Os Dois Amores/IX

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo IX: Um serão do "Céu cor-de-rosa"


A noite estava bela, a lua clara e brilhante e brisas sua­ves e frescas faziam esquecer a calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, que acabara de passar.

Um grupo de curiosos e amadores tinha-se formado defronte das janelas do "Céu cor-de-rosa" e aplaudia os cantos agradáveis que ali eram entoados.

Um velho guarda-portão estava sentado à porta do alpendre da casa feliz.

Jacó e Helena observavam de suas janelas o que se passava e o que se dizia.

Dentro do "Céu cor-de-rosa" reinava a felicidade e borbulhava o prazer. Cerca de trinta pessoas entre senhoras e ho­mens, gozavam o serão daquela noite.

Mariana estava radiante porque defronte dela, e com os olhos embebidos em seu rosto, Henrique parecia crer-se ditoso.

Salustiano não se mostrava ressentido disso, e fazia a corte exclusivamente à "Bela Órfã".

Cândido, um pouco afastado das senhoras, não parecia alegre nem triste; ia, a pesar seu, bebendo a largos tragos o terrível veneno d’alma que se bebe pelos olhos e se concen­tra no coração. Sem o sentir, ele ficava às vezes em êxtase, contemplando Celina do mesmo modo que pelo pensamento se prendia à vida dela inseparáve1, como a sombra de seu corpo. Longe da "Bela Órfã", receando aproximar-se, esquecia-se de si próprio em aéreas meditações; ou outras ve­zes despertava cruelmente sacudido pela mão espinhosa do ciúme, que lhe mostrava um jovem conversando a sós com Celina, ou sorrindo para ela.

Os sinos tocaram nove horas.

— Oh! bem, disse Mariana. Há uma hora que cantamos; deixemos descansar aqueles que nos ouviram, conversemos também.

— A comandante das moças deu a voz de — liberdade! — ao seu batalhão, disse um homem de meia-idade, que se supunha muito espirituoso.

— Então hoje não se dança aqui, d. Celina? murmurou ao ouvido da "Bela Órfã" uma interessante mocinha.

— Eu sei, d. Felícia! se você quer dançar, eu vou dizer a minha tia.

— Deus me livre!

— Mas por quê?...

— Porque aqueles senhores haviam de pensar que eu morro por dançar.

— Que tem isso? pensavam a verdade.

— Sim... sim... porém pensariam também que eu gosto de dançar por causa deles... para conversar... para ouvi-los dizer muitas coisas...

— E não é por isso?... perguntou Celina sorrindo.

— Qual?...

— Então por que é, d. Felícia?...

— Ora, é porque a gente sempre gosta de se mostrar.

— Bravo, d. Felícia, exclamou outra moça, que se sentava perto de Celina.

— Ah! você estava ouvindo, D. Mariquinhas?... pois olhe, é muito mal feito vir escutar o que se está falando em se­gredo...

— Obrigado pela repreensão, minha senhora, disse um mancebo que delas se aproximava nesse momento; eu a recebo, porque, na verdade, a mereço.

— Oh! não; não era a V. Sa. que eu me estava dirigindo.

— É o mesmo; talhou uma carapuça que me serve às mil maravilhas.

— Pois então sirva-se, disse Mariquinhas.

— Eu confesso que morro por saber um segredo de moça... há sempre tanta graça nos inocentes mistérios de um coração que tem só dezesseis anos!

— Ah! tornou Mariquinhas, e se o senhor soubesse então dos mistérios de um coração como o de d. Felícia, que tem só dezessete anos e meio!

— E desgraçadamente, nem ao menos nutro a esperança de poder sabê-lo um dia!

— E que mistério... era um desejo imenso de...

— D. Mariquinhas! exclamou Felícia.

— Veja como ela cora... não.... não digo. Uma coisa espantosa... que pode produzir conseqüências tão desagra­dáveis...

— Deveras, minha senhora?...

— O senhor é de segredo?...

— Muito.

— Pois bem: d. Felícia...

— Diga.

— Quer dançar.

O moço não pôde deixar de rir.

— Pois que pensa, minha senhora?... disse ele; mesmo isso é um mistério: quem sabe a razão por que ela quer dançar?...

— Não é por nada, interrompeu Felícia. Eu não disse, eu não desejei coisa alguma; o que me parece é que d. Mariquinhas está doida por uma contradança.

— Lá isso também é verdade...

— Pois é fácil satisfazer seus desejos; eu vou tocar.

O moço dirigiu-se ao piano.

— Ah! d. Mariquinhas! tornou Felícia; você sempre está com disposição para gracejar!...

— Mas agora não foi gracejo, foi cálculo. Eu queria dançar. Olhe, está vendo aquele moço de óculos verdes?... pediu-me uma contradança no último serão e devo pagar-lha neste...

— Como anda você tão adiantada!...

