O velho leão

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O velho leão
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.


Levando ao ombro a cruz dolorosa da vida,
Subi, à tarde, a erguido e escabroso caminho,
E me vi sobre o cimo aspérrimo sozinho,
Tomado de tristeza imensa, indefinida.
 
Havia na floresta escura um murmurinho;
Atravessava o azul uma nuvem perdida;
O sol, como medalha antiga despolida,
Deixava o céu, como um condor viúvo o ninho;

E eu disse: — Sofro! E o mundo ou sofre, ou sonha e dorme. —
Quando saiu do céu, do mar, e da montanha
Uma boca sinistra, e uma palavra enorme.
 
E a um tempo astros aos pés, e estrelas pela fronte,
Como quem busca a tenda, após a luta ganha,
Um deus, um velho leão, alto, enchia o horizonte...