Os Maronitas

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
As Religiões no Rio por João do Rio
Os Maronitas


O povo maronita, dizia o papa Benedito, é como uma flor entre os espinhos. Se o pontífice notável tinha esta doce frase para pintar os homens do monte Líbano, os que lhe sucederam guardaram tão perfumada imagem, e hoje, quando se fala dos maronitas, logo se recorda a flor e os espinhos antigos. Tudo, porém, neste mundo tem o vinco fatal do destino. A frase dos papas tornou-se profética e através da vida imensa, os de Marun continuam a perfumar a crença impoluta entre os espinhos das hostilidades.

Os maronitas, gente extremamente religiosa, habitam a Síria e descendem dos Aramilas, filhos de Aram, de Sem, de Noé.

Ascendência tão digna de respeito só os preparou para um longo e pungente sofrer. Desde os tempos dos Apóstolos, dizem os Atos no versículo 22 do capítulo XV, eram cristãos, conservando a fé ortodoxa havida do príncipe dos Apóstolos no ano 38 da era de Jesus Cristo. Quando no quarto século começaram a aparecer no Oriente as heresias e as doutrinas falsas, protegidas pelos soberanos coroados de pedrarias, impostas pelas armas, e a fé e a soberania ao mesmo tempo vacilavam, S. Marun, chefe dos eremitas da Síria, saiu de sua toca de cilícios e orações e veio salvá-los.

- Quem é esse homem de grandes barbas, meio roto? indagavam os homens, vendo a figura ressurgida do santo sem pecado.

S. Marun não respondia; seguia pelas estradas cheias de sol, na atmosfera de milagre do azul sem mancha, e pregava a doutrina pura, exortava o povo a conservar a sua verdadeira fé.

- Acredita sempre em Deus, tal qual te ensinaram os Apóstolos, e conservarás a tua liberdade!

A gente, que dos seus lábios ouvia as palavras ungidas pela meditação contínua, seguia num novo esplendor de crença, em cada coração a esperança brotava, e em pouco tempo o povo da província do monte Líbano era chamado maronita. Os heresiarcas quiseram caluniá-lo, mas Marun era puro como o cristal. S. João Crisóstomo, o boca-d'oiro, na carta que lhe escrevia, rogava que por ele orasse, e a ironia como a calúnia fenderam-se de encontro ao seu broquel de bondade.

Quando a sua alma irradiou, deixando o invólucro terreno, o povo maronita tinha inabalável a crença para suportar todas as sangrentas perseguições, e tem sido desde então o mesmo ordeiro e persistente auxiliar da obra divina.

Durante as cruzadas combateu ao lado dos cristãos contra os ímpios. Ao aproximarem-se os exércitos, desciam da montanha, alimentavam e vestiam os cruzados nus e com fome. Sempre que os turcos entravam sedentos de sangue pelo seu território, sofriam como mártires o sacrifício sem protestar. O ódio do Maometano seguia-os, entretanto, na vida simples e indolente dos mosteiros. Em 1860 os druzos, povo pagão e feroz, recordando velhos ódios religiosos, atiraram-se subitamente sobre os pobres maronitas, traídos e abandonados.

A carnificina foi horrenda. A França então, sempre benevolente para os cristãos do Oriente, mandou uma esquadra às águas do Levante, forçando o Turco a modificar o governo do Líbano e a dar-lhe uma certa autonomia. Desde essa época o governo é cristão nomeado pelas sete grandes potências européias, a câmara dos representantes faz-se por eleição livre e o chefe da policia deve ser cristão. O chefe da polícia em todos os povos do Oriente representa um papel formidável.

Extremamente religiosos, os maronitas dependem civil, militar e religiosamente, em qualquer parte em que se achem, dos sacerdotes, e a hierarquia da sua igreja compõe-se de um prelado, com o título de Patriarca de Antióquia e de todo o Oriente, de doze bispos diretores de doze dioceses e de um número infindável de sacerdotes inteligentes e bons.

