O culto do chá

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O culto do chá
por Venceslau de Morais
Transcrito segundo a grafia original. Obra publicada durante a estadia do autor no Japão.
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Lisboa, 27 d’Abril de 1906.
WENCESLAU DE MORAES
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O CULTO DO CHÁ
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(ILLUSTRAÇÕES DE YOSHIAKI)
KOBE
Typographia do "Kobe Herald"


Gravuras de Gotô Seikôdô


1905

A

Vicente Almeida d’Eça,

Sebastião Peres Rodrigues,

Bento Carqueja,


isto é, á Trindade benevolente, que ainda ha pouco, de tão longe, me enviou dentro das folhas de um livro — as Cartas do Japão,— o perfume ineffavel da sua amizade, offereço este outro livro, exotico pela forma, exotico pelo texto, mas não pelo sentimento de profunda gratidão, que inspirou esta primeira pagina.

Kobe, Junho de 1905.

Wenceslau de Moraes
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O CULTO DO CHÁ.
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F

ALLA-SE do Japão; nem, francamente, devera presumir-se que eu ia referir-me a um paiz qualquer occidental, onde a nossa raça branca floresce.

É no Oriente, e em especial no Extremo-Oriente, que as coisas communs da creação ou os usos e costumes trviaes da vida são susceiveis de merecer um tal requinte de solemnidade sentimental e de praxes de rito, que constituam um verdadeiro culto. No espirito do europeu, despoetizado pela chateza dos ideaes da epoca atribulado pelas multiplices exigencias da vida, pervertido pela febre do negocio, não medram de ha muito os cultos. Especializando a observação ao chá, havemos de convir que este artigo de commercio, que de tão longe nos vem, propositadamente adulterado conforme o nosso gosto, no fim de contas se resume n'uma detestavel infusão que entrou em moda no sport social, simples pretexto para repastos pelintras, para reunioẽs banaes, para palestras vãs.

A Asia é outra coisa: a muitos propositos immersa ainda em barbarismo, se assim se quer dizer; com mil defeitos e mil erros, que a sabia Europa aponta a dedo e algumas vezes corrige, quando pode, com a logica dos seus conhoës de tiro rapido ; o que ella retem ainda, indiscutivelmente, esta Asia, é o caracter ancestral, nada vulgar, nada rasteiro, palpitante de orgulhos de raça, aprazendo-ne em sonhos e em chimeras, acariciando a lenda, divinizando as coisas, prodigalizando os cultos; o que é, em todo o caso, uma maneira amavel, de ir comprehendendo a vida.

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Oh, fé dos velhos tempos!... Oh, santos patriarchas de tão varios paizes e tão diferentes seitas, tenazes campeões, que fostes incutindo nos simples a crença, a esperança, o amor, — balsamos consoladores das duras miserias d’este mundo, — como eu vos amo, a todos!...

Meus piedosos pensamentos elevam-se n'este momento a Darumá. Segundo a tradição da gente japonesa. Darumá, o grande apostolo indiano do buddhismo, veio á China ahi pelo começo do seculo VI da nossa era christã, e em terras chinezas prégou em honra da verdade, illuminado o espirito dos povos.

Consta que, por voluntaria desistencia das ephemeras alegrias terreaes, Darumá votou-se a passar a vida de joelhos sobre o solo pedregoso, absorto em contemplações mysticas,
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sem mesmo permittir-se o simples regalo de dormir. Tantos annos permaneceu de tal maneira, que as pernas se lhe gastaram, claro está; e é assim, sem pernas, só com a cabeça e com o tronco, envolto n'um manto carmezim, que ainda hoje é figurado. A imagem tornou-se querida e popular entre esta boa gente japoneza; é mesmo um brinquedo corriqueiro entre as mãositas das creanças, — os santos e os meninos vivem sempre em boa companhia; — lembrando o tal brinquedo o nosso frade de sabugo, pela teima em voltar, por mais voltas que lhe dêem, á sua postura habitual. Deve ainda saber-se que Darumá tem dado assumpto, desde remotos tempos até hoje, a pintores da mais alta valia; Hokusai foi um d'elles, pintando um famoso Darumá sobre uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de grandeza, empregando oitenta litros de tinta no desenho e servindo-se de cinco vassouras á laia de pinceis: estendida a tela sobre o campo, no telhado de um templo a turba admirava a obra e applaudia o mestre.

Mas voltêmos no que aqui mais nos interessa, respeitante ao venerando vulto que invoquei, ajoelhado sobre as pedras. Consta mais que, em certa noite, as palpebras se lhe cortaram de fadiga, e o bom Darumá deixou-se adormecer, para só acordar pela manhã. Então, pedindo a alguem uma tesoira ou instrumento parecido, cortou a si proprio as palpebras indignas e arremeçou-as no solo, n'um gesto de despeito. . . As palpebras, por milagre, erraizaram, dando nascença o a um gracioso arbusto nunca visto, que medrou mui de prompto e cujas folhas, tratadas de infusão pela agua quente, fôram um remedio precioso contra o somno e contra o cançaço das vigilias. Estava conhecido o chá; tem pois na China a sua origem, e é coisa santa, como se acava de provar. Crê quem quer; mas devo advertir que este livro foi

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escripto para os crentes.

Da China, veio o chá para as terras de Nippon, mas não se sabe quando.

