Os Dois Amores/XI

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XI: Velando e sonhando


Ao bafejo dos zéfiros, e ao clarão do luar, uma jovem e um mancebo velavam à mesma hora.

Essa hora era sossegada, muda, misteriosa e bela: era além da meia-noite.

Depois de muito tempo, depois de tanto tempo que já a velha Irias se não lembrava do dia em que pela última vez fechara as janelas do sótão do "Purgatório-trigueiro", abria-se enfim aquela dessas janelas que deitava para o fundo, e junto dela sentara-se um mancebo.

No "Céu cor-de-rosa" duas mãozinhas brancas e delicadas tinham levantado uma vidraça; e uma jovem encantadora se recostara a essa janela, que era a de seu quarto, e que se abria para o jardim.

Esses dois jovens, que não podiam ver-se, ficaram aí silenciosos... meditando.

Respiravam ambos uma atmosfera perfumada pelas exalações das flores do jardim do "Céu cor-de-rosa".

E os pensamentos que deixavam escapar essas duas almas virgens, subiam talvez ao céu nas asas de faceiras auras em­balsamadas de aromas.

O mancebo, que ali estava meditando, tinha apenas vinte anos, e a moça contava somente dezesseis.

Em que pensavam eles?...

Tão moços, tão novos, com a ligeireza da adolescência, com o frescor e doçura da primavera da vida, por que estão, e como podem eles dois estar presos a uma só idéia, pensativos e melancólicos?...

A meditação pertence à velhice; e todavia aqueles dois mancebos, com os olhos no céu e o coração na terra, medi­tavam também.



Celina e Cândido começavam a pagar um tributo sagrado que à natureza se deve... sem querer... sem pensar em tal, eles deviam prender-se pelos pensamentos primeiro, e final­mente pelo coração...

Tinham-se retirado as visitas, os amigos que haviam formado o último serão do "Céu cor-de-rosa"; a "Bela Órfã" achava-se enfim a sós no seu quarto, onde duas horas antes contara a suas amigas o sonho do botão de rosa...

Três anos antes, também em uma noite, ela conversara com duas amigas, e depois viera deitar-se pensativa e triste como o fizera agora

Mariana entrou no quarto de Celina, e abrindo as corti­nas do leito, deu-lhe um beijo e disse:

— Dorme bem, Celina.

E retirou-se. Uma lágrima rolou pelas faces da "Bela Órfã".

Três anos antes ela estava deitada como então, e fora sua mãe quem lhe viera beijar, e dissera:

— Dorme bem, Celina.

A semelhança dessas duas noites, a coincidência dos fatos, excitaram tanto a imaginação da moça, como a entristecia a diferença que ela notava em algumas das pessoas que re­presentavam nesses fatos.

E como há três anos antes, ela ficou refletindo, não querendo refletir; primeiro muito triste... muito triste, pensando em seus pais que já não viviam... e depois levada por sua alma muito longe... muito longe... como a flor que cai na torrente, e que por ela é carregada até onde não pode prever...

Depois ela se lembrou de seu sonho... seu belo sonho, em que um envoltório de pétalas de rosa lhe escondia o coração, e um anjo com o rosto de sua mãe velara por ela.

A "Bela Órfã" teve vontade de sonhar de novo... fechou os olhos, ao menos para ver sua mãe com vestes de queru­bim.

As diversas cenas daquele sonho de virgem, que todo transpirava anjos, inocência e flores, se foram representando na imaginação fervente da "Bela Órfã" como se ela estivesse vendo tudo...

Primeiro o formoso prado de tapete cor de esmeralda, com seu outeirinho verde e caramanchão florido, com seus mon­tes de palmeiras, e seu lago de águas límpidas e de areias de ouro.

Depois a multidão de encantadores meninos com suas cestas de flores, e a música que vinha do céu, os perfumes que embriagavam...

Depois o seu coração arrancado, plantado e regado com suas lágrimas, e as risadas dos meninos que fugiam...

Depois o anjo com o rosto de sua mãe, que vinha velar pelo seu tesouro, guardar o coração de sua filha.

E a roseira que crescia... e os botões que nasciam...

E o rico senhor do batel de prata, que desaparecia...

E o velho do carro majestoso que se sumia...

Faltava o mancebo da cesta de flores...

Em vez dele, como por encanto ainda, como por um novo sonho, a despeito da vontade de Celina, que estimava talvez admirar de novo no lindo mancebo de cabelos negros e on­deados, e olhos pretos e brilhantes... em vez dele... se foi erguendo à margem do lago um túmulo sem pompa, cuja única inscrição eram três letras — P. A. — e um C. —, e junto desse túmulo, que era em tudo semelhante ao que ela vira no dia de finados erguido à memória de seus pais, estava rezando ajoelhado um mancebo pálido e melancólico, que lhe estendia a mão e a convidava para ir rezar com ele...

Esse mancebo tinha o rosto do filho adotivo da velha Irias...

Celina esteve muito tempo embevecida como contemplando essa nova aparição...

