O fim dos audazes

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O fim dos audazes
por Ruy Barbosa
Publicado em A Imprensa, em 28 de março de 1899


Sem o senso moral, que Danton não tinha, a audácia é a alavanca das grandes aventuras do mal. Mas esse instrumento das façanhas da imoralidade, ou da crueza, tem o seu ponto necessário de apoio na fortuna. Em lhes falseando ela, os Arquimedes do crime político esmorecem, capitulam e sucumbem. Desde que a Convenção abdicou na Comissão de Salvação Pública, o Mirabeau do Terror, vendo fugir-lhe das mãos o cutelo da guilhotina, sente-se saciado, enjoado dos homens, saoul des hommes, vai espairecer no campo o seu abatimento, e, quando torna, vê perdido o seu jogo. Nêmesis principiava a fitá-lo.

Começam a ferver em torno dele as suspeitas onipotentes. A pretexto de vingá-lo, a língua farpada de Robespierre lhe instilara na ferida da calúnia o veneno mortal. “Danton! acusam-te de haver emigrado; propalam que estiveste na Suíça; que tua doença era fictícia, para encobrir ao povo a tua fuga; que tua ambição cogitava em seres regente sob Luís XVIII; que tudo, em certa época, estava aparelhado, para te proclamar; que eras o chefe da conspiração; que os nossos verdadeiros inimigos não eram, nem Pitt, nem Coburgo, nem a Inglaterra, nem a Áustria, nem a Prússia; que só tu o eras.”

Nessa maledicência “dos cafés”, levada pelo árbitro da situação à tribuna dos Jacobinos, se inverte contra o pai do tribunal revolucionário a infâmia do bárbaro sistema, em que ele afogara as suas vítimas mais ilustres. O ameaçado teve o presságio inconsciente, o vago aviso íntimo, a impressão misteriosa do seu destino. Já não freqüenta o debate. Os trovões da sua voz reproduzem apenas os ecos das tempestades de outrora: não se enfraqueça a mola revolucionária, fulminem-se sem dó os conspiradores, fique o terror constantemente em ordem do dia. Mas agora já o monstro lhe vem no encalço, e ele principia a lhe sacrificar os seus amigos. Deixou de bater-se por eles. Abandona sucessivamente os seus melhores associados aos dentes da matilha: Philippeaux, Fabre d’Églantine, Camillo Desmoulins, ao mesmo passo que tece a apologia do hebertismo, dos seus inimigos, daqueles cuja estrela os ameaça, na pessoa de miseráveis como Ronsin e Rossignol, “dois generais de taverna”.

Começam então a lhe cair solenemente dos lábios as advertências sentenciosas contra o perigo dos erros judiciários em detrimento dos vultos do regímen. “Mui perigoso e impolítico seria indigitar como suspeito um homem, que houver prestado insignes serviços à revolução.” É o escudo dos seus pressentimentos contra a iminência do ataque, em que vai perecer. São as máximas da sabedoria sucedendo aos ditirambos da embriaguez. Vai findar o período do arrojo, e abrir-se o da precaução. A audácia começa a despedir-se. Quem fala agora é o homem da prudência.

Era tempo. Danton caíra já na entrosagem do mecanismo fatal. Acusado um belo dia, com três dos seus amigos, há uma voz, na Convenção, que os quer arrancar ao tribunal revolucionário. Robespierre opõe-se. Robespierre não quer ídolos. Diante dele a tentativa salvadora se retrata. É então que se ouve o relatório de Saint-Just, onde o nome do pontífice do Terror se vê associado aos de Mirabeau, d’Orléans, Dumouriez, Brissot, numa vasta conjuração anti-republicana e restauradora. Não há, naquela assembléia, um deputado que não esteja absolutamente certo do contrário, e todos, não obstante, um a um, entregaram ao algoz as vidas reclamadas. A perdição de Danton é votada unanimemente. Eis a Convenção, o congresso da audácia coletiva, que Madame Rolland definiu “uma assembléia de cobardes, governada por salteadores”.