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Velhas chronicas mencionam (no dizer dos entendidos n'este caso melindroso), que em 729 da era Christã, durante uma festa religiosa do espavento, o imperador Shomu offerecia chá a bonzos de alta gerarchia; mas fica-sa ignorando se já antes seria conhecido . . . Parece que um bom abbade buddhista, Dengyo Daishi, foi o primeiro que obteve a planta em solo japonez, em 805; o chá em então já uma beberagem favorita entre as bonzos chinezes, que d'ella se serviam durante as vigilias prolongadas das suas praticas nocturnas. Mais recentemente, ainda outro, bonzo, Eisei, tendo ido á China, de lá voltou, trazendo as sementes preciosas, e no monte Sefuri, em Chikuzen, cuidou da sua sementeira. Pouco depois, ainda mais outro bonzo (sempre os bonzos!) de nome Mioyé, colhendo de Eisei os varios segredos de cultura, novas sementes adquiriu, e em Toga-no-o e em Uji, logares visinhos de Kyoto, attentamente se entreve em cultivar o chá; em Uji, de preferencia, fôram os resultados excellentes. Dois seculos depois, cerca de 1400, o shogun (generalissimo) Ashikawa Yoshimitsu imprimiu vigoroso impulso ás plantações de Uji, as quaes tanto fôram prosperando, mercê da riqueza do torrão, que de então até hoje o chá d'aquelle sitio tem sido celebrado como o melhor de todo o imperio ; d'elle exclusivamente se serve o Imperador.

O Japão é a terra das camelias: camelia japonica, lá diz o latinorio dos botanicos.

Quando, por fins de novembro, começam os frios o as geadas e pouco tarda que as neves alvejem nos dorsos das montanhas, quando acusam as ultimas florescencias dos jardins, é então que comecam ostentando-se as bellas flores d'esta esplendida familia das camelias. Véem primeiro as sazankas, umas brancas, outras roseas, de mimosissimas perolas frisadas; seguem-se as camelias

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simples, sanguineas, surdindo da rama espessa de arvores gigantes, espalhadas pelos campos; e após véem as flores cuidadas, de luxo, variando em innumeras formas, variando em innumeros tons, desde o branco de leite ate ao rosco quasi negro. Então igualmente desabrocha a pequenina flor do chá, que tambem é uma camelia, subtilmente perfumada, composta de cinco petalasinhas alvas contornando e protegendo o feixe aureo dos estames.

Passando, em horas de ocio, junto dos campos de chá, dos quaes sinto prazer em acercar-me, palestro com os aldeões e aprendo noções varias, respeitantes á delicada planta. Não pode ser transplantada, nem se multiplica por estaca ou por enxerto, só por sementeira se propaga. Os paizes quentes, como os paizes frios, são-lhe nocivos; prospera nos climas temperados, nos sitios

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lavados de ar e luz, visinhos dos cursos de agua, convindo um ligeiro declive no solo de cultura. Os arbustos são dispostos em renques parallelos, de norte a sul, para que o sol lhes bata em cheio desde pela manhã até á noite: as plantas mais cuidadas
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reclamam na primavera grandes toldos de palha, que abriguem das geadas as tenras folhas dos rebentos. Durante o primeiro anno, dispensam adubos, que depois se applicam em periodos frequentes. A guerra aos vermes, aos insectos, exige zelos incessantes. No fim de quatro annos, já o arbusto se presta á primeira colheita; mas não as velhas plantas, de cem annos, de duzentos annos, as que melhor produzem.

Quem quiser tomar conhecimento com a planta de chá, nas melhores condiçoẽs de prosperidade e em mais bellas galas de aspecto pittoresco, tem de ir até Uji, distante quinze milhas de Kyoto; escolhendo de preferencia um dos primeiros dias de maio, quando os rebentos novos começam vicejando, o que marca o inícío da faina da colheita. Faina e festa: a povoação inteira acorda da sua modorra provinciana; desperta em esperanças, em jubilos, em actividades incançaveis, para votar-se nos cuidados da preciosa folha; deverá presumir-se, em bom criterio, que a quadra remoçannte da primavera em flores, com aromas nas brisas e quenturas creadoras, constitue tambem um forte estimulo para a alegria repentina que se pinta nos rostos de toda aquella gente.

O quadro é deveras aprazivel. Após uma banal estação de linha ferrea, estende-se a cidadesinha garrida, com as suas viellas muito limpas e a fila de lojinhas abarrotadas de varia mercancia. Depois segue-se o rio, de aguas limpidas e frescas, rico de tradições de gloria; galga-se a ponte em arco, entra-se no bairro das chayas, dos hoteis, em tal quadra povoados de fregueses galhofeiros e de gentis mulheres, as gueishas, que cantam ou dedilham no inseparavel shamicen; e véem depois os campos, vastos campos de chá a succederem-se pelo horisonte fóra, cuidados como jardim, em longos alinhamentos de arbustos, copados, arredondados, lembrando enormes mangericos, de delicada rama de um verde escuro bronzeado; no azul distante, algum famosos templos confusamente se recortam.