Pareceu-lhe enfim notar que o mancebo a olhava com vistas tão ardentes... tão fascinadoras que penetravam até o fundo de sua alma, que a faziam estremecer toda, e lhe lan­çavam no coração um desassossego indizível: teve medo... e sentando-se no leito, soltou um pequeno grito.

Receou depois ter despertado sua tia: escutou... ela ressonava brandamente.

Celina passou então a mão pela fronte, e sentiu que estava em fogo. Parecia que um calor abrasante a sufocava. Ergueu-se, e envolvendo-se em leves vestidos, dirigiu-se à ja­nela, abriu a vidraça, e... ficou meditando.

Por que é que sua imaginação transformara a última, a mais bela cena de seu querido sonho, em uma cena tão so­lene e melancólica? e por que principalmente em vez do mancebo de cabelos e olhos negros, lhe mostrava agora Cân­dido, tão pálido, tão triste?

Por que é que Cândido a. olhava de um modo tão singular, e por que tremia ela mesma à força desse olhar, e sentia no coração esse desassossego tão grande?... Como é que os olhos do homem podem ter influência sobre o coração de uma moça?...

Celina fazia essas perguntas a si mesma, e depois procurava lembrar-se do que em realidade sucedia entre ela e esse mancebo. Cândido estava sempre afastado dela quando vinha ao "Céu cor-de-rosa"; quase nunca lhe dirigia a palavra; jamais, se alguma vez lhe falava, atrevia-se a erguer os olhos até seu rosto; mas às vezes também Celina olhando de repente para ele, o encontrava devorando-a com vistas ardentes e magnéticas, com olhares que a faziam estremecer e ficar desassossegada.

Por que era que acontecia tudo isso?...

A "Bela Órfã" começou depois a observar-se a si mesma, a estudar o que se passava dentro dela, e principiou pouco a pouco a decifrar um grande mistério.

A primeira vez que encontrara esse mancebo, encontrara-o em uma posição caridosa, e em uma ocasião solene. De joe­lhos, junto ao túmulo de seus pais. Orava de certo por eles já mortos, e talvez por sua filha ainda viva. Naturalmente encontro de semelhante gênero produziu viva e profunda impressão em seu ânimo, e nunca mais se poderá apagar nele a imagem dessa triste, mas consoladora cena. Celina sentira, desde o primeiro momento, gratidão imensa pelo procedi­mento de Cândido.

A velha Irias e o mancebo tinham vindo no dia seguinte agradecer-lhe um pequeno serviço, que ela lhes havia pres­tado no anterior. Durante a visita pudera examinar o jovem, a quem era agradecida; e seu rosto pálido, mas expressivo, sua melancolia tocante, suas maneiras urbanas e modestas, atraíram sua atenção, e ao muito, pode ser que também a sua simpatia.

Mas Celina tinha ouvido dizer que o mancebo habitava no sótão do "Purgatório-trigueiro", e desde então nunca mais passeou no seu jardim à hora primeira do dia, com a mesma ligeireza de vestidos, e de modos como dantes. Debalde, porém, olhava para a janela do sótão... jamais lhe aparecera o rosto pálido de Cândido.

Depois o mancebo começou a freqüentar o Céu cor-de-rosa"; e aquela sua habitual melancolia, aquele seu passar de horas inteiras afastado de todos, alheio aos prazeres, sempre triste ou abatido, como se fora consumido por um intenso e acerbo pesar, e aqueles olhares de fogo, que de relance dardejava sobre Celina, a faziam perguntar a si mesma: "por que ele está sempre triste?... por que motivo me olha de modo tão singular?..."

É incontroverso que o coração das moças chega ao amor subindo ordinariamente por uma escadinha, cujo primeiro degrau se chama curiosidade. Aqui houve em parte uma modificação dessa regra. Porque se acaso Celina ama a Cân­dido, o primeiro degrau da escadinha deve chamar-se — gratidão — e o segundo, então, curiosidade.

Nesse estado dos acontecimentos, e do que dentro dela se passara e se estava passando, Celina lembrou-se ainda que nas noites de serão, em que Cândido se demorava em apare­cer, ela se achava descontente, olhava a miúdo para a porta da sala, e ao menor ruído de uma pessoa que entrava sentia um movimento que, ou era uma mistura de esperança e de temor, ou uma sensação que ela não podia explicar a si mesma; e se enfim o mancebo chegava, seu descontentamento como por encanto desaparecia, do mesmo modo que resistia a todos os seus esforços e a acompanhava durante o resto do serão, se Cândido faltava a ele.

Lembrava-se que lhe inundava o coração um prazer imenso quando o moço a ela se chegava, e lhe dizia a tremer algumas palavras; e não sabia por que, tendo às vezes de responder-lhe, tremia também e corava...

Lembrou-se enfim, depois de mil outras lembranças, do serão que houvera nessa noite; dessa primeira vez que com Cândido dançara, da perturbação de ambos durante toda a quadrilha; dos monossílabos que lhe ouvira; e do fundo do coração agradeceu ao bom velho e seu avô, que lhe fizera conhecer nessa noite quando é que é belo o dançar.

