O primeiro peccado de Margarida

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O primeiro peccado de Margarida
por Desconhecido
Conto agrupado posteriormente e publicado em Contos para a infancia por Guerra Junqueiro.



Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus tinha dito: — É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.»

Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.

Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.

E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.

N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho, á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento.

Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.

O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das mãos.

Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, perguntou-lhe:

— Qual é o caminho da cidade?»

Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com um sorriso estranho e diabolico.

N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de Margarida, e pediu-lhe uma esmola.

Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado.

O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre Margarida, mas o mendigo — que era o seu anjo da guarda disfarçado — cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.