Os Sertões/Quarta Expedição/V

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Os Sertões
por Euclides da Cunha


O assalto
preparativos

O comboio chegou ao alto da Favela a 13 de julho; e no dia subseqüente, convocados os comandantes de brigadas, na tenda do general Savaget, enfermo do ferimento recebido em Cocorobó, concertaram sobre o assalto. O dia era propício: uma data de festa nacional. Logo pela manhã uma salva de 21 tiros de bala a comemorara. Os matutos broncos foram varridos cedo — surpreendidos, saltando estonteadamente das redes e dos catres miseráveis — porque havia pouco mais de cem anos um grupo de sonhadores falara nos direitos do homem e se debatera pela utopia maravilhosa da fraternidade humana...

O ataque contra o arraial era urgente.

O comandante da 1ª Brigada ao voltar comunicara que na pretensa base de operações nada existia. Encontrara-a desprovida de tudo, tendo-lhe sido necessário organizar com dificuldades o comboio que trouxera. Este em pouco se esgotaria e volver-se-ia de novo à crítica situação anterior.

Deliberou-se. As opiniões, dissentindo em minúcias, firmaram-se acordes no pensamento da investida em grandes massas por um único flanco. Os comandantes da 3ª, 4ª, e 5ª Brigadas opinaram pelo abandono preliminar da Favela por uma posição mais próxima de onde, depois, empenhassem a ação. Os demais, fortalecidos pelo voto favorável dos três generais, contravieram: permaneceriam na Favela o hospital de sangue, artilharia e duas brigadas, garantindo-os.

Este alvitre, que afinal pouco divergia do primeiro, prevaleceu. Reincidia-se num erro. O inimigo ia ter, mais uma vez, diante da sua fugacidade a potência ronceira das brigadas. Havia, como se vê, persistente na maioria dos animes, o intento de se não executar o que a campanha, desde o começo, reclamava: a divisão dos corpos combatentes. O ataque por dois pontos, pelo caminho de Jeremoabo e pela extrema esquerda, derivando pelos contrafortes da fazenda Velha, enquanto a artilharia, sem deixar a sua posição, agisse, bombardeando pelo centro, surgia, entretanto, como único plano — imperioso e intuitivo — à mais ligeira observação do teatro da luta. Não se cogitou, porém, de observar o teatro da luta. O plano firmado era mais simples. As duas colunas combatentes, após uma marcha de flanco de quase dois quilômetros para a direita do acampamento, que se preestabeleceu realizada sem que a perturbasse o inimigo, obliquariam à esquerda, demandando o Vaza-Barris. Dali, volvendo ainda à esquerda, arremeteriam em cheio até à praça das igrejas. O movimento, contornante a princípio, ultimar-se-ia em trajetória retilínea; e se fosse impulsionado com sucesso favorável, os jagunços, mesmo no caso de inteiro desbarate, teriam, francos ao recuo, três ângulos do quadrante. Poderiam, a salvo, deslocar-se para as posições inacessíveis do Caipã, ou qualquer outra de onde renovassem a resistência.

Esta era certa e previa-se a todo o transe.

Diziam-no acontecimentos recentes. Duas semanas de canhoneio e o reforço de munições aos adversários não tinham desinfluído os sertanejos. Revigoraram-nos. No dia 15, como se ideassem atrevida paródia à recente vinda do comboio, foram vistos, em bandos, em que se incluíam mulheres e crianças, avançando pela direita do acampamento, tangendo para o arraial numerosas reses. O 25° Batalhão, enviado a atacá-los, não os alcançara. Naquele mesmo dia, os expedicionários, fartos e alentados de novo pela esperança da vitória próxima, não tiveram permissão de andar à vontade na própria posição em que acampavam. A travessia de um para outro abarracamento era a morte. Tombaram, baleados, o sargento-ajudante do 9° e várias praças. Foi assaltado o pasto, a dois passos da 2ª coluna, e capturados alguns animais de montaria e tração, sem que os retomasse o 30° de Infantaria, imediatamente destacado para a diligência. A 16 ostentaram o mesmo afoitar-se desafiador com o adversário abastecido. Bateram todas as linhas. A comissão de engenheiros, para fazer ligeiros reconhecimentos nas cercanias, fê-lo combatendo, levando a escolta formidável de dois batalhões, o 7° e o 5°. Esta atitude indicava-os dispostos a reagir com vigor; e como se não conheciam os recursos que contavam, o ataque planeado devia ater-se à condição essencial de não ser nele, de chofre, comprometida toda a força, o que ademais impropriava a zona mesma do combate. Vista do alto da Favela, esta parecia ser, de fato, a de mais fácil acesso. Apesar disto, o solo, pregueado de sangas e ondeando em outeiros, impossibilitava o desdobramento rápido das colunas; permitia prever-se o travamento forçado da investida em massa e sugeria por si mesmo, como corretivo único à sua conformação especial, a ordem largamente dispersa. Mas esta só seria factível se, excluído de todo o alvitre das cargas de pelotões maciços, precipitando-se contra os cerros a batalha tivesse a preliminar de uma demonstração preparatória ou reconhecimento enérgico feito por uma brigada única livremente desenvolvida e agindo fora da compreensão entibiadora de fileiras compactas e inúteis. Esta vanguarda combatente à medida que progredisse, varrendo as trincheiras abertas em todos os altos e em todas as encostas, seria gradativamente seguida pelas outras, que a reforçariam nos pontos mais convenientes, até se operar, afinal, naturalmente, na própria esteira do recuo do antagonista, a concentração de todas, dentro do arraial. Ia fazer-se o contrário. O comandante geral oscilava entre extremos. Saía da anquilose para o salto; da inércia absoluta para os movimentos impulsivos. Deixou a vacilação inibitória, que o manietava no alto da Favela, para a obsessão delirante das cargas. Nas disposições, dadas a 16, para o combate, são elas a nota preponderante. Postos em plano inferior todos os dispositivos que garantissem o desenlace do recontro, espelha-se ali, a preocupação absorvente dos choques violentos: 3 mil e tantas baionetas rolando, como uma caudal de ferro e chamas, pelo leito do Vaza-Barris em fora...

"Dado o sinal da carga ninguém mais procura evitar a ação dos fogos do inimigo. Carrega-se sem vacilar com a maior impetuosidade. Depois de cada carga cada soldado procura a sua companhia, cada companhia o seu batalhão e assim por diante."

Estas instruções iam de nível com as tendências gerais. As longas combinações concretas de um combate, adrede elaboradas consoante as condições excepcionais do meio e do adversário, não as satisfaziam. O rancor longamente acumulado por anteriores insucessos exigia revides fulminantes. Era preciso levar às recuadas os bandidos tontos e, de uma só vez, de pancada, socá-los dentro da cova de Canudos, a coices de armas.

