Os Exorcismos

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As Religiões no Rio por João do Rio
Os Exorcismos


- "Houve um grande combate nos céus. Miguel e os anjos combatiam contra o dragão que lutava com os seus. Estes, porém, não tiveram a vitória e desde então foi impossível reachar o lugar nos céus. O dragão, a antiga serpente chamada diabo ou sedutor do universo, foi precipitado com os maus anjos sobre a terra. E esse dragão tinha sete cabeças, dez cornos, sete diademas e a sua cauda arrastou a terça parte das estrelas

Assim fala São João de Patimos. O dragão e as estrelas fazem o mundo diabólico, inspiram o mal, arrastam a teoria furiosa das histéricas e mais do que em qualquer outra terra fazem aqui as endemoninhadas. Pela classe baixa, nas ruas escusas, as possessas abundam. De repente criaturas perfeitamente boas caem com ataques, escabujam, arquejam, cusparam uma baba espessa, com os cabelos tesos e os olhos ardentes. Vêm os médicos chamam a isso histeria, vêm os espíritas, dão outra explicação, mas as criaturas só tornam à vida natural quando um sacerdote as exorcisma. Já vi na Gamboa uma mulher que ficava dois palmos acima do solo, com os braços em cruz, gargolejando injúrias ao Criador; tenho a história de uma outra que babava verde e passava horas e horas enrodilhada, com soluços secos, e atirava punhadas aos crucifixos numa ânsia incrível. São sem conta os casos de possessas.

- E toda essa gente é exorcismada?

- Às vezes.

O amigo com quem eu falava era um médico católico.

- O exorcismo pode ser feito por qualquer?

- Hoje não. Atualmente é preciso ser um homem destituído das vaidades do mundo, é preciso ser velho e puro, dotado de uma força imperecível. O bispo faz tocar ao padre exorcista o livro das fórmulas, dizendo: "Accipe et commenda memorae, et habem potestatem imponendi manus super energumenos..." Aqui no Rio há exorcistas falsos, malandros exploradores, há os jesuítas, alguns lazaristas e o superior da ordem dos Capuchos que têm licença do bispo. Conhece frei Piazza? É uma excelente criatura, feita de bondade e de paz. Nunca recebe mal. Para cada injúria tem um carinho e guarda como máxima a grande verdade de que um frade vale por um exército. Que figuras! Ele pelo menos vale por um exército com a sua carícia e a sua força. É um desses entes que não param, um militante. Anda, sai, indaga, conversa, protege, ajuda, converte, exorcisma. Já o vi uma vez vaiado por alunas de uma escola e rapazes grosseiros, à toa, sem razão de ser, apenas porque era frade. Frei Piazza, muito calmo, agradecia com beijos a vaia e cada beijo seu no ar petrificava a boca de um dos impudentes insultadores. É o nosso primeiro exorcista, o grande combatente dos Diabos... Vá interrogá-lo de preferência a outro qualquer.

Mas há diabos?

- Um recrudescimento apenas. O catolicismo explica o inexplicável. Quem faz a cosmolatria? Satanás! a necrolatria, o mal de Deus enfim? Satanás, sempre Satanás! Qual o meio de acabar com o Diabo? o exorcismo.

O Rio de Janeiro é uma tenda de feiticeiros brancos e negros, de religiões de animais, de pedras animadas, o rojar de um povo inteiro diante do amanhã,

 

Spectre toujours mas qué qui nous suit cote a cote
Et qu'on nomme Demam...

 

Às cenas da missa-negra, dos satanistas, dos magos, é preciso juntar a missa vermelha, e os exorcismos.

- Mas nós estamos no século XX!

- Meu caro, o mundo não varia olhando o invisível. Há sempre de um lado os espíritos bons, os anjos que se demonstram pela teurgia, e os espíritos maus, as larvas, os demônios, isto é, de um lado as teofanias, de outro as fúrias. Ultimamente, porém, casos incríveis, lendas antiqüíssimas deram para reaparecer. Os agentes do Diabo, as sereias, os faunos, os gigantes, os tritões surgem de novo. O João catraeiro, ali do cais dos Mineiros, já viu passeando na água uma dama de vermelho com homens de barbas verdes que riam e assobiavam... Porque havemos de banir fatos? Eu, e dou-lhe como testemunha o Dr. Rafael Pinheiro e outras pessoas conhecidas, já tive uma doente que frei Piazza pôs boa. A mulher delirava, tinha ataques formidáveis, eu tratava-a segundo Charcot. Uma vez ela disse: eu tenho o diabo no corpo. Pois vá ao Castelo! Foi e ficou boa. Era um médico que me dizia o assombro. Nesse mesmo dia subi ao Castelo.