As moças de Uji estream kimonos novos para o caso, arregaçando

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as mangas com fitas escarlates; amarram em turbante em

volta dos cabellos toalhas de côr azul e branca; e assim, esbeltas. graciosissimas, em ranchos de dez, de doze companheiras, dirigem-se ao trabalho. É então um encanto para os olhos ir a gente surprehendel-as no afan do seu mister, dispersas pelas

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campinas fóra, como borboletas; indo de um ramo o outro ramo, de um arbusto a outro arbusto, por vezes occultando-se entre o verde mais denso da folhagem. Os dedos roseos, miudinhos, a escorrerem de orvalho e multiplicando-se em gestos delicados, vão colhendo os rebentos tenros do chá e atirando-so a grandes ceiras dispostas pelo chão; as boccas vão sorrindo, patenteando as enfiadas alvas dos dentinhos; os olhos esbrazeam em juvenis amores inconfessados; as vozes unem-se ás vozes, em rythmos commoventes de velhas canções locaes:

    “Quando nasce o sol radioso
Por cima d'aquelle oiteiro,
Todas as aguas do rio
Parecem mesmo um brazeiro! . . .

    "N’estas aguas do rio d'Uji
— Taö milagrosas que são! —
Lavam-se todos os males
De que soffre o coração. .

No campo, as raparigas. Nas casas, os homens, as velhas, as creanças. Será rara a familia que não tenha interesse na labuta; as grandes fabricas constituem excepção, como em todas as primitivas industrias japonezas; em cada albergue se improvisa uma

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manufactura, modesta, familial, onde todos trabalham, risonha, palestrando. O chá é escolhido, escaldado, posto a seccar, grelhado em fornos, enroladas as folhas ou reduzido pó, depois empacotado, guardado em latas, em caíxas, em boiões; um melindroso amanho

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que requer mãos incançaveis, dedos prestimosos, cuidados insuditos, segredos do processo. meticulolidades devotas que espantam os profanos, nas quaes collabora a gente toda valida d'aquelles arredores.

Tal é a industria graciosa e tal é o chá que os japonezes bebem. Vêde agora como a civilização occidental contrasta com os usos d'estes asiaticos. Téem os japonezes, para lá do Pacifico, um grande consumidor do seu producto: é o Yankee. Tanto

mimo e tanto esmero na apanha da folha e preparações que se
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succedem não bastariam para o chá que os americanos vão beber. Vem de Uji e do outros pontos, tal como os japonezes o preparam, para as firmas estrangeiras de Kobe e de Yokohama ; é então submettido a novas operações, ao sabor do fino paladar de Nova-York e de Chicago. Não são agora as camponezas, esbeltas e trajando roupas novas, que acodem ao mister; trabalham machinas a vopor, fumegam chaminés e guincham engrenagens; e occupa-se no preparo um mundo feminino inqualificavel, escoria das cidades, esfarrapado, piolhoso, horripilante, que a gente vê sahir das fabricas á tarde como uma leva de mendigas, cheias de pó, de pustulas, de miseria. O fabrico do chá ao gosto americano consiste n'um segundo aquecimento em grandes fornos e na addição de varios productos, como o pó de uma certa pedra, soopstone, e o azul da Prussia. Assim é expedido.

Á introducção e vulgarisação do chá na terra japoneza deveu grande incremanto uma industria desde remotos tempos exercida,
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mas toscamente praticada, — a ceramica,— que havia de alcançar com o correr dos tempos um supremo grau de perfeição como arte nacional. A conservação da preciosa folha, exigindo escrupulos inauditos para reter o seu perfume, marcou o ponto de partida. Foi Toshiro, um oleiro da aldeia de Seto, na provincia de Owari, quem fabricou os primeiros boiões para guardar o chá, empregando processos que aprendera na China, respeirantes á perfeição da pasta e dos esmaltes. Passava-se isto ha sete seculos; e é curioso registar que seto-mono (objecto de Seto) é ainda hoje o nome consagrado para indicar qualquer artigo de ceramica.

Dos boiões, passou-se gradualmente ás chavenas, aos bules, á gentil e complicada baixella que a infusão foi reclamando e o luxo pondo em moda; a ora aqui está como a ceramica no Japão, — faiança ou porcellana,— qua attingiu requintes de arte primosissima, deveu ao chá e á agua morna os seus melhores progressos.

Quando comecáram a tomar chá os japonezes, era este reduzido a um impalpavel pó e com elle se fazia a beberagem; depois veio o uso de empregar as folhas, apenas escolhidas e passadas pelos fornos; e é esta, ainda hoje, a maneira mais commum de preparal-o.

No Japão, toda a gente toma chá,— ricos e pobres, nobres e plebeus:— bebe-se na occasião das refeições e a toda a hora, a

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pequeninos goles. No lar. quando entra o visitante, offerece-se-lhe, após as reverencias, uma almofada de regalo e uma chavena de chá. O mercador, quando quer ser amavel com o freguez, serve-lhe antes de tudo uma chavena de chá, palestra, falla da chuva e do bom tempo; só mais tarda se trata do negocio. Nos templos famosos, em Kyoto por exemplo, o bonzo offerece chá ao peregrino antes de lhe montar as reliquias e os museus. Pelos caminhos mais agrestes, que vão serpeando pelas collinas arriba, ha rusticos poisos espaçados aqui a acolá, onde o caminheiro descança alguns minutos, bebe uma chavenaa de chá, troca um sorriso, deixando em retorno um cobre sobre a esteira. Um restaurante, na pittoresca linguagem japonesa, diz-se um chaya,— que quer dizer — casa de chá.— Da sorte que a chavena de chá, que acompanha os bons-dias dados a quem chega, não constitue simplesmente ama norma rutineira, um habito banal, tornou-se como que o symbolo da doce hospitalidade japoneza, um rito da bonhomia d'esta gente, exercido ansiosamente entre amigos, entre estranhos tambem, porque ao estranho, que larga á porta as sandalias, vem no nosso lar e nos saúda, deve-se ja um sorriso e a sua parte do conforto.

