O substantivo italiano/IV

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O Substantivo Italiano (estudo histórico)
por Geraldo Lapenda


Caso Lexiogênico[editar]

Conforme vimos, restaram dois casos no latim popular pré-românico: o nominativo e o acusativo; o primeiro era o caso reto, o segundo o caso oblíquo. Ambos parece terem existido no período de formação das línguas românicas: pelo menos o francês e o italiano antigos o atestam. No português e no espanhol, já desde muito cedo o acusativo prevaleceu sobre o nominativo: era o caso da maioria das funções. Mas no italiano ficaram ambos: o nominativo, por motivos fonéticos, também se conservou em grande número de palavras.

Por conseguinte o caso lexiogênico, o que dá origem às palavras de uma língua, deve ter sido no italiano o acusativo e em segundo lugar o nominativo; dos outros há, como no português, apenas vestígios. Examinemos cada uma das três declinações do latim pré-românico:


- 1ª DECLINAÇÃO

Pelo singular, não podemos deduzir nada, porque o –m final do acusativo desaparece, e este caso se iguala ao nominativo. Mas no plural vemos que não se dá esta igualdade, porque –æ produz –e, e –âs* final, passando a –es, transforma-se em –i (Cf. amo, amâs, etc. = amo, ami, etc.), e vemos ainda que dominou a forma em –e do nominativo sobre a em –i do acusativo.

* - Por falta de tipo, designaremos a sílaba tônica por ^

singular plural
Nominativo rosa = rosa rosæ = rose
Acusativo rosam = rosa rosâs = rosi

Observação: Os nomes masculinos no italiano antigo faziam o plural também em –e ou às vezes ficavam invariáveis; mas passaram a fazê-lo em –i de acordo com os masculinos da segunda declinação que são muito numerosos. Assim temos a analogia de proporcionalidade:

                  il poeta            i poeti
                ------------   =    -----------
                  il servo            i servi



- 2ª DECLINAÇÃO
Aqui também, pelo singular, nada é possível concluir, porque consoante final desaparece e –u breve se muda em –o (igualando-se o nominativo servus ao acusativo servum). Quanto ao plural, conservou-se a forma do nominativo:

singular plural
Nominativo servus = servo servi = servi
Acusativo servum = servo servos = servo



- 3ª DECLINAÇÃO
Nossa base agora é o singular, porque os dois casos do plural já são iguais entre si (e –ês–i em italiano). Alguns nomes, e em geral os personativos parissilábicos, seguem o nominativo:

singular plural
Nominativo homo = uomo hominês = uomini
Acusativo servum = servo servos = servo
Nomitativo Ioannês = Giovanni
Acusativo Ioannem = Giovanne

Normalmente os parrissílabos não demonstram, nem pelo singular nem pelo plural, de qual caso se tenham originado:

singular plural
Nominativo canis = cane canês = cani
Acusativo canem = cane canês = cani

Os imparissílabos quase todos, principalmente os que mudam o acento tônico (incluindo também nomes próprios de pessoas) ou algum fonema temático (como, por exemplo, o –g oclusivo de virgo passou a fricativo em virginem), seguem o acusativo:

singular plural
Nominativo ámor = amo amórês = amori
Acusativo amórem = amore amórês = amori
Nominativo Néro = Nero
Acusativo Nerónem' = Nerone
Nominativo virgo = vergo virginês = vergini
Acusativo virginem = vergine virginês = vergini

Em conclusão: A lógica apresenta o acusativo como o caso preponderante, e devemos considerá-lo assim, mesmo quando (como acontece no singular da primeira e segunda declinações ou no plural da terceira) nenhum argumento mórfico nos é apresentado. Logo, o nominativo só o substituiu nas formas em que as leis fonéticas tornaram sem valor semântico distintivo a desinência de acusativo (plural).
Na segunda declinação, o singular servum igualar-se-ia morfologicamente ao plural servos; donde apenas apoiados no plural, encontramos a permanência do nominativo.
O mesmo resultado se obtém na primeira declinação, como os nomes femininos (estes confundir-se-iam com os masculinos da segunda); ao que concorreu a diferenciação genérica nos adjetivos de 1ª classe, os quais pertenciam a essas duas declinações.