A intervenção européia, entretanto, espalhou pelo mundo a flor pontifícia. A imigração esvazia aos poucos o Líbano. Não se pode viver com farturas em terras tão antigas, as autoridades conservam a influência aterradora do Sultão. Os que primeiro saíram, com os ortodoxos e outros crentes de Jesus, escreveram chamando os que ficavam, a perspicácia maometana facilitou a emigração para enfraquecer os libertos da sua prepotência e os maronitas vêm para os Estados Unidos, para a Argenúna, para o Brasil, num lento êxodo...

Nós temos uma considerável pétala da celebrada flor. Uma das nossas maiores colônias hoje é incontestavelmente a colônia síria. Há oitenta mil sírios no Brasil, dos quais cinqüenta mil maronitas. Só o Rio de Janeiro possui para mais de cinco mil.

Quando os primeiros apareceram aqui, há cerca de vinte anos, o povo julgava-os antropófagos, hostilizava-os e na província muitos fugiram corridos à pedra. Até hoje quase ninguém os separa desse qualificativo geral e deprimente de turcos. Eles, todos os que aparecem, são turcos!

Os sírios, arrastados na sua imensa necessidade de amizade e amparo, davam com a muralha de uma língua estranha, num país que os não suportava. Agremiaram-se, fizeram vida à parte e, como a colônia aumentava, foram por aí, mascates a crédito, fiando a toda a gente, montaram botequins, armarinhos, fizeram-se negociantes. Quem os amparou? Ninguém! Só, por um acaso, Ferreira de Araújo, o Mestre admirável, escreveu defendendo-os. Os sacerdotes maronitas respeitam-lhe a memória, e na data da sua morte rezam-lhe missas por alma, guardando delicadamente uma gratidão duradoura.

No mais, a hostilidade, os espinhos da frase papal.

Há nessa gente operários hábeis, médicos, doutores, homens instruídos que discutem com clareza questões de política internacional, jornalistas e até oradores. A vida é dura, porém; jornalistas e doutores vendem alfinetes e linhas em casas pouco claras da rua da Alfândega, do Senhor dos Passos, do Núncio e dos subúrbios. A totalidade ainda ignora o português!

Conversei com alguns maronitas, sempre de uma amabilidade penetrante. Um deles, dando-me a satisfação da sua prosa torrencial, falou como um estrategista da guerra russo-japonesa. Esse homem não falava, redigia um artigo de jornal com a retórica empolada que fez a delícia dos nossos pais e ainda hoje é a força do jornalismo dogmático. Eu ouvia-o de lábios entreabertos.

- Se a justiça de Deus não desapareceu, se a vida humana decorre dos desejos da divindade, é possível crer que os japoneses possam vencer?

- Oh! não!

Eu respondera, como no teatro, mas estava interessado por esses organismos simples, criados na chama de uma crença inabalável, desses românticos do Oriente.

Todos são feitos de exagero, de entusiasmo, de amor e de ilusão. Os dois jornais sírios têm os títulos simbólicos e extremos: - A Justiça, A Razão. Os homens naturalmente perdem o limite do natural. Numa outra casa em que sou recebido, um gordo cavalheiro preocupa-se com o problema da colonização.

- A colonização síria, diz, é a melhor para o Brasil. Os brasileiros ainda não a compreenderam. O sírio não é só o comerciante, é também agricultor, operário. Desprezam-nos? Este país não vê que conosco, povo tranqüilo e dócil, não poderia haver complicações diplomáticas? Os espanhóis, os portugueses, os italianos enriquecem, partem, pedem indenizações. Nós, pobres de nós! não pedimos nada, queremos ser apenas do Brasil.

Não respondo. Talvez bem cedo os sírios sejam assimilados à família heterogênea da nossa pátria. Estas criaturas têm qualidades muito parecidas com as dos brasileiros.

Vários negociantes que comigo discutem, porque os sírios discutem sempre, são como jornais retóricos e brandos; diziam naturalmente:

- No Amazonas perdi há pouco 400 contos. A colônia síria teve na baixa do café um prejuízo de 70 mil contos. As últimas remessas de fazendas elevam-se a 200 contos.