A ordem do dia 17 de julho marcando o ataque para o imediato, 18, foi recebida com delírio. Esteando-se nas façanhas anteriores, o comandante-em-chefe, numa dedução atrevida, voltava uma página do futuro e punha diante dos lutadores a miragem da vitória.

"Valentes oficiais e soldados da forças expedicionárias no interior do Estado da Bahia!

Desde Cocorobó até aqui o inimigo não tem podido resistir à vossa bravura. Atestam-no os combates de Cocorobó, Trabubu, Macambira, Angico, dois outros no alto da Favela e dois assaltos que o inimigo trouxe à artilharia.

Amanhã vamos batê-lo na sua cidadela de Canudos. A pátria tem os olhos fitos sobre vós, tudo espera da vossa bravura. O inimigo traiçoeiro, que não se apresenta de frente, que combate-nos sem ser visto, tem, contudo, sofrido perdas consideráveis. Ele está desmoralizado, e, pois, se..."

Paremos um momento diante de uma condicional comprometedora. Ante ela a ordem do dia, lida com aplausos a 17, devia ter sido trancada ao cair da noite de 18.

"... se tiverdes constância, se ainda uma vez fordes os bravos de todos os tempos, Canudos estará em vosso poder amanhã; iremos descansar e a Pátria saberá agradecer os vossos sacrifícios."

Canudos cairia no dia seguinte. Era fatal. O inimigo mesmo parecia ciente da resolução heróica: cessara os tiroteios irritantes. Acolhia-se embaixo, timorato e quedo, vencido de véspera. O acampamento não fora atormentado. À tarde as fanfarras dos corpos vibraram harmoniosamente até cair a noite.

Plano do assalto

Delineou-se o ataque. Ficaram na Favela cerca de 1.500 homens sob o mando geral do general Savaget, guardando a posição: a 2ª e 7ª Brigadas dos coronéis Inácio Henrique de Gouveia e Antonino Néri, a última recém-formada, assim como a de artilharia, que secundaria o ataque num bombardeio firme.

A 1ª coluna dirigida pelo general Barbosa marcharia na frente para o combate encalçada logo pela ala de cavalaria e uma divisão de dois Krupps de 7½. A 2ª acompanhá-la-ia fechando a retaguarda.

Entravam na ação 3.349 homens repartidos em cinco brigadas: a 1ª, do coronel Joaquim Manuel de Medeiros, composta de dois batalhões apenas, o 14° e o 30°, respectivamente comandados pelo capitão João Antunes Leite e tenente-coronel Antônio Tupi Ferreira Caldas; a 3ª, do tenente-coronel Emídio Dantas Barreto, reunia o 5°, 7°, 9° e 25°, todos chefiados por capitães, Antônio Nunes de Sales, Alberto Gavião Pereira Pinto, Carlos Augusto de Sousa e José Xavier dos Anjos; a 4ª, do coronel Carlos Maria da Silva Teles, formava-se com o 12° e o 31° sob o mando dos capitães José Luís Buchelle e José Lauriano da Costa; a 5ª, do coronel Julião Augusto da Serra Martins, que substituíra o general Savaget na direção da 2ª coluna, estava sob o comando do major Nonato Seixas e constituía-se com o 35° e 40° Batalhões do major Olegário Sampaio e capitão J. Vilar Coutinho; e finalmente a 6ª, do coronel Donaciano de Araújo Pantoja, com o 26° e 32° comandados pelo capitão M. Costa e major Colatino Góis. O 5° de Polícia baiana, chefiado pelo capitão do Exército Salvador Pires de Carvalho Aragão, acompanhava, autônomo, a 2ª coluna.

O tenente-coronel Siqueira de Meneses, com um contingente reduzido, enquanto o grosso da expedição atacasse devia operar ligeira diversão à direita, sobre os contrafortes da fazenda Velha.

Definidos os lutadores, via-se que ali estavam alguns para os quais o sertão de Canudos era um campo estreito:

Carlos Teles, uma altivez sem par sangrando sob o cilício da farda, lembrava o belo episódio do cerco de Bagé; Tupi Caldas — nervoso, irrequieto e barulhento, trazia invejável reputação de coragem da refrega mortífera de Inhanduí, contra os federalistas do sul; Olímpio da Silveira, o chefe da artilharia, com o seu facies de estátua — face bronzeada vincada de linhas imóveis —, realizava a criação rara de um lutador modesto, impassível diante da glória e diante do inimigo, seguindo retilineamente pela vida entre o tumulto das batalhas, como obediente a uma fatalidade incoercível. Nos menos graduados uma oficialidade moça, ávida de renome, anelando perigos, turbulenta, jovial, destemerosa: Salvador Pires, comandante do 5° de Polícia, que ele mesmo formara com os tabaréus robustos escolhidos nos povoados do São Francisco; Wanderley, destinado a tombar heróicamente no último passo de uma carga temerária; Vieira Pacheco, o gaúcho intrépido que chefiava o esquadrão de lanceiros; Frutuoso Mendes e Duque Estrada, que desarticulariam pedra por pedra os muros da igreja nova; Carlos de Alencar, cujo comando se extinguiria pela morte de todos os soldados da ala de cavalaria que dirigia; e outros...

Toda essa gente aguardava com impaciência o combate. Porque o combate era a vitória decisiva. Segundo o velho hábito, os lutadores recomendaram aos que permaneciam na Favela que tivessem pronto o almoço, para quando tornassem da empresa fatigante...

O recontro

As colunas abalaram, no dia 18, ainda alta a madrugada. Contramarchando à direita do acampamento, seguiram olhando em cheio para o levante, demandando o caminho de Jeremoabo, descendo. No fim de algum tempo, volveram à esquerda, descendo sempre, em rumo certo à borda do Vaza-Barris, embaixo. A marcha, a passo ordinário, realizava-se tranqüilamente, sem a menor revelação do inimigo, como se fosse surpreendê-lo aquele movimento contornante. Apenas os dois Krupps, rangendo emperradamente na vereda mal gradada, a perturbavam, às vezes. Eram tropeços breves, porém, prestamente removidos. O tropear da investida rolava surdamente, ameaçador, contínuo...