VESTÍGIOS DOS CASOS
Dos outros casos existem somente vestígios, que são encontrados sobretudo nos pronomes pessoais, demonstrativos e relativos, e nos advérbios de modo.


GENITIVO
Além de certos nomes de lugar (Portus Veneris = Porto Venere, etc.) e alguns compostos mesmo latinos (terræmotos = terremoto; aquæductus = acquedotto, etc.), há a forma loro (de illorum) e também os nomes de dias da semana: lunæ dies = lunedi; marties dies = martedi; etc. E podemos acrescentar aqui os de cidades provenientes do locativo, que no próprio latim se confundia com o genitivo geralmente: Asculi = Ascoli; Arimini = Rimini; etc.


DATIVO
Citaremos as formas pronominais lui, lei, juntamente com seus derivados colui, colei, costui, costei, etc., e igualmente gli, le (ambas correspondentes a lhe em português) e altrui, cui: todas elas mais adiante explicadas em seus respectivos lugares.


ABLATIVO
Deste caso se originaram os advérbios de modo: pura mente = puramente, particulari mente = particolarmente, etc. Poder-se-ia também incluir alguns neutros acabados em –us, por exemplo: genus (nominativo-acusativo), genere (ablativo) = genere, etc. Mas aqui não há tanta certeza, porque estes, transformando-se em masculinos, teriam feito o acusativo em –em, donde temos o plural em –ês (que no italiano dá –i); por exemplo: generem = genere; generês = generi; seriam em parte formas análogas a virgo, virginem = vergine; donde genus, generem = genere (e além disso genus se mudaria em geno, igualando-se totalmente a virgo). A mesma explicação talvez não seja possível para os neutros acabados em –men, por exemplo: fulmen, culmen, vimen, etc., que deram em italiano fulmine, culmine, vimine, etc., e parecem não ser de origem popular. Deve tratar-se provavelmente de um ablativo, pois a maior parte de nomes desse tipo segue a forma nominativo-acusativo: nomen = nome, flumen = fiume, etc. Além disso, se as outras fossem de cunho popular, teríamos folmine, colmine.


GÊNERO
Deve ter havido na pré-história do indo-europeu uma grande separação entre os seres animados e os inanimados. Os primeiros, possuidores de sexo, compreendiam dois gêneros: o masculino e o feminino. Os segundos não se enquadravam nessa categoria de gênero: eram neutros.
Destes seres inanimados (entre os quais também se incluíam as plantas), alguns se relacionavam com os animados, quer por analogia de forma, quer por analogia de atividade.
A igualdade nas desinências, a semelhança de tema e a falsa correlação foram os fatores que concorreram para que um ser inanimado se introduzisse na esfera dos sexuados e adquirisse o gênero.
O mesmo acontecia quanto à atividade: alguns seres são considerados como animados porque a função por eles desempenhada é análoga à dos animados; por exemplo: a terra e a árvore se relacionam com a fêmea e passam para o feminino; a terra também se opõe ao sol, tornado masculino por ser agente fecundador, e a árvore produz o fruto e se opõe a este que, sendo um produto, conserva-se neutro. A lua é do feminino em oposição ao sol; o sol é ativo e forte, a luz é passiva e fraca. A mão também é do gênero feminino porque tem a função de receber, opondo-se assim ao pé que é órgão só ativo.
Como estamos vendo, o indo-europeu já não seguia um processo simples, mas extremamente complexo. O latim ora ampliou ora reduziu, por causa de outras analogias, tal complexidade. O neutro então não mais formava um grupo à parte: era apenas um complemento do masculino ou do feminino, perdera muitíssimos dos seus componentes e se tornara uma classe dizimada; deveria portanto subordinar-se ou ao masculino ou ao feminino, o que se resolveria principalmente pela analogia da forma, saindo o masculino no quase totalmente vencedor.