— Qual! pelo contrário, atrasada... estou carregada de dívidas... em três bailes não pago o que devo.

— Bom, lá se tocam os compassos de prevenção... d. Leocádia já está bulindo na cadeira... que maldito costume tem aquela moça!

— Coitada... é com razão. O exercício... o movimento a torna um pouco menos amarela.

As moças foram interrompidas por alguns cavalheiros que a elas se chegaram pedindo contradanças.

Mariana acabava de aproximar-se de uma janela. Salustiano foi ter com ela.

— Uma contradança... a que se vai dançar, minha senhora...

— Esta não é possível, já tenho par.

— A seguinte?...

— Também já a prometi.

— Ao mesmo cavalheiro da primeira, sem dúvida... disse sorrindo Salustiano.

— É verdade, respondeu Mariana sem hesitar.

— O sr. Henrique?...

— Ele mesmo.

— Bem, tornou Salustiano mudando de tom: hei de logo pedir-lhe um obséquio de outra ordem.

Henrique veio dar a mão a Mariana, lançando um olhar de desprezo a Salustiano, que o pagou com seu costumeiro sorrir sarcástico.

Salustiano passou ainda pelo desgosto de achar Celina engajada para lª, 2ª e 3ª contradanças; eram tantas quantas se costumavam dançar em cada serão.

A dança começou. Cândido não se tinha levantado, e conversava então com a velha Irias.

Anacleto chegou-se a eles.

— Que faz aqui, sentado e triste como um velho de setenta anos, este moço que não tem mais de vinte?...

— Estava repreendendo-o por isso, respondeu Irias. É uma cabeça cheia de teias de aranha; sabe cantar, e não se deixa ouvir; dança com graça, e o estamos vendo sentado.

— Pois ele canta?...

— Não o sabia, sr. Anacleto?...

— Disse-nos que pouco entendia de música.

— Olhem só que mentiroso! exclamou a velha: canta, e tem excelente voz.

— Minha mãe, disse Cândido, para que me há de estar comprometendo?

— Canta, sr. Anacleto: o sujeitinho canta...

— Deixe-o estar, que o tomo de agora por diante à minha conta.

Terminara a primeira quadrilha.

— Venha cá, meu caro senhor, disse Anacleto tomando o braço de Cândido, venha cá, e fique sabendo que não gosto de caras tristes em minha casa.

O velho levou o mancebo até junto de sua neta. Cândido sentiu um calafrio geral coar-lhe por todo corpo.

— Celina, disse Anacleto, apanhei este maganão em um crime: é mentiroso, é hipócrita, e tudo quanto há de mau neste mundo. Sabe cantar excelentemente, e veio aqui di­zer-nos que nada sabia de música.

— É, senhor, que eu... realmente...

— Adeus, meu caro, já não creio em suas desculpas. Celina, fazes anos daqui a quatro dias; tomaremos sem dúvida chá com nossos amigos na noite desse belo dia: não queres pedir alguma coisa ao sr. Cândido?

A "Bela Órfã" entendeu o pensamento do velho, e disse ao moço:

— Peço-lhe que nessa noite nos dê o prazer de se deixar ouvir cantar.

— E agora?... responda, meu cavalheiro.

— Cantarei, minha senhora, respondeu o mancebo a tre­mer.

— Tinha-se formado um círculo à roda de Anacleto, Cândido e Celina.

— Bem, bem, tornou o velho esfregando as mãos; mas resta que de tua parte agradeças de antemão ao nosso mentiroso o sacrifício que vai fazer por teu respeito.

— Mas eu não sei que espécie de agradecimento...

— Sabes o que ele me dizia há pouco? que desejava ardentemente dançar contigo a próxima quadrilha...

— Senhor... balbuciou Cândido.

— Homem, não me venha com novas mentiras; fale, quer ou não quer dançar com minha neta?...

— Minha senhora, disse o mancebo dirigindo-se a Celina; ouso pedir-lhe essa graça...

A moça hesitou primeiro, e enfim respondeu:

— Com muito prazer.

Depois, levantando os olhos, viu diante dela Salustiano, a quem um quarto de hora antes tinha negado a mesma qua­drilha que acabava de conceder a Cândido.

Desfez-se o círculo que estava formado defronte de Celina. Salustiano retirou-se sem dirigir-lhe uma só palavra. As moças ficaram de novo livres da companhia dos homens.

— D. Celina, perguntou Felícia, por que é que aquele moço tremia tanto quando te falava?...

— Eu sei! é talvez por ser naturalmente acanhado.

— Restava sabermos se ele tremeria do mesmo modo falando a qualquer de nós outras, acudiu a maliciosa Mariquinhas.

— Por quê?...

— Porque se não tremesse, tiraríamos uma bela conse­qüência.

— Ma1iciosa!... disse Felícia, enquanto Celina fazia-se um pouco corada.

O piano chamou os pares à sala.