A terra despertava triste. As aves tinham abandonado espavoridas aqueles ares varridos, havia um mês, de balas. A manhã surgia rutilante e muda. Desvendava-se, a pouco e pouco, a região silenciosa e deserta: cômoros despidos ou chapadas breves; caatingas decíduas, "pintando", já em julho, em grandes nódoas pardo-escuras, a revelarem o alastramento vagaroso da seca. A planície ondeante, alargando-se no quadrante de NE até ao sopé da Canabrava, indefinida para o norte, batendo ao sul contra a Favela, empolava-se para o poente em maciços sucessivamente mais altos, subindo para as grimpas longínquas do Cambaio. O Vaza-Barris, cortado em gânglios esparsos, percorria-a em dobras divagantes. Numa destas, depois de correr direito para o ocidente, torce abruptamente ao sul e volve, transcorridos poucas centenas de metros, para leste, invertendo de todo o sentido da corrente e formando imperfeita península, tendo no extremo o arraial. Assim, bastava aos que o defendessem o estenderem-se ligando os dois galhos paralelos e próximos do rio, segundo a corda daquele círculo extensíssimo de circunvalação, para cortarem toda a frente do ataque. Porque a direção deste a interferia normalmente, como a flecha do enorme semicírculo: depois de transposta a baixada aquém de Trabubu, os assaltantes atravessariam a pés enxutos o Vaza-Barris e, volvendo mais uma vez, a última, à esquerda, carregariam de frente.

Antes de completa esta conversão, porém, o inimigo lhes renteou o passo. Eram sete horas da manhã.

Os exploradores receberam os primeiros tiros ao galgarem a barranca esquerda do rio. O terreno próximo empolava-se num cerro, onde se viam, revestindo-o até ao topo, lembrando muros de pedra seca derruídos, irregulares entrincheiramentos de pedras. O arraial, mil e quinhentos metros na frente, desaparecia numa depressão mais forte, lobrigando-se , apenas, o olhar rasante pela crista dos cerros, os vértices das duas torres da igreja. Duas cruzes ameaçadoras e altas, recortando-se, nítidas, na claridade nascente...

A vanguarda atacada, uma companhia do 30º, replicou sem parar, acelerando o passo, ao tempo que o grosso da 1ª Brigada e quatro batalhões da 3ª chegavam, compactos, abeirando-se do leito do rio, transpondo-o.

Toda a primeira coluna penetrava, reunida, a arena do combate.

Linha de combate

Os breves tropeços à translação dos dois Krupps tinham, em boa hora, remorado a retaguarda. De sorte que atenuando-se, em parte, o grave inconveniente de um acúmulo compressor de batalhões, o general Barbosa pôde tentar O esboço de uma linha de combate: a 1ª Brigada distendendo-se em atiradores para a direita; a 3ª, na mesma ordem, para a esquerda — enquanto a ala de cavalaria, avantajando-se a toda brida a estremar o flanco direito, devia obstar que o envolvessem.

Crítica

Mas este movimento geral da tropa, como era de prever, foi mal feito. Sobre ser uma manobra sob o olhar do adversário, impropriava-a o terreno. Faltava-lhe a base física essencial à tática. A linha ideada, feita por um rápido desdobramento de brigadas numa longura de dois quilômetros, ia partir-se em planos verticais, segundo as cotas máximas dos cerros e o fundo das baixadas; e desde que não podia traçar-se com celeridade tal que tornasse o mais possível passageira uma situação de desequilíbrio e fraqueza, forçadamente assumida por todas as unidades combatentes, no se desarticularem e darem o flanco ao inimigo até nova posição de combate — era impraticável.

Impraticável e perigosíssima. Diziam-no todas as condições palpáveis, concretas, em torno, da áspera topografia do solo ao extraordinário vigor de pronto patenteado pelo adversário, que tomara, desde os primeiros minutos, toda a frente à investida, numa fuzilaria impenetrável. E revelariam-no os resultados imediatos da ação. Os soldados — feixes de baionetas arremessando-se contra os morros — embatiam-lhes as ilhargas; tornejavam-nas, vingavam-nas a custo, no vertiginoso desatar-se das linhas de atiradores. Mas tudo isto sem a firmeza e a velocidade que implicava a tática concebida. Além de não conseguirem executá-la deste modo, o que era essencial, alteraram-na logo em pormenores, insignificantes talvez, mas delatadores de um princípio de confusão nas fileiras. Em contraposição à ordem primitiva, a 3ª Brigada começou a lutar pelo flanco direito do 30°, que era da primeira. O 9° Batalhão, na extrema esquerda, caíra no valo do Vaza-Barris por onde começou a avançar ferido de descargas irradiantes das duas bordas; enquanto o 25°, o 5° e a ala direita do 7° mal centralizavam o conflito.

Confusão

Era impossível estirar-se a formatura dispersa debaixo de balas em semelhante local. As seções, as companhias, os batalhões, destacando-se para a direita, única banda apropriada aos alinhamentos, enfiavam num labirinto de sangas em torcicolos e a breve trecho sentiam-se perdidos, desorientados, iludidos, sem verem o resto dos companheiros, sem poderem distinguir sequer os toques discordes das cornetas. Recuando, às vezes, no estonteamento da marcha tortuosa, supondo que avançavam, esbarravam, não raro, dados poucos passos, inopinadamente, com outras seções, outras companhias e outros batalhões, a marche-marche em sentido contrário...

Enredavam-se. O próprio general que os atirara em tais forcas caudinas, mais tarde, na ordem do dia relativa ao feito, não encontrando no léxico opulento da nossa língua um termo lídimo para caracterizar bem a desordem da refrega, aventurou um gauchismo bárbaro — as forças entrelisavam-se...

De sorte que quando, passada meia hora, chegou a 2ª coluna, era já sensível o número de baixas. Vinham mais duas brigadas, a 4ª e a 5ª, ficando apenas de reserva, à reçaga, uma, a 6ª, sob as ordens imediatas do comando-em-chefe. Os recém-vindos deviam ainda alongar-se para a direita, segundo o plano único imposto pelas circunstâncias, o que, além de tomar toda a frente ao inimigo, obstando-lhe qualquer ação contornante, facultaria, depois, a investida final numa concentração contínua, que o próprio campo de combate indicava, definindo-se como setor amplíssimo de raios convergentes na praça das igrejas. Mas esta concepção tática, aliás rudimentar, não foi ainda efetuada. As brigadas auxilares, ao chegarem debaixo de uma fuzilaria estonteadora e deparando o tumulto, não podiam mais adaptar-se às linhas de um plano qualquer — articulando-se às que as tinham precedido, revigorando-as reforçando-lhes os pontos fracos, ou completando-lhes os movimentos; ou, ainda, prendendo-se-lhes às alas extremas, expandindo-lhas, ampliando-lhas de modo a estenderem, possante e vibrátil, defronte dos rudes antagonistas, a envergadura de ferro da batalha.

O coronel Carlos Teles em sua parte de combate — documento que não foi contestado — afirmou, depois, nuamente, que ao chegar notara não se acharem as forças nele engajadas com as formaturas que lhes são próprias.

"Não obstante, o dever único na ocasião era avançar e carregar..."

Avançaram e carregaram.

Eram oito horas da manhã. Formosa e quente manhã sertaneja que naquelas zonas irradia sempre um resplendor belíssimo de centelhas refluídas da terra desnuda e quartzosa... De sorte que se a tropa imprimisse naquele espadanar de brilhos o fulgor metálico de 3 mil baionetas, como se planeara, o cenário tornar-se-ia singularmente majestoso.