De tudo isto era preciso tirar uma conclusão... a lógica do coração estava provavelmente oferecendo à "Bela Órfã" uma conseqüência positiva e inquestionável, que apenas os véus da inocência podiam encobrir ainda, quando ela foi arrancada de suas cogitações por uma voz sonora e doce, que entoava, posto que em tom baixo, um canto melancólico.

Ela escutou... o canto saía do sótão do "Purgatório-trigueiro".

A voz que cantava era a de Cândido.

A noite mais bela, mais feliz dentre todas as noites da vida do mancebo, era aquela que se estava passando.

Ao terminar o serão deixou o "Céu cor-de-rosa" com saudades, mas sem aquela acerba amargura que o obumbrava sempre.

O coração do mancebo estava repleto de felicidade e de esperança, e seu pensamento cheio de belas imagens.

Estava Cândido em uma dessas noites de magia em que a vida se desenha toda em tintas cor-de-rosa... noites de mentira, em que a imaginação nos pinta tão fácil tudo que ambicionamos!

Um bom velho, cujos pés ele quereria beijar agradecido, lhe marcara, durante cinco minutos, um lugar junto daquela que era em sua opinião a mais perfeita das criaturas. Aí ele bebera o ar que ela respirava, mais perfumado ainda que o aroma das melhores flores. Aí tivera ele sobre as suas duas mãozinhas mais brancas, mais livres que as penas de uma garça; ali ouvira ele frases, monossílabos tão melodiosos como harmonias moduladas por um anjo.

E depois, por detrás das cortinas de um leito virgem, que era como o brando cálice da flor, que nele se deitava, ouvira Cândido a revelação do sonho de uma donzela. Sonho que todo inteiro respirava amor; mas um amor tão puro, tão poético, tão celeste, qual só caberia no coração de um querubim...

Oh! como realmente ficaria a cabeça daquele pobre mancebo, que tinha também imaginação ardente, escutando aquele romance enfeitiçado, onde o coração de uma virgem se transformava em botão de rosa, que não podia ser colhido nem pela riqueza, nem pelas factícias grandezas sociais, mas e somente pelo mérito distinto e real?..

Portanto, para aquela meiga pomba do Senhor Deus, para Celina, a pobreza não era um crime, não era — morféia. — A riqueza, embora mal adquirida, não era o tudo que governa o mundo. O belo, isto é, o mérito e virtude, que são as grandes belezas aos olhos de Deus, o belo é que podia ganhar o — pomo da ventura — colher o botão de rosa!

Portanto, não lhe estava fechada a porta daquele paraíso. Não havia ali no alpendre do "Céu cor-de-rosa" um demônio com uma bolsa por coração, que, ao querer um pobre pe­netrar naquele santuário de amor, lhe bradasse com a voz sinistra dos demônios da época: "aqui não entras!"

Portanto se ele fosse nobre e ativo, se trabalhasse, se procedesse como homem de honra, se com estudo profundo e incessante mostrasse que tinha capacidade e engenho, se com a observação das leis da religião de Cristo somente (porque as dos homens ou são essas mesmas leis enunciadas com mais difusão, e apropriadas a diversas especialidades, ou são leis falsas e bárbaras), trilhasse sempre as vias da virtude, podia, tinha o direito de pretender o pomo da ventura, de colher o botão de rosa.

A felicidade enchia, pois, a alma de Cândido. Já um abismo não o separava de Celina; já não se envergonhava de confessar a si mesmo que a amava. Orgulhava-se antes de amá-la e com o coração na terra preso aos pés da "Bela Órfã", e a alma voltada para o céu, e toda embebida na bondade imensa do Criador, ele concebia a mais lisonjeira das esperanças; e a cifrava em uma palavra sagrada: — Deus.

Em um momento de explosão de ardor e esperança, o mancebo saiu da janela, e sentando-se junto à mesa, escreveu durante muito tempo com a rapidez e o ardor de um poeta entusiasmado.

Quando acabou de escrever correu ao lugar onde estava há tanto tempo esquecida a sua harpa e abraçando-se com ela:

— Oh! minha harpa! exclamou; minha querida companheira das tristezas e das saudades, vem outra vez emparceirar-te comigo; mas sê-me agora parceira na esperança.

Então com prazer imenso e sofreguidão notável, encordoou o instrumento, afinou-o prontamente, e sentando-se de novo à janela, cantou em meia-voz...

Era essa a voz que surpreendera Celina no meio das revelações que ela a si mesma estava fazendo dos mistérios de seu inocente coração.

A "Bela Órfã" estendeu um pouco o pescoço, e aplicou apurada atenção.

Infelizmente as auras da noite levavam os sons para o lado oposto, e o cantor noturno parecia empregar bastante cui­dado para não elevar a voz, que era doce, maviosa e tocante.

Um único verso do canto pôde ser ouvido distintamente por Celina: ela corou escutando:

"Quem colhera o terceiro botão!"



No dia seguinte a "Bela Órfã" amanheceu e passou todo o dia pensativa e absorta.

E o filho adotivo da velha Irias caiu de novo em sua habitual melancolia. A noite de esperanças tinha sido uma hora de mentirosas imaginações... com a volta do dia ele encontrara a realidade... a sua desgraça.