O precursor do abolicionismo no Brasil/1.5
A VENDA DO FILHO
Problema muito mais apaixonante que o do nome exato do fidalgo, é o dos motivos reais que o levaram a vender o filho. E apezar de nunca haverem sido discutidas, aceitando todos, mui naturalmente, as afirmações de Gama, nesse particular, não me parece comoda a interpretação dos fatos, tal como sempre foi apresentada e passou em julgado.
Relendo o parágrafo acima transcrito, o que se apura de definitivo, é que o amante de Luiza Mahin, depois de haver criado o menino com o maximo carinho e de haver sido um modelo de pai extremoso, resolveu, um dia, vendê-lo como escravo, por estar reduzido á miseria extrema, lançando mão de um expediente triplicemente repugnante: vendia um filho, fruto de seu proprio sangue, repudiando dez anos de bons tratos, e de afagos; fazia a transação com uma criança livre, filha de mulher liberta; negociara acerca de uma criatura humana sobre a qual não tinha o mínimo título de posse, desde que não lhe assistia siquer o pátrio poder reconhecido. Tudo isso em tróca de uns miseraveis mil reis que a sórdida operação lhe trazia de proveito.
E’ sumamente dificil, nas condições em que o problema se nos oferece, hoje, com os antecedentes que o próprio Luiz Gama põe em luz, aceitar o fato e a sua interpretação com a simplicidade que parece emanar de um relato feito ha oito lustros de distancia e baseado nas reminiscências de uma criança de dez anos.
A circunstancia de ser o fidalgo um amante inveterado de súcias e de farras, estrôina, peralta, jogador, amigo da vida desregrada e dissipada, não destroe a outra da boa conduta anterior para com o filho, de o haver cumulado de mimos e carícias, “criando-o nos braços”, na expressão textual de Gama. Um incidente, na aparência insignificante, mostra o cuidado do fidalgo anónimo pelo filho. Luiza Mahin nunca aceitara, como vimos, nem a crença nem a doutrina cristã, mantendo-se intransigentemente pagā, certamente subordinada ao culto gêge-iorubano que os nagôs haviam vulgarizado na Baía. Decorre naturalmente daí o fato de Luiz Gama não haver sido batizado na sua primeira infancia, isto é, quando ainda permanecia sob a tutela materna.
Pois bem, quando Luiza, com toda a certeza comprometida, junto com o amante, na “Sabinada”, achou prudente, depois de vencida a revolução rumar para o Rio de Janeiro, pondo-se cautelosamente fóra do alcance da polícia baiana, o fidalgo aproveita-se da ausência para cumprir o seu dever de crente. E leva o filho á pia batismal. Fá-lo, é certo, com a maxima discreção, mandando o pirralho á Matriz da ilha fronteira de Itaparica. Mas, nesse gesto, percebe-se apenas o desejo de escapar á tesoura da maledicência citadina, que não veria com bons olhos um membro de uma das melhores familias locais surpreendido em flagrante delito de ternura para com o bastardo de pele tão tostada. Mas fá-lo de qualquer maneira, pondo-se em paz com a sua conciência.
Isso foi em 1838. Dois anos mais tarde, esse mesmo pai extremoso, bom, afavel, cordialissimo, manda o pequeno para o retalho, como animal de troca e barganha. Poder-se-á concluir, em sã razão, que haja sido unicamente a pobreza, ou, talvez, alguma dívida de jogo,[1] o movel determinante dessa brusca, inesperada, incompreensivel mudança de atitude?
Não ha pai que, por motivo de penuria e de miseria, venda um filho. Pode dá-lo, uma vez se convença que o entrega a pessoa carinhosa que o eduque e o ampare. Mas, vendê-lo, nunca.
Poder-se-ia conceber que o fidalgo baiano, do qual não se conhecem atos brutais e apenas viciosos, conhecendo-se-lhes, ao contrario, os de bondade e coragem, tivesse, em poucos mezes degradado tanto a ponto de descer a um tal procedimento, que aberra clamorosamente das normas humanas e naturais?
E’ dificil crê-lo. A mim, individualmente, afigura-se-me de todo impossivel. Não seria muito mais razoavel supôr um lento, continuo, intenso trabalho de intriga sobre o ânimo do fidalgo, da parte de sua própria família, talvez de seus amigos (quiçá esse mesmo Quintela, a quem de tão má vontade se refere Luiz Gama) no sentido de convencer o amante de Luiza Mahin de que o filho não era dele e que a preta o ilaqueara miseravelmente na sua boa fé, só para garantir o futuro do rebento? A ausência da quitandeira facilitava a tarefa. Não estava ela alí para, em se defendendo, defender a sorte do filho. E essa propria e prolongada ausência não poderia transformar-se, para os advogados do diabo, numa prova bastante e decisiva da habilidade da mulher em impingir-lhe a prebenda, transferindo as suas responsabilidades, e desinteressando-se a seguir da cria, uma vez convencida de lhe haver assegurado e consolidado o porvir?
Não tenho a intenção de inocentar ou de minorar o gesto do homem que Luiz Gama, num repente quiça se mais de nojo que de piedade, negou á historia. A ignomínia do procedimento permanece a mesma. Mas não consigo juntar, num mesmo perfil psicológico, as duas contraditórias atitudes, tão proximas uma da outra, sem a intervenção de um fator novo, capaz de, pela dúvida que viesse a suscitar, levantar uma verdadeira tempestade no cérebro desse homem, e lhe desse a coragem necessária para mudar, de uma hora para outra, e assim tão brutalmente, o curso da existência de uma pobre criança inocente e ignara dos sucessos. E’ inutil: não posso conceber o gesto sem a tragédia interior; não posso admití-lo sem movel profundo, arrebatado, lacerante, de egoismo animal, de ciume póstumo, de desejo cruel de vingança.
A desgraça de Gama vendido aparece-me muito maior do que ele a fez supor. No procedimento paterno, em que todos nós nos habituámos a enxergar infámia pura e crueldade sórdida, parece-me que houve um pouco mais do que a simples sêde do lucro facil e da ganancia de algumas dezenas de mil reis. O gesto tem todo o sabor, quasi medieval, de uma desforra de macho que se acreditou traído e que não podendo desafrontar-se no proprio ente de que imaginou receber o ultraje, levou o seu odio irraciocinado para a geração seguinte.
Para mim, Gama foi muito mais infeliz do que ele mesmo acreditou.
E si o soube e, assim mesmo, ocultou o nome paterno com essa indevassavel lápide do olvido, maior exsurge o seu boníssimo coração de filho. Porque, então, foi a última homenagem que ele tributou á mãe: proibir para todo o sempre a devassa de sua vida intima. Isso valia bem o labéu de filho de pai desconhecido.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.

- ↑ A carta de Gama não o afirma, mas essa idéa surge naturalmente á cabeça do leitor pelo proprio contexto das frases.