Os Batistas

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As Religiões no Rio por João do Rio
Os Batistas


E disse o eunuco: Eis aqui está a água. Que embaraço há para que eu não seja batizado? E disse Felipe: Se crês de todo o teu coração, bem podes... E desceram os dois, Felipe e o eunuco, à água, e o batizou...

Estava na rua de Santana, no templo batista, severo e rígido nas suas linhas góticas. Era de noite. À porta um certo movimento, caras curiosas, gente a sair, gente a entrar, e um velho blandicioso distribuindo folhetos.

- Os batistas? Exatamente.

Pego de um folheto, enquanto lá dentro parte um coro louvando a glória de Deus. Trata do purgatório perante as Escrituras Sagradas e está na 2.ª edição. Leio na primeira página: "Entre as diferentes religiões existentes distinguem-se a religião de Jesus, que nos oferece o céu, e a religião do Papa, que aponta o purgatório. O Papa prega o purgatório porque ama o nosso dinheiro..." Com um pouco mais teríamos a Velhice do Padre Eterno!

A Igreja Batista é, entretanto, um dos ramos em que se divide o que o vulgo geralmente chama protestantismo, é uma das muitas divergentes interpretações dos Evangelhos.

Há seis séculos chamava-se anabatista.

Seita antiqüíssima, com grandes soluções de continuidade, desaparecendo muita vez na história sob o martírio das perseguições, sem deixar documentos, mas nunca de todo se perdeu.

Hoje, como as outras seitas que asseguram ser as únicas e verdadeiras intérpretes da Bíblia, o seu foco principal são os Estados Unidos, mas o mundo está cheio de anabatistas e um magnífico serviço de propaganda na China, no Japão, na África, na Itália, no México e no Brasil aumenta diariamente o número de adeptos.

O movimento das missões é tão intenso que até tem um jornal informativo: The Yorking Mission Journal.

Isso não impede que a controvérsia os selecione e que a crítica os divida. Nos Estados Unidos a igreja está dividida em batistas cristãos, novos batistas, batistas rigorosos, batistas separados, batistas liberais, batistas livres, anabatistas batistas, crianças batistas gerais, batistas particulares, batistas escoceses, batistas nova comunhão geral, batistas negros, batistas do braço de ferro, batistas do sétimo dia e batistas pacíficos.

Aos batistas daqui, pacíficos, cristãos e misturados, bem se pode chamar: - do braço de ferro, desde que braço signifique a decisão e a força com que arredam as nuvens da Luz. A história da igreja do Rio começa em 1884 com a chegada do Sr. e da Sra. Bagby.

O Sr. Bagby foi o patriarca. Quatro dias depois de chegar, organizou a igreja na própria casa, com quatro ovelhas, isto é, com quatro cidadãos. Um ano depois mudava-se para a rua do Senado já com outros recursos, passava a pregar na rua Frei Caneca, na rua Barão de Capanema, quase sem abandonar o rebanho, durante anos a fio, e, passado o décimo primeiro, instalava-se num templo próprio, edifício que custou cinqüenta e um contos.

Era nesse templo que eu estava, defronte da igreja da Senhora Sant'Ana, lendo trechos do tal Purgatório, em que uma igreja solapa a outra por amor do mesmo Cristo misericordioso. O velho blandicioso, porém, apertando um maço de Purgatórios debaixo do braço, empurrava-me com um ar de cambista depois do 2.º ato.

- Entre, entre, o senhor vai perder!

Foi então que eu entrei. Todos os bicos de gás silvavam, enchendo de luz amarela as paredes nuas. No fundo, em letras largas, que pareciam alongar-se na cal da parede, esta inscrição solene negrejava: - "Deus amou o mundo de tal maneira que deu a seu filho unigênito para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha vida eterna." Na cátedra ninguém. Do lado esquerdo, o órgão e diante dele uma senhora com a fisionomia paciente, e um cavalheiro irrepreensível, sem uma ruga no fato, sem um cabelo fora da pasta severa. Pelos bancos uma sociedade complexa, uma parcela de multidão, isto é, o resumo de todas as classes. Há senhoras que parecem da vizinhança, em cabelo e de matinée, crianças trêfegas, burgueses convictos, sérios e limpos, nas primeiras filas, operários, malandrins de tamancos de bico revirado, com o cabelo empastado em cheiros suspeitos, soldados de polícia, um bombeiro de cavanhaque, velhas pretas a dormir, negros atentos, uma dama de chapéu com uma capa crispante de lentejoulas, cabeças sem expressão, e para o fim, na porta, gente que subitamente entra, olha e sai sem compreender. O templo está cheio.

O pastor parece concentrado, olhando o rebanho de ovelhas, a maior parte ignorante do aprisco. Nessa noite não se perde em erudições teológicas; nesta noite chama com o órgão do Senhor os carneiros sem fé. E é uma coisa que se nota logo. A propaganda, a atração da Igreja é a música. Ganham-se mais fiéis entoando um hino que fazendo um sábio discurso cheio de virtudes. O Sr. Soren, o pastor calmo, irrepreensível, parece compreender os que o freqüentam, sem esquecer sua missão evangélica. E positivamente o professor. Sem o perfume dos hinários e sem aquelas letras negras da parede, a gente está como se estivesse numa aula de canto do Instituto de Música, ouvindo o ensaio de um coro para qualquer chêche mundana...

Vamos mais uma vez, diz ele com um leve acento inglês. Este hino é muito bonito! Cantado por duzentas vozes faz um efeito! Sabem a letra? Vamos... A dama, com um ar de bondade indiferente, corre o teclado, acordando no órgão graves e profundos sons que se perdem no ar vagarosamente. Depois, receosa, acompanhando cada acorde, a sua voz, seguida da do pastor, começa:

Oh! Se-e-nhor!...