— Nunca houve piano que tocasse mais a propósito, tornou Mariquinhas. Celina estava me contando, sem querer, umas poucas de coisas no rubor de suas faces.

— Ah! d. Mariquinhas!...

— Cuidado comigo... não hei de tirar os olhos de você, enquanto dançamos.

Dançou-se a segunda quadrilha.

Era a primeira vez que Cândido dançava ao lado de Celina. Uma mistura de prazer e de acanhamento, de satisfação imensa e de como dúvida do gosto de tão grande ventura, dava ao rosto do mancebo uma expressão nova, bela e interessante.

Acrescente-se a isso a perturbação de Celina, que se sentia devorada pelos olhos curiosos de Mariquinhas, e conceber-se-á a sensação que experimentavam os dois quando suas mãos se encontravam, quando se viam dançando defronte um do outro, esses dois jovens, uns dos quais não sabia dizer se amava, e o outro não compreendia ainda talvez o que era amor.

Em silêncio ambos, debalde uma e outra vez tentou Cândido encetar alguma conversação. Tudo se terminava em breves monossílabos pronunciados a tremer por qualquer dos dois.

A segunda quadrilha terminou; e no correr da terceira teve princípio um episódio que ocupou por alguns momen­tos a atenção da sociedade.

Em um passo mais rápido que Celina devia fazer, caiu-lhe do cabelo um botão de rosa, que foi a tempo apanhado pelo seu cavalheiro de vis-à-vis.

Terminada a quadrilha, o cavalheiro dirigiu-se à "Bela Órfã", e mostrando-lhe o botão de rosa, disse:

— Na Inglaterra, minha senhora, os grandes fidalgos quando jogam, desprezam o dinheiro que lhes cai no chão, e que enfim fica pertencendo ao criado mais feliz que primeiro o apanha. Levantei este botão de rosa que lhe caiu quando dançava; e dar-me-ei por extremamente venturoso se dispensar a flor que rolou a seus pés.

— Oh! é impossível! exclamou Celina com voz apaixonada; o meu botão de rosa!.. não... de modo nenhum...

— Devo crer que a minha pouca ventura...

— Não deve crer em nada... pouco ou muito feliz, teria sempre de ouvir a mesma coisa.

— Ah! compreendo: não quer dar flores a moço

— O meu botão de rosa?... nem a moças.

— A sua melhor amiga...

— Não conseguiria arrancar-mo.

— Portanto este botão de rosa...

— É a flor... do meu coração.

— Feliz a mão que da roseira o colheu!

— Foi a minha.

— Pode ser... devo crê-lo... no entretanto preciso é que me sujeite ao sacrifício de entregar-lhe um tesouro que eu poderia guardar impunemente.

— Faria uma ação má...

— Bem, minha senhora; eis aí o seu talismã... Deus lhe conserve o valor e as virtudes.

O cavalheiro entregou o botão de rosa, talvez com má vontade, e retirou-se.

Cândido, quando viu a pequenina flor passar do peito do moço para o cabelo de Celina, sentiu entrar-lhe a vida no coração.

— Oh! bravo, d. Celina! acudiu Mariquinhas; eis aí um botão de rosa que deve encerrar o mais interessante mistério.

— É certo.

— Foi dado?

— Não; colhi-o.

— Quem plantou a roseira?...

— Não sei.

— Mas então como se explica esse ardor com que há pouco pedias o teu botão de rosa?...

— É que eu amo os botões de rosa; tenho predileção por eles, como você tem pelas violetas e d. Felícia pelos cravos brancos.

— Nada... aí há coisa.

Celina esteve algum tempo pensando, e enfim disse:

— Talvez.

— Oh! pois então conta-nos. Eu sou louca por histórias em que entrem flores.

— Porém é uma tolice de criança...

— Não faz mal... conta.

— Aqui não.

— Vamos ao toilette.

— Pois bem... vamos... vem conosco, d. Felícia.

As três moças saíram da sala.

Anacleto, que tinha podido apanhar algumas palavras do que elas acabavam de falar, chamou de parte Cândido, e levando-o para dentro consigo, disse-lhe:

— Vamos devagar... pregaremos uma peça àquelas três sujeitinhas, ouvindo contar uma história de rosas, que sem dúvida não terá pés nem cabeça, mas que enfim poderá ser­vir para divertir-nos.

— No entanto Salustiano tinha achado ocasião de falar a sós com Mariana. Chegou-se a ela e disse:

Depois de amanhã pelas cinco horas e meia da tarde, terei a honra de visitar a V. Exa. Conversaremos durante meia hora sobre objeto tão importante, que eu tenho a certeza de que V. Exa. achará na riqueza de seu espírito meios de sobra para afastar daqui todas as pessoas que nos possam ser incômodas durante essa meia hora.

— Senhor!...

— Depois de amanhã, às cinco horas e meia da tarde.