Mas foi lúgubre. Dez batalhões despencaram, de mistura, pelos cerros abaixo. Atulharam as baixadas. Galgaram depois as ladeiras que as apertam. Coalharam o topo das colinas; e desceram-nas de novo, ruidosamente, em tropel — para novamente investirem com as que se sucedem indefinidamente por toda a banda — num ondear de vagas humanas, revoltas, desencadeadas, estrepitosas, arrebatando nas encostas, espraiando-se nas planuras breves, acachoando um tumulto nos declives, represando-se comprimidas nas quebradas...

Os jagunços em roda fulminavam-nas, invisíveis, recuando talvez, talvez concentrando-se-lhes às ilhargas, talvez envolvendo-a...

Nada podia conjeturar-se. Os soldados começaram, certo, desde logo a conquistar bravamente o terreno. Vingavam morros sucessivos. Pisavam de momento em momento à borda de trincheiras, e no fundo destas os cartuchos detonados e ardentes delatavam-lhes a fuga recente do inimigo. Mas não sabiam no fim de algum tempo a direção real do próprio ataque que realizavam. A réplica dos adversários, por sua vez, variando em todos os rumos, parecia adrede disposta a desnorteá-los. Apenas no meio da ação ela se patenteou — uniforme e mais bem definida — na extrema direita, onde era lícito esperá-la tão constante, sugerindo o pensamento de algum vigoroso ataque de flanco que, se fosse impulsionado com energia, lançaria inevitavelmente os sertanejos, triunfantes, dentro dos batalhões desmantelados. Viu-se, porém, que aqueles realizavam apenas uma demonstração ligeira, deixando escapar a oportunidade para acometimento sério. Revelou-o o esquadrão de lanceiros num reconhecimento temerário. Precipitando-se velozmente naquela direção, deu de chofre, no tombar de uma encosta, com cerca de oitenta jagunços. Estavam dentro de um curral, de onde atiravam de soslaio sobre a tropa. Dispersou-os a pontaços de lança e a patas de cavalos, numa carga violenta. Subiu depois a galope, perseguindo-os, por uma ladeira menos abrupta, até ao alto de um dilatado platô, em rechã distendida para nordeste. E o arraial, a menos de trezentos metros, apareceu-lhe inopinadamente, na frente...

Neste comenos, por sua vez, ali chegavam atropeladamente alguns pelotões de infantaria.

A situação era culminante.

À fímbria das primeiras casas esparsas num recosto fronteiro a cerca de trezentos metros das igrejas, oferecia-se aos combatentes área mais desimpedida e plana. Estes, porém, ali chegavam em grupos e sem ordem, mal repartidos na larga divisão das brigadas: a 5ª marchando pela direita, a 3ª e a 4ª pelo centro e a 6ª, que entrara por último na refrega, pela esquerda, perlongando o rio.

Era o momento agudo do combate.

Naquela eminência, a tropa, sobretudo do centro para a direita, completamente exposta, estava dominada pelas igrejas e de nível com a parte alta do arraial, que se alteia para o norte. E deste último ponto até ao extremo da praça, a oeste —abrangendo todo o quadrante em longura mínima de dois quilômetros, caiu-lhe em cima, convergente, uma fuzilaria tremenda. As brigadas, entretanto, avançaram ainda. Mas incoerentemente, num dissipar improdutivo de valor e de balas, sem a retitude de um plano, sem uniformidade na marcha. No torvelinho das fileiras sobrevinham paralisações súbitas. Cada soldado tendo levado somente 150 cartuchos nas patronas gastara-os logo. De modo que se tornou necessária a parada de batalhões inteiros — em pleno conflito e na eminência completamente batida — para se abrir a machado os cunhetes de munições e distribuí-las.

Além disto, completando os tiroteios nutridos que irrompiam do arraial, onde cada parede se rachava em seteiras, atrevidos guerrilheiros afrontavam-se, de perto, com os assaltantes, alvejando-os à queima-roupa, abrindo-lhes, em descargas esparsas, claros assustadores. Batiam-nos ainda pelo flanco direito. O rarefeito dos estampidos denunciava, naquela banda, raros franco-atiradores. Mas estes, embora diminutos, tolhiam, pelo rigor das pontarias, o passo a pelotões inteiros.

Di-lo episódio expressivo.

Tocaias dos jagunços

Foi no último arranco da investida. A força, na ocasião fortalecida pela 4ª Brigada tendo à frente o coronel Carlos Teles, cujo Estado-maior quase todo baqueara, abalara transpondo a última ladeira, quando as seções extremas daquele flanco, rudemente batidas, convergiam em acelerado para a direita, na repulsa a adversários que não viam, na planura desnuda e chata, que as vistas, entretanto, num lance devassavam. Arremeteram, ao acaso, na direção de um umbuzeiro, frondente ainda. Era a única árvore que ali aparecia. Os tiros rápidos, porém sucessivos como feitos por um homem único, bateram-nas, então de frente. Vararam-nas; desfalcaram-nas, derrubando, um a um, inflexivelmente, os que as formavam. Destes, muitos, por fim, estacaram atônitos pelo inconceptível de um fuzilamento em plaino escampo e limpo, onde não havia a ondulação mais ligeira acobertando o adversário inexorável. Outros, porém, teimaram, correndo para a árvore solitária. E a alguns passos dela, viram afinal, à borda de uma cova circular, ressurgir à flor do chão um rosto bronzeado e duro. E pulando do fojo, sem largar a arma, o jagunço, escorregando célere ao viés da encosta, desapareceu embaixo no afogado das grotas. Na trincheira soterrada trezentos e tantos cartuchos vazios diziam que o caçador feroz estivera largo tempo de tocaia naquela espera ardilosamente escolhida. Outras, idênticas, salpicando o solo, apareciam, salteadamente em roda. Em todas os mesmos restos de munições revelavam a estadia recente de um atirador. Eram como fogaças perigosas, alastrando-se por toda a banda. O chão explodia sob os pés da tropa. Os sertanejos desalojados desses esconderijos acolhiam-se, recuando, noutros; e as novas trincheiras arrebentavam logo em descargas vivas, até serem por sua vez abandonadas — concentrando-se pouco a pouco, aqueles, no arraial, cujas primeiras casas foram, ao cabo, atingidas às dez horas da manhã.

