Os Monges

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Os Monges
por Cruz e Sousa
Poema publicado em Faróis


Montanhas e montanhas e montanhas
         Ei-los que vão galgando.
As sombras vãs das figuras estranhas
        Na Terra projetando.

Habitam nas mansões do Imponderável
         Esses graves ascetas;
Ocultando, talvez, no Inconsolável
        Amarguras inquietas.

Como os reis Magos, trazem lá do Oriente
         As alfaias preciosas,
Mas alfaias, surpreendentemente,
        As mais miraculosas.

Nem incensos, nem mirras e nem ouros,
        Nem mirras nem incensos,
Outros mais raros, mágicos tesouros
        Sobre todos, imensos.

Pelos longínquos, sáfaros caminhos
         Que vivem percorrendo,
A Dor, como atros, venenosos vinhos,
        Os vai deliqüescendo.

São os monges sombrios, solitários,
        Como esses vagos rios
Que passam nas florestas tumultuários,
         Solitários, sombrios.

São monges das florestas encantadas,
         Dos ignotos tumultos,
Almas na Terra desassossegadas,
         Desconsolados vultos.

São os monges da Graça e do Mistério,
         Faróis da Eternidade
Iluminando todo o Azul sidéreo
         Da sagrada Saudade.

-- Onde e quando acharão o seu descanso
         Eles que há tanto vagam?
Em que dia terão esse remanso
         Os seus pés que se chagam?

Quando caminham nas Regiões nevoentas,
         Da lua nos quebrantos,
As suas sombras vagarosas, lentas
         Ganham certos encantos...

Ficam nimbados pela luz da lua
         Os seus perfis tristonhos...
Sob a dolência peregrina e crua
         Dos tantálicos sonhos.

As Ilusões são seus mantos sangüíneos
         De símbolos de dores,
De signos, de solenes vaticínios,
         De nirvânicas flores.

Benditos monges imortais, benditos
         Que etéreas harpas tangem!
Que rasgam d'alto a baixo os Infinitos,
         Infinitos abrangem.

Deixai-os ir com os seus troféus bizarros
         De humano Sentimento,
Arrebatados pelos ígneos carros
         Do augusto Pensamento.

Que os leve a graça das errantes almas,
         -- Grandes asas de tudo --
Entre as Hosanas, o verdor das palmas,
         Entre o Mistério mudo!

Não importa saber que rumo trazem
         Nem se é longo esse rumo...
Eles no Indefinido se comprazem,
         São dele a chama e o fumo.

Deixai-os ir pela Amplidão a fora,
         Nos Silêncios da esfera,
Nos esplendores da eternal Aurora
         Coroados de Quimera!

Deixai-os ir pela Amplidão, deixai-os,
         No segredo profundo,
Por entre fluidos de celestes raios
         Transfigurando o mundo.

Que só os astros do Azul cintilam
         Pela sidérea rede
Saibam que os monges, lívidos, desfilam
         Devorados de sede...

Que ninguém mais possa saber as ânsias
         Nem sentir a Dolência
Que vindo das incógnitas Distancias
         E dos monges a essência!

Monges, ó monges da divina Graça,
         Lá da graça divina,
Deu-vos o Amor toda a imortal couraça
         Dessa Fé que alucina.

No meio de anjos que vos-abençoam
         Corações estremecem...
E tudo eternamente vos perdoam
         Os que não vos esquecem.

Toda a misericórdia dos espaços
         Vos oscule, surpresa...
E abri, serenos, largamente, os braços
         A toda a Natureza!