DESAPARECIMENTO DO NEUTRO
O gênero neutro começou a confundir-se com o masculino, por causa da semelhança de forma entre ambos no singular. Por extensão, também os provenientes do grego (terceira declinação), terminados em –ma, seguidos do tipo poeta, passaram para o masculino.

singular plural
Nominativo poeta = poeta problema = problema
Acusativo poeta(m) = poeta problema = problema

Agora examinemos a segunda e quarta declinações, que no latim vulgar pré-românico formavam uma só, conforme explicamos, e observemos também os neutros da terceira acabados em –us, os quais na sua maioria se confundiram com os masculinos da segunda:

singular plural
Nominativo servu(s) = servo donu(m) = dono
Acusativo servu(m) = poeta donu(m) = dono
Nominativo ritu(s) = rito gelu = gelo
Acusativo ritu(m) = rito gelu = gelo
Nominativo corpu(s) = corpo
Acusativo corpu(s) = corpo

Aliás, já no próprio latim clássico, a maior parte dos nomes neutros da quarta podiam ser do masculino: gelu ou gelus.
Na terceira declinação, também os terminados em –men, perdendo o –n final, ficaram, juntamente com os acabados em –e, iguais aos masculinos, mesmo no caso de os nomes em –men originarem-se do ablativo (acusativo?), como fulmine, vimine, etc., pois passaram a ter a mesma desinência de cane.

singular plural
Nominativo cani(s) = cane flume(n) = fiume
Acusativo cani(m) = cane flume(n) = fiume
Nominativo mare = maré
Acusativo mare = maré

No plural, os neutros primeiramente conservam a terminação –a. Aconteceu porém que depois essa desinência, igual à dos nomes da primeira declinação, provocou a passagem de muitos neutros para o feminino singular, mas conservando ainda um certo sentido coletivo. Criou-se depois um plural analógico:

singular plural
Nominativo foliu(m) = foglio (folha de papel) fogli
Acusativo folia = foglia (folha de árvore) foglie

De fato, as folhas de uma árvore, por serem vistas em porção, equivalem mais a folhagem, daí corresponderem muito bem ao sentido de plural neutro que, pela sua origem indo-européia, vem de um antigo coletivo. E essa idéia de coletividade é confirmada pelo grego, o qual faz concordar o verbo no singular com um sujeito neutro plural. Ademais, o próprio latim clássico talvez tenha lançado a semente para a mudança de número do tipo folia, porque parece que, por exemplo, patientia (substantivo feminino singular) outra coisa não é senão o plural do particípio neutro patiens. E exemplos dessa espécie são abundantes.
Outros nomes, não muitos, continuaram com a desinência –a para indicar o plural italiano, mudando apenas de gênero (para o feminino), sendo porém masculinos no singular, conforme a regra geral:

singular plural
ovu(m) = uovo (masc.) ova = uova (fem.)
pariu(m) = paio (masc.) paria = paia (fem.)

Mas desta espécie houve alguns que, além da forma em –a (feminina), criaram outra em –a (masculina), ficando portanto biformes no plural. Existe contudo certa distinção, porque o tipo em –i designa pluralidade ou se emprega no sentido figurado, o tipo em –a continua indicando totalidade ou coletividade ou também o conceito em sentido próprio:

singular plural
membru(m) = membro le membra (do corpo humano)
i membri (de sociedade, etc)
lignu(m) = legno le membra (do corpo humano)
i membri (de sociedade, etc.)
linteolu(m) = lenzuolo le lenzuola (o conjunto)
i lenzuoli (isoladamente)
ossu(m) = osso le ossa (o conjunto)
gli ossi (isoladamente)

Até mesmo nomes masculinos, confundindo-se com os neutros, seguiram esse processo:

singular plural
digitu(s) = dito le dita (os dedos em sua totalidade)
i ditti (os dedos tomados isoladamente - masc.)