Arrumadas a leste, derramaram-se aquelas em lombada extensa, expandida mais ou menos segundo a meridiana e tendo a vertente ocidental suavemente descaída até à praça das igrejas, adiante. A força chegou àquela situação dominante cobrindo-a de uma linha descontínua e torcida, que se alongava para a esquerda até ao Vaza-Barris. Em parte os soldados abrigaram-se então nos casebres conquistados. A maioria, porém, impelida por oficiais, que na conjuntura se revelaram dignos de mais gloriosos feitos, avançou ainda, fulminada, num círculo de descargas, até aos fundos da igreja velha. A 6ª Brigada e o 5° de Polícia, rompendo pelo álveo seco do rio, completaram esta acometida, que foi o derradeiro ímpeto da tropa.

Dali à frente ela não deu mais um passo. Conquistara um subúrbio diminuto da cidade bárbara e sentia-se impotente para ultimar a ação. As baixas avultaram. A retaguarda, coalhada de feridos e mortos, dava a impressão emocionante de uma derrota. Por entre eles passaram, contudo, ainda, impelidos a pulso, os dois Krupps. Postos logo depois em batalha, sobranceiros às igrejas, iniciaram um canhoneio firme — enquanto no alto da Favela, coroado de fumo, estrugiam dentro de uma cerração de tormenta as baterias do coronel Olímpio da Silveira. Mas, batido pelas granadas que ali tombavam, mergulhantes, batido pelas fuzilarias, que lhe tomavam toda a orla do nascente, o arraial recrudesceu na réplica. As balas irradiando de lá, inúmeras, varavam os tabiques das casas, em que se acolhiam os assaltantes, e matavam-nos lá dentro. A igreja nova, à margem do rio, fulminava a 6ª Brigada. O 5° de Polícia, rudemente combatido, caiu por fim numa grota estreita e coleante que o livrou de um fuzilamento em massa.

O sol culminou nesta situação gravíssima e dúbia. A batalha iniciada a dois quilômetros continuava mais renhida na orla do casario.

Neste transe os chefes da 3ª e 4ª Brigadas, que se tinham avantajado até ao cemitério junto à igreja velha, reclamaram a presença do general Artur Oscar. Este apareceu depois de fazer a pé, mal encoberto pelas casinhas esparsas da vertente, uma travessia que foi um lance de bravura. Ao chegar encontrou, já gravemente feridos dentro do próprio pouso em que se haviam acolhido, o coronel Carlos Teles, o comandante do 5° de linha e o capitão Antônio Sales. A conferência — rápida — realizou-se dentro do casebre exíguo. Em tomo estalava a desordem: vibrações de tiros, tropear de carreiras doidas, notas estrídulas de cornetas, vozes precípites de comando, brados de cólera, gritos de dor, imprecações e gemidos. O tumulto.

Desorganizados os batalhões, cada um lutava pela vida. Nos grupos combatentes reunidos ao acaso, feitos de praças de todos os corpos, adensando-se por trás de frágeis paredes de taipa ou no cunhal das esquinas, batendo-se a todo transe, fizera-se uma seleção natural de valentes. Extintas todas as esperanças, o instinto animal da conservação, como sói sempre acontecer nesses epílogos sombrios dos combates, vestia a clâmide do heroísmo, desdobrando brutalmente a forma primitiva da coragem. Alheias ao destino dos outros companheiros, reduzindo a batalha à área estreita em que jogavam a vida, as frações combatentes atulhando os tijupares em cujas paredes, como os jagunços, rasgavam seteiras, negaceando nas esquinas, correndo desencontradamente pelos claros das vielas, com o adversário a dois passos, enleados quase em luta braço a braço, agiam, à toa, por conta própria. Famintos e agoniados de sede, ao penetrarem as pequenas vivendas, dentro das quais no primeiro minuto nada distinguiam, na penumbra dos cômodos estreitos e sem janelas, olvidavam o morador. Percorriam-nos, tateantes, em busca de uma moringa d'água ou um cabaz de farinha. E baqueavam, não raro, por um disparo à queima-roupa. Soldados possantes, que vinham resfolegando de uma luta de quatro horas, caíram, alguns mortos por mulheres frágeis. Algumas valiam homens. Velhas megeras de tez baça, faces murchas, olhares afuzilando faúlhas, cabelos corredios e soltos, arremetiam com os invasores num delírio de fúrias. E quando se dobravam, sob o pulso daqueles, juguladas e quase estranguladas pelas mãos potentes, arrastadas pelos cabelos, atiradas ao chão e calcadas pelo tacão dos coturnos — não fraqueavam, morriam num estertor de feras, cuspindo-lhes em cima um esconjuro doloroso e trágico...

Nova vitória desastrosa

No meio desta confusão desastrosa, o comandante-em-chefe resolveu que se guardasse a posição conquistada. O alvitre impunha-se por si, inflexivelmente. Mais uma vez no fim de uma arremetida violenta a expedição se via adstrita a estacar, encravando-se em situação insolúvel. Eram por igual impossíveis — o avançamento e o recuo.

Imobilizou-se ao cair da tarde numa ourela estreita do arraial—uma quinta parte deste, limitando-o pelo levante — na larga coxilha expandida de norte a sul e descendo em declive para a praça. As casas que ali se erigiam, menos unidas que as demais, tinham data recente. Canudos, no seu crescimento surpreendedor, desbordara da depressão, em que se formara, para o viso das colinas envolventes.

A tropa ocupara um desses subúrbios. A cidadela propriamente dita, com a sua feição original e bárbara, não fora a bem dizer atingida. Ali estava, perto, em frente —ameaçadoramente —, sem muros, mas inexpugnável, pondo diante da invasão milhares de portas, milhares de entradas abertas para a rede inextricável dos becos tortuosos.

Mas não se podia ultrapassar o esforço temerário feito. A linha avançada dos corpos que mais se tinham adiantado firmou-se definitivamente. Numa grota profunda, que drenava os flancos da Favela, na extrema esquerda, entrincheirou-se o 5° de Polícia, distendendo-se até à borda direita do Vaza-Barris onde se ligava ao 26° de Infantaria. Este, por sua vez, desdobrando-se, ia unir-se na margem oposta ao 5° de linha, junto ao cemitério. Seguiam-se sucessivamente: o 25°, nos fundos da igreja velha; o 7°, paralelamente à face oriental da praça; e depois o 25°, o 40° e o 30° entranhando-se num dédalo de casebres, para o norte. Inflectindo deste ponto à retaguarda, a linha, com as forças desenvolvidas do 12°, 31° e 38°, encurvava-se, convexa, afastando-se do casario e guardando o flanco direito do acampamento, onde ficou o quartel-general, na vertente oposta, protegido pelos 14°, 32°, 33° e 34° Batalhões e pela ala de cavalaria.

O resto do dia, e grande parte da noite, empregaram-no na construção dos entrincheiramentos, blindando-se de tábuas ou pedras as paredes das casas, ou escolhendo-se raros pontos menos enfiados pelos projetis. Estes trabalhos impunham os máximos resguardos. Os expedicionários entalavam-se numa ilharga do arraial e o inimigo vigiava-os, implacável. Afrouxara a fuzilaria, mas para recair na praxe costumeira das tocaias: em cada frestão de parede insinuava-se um cano de espingarda e um olhar indagador. Cada passo do soldado fora do ângulo de uma esquina era a morte.