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Na casa, nua de moveís, porem mimosa de aceios requintados, figura sempre o brazeiro sobre a esteira, e nas brasas vae fervilhando a chaleira de ferro cheia de agua; o bon (uma bandeja) está cerca, contendo o bule, as cinco chavenas (cinco, porque?

talvez por terem cinco os dedos em cada mãosita japonesa), os
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cinco pires de madeira ou de metal, o cofre de estanho contendo o chá em folhas e ainda o pequenino recipiente em porcellana chamado yuzamashi, cuja ordinaria serventia vae muito em breve conhecer-se. O sentimento artistico japonez deprava-se naturalmente ua industria de hoje, em grande parte com destino á exportação para a Europa e para a America: é nos utensilios communs de uso indigena, onde não intervem a modernismo, que ainda reside o gosto esthetico, puro e inconfundivel, da gente japoneza, revelando por si o complicado conjuncto de esmeros, de elegencias, de chimeras, em que a alma d'este povo se deleita. No que respeita o serviço de chá, é innarravel a gentilea de todo este arsenal de bagatelas, minusculas, dando a impressão de serem destinadas a um banquete de bonecas! . . .

A agua passa da chaleira para o yuzamashi, onde arrefece, pois é preceito fazer-se o chá com agua que ferveu, mas ja não ferve; prepara-se depois no bule a, infusão, que é offerecida aos hospedes nas pequeninas taças de fina porcellana.

Eis a singela practica e eis a modesta offerta, actos da vida intima não poucas vizes repetidos durante cada dia, desde pela manhã até á noite. Poderiam julgar-se sem meritos que valessem do estranho um instante de attenção e um commentario; mas não succede assim. Para a alegria dos olhos, a simples preparação do chá imprime um relevo delicioso á graciosidade innata na musumé, na attitude que lhe é mais habitual, de joelhos sobre a esteira, junto do seu brazeiro. A mimica é impressiva, unica; privilegio d'aquella figurinha meiga e ondulante e d'aquella buliçosa mão, de finissimos contornos, da japoneza, que é, em summa, a Eva mais gentilmente pueril, mais captivantemente chimerica, mais feminina emfim, de todas as Evas d'este mundo. Parece certo que jamais o japonez, que ignora o beijo, haja poisado a bocca n'aquella mão que exhibe esplendores de graça para servir-lhe o chá; o forasteiro, em intimidade serena, pode ensaiar o galnateio se a phantasia o tenta; e então verá talvez, que a mãosita da musumé, reconhecida no afago, se conchega de encontro aos labios, se demora, como uma rola

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docil gulosa de carinhos.

O chá japonez, servido invariamente sem leite e sem assucar, que lhe prejudicariam o aroma, é a bebida mais suavemente agradavel que possa offerecer-se ao nosso paladar (não de todos porem, mas um paladar sentimental, um tanto sonhador . . . que n'isto dos nossos orgãos de sentir ha temperamentos, aptidões affectivas caracteristicas . . .) O guyokuró, por exemplo, que é o mais celebrado chá de Uji e de todo o Japão, instilla taes subtilezas balsamicas de sabor, que mais parece um perfume; poderia dizer-se que uma maravilhosa alchimia conseguiu liquifazer os aromas da flores—flores dos jardins, flores silvestres,—transferido do olphato ao paladar a impressão do goso. Assim é o guyokuró; claro está que palavras não podem traduzir senão por comparação as emoções sentidas; e esta, a do agridoce delíciosissimo que nos fica nos labios, persistindo, como na memoria persiste uma reminiscencia, uma saudade, é incomparavel . . .

O chá japonez tem a virtude de mitigar a sêde. Assim se explica o habito dos japonezes não beberem agua; mesmo na força dos calores, em pleno agosto, a chavena de chá, saboreada a goles, lhes dá pleno consolo. Aponta-se-lhe mais outros condões: excita ligeiramente o organismo, combate o cançaço das vigílias, predispõe ao bem estar, infiltra no cerebro não sei que subtil embriaguez, lucida todavia, que nos torna mais affectivos ás sensações de agrado e mais aptos ás elaborações do pensamento.

A maneira de preparar a infusão do chá em pó e a arte de servil-o constituem a tão famosa cerimonia chamada do chá-no-yu. Foi assim que o uso do chá se introduzio no Japão, como uma pratica liturgica dos frades buddhistas da seita de Daisu, exercida no propoito de prolongarem as mysticas vigilhas preceituadas; servia ao mesmo tempo de pretexto para uniões intimas, que eram, imagina-se, um aprazivel desenfado á proverbial monotonia do convento; sendo um meio efficaz de estreitar laços

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de estima, pelas confidencias segredadas, pelos sorrisos beatificos que se cruzavam, em quanto que a unica taça ia passando, de mão em mão, de bocca em bocca, fraternalmente, até se esvaziar.