Na sala da liberdade se instaura o plenário. Eram quatorze os réus. Devia-se aumentar o número dos jurados. Reduziram-se a sete. São as praxes da justiça dos patriotas. Para cúmulo da expiação, um ardil odioso sobrepõe à falsidade a desonra. No manolho de cabeças atirado aos provedores do cadafalso, vão de envolta com Danton meia dúzia de concussionários, acusados pelas suas dilapidações; promiscuidade destinada a estabelecer a presunção de que o pasto do verdugo nesse dia é, todo ele, uma cambulhada de velhacos. Não basta suprimir o rival: cumpre desonrá-lo. Na cadeira de ferro, o lugar de consideração, reservado aos chefes, o público vê sentado Fabre d’Églantine, argüido de haver forjicado um decreto da Convenção, e só abaixo do falsário, entre Lacroix e Delaunay, dois tratantes provados, o leão do Terror. “O efeito do lance teatral é prodigioso. Após o primeiro momento de surpresa, os espectadores batem palmas.”

O escrivão é Fabricius Paris, entusiasta e amigo do famoso terrorista, que, interrogado, responde: “Jorge Tiago Danton, 34 anos, nascido em Arcis-sur-Aube, departamento do Aube, deputado à Convenção. Minha moradia, dentro em pouco, no nada, e, digam o que disserem, meu nome no Panteon da história.” É a audácia que fala, ou a fatuidade? “Há dois dias, o tribunal conhece Danton”, troa ele numa dessas detonações da sua goela, que, transpondo as janelas do Paço da Justiça, reboam por sobre a multidão aglomerada nas ruas. “Amanhã espera ele adormecer no seio da glória. Nunca implorou misericórdia, e hão de vê-lo voar ao cadafalso com a serenidade habitual à calma da consciência.” Vaidade gigantesca agitando-se no vazio de uma consciência deserta, ninguém te confundirá com o desdém dos heróis, ou a placidez dos justos em presença da morte. Tanges diante da eternidade o chocalho de teus próprios crimes. Mas iludes-te, cuidando captar o prêmio dos imortais com a eloqüência em que embriagavas as hordas sanguissedentas.

Gaba-se ele de que nunca impetrara piedade. Mas toda a sua arenga, feita da ostentação dos seus direitos à benemerência do terror, é um apelo ao único ponto sensitivo no coração dos algozes. “Faz gala dos seus delitos e vilanias tanto, pelo menos, quanto das suas lutas contra a realeza. Ensoberbece-se de haver defendido Marat, de ter, sob a monarquia, proposto a lei de Valério Publícola, que autorizava cada cidadão a matar um homem, e, no dia 10 de agosto, feito degolar o generoso Mandat. Tentara, em setembro de 1792, salvar Adriano Duport, que acabava de ser preso perto de Nemours. Como, porém, no tribunal lho imputem a crime, jura a sua inocência dessa boa ação, afirmando que, pelo contrário, dera as ordens mais precisas para a captura de Duport. Sem provocação, como que para assoalhar a própria indignidade aos olhos de juízes indignos, recorda que, nesta mesma sala onde está falando, no dia em que Lebrun, seu colega de ministério, foi submetido a julgamento, e se sentou na cadeira de ferro, ele, Danton, comparecendo como testemunha, o desmascarou. Faz subir ao patíbulo o seu ex-companheiro de governo, e ainda invoca esta lembrança como um título perante os seus julgadores.”

Neste mesmo lugar, onde a audácia se esforça agora por propiciar o tribunal de matadores, exculpando-se das ações generosas, e sobrecarregando-se de desumanidades lisonjeiras ao paladar dos carrascos, há cinco meses, quando os dantonistas levaram à guilhotina a Gironda por uma conspiração tão imaginária quanto a inventada agora pelos robespierristas, para guilhotinarem Danton, um dos vinte e um, Duchastel, que respondera com o mais obstinado silêncio ao desprezível simulacro de formas judiciais, não se pôde conter a esta questão dos regicidas: “Não fostes vós, que, de carapuça de dormir, viestes votar contra a morte do tirano?” Supunham os assassinos de Luís XVI induzir o réu, pelo amor da vida, a uma retratação. Mas Duchastel, imperturbado, lhe responde: “Como não tenho que corar de ação minha, declaro que fui eu.” Esta, sim, que é audácia real, a maior das audácias: a do homem que não adula os crimes da atrocidade, e arrosta com a confissão da justiça a impiedade onipotente. Destes exemplos é que precisa a mocidade. Com eles é que se formam cidadãos. Só eles merecem apontados à admiração dos estadistas.