Começou-se a sentir o império de uma situação mais incômoda que a anterior, da Favela. Ali havia, ao menos, a esperança do assalto e da vitória; desprezava-se ainda o adversário, que só revidava de longe, entre ciladas. Agora, nem este engano restava. O jagunço ali estava — indomável — desafiando um choque braço a braço. Não o atemorizara a proximidade dos contendores, profissionais da guerra, que lhe enviavam as gentes das "terras grandes". Eles estavam-lhe, agora, ao lado, a dois passos, acotovelando-o, acolhidos sob os mesmos tetos de taipa e aumentando, de repente, em poucos minutos, de 3 mil almas, a população do lugarejo sagrado. Mas não lhe haviam modificado sequer o primitivo regímen. Ao empardecer do dia, o sino da igreja velha batia, calmamente, a Ave-Maria; e, logo depois, do seio amplíssimo da outra, ressudava o salmear merencório das rezas...

Toda a agitação do dia fora como incidente vulgar e esperado.

Baixas

No entanto, a expedição atravessara violentíssima crise. Tivera cerca de mil homens, 947, entre mortos e feridos, e estes, com os caídos nos recontros anteriores, reduziam-na consideravelmente. Impressionavam-na, ademais, os resultados imediatos do acometimento. Três comandantes de brigadas, Carlos Teles, Serra Martins e Antonino Néri, que viera à tarde com a 7ª, estavam fora de combate. Numa escala ascendente, avultavam baixas de oficiais menos graduados e praças. Alferes e tenentes haviam, com desassombro incrível, malbaratado a vida em toda a linha. De alguns citavam-se, depois, os arrojados lances: Cunha Lima, estudante da Escola Militar de Porto Alegre, que, ferido em pleno peito numa carga de lanceiros, concentrara os últimos alentos no último arremesso da lança caindo, em cheio, sobre o inimigo, feito um dardo; Wanderley, que, precipitando-se a galope pela encosta aspérrima da última colina, fora abatido ao mesmo tempo que o cavalo no topo da escarpa, rolando por ela abaixo em queda prodigiosa, de titã fulminado; e outros, baqueando todos, valentemente — entre vivas retumbantes à República —, haviam dado à refrega um traço singular de heroicidade antiga, revivendo o desprendimento doentio dos místicos lidadores da média idade. O paralelo é perfeito. Há nas sociedades retrocessos atávicos notáveis; e entre nós os dias revoltos da República tinham imprimido, sobretudo na mocidade militar, um lirismo patriótico que lhe desequilibrara todo o estado emocional, desvairando-a e arrebatando-a em idealizações de iluminados. A luta pela República, e contra os seus imaginários inimigos, era uma cruzada. Os modernos templários, se não envergavam a armadura debaixo do hábito e não levavam a cruz aberta nos copos da espada, combatiam com a mesma fé inamolgável. Os que daquele modo se abatiam à entrada de Canudos tinham todos, sem excetuar um único, colgada ao peito esquerdo em medalhas de bronze, a efígie do marechal Floriano Peixoto e, morrendo, saudavam a sua memória — com o mesmo entusiasmo delirante, com a mesma dedicação incoercível e com a mesma aberração fanática com que os jagunços bradavam pelo Bom Jesus misericordioso e milagroso...

Ora, esse entusiasmo febril, à parte as precipitações desastrosas decorrentes, no dia 18 de julho foi a salvação...

Uma tropa exclusivamente robustecida pela disciplina, que se desorganizasse daquela maneira, estaria perdida. Mas os soldados rudes, em cujo ânimo combalido penetravam desalentos e incertezas, imobilizaram-se sob o hipnotismo da coragem pessoal dos chefes, ou dominados pelo prestígio de oficiais que, gravemente feridos, alguns mal sustendo a espada, avançavam em cambaleios para as linhas de fogo — moribundos e desafiando a morte.

Ficaram de algum modo sitiados entre eles e os jagunços.

Nos flancos de Canudos

A noite de 18 de julho, contra a expectativa geral, passou em relativa calma. Os sertanejos, por sua vez, claudicavam. No ânimo do chefe expedicionário pairara o temor de um assalto noturno para o qual não havia reação possível. As frágeis linhas de defesa, ainda quando não fossem rotas por qualquer dos seus pontos, podiam ser envolvidas pelos lados e, postas entre dois fogos e contidas na frente pelo arraial impenetrável, seriam facilmente destruídas. A situação, porém, resolvera-se pela inércia dos adversários. No dia subseqüente uma linha de bandeirolas vermelhas, feita de cobertores reúnos, demarcava um segmento de cerco diminutíssimo: um quinto da periferia enorme do arraial. Mal o fechava pelo levante. Nesta banda mesmo estava em claro a extrema direita; do mesmo modo que à esquerda, entre as vertentes da Favela, e os primeiros sulcos do arroio da Providência, onde jazia o corpo policial, se via largo espaço livre. Para se ultimar a circunferência fazia-se mister um traçado que, prolongando-se para a direita em cheio ao norte, inflectindo depois para oeste, ladeando o rio e acompanhando-o na sua curvatura para o sul, galgando as ondulações maiores do solo no primeiro socalco das serras do Calumbi e do Cambaio, volvesse finalmente a leste pelo esporão dos Pelados. Um circuito de seis quilômetros, aproximadamente. Ora, a expedição reduzida a pouco mais de 3 mil homens válidos, centenares dos quais se removiam à guarda da Favela, não poderia ajustar-se a tão ampla cercadura, mesmo que lha permitisse o adversário. A paralisação temporária das operações impunha-se inevitável, resumindo-se na defesa da posição ocupada, até que maiores reforços facultassem novos esforços.