Mais tarde adoptou-se entre o povo o uso das folhas; mas o chá-no-yu persistiu nas bonzarias, propagando-se tambem nos costumes profanos, então com um exuberante luxo de apparato, que muito apaixonou a alta nobreza. Pelos dias que correm, ainda está em moda, sem distinção de classes; é um habito gentil que ficou dos velhos tempos e a que todos podem entregar-se, tido em valia, pela delicadeza esthetica do scenario e ainda não despido do prestigio ortodoxo que lhe vem da remota tradição.

O chá-no-yu, se pode definir-se, é a arte de preparar a infusão do chá em pó, com esses escrupulos de limpeza, com esses requiantes de elegancia de que só é capaz o japonez; sendo a bebida oferecida a alguns amigos de eleição, a drede reunidos n'um recinto disposto para a paz do pensamento e para o agrado dos sentidos.

Bom é dizer agora que os codigos referentes a materia tão grave não innumeros, diversas as escolas; e os grandes profissionaes, chájin (homens do chá), de celebridade immoredoira, centenas de volumes escreveram sobre o assumpto.

Tudo foi regulamentado e comporta um preceito, que não é licito esquecer. Nos tempos aureos do cha-no-yu, o pavilhão que recebia os hospedes eu construido n'um jardin e obedecia a uma architectura inconfundivel. No seu arranjo interno, para a côr das paredes, para a disposição de luz, para o numero das esteiras, para a jarra com flores ou com um ramo de arvore, havia praxes a seguir; o kakemono (quadro suspenso da parede) devia representar uma paizagem que fôsse impressionar a pupilla com carinho: ou antes uma simples sentença escripta por um pincel de mestre calligraphico, pois nada commove tanto a aguda sensibilidade d’esta gente como os seus caractéres de estranha construcção, cada um equivalendo já a uma synthese de ideas e predispondo,
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pela sentida contemplação, — ora por uma desenvoltura de traço, ora por uma ondulação de curva, — ao vago discorrer da alma sonhadora. . .
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O plano do jardin submettia-se a regras determinadas, pelas quaes o engenho indigena se revelava em graças prodigiosas, aqui pelos contornos do lago e pelas pontesinhas que o cruzavam, alem pela escolha dos arbustos e das pedras, na intuição ingenua e amorosa de impôr á vista a illusão de uma paisagem rustica, reduzida a proporções minusculas. Mais do que isto: a alma das coisas, o que de inexplícavel e de subtil parece emanar de um conjuncto qualquer onde os olhos se poisem.— tranquillidade das sombras, arrogancia de um tronco, ternura das relva . . . — devia ressaltar suggestivamente do jardinsinho japonez, imprimir-lhe um caracter, uma philosophia, acordando na mentalidade dos visitantes um sentimento de paz, de triumpho, de saudade . . . Claro está que as flores de luxo, como as rosas, como as camelias, como as peonias, eram excluidas, por improprias da intenção de quadro agreste dada á scena.

Éra de estylo a monumental lanterna, tal como se encontra nos templos, de pedra, tanto mais valiora quanto mais esverdeada eroida de vetustos musgos, e espalhando pela noite vagas claridades coadas pelas suas frestasinhas cobertas de papel; os japonezes deleitam-ne em contemplar, após uma nevada, sua amplas cúpulas em umbella d'estas lanternas de templos e de jardins, receptaculos onde a neve poisa e se demora, em fofos vellos de formas extravagantes, de deslumbrante alvura. Um outro accessorio se encontrava, cerca do pavilhão: o pedaço de rocha bruta com uma pequena cavidade cheia de agua, onde os hospedes iam lavar as mãos antes de entrarem, como em purificação liturgica.

Até a linguagem empregada entre os convivas obedecia a regras de pragmutica: os assumptos de religião ou de politica eram banidos; a phrase devia modelar-se n'um agradavel discorrer, sem ferir melindres de ninguem. A cortezia impunha-se: preceituva-se que o hospede proferisse palavras de louvor pelo que via,— alfaias de serviço, arranjo do aposento, horisontes em volta,— mas sem insistencia em demasia, que poderia parecer pouco sincera ou pelo menos importuna.

Variadissimos objectos devem encontrar-se no aposento, como o brazeiro, o carvão de reserva contido n'um cestinho, a chaleira, o abano de pennas, o cachimbo, o tabaco, o pincel,
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o papel e a escrevaninha. Os artigos destinados particularmente ao chá, muitas vezes contidos n'um estojo especial, são os seguintes  : a boceta com perfumes, que antes de tudo se lançam sobre as bruma e embalsamam o ambiente; a jarra com agua fria e a competente colher feita de um pedaço de bambu; o chá em pó n'am cofresinho de charão e a colherinha adjuncta; duas taças, de barro ou de porcellana, uma usada no verão, de côr clara, e outra escura, usada no inverno; um curioso utensilio feito de finas lascas de bambu reunidas em feixe, com que se agita na chavena a mistura do chá em pó com a agua morna; finalmente a tigela onde se lavam e o pedaço de seda, de
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finissimo tecido, com que se enxugam, as peças empregadas.

É o dono da casa quem deve preparar o chá, solemnemente, prescindindo do mais ligeiro auxilio dos criados; é elle que o offerece aos convidados. A mão executa setenta e cinco movimentos, n'um chá-no-yu havido por singelo. . . e trezentos, quando requeridas tudas as formalidades ortodoxas.

