Obras completas de Fagundes Varela (1920)/Vozes da América/O exilado

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O exilado
por Fagundes Varela
Poema publicado em Vozes da América.
O exilado está só por toda a parte!


Passei tristonho dos salões no meio,
Atravessei as turbulentas praças
Curvado ao peso de uma sina escura;
As turbas contemplaram-me sorrindo,
Mas ninguem divisou a dôr sem termos
Que as fibras de meu peito espedaçava.
O exilado está só por toda a parte!

Quando, á tardinha, dos floridos valles
Eu via o fumo se elevar tardio
Por entre o colmo de tranquillo albergue,
Murmurava a chorar: — Feliz aquelle
Que á luz amiga do fogão domestico,
Rodeado dos seus, á noite, senta-se.
O exilado está só por toda a parte!

Onde vão estes flocos de neblina
Que o euro arrasta nas geladas azas?
Onde vão essas tribus forasteiras
Que á tempestade se esquivar procuram?
Ah! que me importa?... tambem eu doudejo,
E onde irei, Deus o sabe, Deus sómente.
O exilado está só por toda a parte!

D’esta campina as arvores são bellas,
São bellas estas flôres que se vergam
Das auras estivaes ao debil sôpro;
Mas nem a sombra que no chão se alonga,
Nem o perfume que o ambiente inunda
São d’essa gleba divinal que adoro.
O exilado está só por toda a parte!

Mole e lascivo no tapiz da selva
Serpeia o arroio, e o deslizar queixoso
Peja de amor as solidões dormentes;
Mas nunca o rosto reflectiu-me um dia,
Nem foi seu burburinho enlanguescido
Que embalou minha infancia descuidosa.
O exilado está só por toda a parte!

— Por que choraes? me perguntou o mundo;
Contai-nos vossa dôr, talvez possamos
Sanal-a ás gotas de elixir suave;
Mas, quando eu suspendi a lousa escura
Que o tumulo cobria-me da vida,
Riram-se pasmos sem sondar-lhe o fundo.
O exilado está só por toda a parte!

Vi o ancião da prole rodeado
Sorrir-se calmo e bendizer a Deus,
Vi junto á porta da nativa choça
As crianças beijarem-se abraçadas;
Mas de filho ou de irmão o santo nome
Ninguem me deu, e eu fui passando triste.
O exilado está só por toda a parte!

Quando verei essas montanhas altas
Que o sol dourava nas manhãs de agosto?

Quando, junto á lareira, as folhas lividas
Deslembrarei de meu sombrio drama?
Douda esperança! as estações succedem-se
E sem um gozo vou descendo á campa.
O exilado está só por toda a parte!

Brandas aragens, que roçais fagueiras
Das maravilhas nas cheirosas frontes,
Aves sem patria, que cortais os ares,
Irmãs na sorte do infeliz romeiro,
Ah! levai um suspiro á patria amada,
Ultimo alento de cansado peito.
O exilado está só por toda a parte!

Quando nas folhas de lustrosos platanos
Novos luares descansarem gratos,
Já sobre a estrada de meus pés os traços
O pegureiro não verá, que passa!
Misero! ao leito de final descanço
Ninguem meu somno velará chorando.
O exilado está só por toda a parte!