Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro I/I

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Os Trabalhadores do Mar por Victor Hugo, traduzido por Machado de Assis
Palavra escrita em uma página branca


O Christmas (Natal) de 1822... foi notável em Guernesey. Caiu neve naquele dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que há neve é memorável; a neve é um acontecimento.

Naquela manhã de Christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre-Port ao Vale assemelhava-se a um lençol branco: nevara desde a meia-noite até o romper do dia.

Pelas 9 horas, pouco depois de nascer o sol, como não era ainda ocasião de os anglicanos irem à Igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos à Capela Eldad, o caminho estava quase deserto. Na parte da estrada compreendida entre a primeira volta e a segunda havia apenas três viandantes, um menino, um homem e uma mulher.

Estes três viandantes, caminhando separados uns dos outros, não tinham visivelmente relação alguma entre si. O menino, de cerca de oito anos, parara e olhava para a neve com curiosidade. O homem, seguindo atrás da mulher, uns cem passos, dirigia-se, como ela, para o lado de Saint-Sampson.

Era ele moço ainda e parecia ser operário ou marinheiro. Vestia as roupas ordinárias, isto é, uma grossa camisa de pano escuro e uma calça de pernas alcatroadas, o que parecia indicar que, apesar da festa, não iria à igreja. Os grosso sapatos de couro cru e solas tacheadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais se assemelhava a uma fechadura de prisão que ao pé de um homem.

A viandante, essa evidentemente trajava roupa de ir à igreja; envolvia-se em uma comprida manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listras brancas e cor-derosa, e, se não fossem as meias vermelhas, tomá-la-iam por uma parisiense. Caminhava com desembaraço e viveza; e pelo andar, que mostrava não lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moça. Tinha aquela graça fugitiva que indica a mais delicada transição, a adolescência, a mistura dos dois crepúsculos, o princípio de uma mulher e o fim de uma menina.

O homem não reparava nela.

De súbito, perto de uma moita de azinheiras, que forma o ângulo de uma horta rústica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a atenção do homem.

Parou, pareceu reparar nele um instante, abaixou-se, e o homem julgou vê-la escrever com o dedo alguma coisa na neve. Levantou-se e pôs-se a caminho com passo mais apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desapareceu pela esquerda, seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao Castelo de Lierre. O homem, quando ela se voltou pela segunda vez, reconheceu Déruchette, linda mocinha do lugar. Mas não sentia necessidade alguma de apressar o passo.

Alguns instantes depois estava junto à moita de azinheiras no ângulo da horta. Já não pensava na passageira, e é provável que, se nessa ocasião pulasse um golfinho no mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no golfinho.

Casualmente, tinha os olhos baixos, e assim os levou maquinalmente ao lugar em que parara a menina. Dois pezinhos aí estavam impressos e ao lado deles a palavra escrita por ela: Gilliatt.

Era este o nome dele.

Chamava-se Gilliatt.

Ficou por muito tempo imóvel, contemplando o nome, os pezinhos, a neve; e depois continuou pensativo o seu caminho.