No tempo du generalissimo do Imperio, chamado Toyotomi Hideyoshi, mais conhecido na historia pelo grande Taiko-sama, quasi todos os generaes eram chajin, isto é, ferventes apaixonados da cerimonia do cha-no-yu. Em 1585, o proprio Taiko-sama
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organisou um chá-no-yu colossal nas visinhanças de Kyoto, ainda hoje memorado como festa de inigualavel esplendor: uma extensão de quinze kilometros quadrados era occupada por innumeros kiosques, aonde os generaes preparavam o chá; todos, nobreza e plebe, os ricos e os mendigos,— um enxame humano! — tinham entrada; Hideyoshi visitou todos os poisos e por suas proprias mãos preparou chá, que offereceu aos chefes favoritos.

Relembrando o passado, juntamente n'um periodo de effervescencias guerreiras culminantes no Japão, talvez pareça estranho, talvez pareça comico, que esses rudes barões de tão grandes façanhas, os indomaveis veteranos das guerras na China e na Coréa, despissem armadura, tirassem os dois sabres da cintura, para virem votar horas chimericas a aquecer a agua sobre brazas e a preparar o chá. . . Mas o contraste, por si, explicam facto: era precisamente esta dura existencia de batalhas e de lances sangrentos, de inclemencias da vida nomada, de longo cogitar em extratagemas e em argucias, que impunha aos homens dirigentes a doce tregua do chá-no-yu. O convivio com os partidarios e os amigos, o desfilar do povo alegre a reverente, a verde paizagem de repoiso, a solemnidade hypnotica dos gestos, tudo contribuia para offerecer um curto aprazimento áquella gente, que assim ia apagando da memoria os amargores soffridos, estreitando sympathias, retemperando forças para as proximas luctas.

O chá-no-yu attingiu depois, durante a longa paz da dynastia shogunal dos Tokugawa, uma epocha de exaggeros faustuosos, de dissipações paradoxaes. Escolhian-se as baixellas

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de entre objectos muito antigos e firmados por um nome de fabricante prestigioso, e por isto rarissimo, preciosissimos; e estava então e moda offerecel-os, no momento das ruidosas despedidas, ás bellas companheiras do festim, que haviam com as suas guitarras, com as suas canções, com as suas graças profissionaes, enfeitiçando os hospedes. . . Sorveram-se fortunas n'este abysmo.

É de então que ao conta que um amador empregou n'um chá-no-yu utensilios no valor do trinta e oito mil yens, o que
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passa de quatro mil libras esterlinas, um outro adquiriu por trinta mil yens um só boião de chá! . . .

Ha cerca de tres ou quatro annos, em um leilão de Tokyo, um japonez comprou por tres mil yens uma chavena de chá-no-yu; prova isto que ainda ha devotos chajin presentemente. Com effeito, se o luxo sem limites que caracterizou o chá-no-yu dos bons tempos feudaes desappareceu para sempre com a mudança de costumes, e com a mudança de costumes, continuou todovia esta elegante pratica merecendo uma alta estima. Hoje, os dois sexos a ella se dedicam, o pode affirmar-se que faz parte da boa educação de uma menina, exigindo uns seis ou sete annos a sua aprendizagem. As gueishas tambem se instruem em tal culto: as celebres danças primaveraes da cidade de Kyoto, conhecidas pela denominação de Miyako-odori, são sempre precedidas do chá-no-yu, em que é officiante uma das mais gentil geishas do logar; e a multidão acode, com devota deligencia, a saborear o perfumado chá.

Não me peçam agora, a mim, profano na materia e viageiro

fatigado de tão multiplices impressões que tenho vindo colhendo por este mundo fóra, uma opinião pessoal sobre o chá-no-yu. Estive uma vez, é certo, com dois ou tres amigos, em uma das chayas de mais fama da cidade de Kobe; e Tama-Guiku (o Malmequer-Precioso) era a esplendida sacerdotiza da cerimonia. A impressão que d'aquella noite guardo é indefinida, fugidia, como de um vago sonho que tivesse. Ficaram-me
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reminiscencias indecisas do luxo sobrio e harmonioso e do aceio extremo das coisas impregnadas de exotismo onde poisou o meu olhar. Na meia luz do placido aposento, amplo e silencioso como um templo, contornava-se, distante, um vulto de mulher, de joelhos, envolta em sedas magnificas. As attenções fixavam-se especialmente, como que por attracção hypnotica, nas suas mãos finissimas, alvejando no espaço como se fossem de marfim, tomando de estranhos utensilios, preparando não sei que filtro de magia, poisando em mimicas hieraticas, quaes mãos de mystica officiante de uma

religião desconhecida. Por fim, convidado a partilhar no sacrificio, acceitava uma taça com chá que me era offerecida e levava-a nos labios commovido, com não sei que subitos escrupulos de apostata mal firme . . .

Tama-Guiku concluiu. Ergueu-se, deslumbrante de graças, de atavios, de magestade. O seu rostinho meigo illuminava-se então da exaltação beatifica que lhe electrizava o espirito; dirigiu sobre nós a ardencia negra dos seus olhos, saudou-nos reverente. . . reverente, não porque uma imfima cortezia sequer lhe merecessemos,— pobres occidentaes ignaros! — mas em estricta abediencia aos preceitos rituaes; e desappareceu da scena.