Posição crítica

O general Artur Oscar avaliou, então, com segurança, o estado das coisas. Pediu um corpo auxiliar de 5 mil homens e curou de dispositivos para garantir a força que triunfara de maneira singular, a pique de uma derrota. Estava, depois de mais um triunfo, na conjuntura torturante de não poder arriscar nem um passo à frente, nem um passo atrás. Oficialmente, as ordens do dia decretavam o começo do sítio. Mas, de fato, como sempre sucedera desde 27 de junho, a expedição é que estava sitiada. Tolhia-a o arraial a oeste. Ao sul os altos da Favela fechavam-se-lhe atravancados de feridos e doentes. Para o norte e o nascente se desenrolava o deserto impenetrável. A área da sua ação aparentemente aumentara. Dois acampamentos distintos pareciam denotar mais larga movimentação, liberta da constrição de trincheiras envolventes. Esta ilusão, porém, extinguiu-se no próprio dia do assalto. Os cerros, varridos a cargas de baionetas poucas horas antes, figuravam-se de novo guarnecidos. As comunicações com a Favela tornaram-se logo dificílimas. Tombavam, novamente baleados, os feridos que para lá se arrastavam; e um médico, o dr. Tolentino, que na tarde do combate dali descera, caíra, gravemente ferido, na ribanceira do rio. A travessia no campo conquistado fez-se problema sério aos conquistadores. Por outro lado os que haviam invadido o breve trecho do arraial copiavam, linha a linha, a reclusão que antes observavam nos jagunços. Como estes, apinhavam-se nos casebres ardentes como fornos, ao reverberar dos meios-dias mormacentos e jaziam horas esquecidas, olhos enfiados pelas rachas das paredes, caindo escandalosamente na mesma guerrilha de tocaias. sondando com as vistas o casario e disparando as espingardas todas á um tempo — cem, duzentos, trezentos tiros! — contra um vulto, um trapo qualquer, percebido de relance, indistinto e fugitivo, ao longe, no torvelinho dos becos.

Distribuída a última ração — um litro de farinha para sete praças e um boi para um batalhão —, restos do comboio salvador, era-lhes impossível preparar convenientemente a refeição escassa. Um fio de fumo branqueando no teto de barro da choupana era um chamariz de balas! À noite um fósforo aceso punha fogo a rastilhos de descargas.

Os jagunços sabiam que podiam fulminar dentro dos casebres — frágeis anteparos da argila — os moradores intrusos. O coronel Antonino Néri fora ferido, justamente quando, depois de atravessar com a sua brigada a zona perigosa e aberta do combate, se acolhera a um deles. Casamataram-nos, então. Espessaram-lhes as paredes com muros interiores, de pedras, ou revestiram-nas de tábuas. E assim mais garantidos, atravessando grande parte do dia, de bruços, sobre os jiraus, olhares rasantes pelos esvãos do colmo, dedos enclavinhados nos fechos da espingarda — os vitoriosos cheios de sustos tocaiavam os vencidos...

Sobre o quartel-general, centralizado pela barraca do comandante-em-chefe, na vertente oposta, os projetis passavam inofensivos, repelidos pelo ângulo morto da colina. E aquele teve durante todo o correr da noite, que lhe fechara a jornada trabalhosa, passando-lhe em sibilos ásperos sobre a tenda, os respingos dos tiroteios que se renhiam do outro lado com as linhas avançadas. Os comandantes destas, tenentes-coronéis Tupi Caldas e Dantas Barreto, destemerosos ambos, sentiam-se todavia na iminência de um desastre, compreendendo "que um passo à retaguarda em qualquer ponto da linha central lhes seria a perdição total". Porque esta preocupação de uma catástrofe próxima, iniludível, ninguém a ocultava. Deduziam-se irresistivelmente na seqüência de anteriores sucessos. Impunha-se. Durante muitos dias dominou todos os espíritos.

"Um inimigo habituado à luta regular que soubesse tirar partido de nossas desvantagens táticas não teria certamente deixado passar esse momento em que a vingança e a desforra teriam a conseqüência da mais requintada selvageria."

Mas o jagunço não era afeito à luta regular. Fora até demasia de frase caracterizá-lo inimigo, termo extemporâneo, esquisito eufemismo suplantando o "bandido famigerado da literatura marcial das ordens do dia. O sertanejo defendia o lar invadido, nada mais. Enquanto os que lho ameaçavam permaneciam distantes, rodeava-os de ciladas que lhes tolhessem o passo. Mas, quando eles, ao cabo, lhe bateram às portas e lhas arrombaram a coices de armas, aventou-se-lhe, como único expediente, a resistência a pé firme, afrontando-os face a face, adstrito à preocupação digna da defesa e ao nobre compromisso da desforra. Canudos só seria conquistado casa por casa. Toda a expedição iria despender três meses para a travessia de cem metros, que a separavam da apside da igreja nova. E no último dia de sua resistência inconcebível, como bem poucas idênticas na história, os seus últimos defensores, três ou quatro anônimos, três ou quatro magros titãs famintos e andrajosos, iriam queimar os últimos cartuchos em cima de 6 mil homens!

Aquela pertinácia formidável começou no dia 18 e não fraqueou mais. Terminara o ataque mas a batalha continuou, interminável, monótona, aterradora, com a mesma intercadência espelhada na Favela: difundida em tiros que sulcavam o espaço de minuto a minuto, ou tiroteios alastrando-se furiosamente por todas as linhas, em arrancos súbitos, repentinos combates de quartos de hora, prestes travados, prestes desfeitos, antes que terminassem as notas emocionantes dos alarmas. Esses assaltos subitâneos, intermeados de longas horas de repouso relativo, traduziam sempre uma inversão de papéis. Os assaltantes eram, por via de regra, os assaltados. O inimigo encantoado é quem lhes marcava o momento angustioso das refregas, e estas surgiam sempre de chofre.

Noite velha, às vezes quebrando um armistício de minutos, que os soldados da vanguarda aproveitavam para descanso ilusório, cabeceando abraçados às carabinas, um foguetão ascendia rechiando asperamente, feito um rasgão no firmamento escuro. E à sua luz fugaz viam-se as cimalhas das igrejas debruadas de uma orla negra e fervilhante. O combate feria-se na treva, aos fulgores intermitentes das fuzilarias.

Outras vezes, contra o que era de esperar, era ao romper do dia, em plena manhã esplendorosa e ardente, que os jagunços acometiam desassombradamente, às claras.

Notas de um diário

Um diário minucioso da luta naqueles primeiros dias, lhe patenteia o caráter anormalmente bárbaro. Esbocemo-lo em traços largos até ao dia 24 de julho, apenas para definir uma situação que daquela data em diante não se transmudou.

Dia 19 — A fuzilaria inimiga principia às cinco horas da manhã. Prossegue durante o dia. Entra pela noite dentro. O comandante da 1ª coluna, para revigorar a repulsa, determina a vinda de mais dois canhões Krupps, que estavam na retaguarda, a fim de serem assestados à noite. Às doze e meia foi ferido, em seu acampamento, dentro de um casebre onde descansava, numa rede, o comandante da 7ª Brigada. Às duas horas da tarde, depois de apontar e disparar o canhão da direita para uma das torres da igreja nova, morre trespassado por uma bala o tenente Tomás Braga. À tarde descem com dificuldade da Favela algumas reses para alimento da tropa. A boiada dispersa-se, fustigada a tiros, ao atravessar o Vaza-Barris, sendo a custo reunida, perdendo-se algumas cabeças. Ao toque de recolher os jagunços investem contra as linhas, perdurando o ataque até às nove e meia e continuando, afrouxo, daí por diante. Resultado: um comandante superior ferido; um subalterno morto, dez ou doze praças fora de combate.