Pelas pedras do morro iam homens carregando baldes de água; mulherios estendiam roupas na relva; embaixo, a cidade num vapor branco parecia uma miragem sob o chuveiro de luz. Em torno do convento saltavam cabras. Pendurei-me de um condão à porta carcomida, como um viajante medieval. Muito tempo depois apareceu um frade italiano de barba negra.

- O Superior?

Abriu a porta, fez-me entrar para uma sala paupérrima, onde havia um altar com imagens grosseiras e paramentos de missa. Pelas paredes, ordens do arcebispo, tabelas dos dias de jejum. Através das outras portas abertas viam-se salas abobadadas, onde as alpercatas sacerdotais punham um brando rumor de intimidade.

Dois minutos depois, frei Piazza aparecia. Muito jovial e muito simples. Eu queria uma informação; ele dava-a. Sempre que Deus lhe fazia a graça de poder ser útil, ficava contente. A impressão desse homem, com os flocos de neve de sua barba escorrendo de uma face cheia de vitalidade, é a de um ser definitivamente certo de seu fim, a quem as injúrias, as intrigas, os elogios ou os males não atingem. Viu-me um curioso mundano, impôs-me a sua crença com delicadeza.

- O senhor é jornalista! ah! os jornalistas!... Se eles dissessem apenas o que vêm, seriam os melhores homens do universo... Mas quase nunca dizem. O príncipe de Crayemberg tinha um temor muito justo. Olhe o que ainda há pouco fizeram com a princesa russa.

Estávamos sentados num duro banco, diante de Deus e dos santos, como em poltronas confortáveis. Ele tinha entre as barbas um sorriso de sutil ironia.

- Superior - confessei eu -, tenho nestes últimos tempos visto de perto os males do Diabo.

Disseram-me que frei Piazza exorcisma.

- Sim, filho, há alguns anos. Todas as sextas-feiras das 4 da manhã às 4 da tarde, trabalho sem descanso. Só no ano de 1903 exorcismei mais de 300 demoníacas. Esses exorcismos são feitos de preferência na igreja, mas quando me chamam, vou também à casa dos pacientes. Satã mais do que nunca ameaça Deus. Esse macaco do Divino, como diz o padre Goud, arrasta as criaturas para as profundas do inferno, que a ciência considera um centro de fogo no meio da terra, autor dos vulcões e do abalo das montanhas... Ah! meu filho, é uma vida bem dura!

- O exorcismo é público?

- Nem sempre. O diabo pela boca dos possessos conta a vida de todos, injuria os presentes. Não é conveniente. Ficam alguns amigos que sejam sérios e piedosos.

- E como se praticam os exorcismos?

- Segundo o Rituale.

- Contam tanta coisa...

- É bem simples. Leio-lhe a cerimônia.

Foi-se com o seu passo apressado, voltou trazendo os óculos e um livro de marroquim vermelho com letras de ouro.

- Está escrito que o homem não viverá só de pão, mas das palavras de Deus, disse São Paulo.

Sentamo-nos. Frei Piazza abriu o Rituale, escrito em vermelho e negro...

O ofício de exorcismo começa com as litanias normais e o salmo LII. Depois, o sacerdote dirige-se ao Energúmeno.

- Quem quer que sejas, ordeno-te, espírito imundo, como aos teus companheiros, que obedeçam a este servidor de Deus, em nome dos mistérios da Encarnação, da Paixão, da Ressurreição e da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, em nome do Espírito Santo, que digas o teu nome e indiques por um sinal qualquer o dia e a hora em que entraste neste corpo, ordeno-te que me obedeças, a mim, ministro indigno de Deus, e proíbo-te que ofendas esta criatura assim como aos presentes.