A proposito d'estas divagações respeitantes ao chá e ao seu culto, vem-me agora ao pensamento e ainda me compunge um dramatico episodio da existencia intima japoneza, que contado me foi ha cerca de tres annos. Vou tentar descrevel-o.

Éra no fim de maio. Eu achava-me em Kobe. Um meu amigo japonez, chajin apaixonado, partira para Uji, onda devia assistir a umas costumadas reuniões votadas ao cha-no-yu, em casa de um parente, cuja filha, a gentilissima O-Hana, era eximia na arte; entre nós ficára combinado que eu iria encontral-o, passadas tres semanas, em Nara, a cujos velhos monumentos queriamos votar horas de estudo.

Haviam decorrido apenas uns tres dias, quando do tal sujeito recebi um bilhete, pouco mais ou menos n'estes termos:— “Pode seguir para Nara, onde me encontrará. Falhou o chá-no-yu. O-Hana suicidou-se. Pesava sobre ella uma desdita igual á pobre Hichi da lenda. . . "—

Ora, eu conhecia O-Hana; e a lenda, que por signal constitue o theme de uma notavel peça de theatro, não me era de todo estranha.

Vamos por partes. A lenda é como segue.

Não sei ha quantos seculos e nem sei em que logar, — nem importa sabel-o,— havia em certa rua dois estabelicimentos de negocios, dos que se chamam Yaoya em lingua do paiz, onde se vemdem variadas provisões,— fructos, legumes, hortaliças, ovos, peixe e muitas coisas mais.— Defrontavam um com o outro. N'um, habitam certo casal com uma filha unica, O-Hichí; n'outro, um outro casal com um só filho, Kichisa. Quiz a mofina sorte que se enamorassem um do outro.

Mofina sorte? Sim, embora, á primeira vista, não seja o caso concebivel, quando se saiba que ambos eram jovens, gentis e animados de doces enternecimentos amorosos. Eu me explico todavia. Os velhos codigos nipponicos, ainda hoje respeitados, impõem aoe filhos o preceito de herdarem o appelldo de seus paes; e filho mais velho herda a mais o encargo de chefe de familia, com a administração dos bens e a superintendencia no culto piedoso devido aos parentes fallecidos. É por este processo que as genealogias não offerecem mysterios e as familias se eternizam, conservando religiosamente o mesmo appelldo durante seculos sem conto; cessando apenas no caso excepcional de todos os descendentes acabarem, consanguineos ou não, pois é de uso corrente chamar ao lar, por adopção, filhos alheios. O filho unico pode certamente casar e a esposa recebe o appellido do

marido. A filha unica pode igualmente casar, e então o esposo
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recebe o appellido da mulher. Está-se agora percebendo como para O-Hichi e Kichisa o problema se complicava em demazia, por serem ambos filhos unicos. Um meio só se apresentava, o de uma dos familias adoptar um filho estranho, sobre quem recahissem os encargos de umo supposta primogenitude. Mas o alvitre en quasi imprticavel, por aquelles tempos feudaes que iam correndo, dependendo da sancção suprema do daimyô, que a negaria, por ser o caso novo; sem já contar com o orgulho revoltado dos paes da noiva, ou dos paes do noivo, da familia emfim que, para evitar de ser extincta, tivesse de investir um filho alheio nos deveres que competem ao legitimo.

É certo que as duas familias se oppozeram com toda a vehemencia a taes amores, e a casa se transformou para O-Hichi em duro encerro e a estima dos seus em agressões continuas. Foi então que a pobre musumé, captiva n'uma alcova, desesperada, louca de amores, meditou em pôr fogo ao seu lar de tormentos, na crença de que as chammas lhe trariam a liberdade e o ensejo de reunir-se áquelle a quem votara todo o seu affecto. Errou porem nos calculos, como succede tantas vezes quando se tem quinze annos e o pensamento voêja no mundo das chimeras: descoberto o seu crime apenas posto em pratica, foi trazida á justiça da cidade e condemnada á morte.

Vem agora a proposito narrar um pormenor curioso, que é de toda a tragedia o que mais me enternece. A misera seguia, conforme o estylo, pelas ruas populosas, amarrada ao dorso de uma besta, para ignominia propria e para licção do povo; mais tarde seria executada. A meio da jornada expiatoria, os seus longos cabellos soltos, como até então eram usados, cahiam-lhe em desalinho sobre a fronte, cheios da poeira dos caminhos, escorrendo de suor, fustigando-lhe as faces. Então, ou porque quizesse poupar-se a um tormento a mais, ou — quem sabe? — por um resto de garridice feminina, viram-n'a rasgar com

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os bellos dedos tremulos um pedaço da seda carmezim do forro do vestido, com que amarrou junto á nuca, erguendo os braços, esses pobres cabellos. . . A idea pareceu graciosa ás raparigas, que se iam juntando em grupos curiosos para observarem o cortêjo; e desde então as japonezas começaram de usar aquelle enfeite, que persiste até hoje e a que chamam hikidashi—litteralmente: farrapo—em memoria de O-Hichi, a triste namorada de Kichisa.

Mas vamos depressa ao fim da historia.

Quando em Nara deparei com o meu amigo japonez, o triste fim de O-Hana esclareceu-se em breve.

