Obras poeticas de Ignacio José de Alvarenga Peixoto (1865)/Conselhos a meus filhos

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Conselhos a meus filhos
por Bárbara Heliodora
Poema agrupado posteriormente e publicado em Obras poeticas de Ignacio José de Alvarenga Peixoto. «Figurão tambem n’esta collecçâo, em ultimo lugar, as sextilhas Conselhos a meus filhos. É bem sabido que essa composição impressa no Parnaso brasileiro e attribuida a Alvarenga Peixoto, é antes producção de sua esposa D. Barbara Heliodora, a celebre poetisa, de quem apenas nos restão esses poucos versos.» [1]

Meninos, eu vou dictar
As regras do bem viver;
Não basta sómente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sabios é o pensar.

N’este tormentoso mar
D’ondas de contradicçôes,
Ninguem solettre feições,
Que sempre se ha de enganar;
Da caras a corações
Ha muitas leguas que andar.

Applicai ao conversar
Todos os cinco sentidos,
Que as paredes têm ouvidos,
E tambem podem fallar:
Ha bichinhos escondidos,
Que só vivem de escutar.

Quem quer males evitai
Evite-lhe a occasião,
Que os males por si viráõ,
Sem ninguem os procurar,
E antes que ronque o trovão,
Manda a prudencia ferrar.

Não vos deixeis enganar
Por amigos, nem amigas,
Rapazes e raparigas
Não sabem mais que asnear;
As conversas e as intrigas
Servem de precipitar.

Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem que ratos velhos
Não ha modo de os caçar:
Não batão ferros vermelhos,
Deixem um pouco esfriar.

Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto,
Pé de banco de um bilhar,
Que seja sabio piloto
Nas regras de calcular.

Se vos mandarem chamar
Para ver uma funcção,
Respondei sempre que nâo,
Que tendes em que cuidar:
Assim se entende o rifão:
Quem está bem deixa-se estar.

Deveis-vos acautelar
Em jogos de paro e topo,
Promptos em passar o copo
Nas angolinas do azar:
Taes as fabulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.

Quem falla, escreve no ar,
Sem pòr virgulas nem pontos,
E póde quem conta os contos,
Mil pontos accrescentar;
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.

Com Deos e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer,
Mas temer por muito amar,
Santo temor de offender
A quem se deve adorar!

Até aqui póde bastar,
Mais havia que dizer;
Mas eu tenho que fazer,
Não me posso demorar,
E quem sabe discorrer
Póde o resto adivinhar.

Notas[editar]

da edição de 1865

(41) Eis o que a esse respeito já deixei dito nas Brasileiras celebres, cap. V, p. 190:

« A poesia que servira de suave e ligeiro passatempo a D. Bárbara Heliodora nos dias de sua infancia, que emprestára uma linguagem divina á innocente expressão dos affectos nos felizes dias de seus amores; a poesia que ficára esquecida durante as lidas domesticas da mulher mãi, cuja felicidade cifrava-se unicamente no bem-estar de seus filhos, na contemplação de sua innocencia, no ver de seus brincos e folguedos, na educação de suas inclinações, no cultivo de seu espirito; a poesia veio de novo accordar-lhe os sons harmoniosos de sua lyra, entornar-lhe nas chagas do coração lanhado e comprimido o balsamo da consolação e da esperança, mitigar-lhe o ardor doce e amargo da saudade, e traduzir seus gemidos, verter seus suspiros em versos sentidos, que se lhe desprendião dos labios com o accento pungente da melancolia.

« Aquella tremenda provança, que mais tarde tornou Silvio Pellico infiel á politica e desdenhoso de suas seducções, como o amante resentido da offensa de sua amada, trouxe-lhe com a desgraça a experiencia, cujos fructos são sempre amargos; d’ahi esses conselhos n’essas elegantes sextilhas, com uma graça, com uma naturalidade difficeis de se imitarem, n’um estylo todo familiar, repletas de annexins que estão nos mostrando o typo dos delatores que tão sanguenta peripecia preparárão a esse drama chamado conjuração mineira. »

do Wikisource
  1. SILVA, Joaquim Norberto de Souza e. Advertencia sobre a presente edição. In: _____ (Org.). Obras poeticas de Ignacio José de Alvarenga Peixoto. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1865. p. 14.