Depois o exorcista procede à leitura dos Evangelhos, segundo São João, São Marcos, São Lucas, evoca o Cristo, faz o sinais-da-cruz no possesso, envolve-lhe o pescoço num pedaço de estola e com a mão direita na cabeça do rebelde, diz:

- Eu te exorcismo, imundo espírito, fantasma legião, em nome de N. S. J. C., ordeno-te que abandones esta criatura feita por Deus com terra. Deus, o mesmo que do alto dos Céus te precipitou nas profundezas, é quem te ordena. Aquele que manda nos mares, nos ventos e na terra. Ouve e treme de pavor, Satã, inimigo da fé, inimigo do gênero humano, mensageiro da morte, ladrão da vida, opressor da justiça, raiz de todos os males, sedutor dos homens, traidor de todas as nações, origem da avareza, inventor da inveja, causa das discórdias e das dores. Por que ficas? por que resiste? Temes o que te imolou por Isaac vendido por José, morto por um anho e que acabou por triunfar do Inferno?

E fazendo sinais-da-cruz na cabeça, no ventre, no peito e no coração do paciente, o sacerdote, com os paramentos roxos, continua:

- Abjuro-te, serpente antiga, em nome dos julgamentos dos vivos e em nome dos mortos, em nome do teu Criador e do Criador dos mundos, Daquele que tem o poder de te enviar ao Inferno, - de sair imediatamente com o teu furor desse servidor de N. S., refugiado no seio da Igreja. Esconjuro-te de novo, não em nome da minha fraqueza, mas em nome do Espírito Santo. Sai desse servidor de Deus, criado à sua imagem; obedece, não a mim, mas ao ministro de Cristo. A força Daquele que te submeteu à sua cruz, ordena-te. Teme o braço do que conduz as almas à luz, após ter vencido os gemidos do inferno. Que o corpo dessa criatura te cause medo, que a imagem de Deus te apavore. Não resistas. Apressa-te, porque Cristo deseja habitá-lo. Deus, a majestade do Senhor, o Espírito Santo, o sacramento da cruz, a fé dos santos apóstolos Pedro e Paulo e dos outros santos, o sangue dos mártires, a intervenção dos santos e das santas, os mistérios da fé cristã, ordenam-te que obedeças. Sai, violador da lei, sai, sedutor cheio de manhas e de enganos, inimigo da virtude, perseguidor dos inocentes. Por que resistes? Por que temerariamente recusas?

A imprecação continua formidável até o hiato suave de uma nova oração. Depois o padre lê o último e mais tremendo exorcismo.

- Abjuro-te, omnis immundissime, deerissime, fantasma, enviado de Satã, em nome de J. C., o Nazareno, que foi, conduzido ao Deserto depois do Batismo de São João e que te venceu na tua habitação. Cessa de obsedar esta criatura, que Deus, para sua honra, tirou do limo da terra. Treme, não da sua fragilidade humana, mas da imagem do Todo Poderoso. Cede a Deus que te precipitou no abismo a ti e a tua infâmia, na pessoa de Faraó, por intermédio do seu servidor Moisés; cede a Deus que te condenou no traidor Iscariote.

A imprecação torna-se de uma solenidade colossal. O sacerdote ergue o livro sobre o desventurado possuído:

- Os vermes esperam-te a ti e aos teus. Um fogo devorador está preparado por toda a eternidade, porque tu és a causa do homicídio maldito, o organizador do incesto, o organizador dos sacrilégios, o instigador das piores ações, o que ensina a heresia, o inventor de tudo quanto é obsceno. Sai, ímpio, sai, celerado, sai com as tuas mentiras, porque Deus quis fazer seu templo deste corpo. Obedece ao Deus diante do qual se ajoelham os homens: cede o lugar a N. S. J. C. que derramou o seu sangue sagrado pela humanidade; cede ao Espírito Santo, que pelos seus bem-aventurados apóstolos venceu-te no mago Simon, que condenou as tuas infâmias em Ananias e Safira, que te curvou em Herodes, que te cegou no mago Elima. Sai agora, sai, sedutor. O deserto é a tua morada, a serpente a tua habitação. Eis que aparece Deus, o Senhor; o fogo arderá os inimigos se não fugirem. Se pudeste enganar um homem, não poderás embair Deus. Escorraçar-te-á O que tem tudo em seu poder, far-te-á sair. O que preparou a geena eterna. Aquele de cuja boca sai o gládio agudo, que virá julgar os vivos, os mortos e o século pelo fogo.

