Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro II/I

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Os Trabalhadores do Mar por Victor Hugo, traduzido por Machado de Assis
Vida agitada e consciência tranqüila


Mess Lethierry, o homem notável de Saint-Sampson, era um marinheiro terrível. Tinha navegado muito. Foi grumete, gajeiro, timoneiro, contramestre, mestre de equipagem, piloto, arrais. Agora era armador. Ninguém conhecia o mar como ele. Era intrépido para salvar gente. Quando havia temporal, Mess Lethierry ia passear à praia, com os olhos no horizonte. Que é aquilo lá ao longe? E alguém que está em perigo. É um barco de Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle, é o iate de um lorde, um inglês, um francês, um pobre, um rico, é o diabo, fosse quem fosse, ele saltava dentro da lancha, chamava dois ou três homens valentes, dispensava-os quando não tinha, equipava ele só, desatava a amarra, travava dó remo, fazia-se ao largo, subia e descia nas cavas das ondas, mergulhava no furacão, ia ao perigo. Viam-no assim de longe, no meio das lufadas do vento, de pé sobre a embarcação, gotejante de chuva, confundido com os relâmpagos, face de leão e juba de espuma. Passava assim às vezes um dia inteiro no perigo, e nas vagas à saraiva e ao vento, costeando os navios que soçobravam, salvando homens, salvando cargas, disputando com a tempestade. Voltava à noite para casa, e tecia um par de meias.

Passou esta vida cinqüenta anos, desde os dez até os sessenta, enquanto foi moço. Aos sessenta anos, viu que já não Podia levantar com um braço a bigorna da forja de Varclin; pesava aquela bigorna 300 libras; foi atacado repentinamente de reumatismo.

Teve de deixar o mar. Passou da idade heróica à idade patriarcal.

Já não era mais que um bonachão.

Mess Lethierry alcançou a um tempo o reumatismo e a abastança.

Estes dois produtos do trabalho acompanhavam-se voluntariamente.

Quem chega a ser rico, fica inutilizado. É a coroa da vida.

Diz-se então: vamos gozar agora.

Nas ilhas como Gueresey, a população é composta de homens que passaram a vida a andar à roda do campo, e de homens que passaram a vida a viajar à roda do mundo. São duas espécies de lavradores, uns da terra, outros do mar. Mess Lethierry era dos últimos. Conhecia, porém, a terra. Tinha trabalhado muito. Viajara no continente. Foi algum tempo carpinteiro de navio em Rochefort, depois em Cette.

Falamos nas viagens à roda do mundo; Mess Lethierry viajou a França toda como carpinteiro. Trabalhou nos aparelhos para esgoto das salinas de Franche-Comté. Aquele honrado homem teve uma vida de aventureiro. Na França aprendeu a ler, a pensar, a querer. Fez tudo, e de quanto fez extraiu a probidade. O fundo da sua natureza era o marinheiro. A água lhe pertencia. Os peixes estão em minha casa, dizia ele. Em suma, toda a sua existência, com exceção de dois ou três anos, foi consagrada ao oceano; atirada à água, dizia ele. Navegara nos grandes mares, no Atlântico e no Pacífico; mas preferia a Mancha. Aquele é que é rude, exclamava ele com amor. Nasceu ali, ali queria morrer. Depois de ter feito duas ou três vezes a volta do mundo, e sabendo o que devia escolher, voltou a Guernesey, e não se mexeu dali. As suas viagens, então, eram Granville e Saint-Malo.

Mess Lethierry era guemesiano, isto é, normando, inglês, francês.

Tinha essa pátria quádrupla, imersa e como que afogada na sua grande pátria, o oceano. Durante a sua vida, e em toda parte, conservou os costumes de pescador normando.

Isso, porém, não tolhia que ele abrisse de quando em quando um alfarrábio, gostasse de ler um livro, de saber os nomes dos filósofos e poetas, e taramelar em vasconço um pouquinho de cada língua.