Já houve quem comparasse o espetáculo da defesa de Danton ao do toiro, que, arrastado ao pé das aras, onde o vão imolar, restruge os ares com o fragor dos seus mugidos. Terrificis mugitubus aera complent. A fera indigna-se aqui de que as feras a não reconheçam. Os estampidos da sua cólera são reclamos ao instinto da afinidade. O direito à absolvição está-se medindo pela enormidade no fanatismo. Ninguém se arrisca, senão envergonhando pela sua virtude a maldade reinante. As traições punidas são a benignidade, a independência e a justiça. O mais desumano, o mais truculento, o mais impudente no desprezo dos deveres morais é o mais garantido. O que se disputa é o primado da perseguição. Nesse terreno é que Robespierre se queria assegurar o cetro. Pretendente a ele, defende-se Danton, exibindo a sua crônica de proscrito. Essa audácia do crime ensoberbecido é incenso da mais vil cortesania, aquela com que se há de comprar a vida a uma magistratura de sicários.

Nestas últimas cenas da liquidação do terrorismo, a presença de Deus parece visível. O brissotismo, o hebertismo, o dantonismo, o robespierrismo, todas essas expressões sucessivas da audácia no poder e da pusilanimidade na queda, foram-se engolindo sucessivamente umas as outras, pelos mesmos processos urdidos contra os seus antagonistas. Quando um resto de eqüidade judiciá­ria contraria, de leve que seja, o automatismo da máquina homicida, um decreto unânime da Convenção amolda o processo às conveniências da oportunidade. Unanimemente se decretou a acusação de Danton. Unanimemente, no curso da lide, por outro decreto, se conferiu ao presidente do tribunal o arbítrio de pôr fora dos debates, cassando-lhes os direitos de defesa, os indiciados, que resistissem, ou ofendessem a justiça. Em seguida, Fouquier-Tinville invoca o decreto de 29 de outubro, também aprovado unanimemente, o decreto da rolha judicial, em cujos termos, no fim de três dias de debates, os jurados podem encerrá-los, declarando-se habilitados a julgar. Conseqüências do princípio estabelecido por Danton, quando acoimava de remanchão o tribunal revolucionário. O Conselho da guilhotina defere à sugestão de Fouquier. E os dantonistas, que tinham posto fora do debate os girondinos, são postos fora do debate pelos robespierristas. Memorável lição aos audazes.

Na terceira audiência, Danton atirara aos membros da comissão de segurança geral, que o encaravam de trás dos juízes, o epíteto de “cobardes assassinos”. Eram até ontem os seus sócios e instrumentos mais submissos. Dir-se-ia que o primeiro assassínio era o seu. Agora, quando ele vai, na carreta fúnebre, para a praça de sangue, o pintor David, o encenador do triunfo mortuário de Lepeletier e Marat, dantonista ontem, hoje robespierrista, sentado a uma sacada do Café da Regência, esboça o perfil dos condenados, que passam, trambolhando, para a última prova dos audazes. Mas, de repente, erguendo a vista do papel, estende o dedo para Danton e brada a peito cheio: “Lá vai o celerado!” “Lacaio!”, respondeu-lhe Danton.

Aí está como se julgam eles, que se conheciam.

No dia seguinte todos os jornais afirmam que “o povo assistira com majestade e satisfação ao suplício dos conspiradores”. A cabeça de Danton caíra entre imensa atroada de vivas à república.

Eis a obra do estadista da revolução, a obra da audácia premian­do os audazes. Às mãos deles acabarão sempre as democracias fundadas pela audácia. A audácia é o espírito fatalista dos aventureiros, a quem uma partida tira no jogo o que outra lhes dera. Só o dever e a justiça podem fundar o governo do povo pelo povo.