MUDANÇA DE GÊNERO
Acabamos de ver que nomes neutros passaram para o masculino ou também para o feminino, e mesmo alguns, tornados masculinos no singular, admitiram duas formas de plural: uma em –i criada pela analogia e pertencente ao masculino, outra em –a originária do latim e que passou para o feminino.
Mas, além disso, muitos nomes femininos tornaram-se masculinos, por causa da forma ou pelo sentido. A mudança inversa é rara. Quanto à forma, temos em geral os nomes de árvores, os quais, por causa da terminação –us, confundiram-se com os masculinos do tipo servus, mais abundantes; por exemplo: piru(s) = il pero, pinu(s) = il pino, etc.; e por isto igualmente a palavra arbor (= albero) tornou-se masculina.
Quanto ao sentido, temos alguns nomes, geralmente de coisas, que se aplicaram depois a pessoas:

feminino masculino
la trombetta = a trombeta il trombetta = o tocador de trombeta
la camerata = o dormitório il camerata = o colega (de dormitório)



NÚMERO
Os seres da terra podiam ser observados individualmente (isto é, um só indivíduo) ou na sua pluralidade (muitos indivíduos), ou também na sua totalidade (todos os indivíduos da mesma espécie): temos assim o singular e o plural, e os nomes coletivos. Estes últimos, embora incluíssem todos os indivíduos de uma espécie, consideravam-nos contudo como um todo ou um grupo: por isto sua forma é de singular; e no indo-europeu esta foi representada primeiramente pelo feminino (singular) e posteriormente indicou o neutro plural. Donde concluímos que os nomes neutros não eram concebidos individualmente no plural, mas em sua totalidade, isto é, coletivamente; o seu plural tinha a forma de coletivo.
Mas o homem atingiu logo a idéia de dualidade, pois esta não somente era constituída pelo seu eu em contraposição com o mundo exterior, mas também na própria natureza existem vários grupos compostos de dois seres, como por exemplo a idéia de casal observada nos animais e a dualidade nas partes do corpo: os olhos, as orelhas, as narinas, as mãos e os braços, os pés e as pernas. Há mesmo alguns povos que, além do singular é dual e plural, admitem formas especiais para designar os conjuntos de três, quatro e cinco seres, etc.
O indo-europeu distinguia, ao menos historicamente, apenas o singular, o dual e o plural, segundo ainda podemos ver no sânscrito, no grego, etc.; mas o latim logo o perdeu, conservando-o somente em duo e ambo. Aliás, o próprio grego clássico já costumava substituí-lo pelo plural, donde no bíblico só havia dele vestígios, e hoje no grego moderno é completamente desconhecido.


MUDANÇA DE NÚMERO
O italiano, é claro, só herdou o singular e o plural; a mudança do dual para o plural já havia sido operada muito anteriormente. Mas, na passagem do latim para o italiano, algumas palavras mudaram também de número, conforme tivemos já ocasião de ver quanto aos nomes do neutro plural que, acabados em –a, tornaram-se femininos no singular, por analogia de forma. Eles eram geralmente considerados em conjunto (e não individualmente). Assim é que com o tempo se fixou a forma de plural para representante do conceito geral, e por conseguinte significou o indivíduo. Deste modo, por exemplo, o homem não via sobretudo cada folha de árvore ou cada fruto, mas as folhas em conjunto, os frutos em conjunto (folhas correspondendo a folhagem, etc.). E a palavra indicadora desse conceito geral torna-se então do singular:

singular plural singular
pirum (pera) pira (peras) = pera (pera)
melum (maçã) mela (maçãs) = mela (maçã)
folium (folha) = foglio folia (folhas) = foglia (folha)

Se o plural latino passou a singular em italiano, posteriormente deveu ser criado um plural analógico para tais palavras:

singular plural analógico
pera (pera) pere (peras)
mela (maçã) mele (maçãs)
foglio (folha de papel) fogli (folhas de papel)
foglia (folha de árvore) foglie (folhas de árvore)


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