A princípio eu os acreditei um bando de Vanderbilts, falando com desprendimento do ouro e das riquezas. Mas não. Um sacerdote amigo nos desfaz o sonho. Há fortunas restritas. A totalidade porém tem relações com o alto comércio, compra a crédito para vender a crédito aos mercadores ambulantes do interior e às vezes a situação complica-se, quando lhes falta o pagamento dos últimos, tudo por causa do exagero, a mania de aparentar riqueza. Cada cérebro oriental tem um Potosi nas circunvoluções.

- Os sírios chegam, ganham dois mil réis por dia e já estão contentes. Nunca serão verdadeiramente ricos, porque aparentam ter oito quando apenas têm dois.

Este feitio os há de fazer compreendidos dos brasileiros.

Mas os maronitas, sob a proteção do velho santo austero, são essencialmente bons, de uma bondade à flor da pele, que se desfaz em gentilezas ao primeiro contacto com um bombom. Os homens falam sempre, as mulheres olham com os seus líquidos olhos insondáveis e por todas essas casas, há, inseparável da vida, o mistério da religião, no amor que as mulheres, algumas inefavelmente belas, proporcionam, nos negócios, nas idéias e nas refeições. Quando um maronita enferma, a primeira coisa que faz é chamar um padre para se confessar; quando um negócio vai mal, aconselha-se com o sacerdote, só casa pelo seu rito, o único verdadeiro, e trabalhando para viver, funda irmandades, colégios e pensa em edificar capelas.

De 1900 data a fundação da Irmandade Maronita, posterior a outras duas que se desfizeram. Foram sócios fundadores: Dieb Aical, Arsanius Mandur Galep Toyam, Seba Preod Curi, Miguel Carmo, Acle Miguel, João Facad, Antonio Nicobá, Antonio Kairur, Bichara Bueri, Gabriel Ranie, Salbab, José Chalhub e Bichara Duer. Brevemente abrirá as suas portas o colégio dos Jovens Sírios.

Apesar da permissão para dizer missa em todas as igrejas católicas e de celebrarem aos domingos na Saúde e em Cascadura, já compraram o terreno na rua do Senhor dos Passos para edificar a capela maronita, e a propaganda se faz mesmo entre os sírios ortodoxos e maometanos, porque uma ordem do Papa lhes indica que pela bondade façam voltar à crença única as ovelhas tresmalhadas.

Atualmente há três padres maronitas em São Paulo e quatro no Rio, os Revs. Pedro Abigaedi, Pedro Zaghi, Luiz Trah e Luiz Chediak. Andam todos de barba cerrada, usam óculos e são suavemente eruditos. Trah, por exemplo, esteve oito anos na Bélgica e discursa como um regato tranqüilo; Chediak é professor, e cada palavra sua vem repassada de doçura. É sabido que a reconciliação dos maronitas com a igreja romana data de 1182. A reconciliação foi incompleta a princípio, mas hoje é quase integral. Os padres, podendo casar, abandonam essa idéia; há o maior respeito pelo Sumo Pontífice, e a política do Vaticano consegue aos poucos outras reformas.

Como os padres me levassem a ver o terreno donde a igreja maronita surgirá, interroguei-os a respeito do rito da sua seita.

- É quase idêntico ao romano, dizem-me. A liturgia é redigida em siríaco. É uma necessidade. Há sírios que sabem de cor o sacrifício da missa. Talvez o mesmo não aconteça numa igreja romana, que conserva o latim.

- A começar pelos sacristãos.

- Há além disso as missas privadas, a regra é a de Santo Antônio e seguimos o martirológio de S. Marun.

- Dizem que os maronitas foram a princípio monotelistas...

- Dizem tanta coisa no mundo!

Eles tinham parado diante de uns velhos muros.

- Será aqui a igreja?

- Querendo Deus!

E não sei porque, vendo-os tão simples diante das paredes carcomidas, esses sacerdotes de um povo religiosamente bom, eu recordei a frase profética dos papas. O povo maronita é como uma flor entre espinhos, mas uma flor cujo viço é eterno. Os espinhos continuam persistentes mas a velha flor espalha-se pelo mundo, recendendo a mais doce ternura e a mais profunda crença...