a mão impura
Dos homens nada me diz.

Eu não troco a minha vida,
Ainda assim tão desabrida
Nas procellas do alto mar;
Aqui falla a Natureza,
Na terra só ha torpeza,
Risos falsos d’enganar!

Mesmo exposto á tempestade
Tenho ainda a liberdade —
Senhora dos céus e mar!
Não ha aqui ferros tyrannos,
Não ha gestos deshumanos,
Para barb’ras leis dictar!

Livre sou, navego altivo,
Sempre attento e nunca esquivo
Ás furias do vendaval:
E na immensidão destes mares,
Só ás vezes hei pezares,
Saudades de Portugal!