E, enquanto as endemoninhadas, flexuosas, praguejando, batendo com o crânio, expectoram Satanás, os pater, os salmos envolvem-na. Quando ela cai prostrada, salva, o triunfador grita:

- Eis-te refeita santa. Deixa de pecar para que te não aconteçam outros desastres. Vai para casa e anuncia aos teus as grandes coisas que Deus fez por ti e toda a sua misericórdia..

Eu tinha acabado de ler o latim iluminado. Frei Piazza, muito doce, murmurava:

- Há outras formas de exorcismo que invocam os Santos, a Virgem...

- Mas, Superior, há mesmo muitos casos aqui?

- Não imagina! Principalmente nas classes baixas, sem limpeza. O diabo ama a imundície. É quase incrível. Esses fenômenos, que a espiritolatria tem por novos, são nossos conhecidos, há muito tempo explicados. Há criaturas que se dobram em dois, que se tornam sábias de repente, gritam em línguas desconhecidas, têm uma força enorme. Ainda há dias tive dois casos. Não acredita?

- Se eu conheço o caso da Gamboa em que um sacerdote não se pode aproximar da possessa, de tal modo ela coleava!

- A mim aconteceu fato idêntico. Era uma virgem. Cuspia no Crucificado, com os braços em cruz, dobrava em dois, dizia a vida dos outros e de repente começou a arregalar os olhos... Ficaram como duas brasas os olhos, as pálpebras a dilatarem-se, dilatarem-se. Eu estava-as vendo arrebentar, mas tão horrível era o quadro que não tive coragem... Cada palavra do Ritual arregalava-lhe mais o olhar pavoroso. É um capitulo infindável a peregrinação pelos bairros pobres. Casos estranhos! Não conhece a Cabocla, uma mulher que comanda 250 espíritos? Esta criatura, onde está, os móveis caem, há rumores, quebram-se os vasos. Também não pára. Ela diz que já nasceu com os espíritos e não os quer tirar. Ainda outro dia encontrei-a em Catumbi...

Eu já conhecia esse ser satânico e inédito, a Cabocla, já a vira escabujando enquanto os móveis caíam e as portas fechadas abriam-se com estridor. Era verdade.

- Mas há amuletos preservativos do Diabo? - perguntei tremendo.

- Basta a cruz de São Bento. As iniciais da medalha dizem ao alto: Ipse Venena Bibus; do lado esquerdo; sunt mal, quae libas; do lado direito: vade retro, Satanás; em baixo: non suads mihi vana. Ao centro a frase: non draco sit mihi dux - da esquerda para a direita, em forma vertical, de cima para baixo: crux sancta mihi lux, e nos quatro cantos: crux, sanctis, patris, benedicti...

Estava dando uma hora. Através do convento os relógios repetiam interminavelmente a hora solitária. Erguemo-nos, e ainda algum tempo ouvi embevecido a pureza da crença.

Na sexta-feira, porém, de madrugada, fui outra vez ao Castelo certificar-me. Vinha nascendo o dia. No éter puro os sinos desfiavam as notas claras e era como se os sons fossem acordando pela montanha os ecos da vida. Cabras surgiam das sombras, mastigando a relva úmida, e no alto uma estrela ardia a morrer. Vi então subindo a encosta, desde essa hora, a teoria das beatas, homens amparando mulheres de faces maceradas, mantilhas pretas escondendo rostos dolorosos, corpos dobrados em dois tremendo, o bando das possessas modernas galgando o cimo do monte para arrancar a alma a Satanás, o delírio diabólico, a fé, a angústia, o mal... E na Cor suave da aurora, aquele convento simples, donde saía a harmonia dos sinos, surgiu-me como o bálsamo do Bem, o gládio do Senhor solitário e único em meio da Descrença Universal - último auxilio de Deus às almas do Diabo...

Quando descia, outros crentes, outras demoníacas iam subindo na luz do sol para a Lourdes espiritual que os sinos proclamavam. E, recordando a visão tenebrosa desse turbilhão angustioso que escabuja nas casas espíritas e nas igrejas sob o domínio de Satanás, ergui os olhos ao céu, e louvei a glória de Deus no seu imperecível fulgor...