Muitos lêem os versos, acompanhando a voz do pastor, outros, nervosos, precipitam o andamento. Mas naquele ensaio, logo me prende a atenção um preto de casaco de brim sem colarinho. O órgão domina-o como um som de violino domina os crocodilos. Nos seus dentes brancos, nos olhos brancos, de um branco albuminoso, correm risos de prazer. Sentado na ponta do banco, os longos braços escorrendo entre os joelhos, a cabeça marcando o compasso, ele segue, com as mandíbulas abertas, os sons e as vozes que os acompanham. Depois, como o Sr. Soren diz:

- Vamos repetir. Já se adiantaram. Um, dois, três!

Oh! Se-e-e-nhor!...

o negro também, abrindo a fauce num repuxamento da face inteira, cantou:

Oh! Se-e-e-nhor!

E todo o seu ser irradiou no contentamento de ter decorado o verso bonito.

Eu curvei-me para o velho, que passava com outro maço de Purgatórios debaixo do braço:

- Vem sempre aqui, aquele?

- Vem sim, é fiel. Eu é que não sou...

E, confidencialmente, desapareceu.

Entretanto o hino acabara bem. Quase que houve palmas. Estavam contentes.

O Sr. Soren consultou o relógio e aproveitou a boa vontade dos irmãos.

- Vamos, mais um hino. É lindo! Estudemos só a primeira parte. De Deus até Salvador.

A organista tocou primeiro a música para que os batistas aprendessem o tom, e todos começaram o novo hino, as crianças, as senhoras, os homens graves, enquanto o negro abria as mandíbulas e uma velha fechava os olhos enlevados e sonolentos. Quando as vozes pararam num último acorde, o Sr. Soren disse algumas palavras sobre a glória do Senhor e estendeu as mãos.

Amém! Estava acabado o estudo. Alguns crentes demoraram-se ainda, o negro saiu dando grandes pernadas, outros estremunhavam. Mandei então o meu cartão ao Sr. Soren, que se apoiava ao órgão rodeado de damas veneráveis.

Esse homem é amabilíssimo. Nascido no Rio, de uma família francesa que fugia às perseguições religiosas da França, estudou nos Estados Unidos e é bacharel. No seu gabinete, ao fundo, limpo e brunido, onde se move com pausa, tudo respira asseio e austeridade. Soren mostra a biblioteca, encadernações americanas de percaline e couro, bate nos livros recordando as dificuldades do estudo, a aridez, o que certos autores custavam.

- Para tudo isso há a compensação da verdade que conforta - diz.

A verdade deve confortar como um beef. Guardo, porém, essa comparação.

Os batistas, firmados na Bíblia, assim como praticam o batismo por imersão, não comem carne com sangue... Limito-me a dizer.

- A sua crença?

- Mas nós cremos que a Bíblia foi escrita por homens, divinamente inspirados, que têm Deus como autor e a salvação como fim; cremos que a salvação dos pecados é totalmente de graça pelos ofícios medianeiros do filho de Deus; cremos que a grande bênção do Evangelho que Cristo assegurou é a justificação; e cremos na perseverança, no Evangelho, no propósito de graça, na satisfação que começa na regeneração e é sustentada no coração dos crentes.

O Sr. Soren pára um instante.

- Cremos também - continuou -, que o governo civil é de autoridade divina, para o interesse e boa ordem da sociedade e que devemos orar pelos magistrados.

- E crêem no fim do mundo?

- ... Que se aproxima.

Enquanto, porém, o fim não aparece, a propaganda batista é feita com calor no Brasil: em São Paulo, na Bahia, em Pernambuco, no Pará, no Amazonas. No Rio existem os Srs. Entznimger e esposa, Deter e esposa e o Sr. Soren, criaturas de pureza exemplar. Na cidade há quatro congregações. Os pastores, dos quais foi sempre o principal o Sr. Bagby, que se retirou em 1900, têm pregado na rua D. Feliciana, no Estácio de Sá, em Madureira, no morro do Livramento, em São Cristóvão, na ladeira do Barroso, em Paula Matos, em Santa Teresa, na Piedade, no Engenho de Dentro, na rua Barão de São Félix.

O Evangelho caminha.

E são grandes os progressos?

- Ricamente abençoado o trabalho. Pelos dados que tenho, realizaram-se em 1903 cerca de mil batismos, foram organizadas dez igrejas novas, edificaram-se três templos novos e a contribuição das igrejas foi de 50:000$000. Há dois anos que estamos no Brasil. Os batistas aumentaram de 500 a 5.000, de 5 igrejas a 60. A nossa casa publicadora já editou, além do Jornal Batista e do Infantil, mais de um milhão de páginas em folhetos.

- Qual a publicação que tem agradado mais?

- O Cantor Cristão!

A música, o som que convence, a crença em harmonia!

Os gregos admiráveis já tinham no seu divino saber descoberto a propriedade sutil, e na Lacedemônia os rapazes recebiam o amor da pátria ao som das flautas, em odes puras! Já nos íamos despedir. O pastor deu-nos o seu jornal, com um artigo de D. Arquimina Barreto, uma erudita senhora.

- Somos todos iguais perante Deus. No templo pode falar o mais ignorante como o mais sábio... Deus deseja a virtude antes de tudo. D. Arquimina alia as virtudes a um grande saber.

- E, a propósito, aquela senhora organista é sua esposa?

- Não, eu ainda me vou casar nos Estados Unidos.

E eu saí encantado com a clara inteligência desse pastor, que espera calmo e virtuoso o fim do mundo, enquanto, à porta, o velho blandicioso distribui Purgatórios contra os padres e as moças.