Os Dialetos da Itália

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Os dialetos da Itália
por Geraldo Lapenda
Publicado originalmente em Diário de Pernambuco (suplemento), agosto de 1950.


Antes da conquista romana, a Itália era habitada por várias tribos oriundas do vasto grupo indo-europeu. Algumas delas, mais numerosas abrangiam maior região, outras eram menores e ocupavam uma pequena área. Cada uma falava seu próprio dialeto, seguia costumes um tanto diversos, possuía índole às vezes diferente. E onde a inteligência fosse mais bem desenvolvida, aí começava a salientar-se o progresso e o domínio.
Havia no Lácio uma pequena cidade cujo nome prenunciava um futuro de glória e de extenso poder: Roma, pois esta palavra significa força, robustez, galhardia. Seus filhos souberam corresponder ao significado deste nome; cada dia se tornavam mais fortes e conseguiram finalmente assenhorear-se de toda a Península Itálica, implantando também sua língua nos lugares então conquistados. É claro que o latim não poderia adaptar-se integralmente aos lábios e aos conceitos daqueles povos; deveria receber, conforme as circunstâncias, maior ou menor influência de cada um daqueles dialetos. Já mesmo em algumas regiões o grego e o fenício dominavam, línguas estas (principalmente a primeira) bem aperfeiçoadas.
Como se vê, durante o apogeu da Roma antiga o latim não era totalmente uno, quer na pronúncia e no léxico, quer de certo modo na morfologia e na sintaxe. Havia, podemos dizer, dialetos ou coisa parecida. E, devido à falta de fáceis meios de comunicação, como os hodiernos, para divulgar e conservar uma língua oficial, as influências dialetais primitivas permaneceram e foram produzindo diverso desenvolvimento lingüístico em cada região.
Não falamos aqui dos letrados que podiam conservar a língua um tanto pura, mas do povo rude, sem instrução, que aquele tempo era mais numeroso e dele dependia em maior grau a evolução do idioma. Os letrados se expressavam em latim castiço e conheciam a linguagem do povo. Este falava o latim dialetado, mas entendia, ao menos em geral, tudo o que aqueles diziam.
Este fenômeno, embora a comparação claudique em que nos tempos de hoje seja mais numerosa a classe letrada, ainda se observa aqui no Brasil. O povo do mato fala um português bárbaro com influências indígenas, entendendo em geral o linguajar da classe instruída, enquanto que esta usa do português mais correto, mais lídimo, e não desconhece a linguagem rústica. Mas entre ambos, se examinarmos bem, existem diferenças que não são pequenas.
A Roma antiga não possuía rádio ou jornais e livros abundantes para refrear um pouco a tendência popular de transformar a língua, ou pelo menos para coordenar toda as regiões a uma única evolução. Por isto as palavras foram pouco a pouco se alterando, ajudadas pela lei do menor esforço.
O que ainda ocorreu para o distanciamento dialetal na Itália, sem falar das hordas de bárbaros que desceram da Europa central e lhe trouxeram mais uma cópia de palavras e construções novas, foram as pequenas repúblicas e reinos que apareceram depois da ruína do grande império romano. Essas repúblicas e esses reinos, cada um ficou enclausurado nas regiões que ocupava, tendo vida independente, e pouca se tornou a intercomunicação daqueles povos. Vieram depois, em tempos mais recentes, outras dominações estrangeiras, mormente a espanhola, e os dialetos dominados ainda mais se distanciaram.
Nenhuma outra coisa era possível fazer para unificar a língua, senão oficializar em toda a Itália um daqueles dialetos. Para isto foi escolhido o florentino, e com razão, não só porque era um dos mais cultos e de grande extensão e muito próximo do latim, como por causa da sua situação de respeito aos demais: era um dialeto central. Contudo o italiano moderno é o florentino purificado dos idiotismos e enxertado com as formas e locuções dos melhores autores de outras províncias. E os dialetos da Itália não são dialetos originados do italiano, mas a continuação direta do latim influenciado pelas linguagens indígenas das várias regiões.