Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro III/I

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Os Trabalhadores do Mar por Victor Hugo, traduzido por Machado de Assis
Garrulice e Eflúvios


O corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem.

Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne. O erro comum é ver no ente exterior um ente real. Tal criaturinha, por exemplo, se pudéssemos vê-la como realmente é, em vez de moça, mostrar-se-ia pássaro.

Pássaro com forma de moça, que há aí de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Supõe que é Déruchette. Deliciosa criatura! Dá vontade de dizer: Bom dia, mademoiselle alvéloa. Não se lhe vêem as asas, mas ouve-se-lhe o gorjeio. Canta às vezes. Na tagarelice está abaixo do homem; no canto, está acima dele. Tem mistérios aquele canto; uma virgem é o invólucro de um anjo.

Feita a mulher, desaparece o anjo; volta, porém, depois trazendo uma alma de criança à mãe. Esperando a vida, aquela que há de ser mãe algum dia, conserva-se muito tempo criança, a menina persiste na moça; é uma calhandra. Pensa-se, ao vê-la: que boa que ela é em não bater as asas para ir-se embora!

A meiga e familiar criatura acomoda-se em casa, de ramo em ramo, isto é, de quarto em quarto, entra, sai, acerca-se, afasta-se, alisa as penas, ou penteia os cabelos, faz toda espécie de rumores delicados, murmura um não sei que de inefável aos teus ouvidos. Quando ela interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorjeia.

Tagarela-se com ela. A tagarelice serve para descansar de falar. Há uma porção celeste nessa menina. É um pensamento azul misturado ao teu pensamento negro. Alegras-te por vê-la tão esquiva, tão ligeira, tão fugitiva; agradeces-lhe a bondade de não ser invisível, ela, que poderia, creio eu, ser impalpável. Neste mundo o lindo é o necessário. Há mui poucas funções tão importantes como esta de ser encantadora. Que desespero na floresta se não houvesse o colibri! Exalar alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transmudação de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a graça, é favorecer-te. A beleza basta ser bela para fazer bem. Há criatura que tem consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; às vezes nem ela mesmo o sabe, e é quando o prestígio é mais poderoso; a sua presença ilumina, o seu contato aquece; se ela passa, ficas contente; se papa, és feliz; contemplá-la é viver; é a aurora com figura humana; não faz nada, nada que não seja estar presente, e é quanto basta para edenizar o lar doméstico; de todos os poros sai-lhe um paraíso; é um êxtase que ela distribui aos outros, sem mais trabalho que o de respirar ao pé deles. Ter um sorriso que -ninguém sabe a razão — diminui o peso da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes, que queres que te diga? é divino. Déruchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o próprio sorriso. Há alguma coisa mais parecida que o nosso rosto, é a nossa fisionomia; e outra mais parecida que a nossa fisionomia, é o nosso sorriso. Déruchette, risonha, era Déruchette.

É particularmente sedutor o sangue de Jersey e de Guernesey. As mulheres, as raparigas, sobretudo, tem uma beleza florida e cândida.

É a combinação da alvura saxonia com a frescura normanda.

Faces rosadas e olhos azuis. Falta-lhes brilho nos olhos. A educação inglesa amortece-os. Serão irresistíveis aqueles olhos límpidos no dia em que tiverem a profundeza do olhar parisiense. A parisiense ainda não se fez inglesa, felizmente. Déruchette não era parisiense, mas também não era guernesiana. Nascera em Saint-Pierre-Port, mas Mess Lethierry foi quem a educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.

Déruchette tinha o olhar indolente e agressivo, sem que o soubesse.

Não conhecia talvez o sentido da palavra amor e fazia com que a gente se apaixonasse por ela. Mas era sem má intenção.

Déruchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado que fora residir em Sait-Sampson dizia: Esta rapariga seduz a matar.

Déruchette tinha as mais lindas mãozinhas deste mundo, e pés iguais às mãos, quatro pezinhos de mosca, dizia Mess Lethierry.

Tinha em si a bondade e a doçura; o tio Lethierry era toda a sua família e riqueza; o trabalho dela era deixar-se viver; tinha por talento algumas canções, por ciência a beleza, por espírito a inocência, por coração a ignorância; tinha a graciosa indolência crioula, mesclada de travessura e de viveza, a jovialidade traquinas da infância com um pendor à melancolia, vestuários um pouco insulares, elegantes, mas incorretos, chapéus de flores todo o ano, fronte ingênua, pescoço flexível e tentador, cabelos castanhos, pele branca com alguns toques arruivados no verão, boca grande e sã, e nessa boca o adorável e perigoso esplendor do sorriso. Eis o que era Déruchette.

Algumas vezes, à noite, após o por do sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, à hora em que o crepúsculo dá uma espécie de terror às vagas, via-se entrar na barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas, uma certa massa informe, uma coisa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava como um vulcão, uma espécie de hidra babando espuma e arrastando um nevoeiro, atilando-se sobre a cidade com um horrível movimento de barbatanas e uma goela donde as chamas irrompiam. Era Durande.