Dia 20 — O acampamento é subitamente atacado quando as cornetas de todos os corpos tocam a alvorada. Tiroteios durante o dia todo. Consegue-se assestar apenas um dos canhões reconduzidos. Há o mesmo número de baixas da véspera: um soldado morto.

Dia 21 — Madrugada tranqüila. Poucos ataques durante o dia. Os canhões da Favela bombardeiam até à boca da noite. Dia relativamente calmo. Poucas baixas.

Dia 22 — Sem aguardar a iniciativa do adversário, a artilharia abre o canhoneio às cinco horas da manhã —provocando revide pronto e virulento de atiradores encobertos nos muros das igrejas. São penosamente conduzidos, do campo da ação para o acampamento da Favela, os últimos feridos. Segue em reconhecimento pelas cercanias o tenente-coronel Siqueira de Meneses. Ao voltar declara estar o inimigo muito forte, e que muito poucas casas de Canudos estão em nosso poder, atenta a comparação com o número das que formam o povoado. Somente à noite se torna possível distribuir parcas rações de gêneros aos soldados da linha de frente, o que foi impossível fazer durante o dia, pela vigilância dos antagonistas. Às nove horas da noite assalto violento pelos dois flancos. Resultado: 25 homens fora de combate.

Dia 23 — Alvorada tranqüila. Repentinamente, uma hora depois, às seis da manhã, os jagunços, depois de um movimento contornante despercebido, caem impetuosamente sobre a retaguarda do campo de batalha. São repelidos pelo 34° Batalhão e Corpo Policial, deixando quinze mortos, uma cabocla prisioneira e um surrão de farinha. À noite tiroteios cerrados. Os três canhões deram apenas nove disparos por falta de munições.

Dia 24 — Começou o bombardeio ao levantar do sol. O povoado, contra o costume, suporta-o sem réplica. Os schrapnels da Favela caem lá dentro e estouram, como se batessem numa tapera deserta. Durante largo tempo trucida-o o canhoneio impunemente. Às oito horas, porém, ouvem-se alguns estampidos, raros, à direita; e logo depois são assaltados os canhões daquele flanco. Enreda-se o conflito braço a braço, carabinas esbocadas aos peitos, e generaliza-se num crescendo apavorante. Vibram de ponta a ponta dezenas de cornetas. Toda a tropa forma para a batalha. O ataque visava cortar a retaguarda da linha de frente. Um movimento temerário. Cortando-a cairiam sobre o quartel-general, e poriam os sitiantes entre dois fogos. Era um plano de Pajeú que, tendo deposto os demais cabecilhas, assumira a direção da luta. Esse assalto durou meia hora. Os jagunços repelidos, porém, volveram minutos depois, outra vez sobre a tropa, arremetendo com maior arrojo sobre a direita. A custo repelidos recuam até às primeiras casas não conquistadas de onde reatam o tiroteio, cerrado, contínuo. Tombam o comandante do 33°, Antônio Nunes Sales, e muitos oficiais e praças. Ao meio-dia cessa a agitação.

Súbito silêncio desce sobre os dois campos. À uma hora — novo assalto, mais impetuoso ainda. Formam-se todos os batalhões. Era como a oscilação de um aríete. A nova pancada percutiu, insistente, nas linhas do flanco direito. O impetuoso Pajeú baqueia mortalmente ferido. Tombam do nosso lado muitos combatentes entre os quais, morto, o tenente Figueira, de Taubaté; feridos o comandante do 33º, capitão Joaquim Pereira Lobo e muitos oficiais. A fim de distrair o inimigo, o comandante-em-chefe determina que atirem os corpos do flanco esquerdo, ainda não investidos. A força toda descarrega as armas contra o arraial. Segue em acelerado uma metralhadora para reforçar a direita.

Atroam no alto todas as baterias da Favela...

Repele-se ao inimigo. À noite tirotear constante até a madrugada.

No dia 25... Nesse dia, como nos outros, as mesmas cenas, pouco destoantes, imprimindo na campanha uma monotonia dolorosa. Os entrincheiramentos da linha de cerco faziam-se nesse intermitir de combates; e somente à noite podia ser distribuída a refeição insuficiente aos soldados famintos ou conseguiam estes, ajoujados de cantis e marmitas, arriscar a tentativa heróica de alguns passos até às cacimbas do Vaza-Barris, buscando a água que lhes mitigasse a sede longamente suportada. Iam-se assim os dias...

Triunfos pelo telégrafo

Estes fatos chegaram às capitais da República e dos Estados inteiramente baralhados.

Do exposto pode bem inferir-se que era isto inevitável.

Quando os próprios lidadores mal rastreavam, na discordância dos sucessos, um juízo qualquer sobre a própria situação, é natural que os que atentavam, de longe, para o drama imerso na profundura dos sertões, desandassem em conjeturas, sobre instáveis, falsas. Falou-se a princípio na vitória. A travessia do Cocorobó, anteriormente sabida, pressagiava que o Exército houvesse abatido, de um salto, os rebeldes. Notícias esparsas provindas do campo de ação, ou telegramas incisivos, marcavam além disto, à luta, um desenlace em três dias.

Volvidos, porém, quinze, patenteou-se a inanidade de esforços dos que haviam entrado do capricho de fantasiar triunfos. Viu-se que os jagunços haviam mais uma vez vingado o círculo cortante das baionetas. De sorte que enquanto a expedição se exauria no ermo da Favela e ia tombar, exaurida por uma sangria profunda , num trecho de Canudos — a opinião nacional, pela imprensa, extravagava, balanceando as mais aventurosas hipóteses que ainda saltaram dos prelos.

O espantalho da restauração monárquica negrejava, de novo, no horizonte político atroado de tormentas. A despeito das ordens do dia em que se cantava vitória, os sertanejos apareciam como os chouans depois de Fontenay.

Olhava-se para a História através de urna ocular invertida: o bronco Pajéu emergia com o facies dominador de Chatelineau. João Abade era um Charrete de chapéu de couro.

Depois do dia 18 a ansiedade geral cresceu. A notícia do acontecimento, como a dos anteriores, principiando num entoar de vitórias, descambava depois, a pouco e pouco, recortando-se de lancinantes dúvidas, até quase à convicção de uma derrota. Chegavam, todavia,. da zona das operações, telegramas paradoxais e deploravelmente extravagantes.

Calcavam-se numa norma única: — Bandidos encurralados! Vítória certa! Dentro de dois dias estará em nosso poder a cidadela de Canudos! Fanáticos visivelmente abatidos!

Mais verídicos, porém, começaram desde o dia 27 de julho a seguir para o litoral, demandando a capital da Bahia — os documentos vivos da catástrofe...