Havia em Uji das familias abastadas, Fukumoto e Yamaguchi, possuindo as mais bellas culturas de chá d'aquelles campos. Os Fukumoto juravam que o seu chá éra o melhor de todo o Imperio, e os Yamaguchi diziam do seu chá a mesma coisa; eram no fim de contas uns caturras, professando um supino orgulho do seu nome e um culto pelo mister a que se davam; alem d'isto, ou por isto, pouco affeiçoados entre si, confirmando a justiça d'aquelle ditado portuguez, com curso em todos em todas as longitudes do planeta. . . dos officiaes do mesmo oficio.

O casal Fukumoto tinha uma filha unica, O-Hana; o casal Yamaguchi tinha um unico filho, Naotarô. Este era um perfeito rapazola, amavel, intelligente, segundo affirma quem o viu. O-Hana era uma musumé em plena flor da vida, educada em todos as gentis prendas do seu sexo. Ninguem como ella desprendia suavissimos sons do koto, a harpa nacional; nenhumas mãos se mostravam tão habeis como as suas em grupar n'uma jarra de bronze algums hastes de pinheiro ou de lirios floridos trazidos do jardim; no chá-no-yu em incomparavel.

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Eu vi O-Hana uma só vez, nos parques de Kyoto, quando em peregrinação primaveral se vae contemplar, á luz da lua, a celebre cerejeira de Guion, toda vestida de pequeninas petalas.

O-Hana éra uma d'essas japonezinhas embebidas de enlevo e de exotismo, taes como vós as conheceis dos leques, dos biombos. Isto basta, á falta de melhor, para definir-lhe o vulto em miniatura, esguio e ondulante, coberto de sedas preciosas; e para imaginar-lhe o rosto pallido em forma de pevide de melão, os olhinhos cerrados, os finos traços das sobrancelhas em viez, a boquinha sorridente, rubra, lembrando uma cereja, e o penteado. . . o penteado colossal como uma enorme borboleta de azeviche, que lhe houvesse pousado, de azas abertas, sobre a nuca. Ria, curvava-se em mesuras, em meneios, agitando no ar descommunaes mangas do kimono; e lá ia seguindo o seu caminho entre um bando de amigas, antes ziguezagueando, a passos miudinhos, indecisos, sem intuito. E eu ia pensando que alli estava, em carne e ouso, a companheira deliciosissima, anjo de graças e fada de sorrisos, para quem podesse offerecer-lhe — japonez claramente ,— uma casinha de papel em extremos de limpeza, com duas esteiras sobre o chão, um bule com chá, um prato com confeitos, uma jarra com ramos vicejantes; e á frente o jardinsinho,— bambus tuffados, azaleas em flor, pedras musgosas, o pequinono lago, onde peixes nadassem pachorrentos e

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rãs coaxassem em noites estivaes. . . —

O-Hana e Naotarô amaram-se. Não se sabe porque. Porque eram ambos jovens, visinhos, conhecidos; e em circunstancias semelhantes a juventude attrahe a juventude. . .

Quando esta inclinação foi conhecida, as duas familias irromperam em não dissimulados azedumes. O casamento era impossivel. Se a adopção de um filho alheio podia resolver em theoria o problema, quem vinha sujeitar-se ao sacrificio? Os Yamuguchi? Os Fukumoto? Mas nem uns nem outros, com os diabo!. . . Os nomes das duas familias, procedentes de

uma linhagem tão remota que em vão se tentaria investigar-lhes
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a origem, gosavam em todo o Imperio de um prestigio inconfundivel, consquistado durante annos sem conto pela pobidade mercantil dos seus negocios, pela excellencias do chá da sua lavra, pela nobre chientela nos castelos; podendo apenas pôr-se em duvida, se o chá dos Fukumoto seria superior ao chá dos Yamaguchi, ou se o chá dos Yamaguchi preferival ao chá dos Fukumoto. Ora,— mercê de um capricho de estouvados — investir, por uma adopção do acaso, um estranho na posse de tal nome, e ungil-o dos nobre encargos que competem a um futuro chefe de familia — Fukumoto ou Yamaguchi,— nem por brincadeira se propunha! . . . Que O-Hana e Naotarô se casassem, intendia-se; era esse mesmo o seu dever, de perpetuar pela prole os nomes dos avós; mas confiassem no bom tacto dos paes, que saberiam escolher-lhea noivos do seu agrado e em condições de não virem perturbar a paz das familias e ferir o amor das tradições.

Muito bem. Quando os dois namorados se convenceram da impossibilidade de viverem um para outro, tiveram certa noite um furtiva entrevista á beira do Ujigawa, a pittoresca ribeira, que então serpeava em grande cheio de aguas, resultado das ultimas chuvas copiosas. Deram-se as mãos, parece; sorriram-se um para o outro; não se sabe o que segredaram entre si, porque ninguem esta alli para os ouvir . . .

Quando, ao irromper do dia, as moça de Uji seguiam para a apanha do chá, em ranchos galhofeiros, quedaram-se de repente junto no rio, cheias do espanto, de pavor, vendo a boiar dois corpos detidos na maranha dos juncos, rigidos, lividos, mortos, porem sorrindo ainda e dando-se ainda as mãos . . .

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“N'estas aguas do rio d'Uji,
— Tão milagrosas que são ! —
Lavam-se todos os males
De que soffre o coração . . .



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