O rico e o pobre (ortografia original)

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O rico e o pobre
por Desconhecido
Conto agrupado posteriormente e publicado em Contos para a infancia por Guerra Junqueiro.
Obra com ortografia atualizada disponível em O rico e o pobre.


Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar, quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de vinho.

Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino tão rico, em vez do desgraçado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu dentro d'aquella carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lançando a cabeça fóra da carruagem, chamou Martinho com a mão.

— Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a minha sorte pela tua?» — Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho córando, o que eu disse não foi por mal.» — Não estou zangado comtigo, replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.»

— Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando muitas leguas por dia, como pão secco e batatas, emquanto que o senhor anda n'uma carruagem, póde comer frangos e beber vinho.» — Pois bem, volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou: «Acceitas a troca?» — Ora essa! exclamou Martinho, ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada de me ver entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a idéa da entrada triumphante na sua aldeia.

O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou que era muito pallido e que tinha cara de doente.

Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:— Então sempre desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces córadas, pelo prazer de ter uma carruagem e andar bem vestido?» — Oh! não, por coisa nenhuma! replicou Martinho. — «Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro os meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças a Deus pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.

«Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, tens força e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que não podem comprar-se com dinheiro.