O segredo (Castro Alves)

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O segredo
por Castro Alves
Poema publicado em A Cachoeira de Paulo Afonso


"Agora vou dizer-te por que morro;

Mas hás de jurar primeiro,

Que jamais tuas mãos inocentes
Ferirão meu algoz derradeiro...

Meu filho, eu fui a vítima
Da raiva e do ciúme.

Matou-me como um tigre carniceiro,

Bem vês,

Uma branca mulher, que em si resume

Do tigre — a malvadez,
Do cascavel — o rancor!...

Deixo-te, pois...

— Um grito de vingança?
— Não, pobre criança! ...

Um crime a perdoar... o que é melhor!...
"Depois. teve razão... Esta mulher

É tua e minha senhora!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

"Lucas, silêncio! que por ela implora

Teu pai... e teu irmão! ...

"Teu irmão, que é seu filho... (ó magoa e dor!)
"Teu pai — que é seu marido... e teu senhor! ...
"Juras não me vingar? — ó mãe, eu juro

Por ti, pelos beijos teus!
"— Obrigada! agora... agora

Já nada mais me demora...
Deus! — recebe a pecadora!
Filho! — recebe este adeus!"

______________

Quando, rompendo as barras do oriente,
A estrela da manhã mais desmaiava,
E o vento da floresta ao céu levava
O canto jovial do bem-te-vi;
Na casinha de palha uma criança,
Da defunta abraçando o corpo frio,
Murmurava chorando em desvario:
— Eu não me vingo, ó mãe... juro por ti!..."

______________

Maria calou-se... Na fronte do Escravo
Suor de agonia gelado passou;
Com riso convulso murmura: "Que importa
Se o filho da escrava na campa jurou?!...

"Que tem o passado com o crime de agora?
Que tem a vingança, que tem com o perdão?"
E como arrancando do crânio uma idéia
Na fronte corria-lhe a gélida mão...

"Esquece o passado! Que morra no olvido...
Ou antes relembra-o cruento, feroz!
Legenda de lodo, de horror e de crimes
E gritos de vítima e risos de algoz!

"No frio da cova que jaz na explanada,
— Vingança — murmuram os ossos dos meus!"

— Não ouves um canto, que passa nos ares?
— Perdoa! — respondem as almas nos céus!"

— "São longos gemidos do seio materno
Lembrando essa noite de horror e traição!"

— "É o flébil suspiro do vento, que outrora
Bebera nos lábios da morta o perdão!..."

E descaiu profundo
Em longo meditar...
Após sombrio e fero
Viram-no murmurar:

"Mãe! Na região longínqua
Onde tua alma vive,
Sabes que eu nunca tive
Um pensamento vil.
Sabes que esta alma livre
Por ti curvou-se escrava;
E devorou a bava...
E tigre — foi reptil!

"Nem um tremor correra-me
A face fustigada!
Beijei a mão armada
Com o ferro que a feriu...
Filho, de um pai misérrimo
Fui o fiel rafeiro...
Caim, irmão traiçoeiro!
Feriste... e Abel sorriu!

"De tanto horror o cúmulo,
Ó mãe, alma celeste
Se perdoar quiseste,
Eu perdoei também.
Santificaste os míseros;
Curvei-me reverente
A eles tão-somente,
Somente... a mais ninguém!

"Ninguém! que a nada humilho-me
Na terra, nem no espaço!...
Pode ferir meu braço...
— "Lucas! não pode, não!
Mísero a mão que abrira
De tua mãe a cova...
O golpe hoje renova!...
Mata-me!... É teu irmão!..."

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