Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro VI

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Primeira Parte- Livro Sexto- O TIMONEIRO ÉBRIO E O CAPITÃO SÓBRIO

<Os Trabalhadores do Mar

<Autor:Victor Hugo

Tradução: Machado de Assis

OS ROCHEDOS DOUVRES[editar]

Cerca de 5 léguas, em pleno mar, ao sul de Guernesey, em face da ponta de Plaínmont, entre as ilhas da Mancha e Saint-Malo, há um grupo de cabeços chamados rochedos Douvres. Funesto lugar esse.
Esta denominação Douvre (Dover) pertence a muitos cachopos e rochedos. Há especialmente perto das costas do norte uma rocha Douvre na qual se constrói agora mesmo um farol, escolho perigoso, mas que não deve ser confundido com este.
O ponto da França mais próximo do rochedo Douvres é o cabo Brehant. O rochedo Douvres é um pouco mais longe da costa da França que a primeira ilha do arquipélago normando. A distância desse escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se a ilha de Jersey se voltasse sobre a Corbière: como sobre um eixo, a ponta de Santa Catarina iria quase bater nos Douvres. É uma distância de quase 4 léguas.
Nesses mares da civilização os rochedos mais selvagens são raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em Hagot, guardas da alfândega em Binic, cultivadores de ostras em Cancale, caçadores de coelhos em Césambre, ilha de César, apanhadores de caranguejos em Brecq-Hou, pescadores de rede em Minquiers e Ecré-Hou. Nos rochedos Douvres, ninguém.
As aves marinhas estão ali em sua casa.
Não há pior encontro. Os Casquets, onde dizem que se perdeu a Blanche Nef, o banco Calvados, as pontas da ilha de Wight, a Ronesse que faz a costa de Beaulieu tão perigosa, os baixios de Préel que tornam tão angustiosa a entrada de Merquel e que obrigam a deitar a umas 20 braças a baliza vermelha, as proximidades pérfidas de Étables e de Plouha, as duas druidas de granito do sul de Guernesey, o velho Anderlo e o pequeno Anderlo, a Corbière, os Hanois, a ilha de Ras, recomendada ao medo por este provérbio: Quando passares o Ras, se não morreres, tremerás; as Mortes Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a Hardent entre os Minquiers e Chausey, o Mativais-Cheval entre o Boulay-Bay e Berneville, são mal afamados.
Vale mais afrontar todos os cachopos do que o Douvres uma só vez.
Em todo o perigoso mar da Mancha que é o mar Egeu do Ocidente, o rochedo Douvres só tem um rochedo igual no terror que inspira, é o escolho Pater Noster entre Guernesey e Serk.
E ainda no Pater Noster pode-se fazer um sinal; quem está ali em perigo pode ser socorrido. Vê-se ao norte a ponta Dicard ou de Icaro, ao sul, Gros-Nez. Do rochedo Douvres não se vê nada.
O vento, a água, a nuvem, o ilimitado, o inabitado.
Só se passa ali perdido. Os granitos são de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas. Severa inospitalidade do abismo.
É mar alto. A água é profunda. Um escolho absolutamente isolado, como o rochedo Douvres, atrai e abriga os animais que precisam afastar-se dos homens. É uma espécie de vasta madrépora submarina.
É um labirinto afogàdo. Há ali, em profundezas que difícilmente alcançam os mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruzamentos de ruas tenebrosas. Pululam as espécies monstruosas.
Devoram-se umas às outras. Os caranguejos comem os peixes, e são devorados também. Formas medonhas, feitas para não serem vistas por olhos humanos, andam vivas naquela obscuridade.
Vagos lineamentos de goelas, antenas, tentáculos, barbatanas, bOcas abértas, escamas, garras, unhas flutuam, tremem, engrossam, decompõem-se e desfazem-se na transparência sinistra.

Tremendos nadadores andam ali na labutação. É uma colmeia de hidras.
Ali o horrível é ideal.
Imagina, se podes, um formigueiro de holotúrias.
Ver o interior do mar é ver a imaginação do Ignoto. É veIa do lado terrível. O golfão é análogo à noite. Também aí há sono, sono aparente ao menos, da consciência da criação. Cometem-se ali em plena segurança os crimes da irresponsabilidade. Os esboços da vida, fantasmas quase, completos demônios, vagam ali, em medonha paz, nas sombrias ocupações da sombra.
Há quarenta anos, duas rochas de forma extraordinária assinalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do oceano. Eram duas pontas verticais e recurvadas, tocando-se quase no cume.
Parecia ver-se irrompendo do mar dois dentes de um elefante engolido. Mas eram dentes de tamanhos de torres que só poderiam pertencer a elefantes do tamanho de uma montanha. Essas duas tórres naturais da obscura cidade dos monstros não deixavam entre si mais que uma passagem estreita onde a vaga se atirava. Essa passagem, tortuosa e de alguns covados de comprimento, parecia um pedaço de rua entre duas paredes. A essas duas rochas gemeas charnavam-se as duas Douvres. Havia a grande Douvre e a pequena Douvre; uma tinha 60 pés de altura, a outra 40. O vaivém das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o violento furacão do equinócio de 26 de outubro de 1859 derrubou uma delas. A que ficou, a pequena, está mutilada e gasta.
Um dos mais estranhos rochedos do grupo Douvres chama-se o Homem. Esse ainda existe. No século passado alguns pescadores, perdidos naqueles cachopos, acharam um cadáver. Ao pé do cad áver havia uma porção de conchas vazias. Tinha naufragado ali um homem, refugiou-se naqueles rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, até que morreu. Veio dai chamar-se Homem ao rochedo.
São singulares as solidões da água. É o tumulto e o silêncio. O que aí se faz já nada tem com o gênero humano. É a utilidade desconhecida.
Tal é o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor, a perder de vista, o imenso tormento das vagas.

CONHAQUE INESPERADO[editar]

Na sexta-feira de manhã, um dia depois da partida do Tarnaulipas, a Durande partiu para Guernesey.
Deixou Saint-Malo às 9 horas.
Claro estava o tempo, não havia nevoeiro; parece que o velho Capitão Gertrais-Gaboureau tinha delirado.
As preocupações do Sr. Clubin fizeram com que embarcasse pouco carregamento. Apenas meteu a bordo alguns fardos de Paris para as lojas de Saint-Pierre-Port, três caixas para o hospital de Guernesey, uma de sabão amarelo, outra de velas e a terceira de couro de sola e cordavão fino. Levava também, da precedente viagem, uma caixa de açúcar crushed e três caixas de chá, que a alfândega francesa não quis receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois foram postos no porão e bem mal arranjados.
Havia a bordo seis passageiros: um guernesiano, dois inaloenses vendedores de animais, um turista, como já se dizia nesse tempo, um parisiense meio burguês, provavelmente turista do comércio, e um americano distribuidor de Bíblias.
A Durande, sem contar com Clubin, tinha sete homens de tripulação; um timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso, dois trabalhadores da máquina e um grumete. Um dos penúltimos era também mecânico.
Era um valente e inteligente negro holandês, evadido das fábricas de açúcar do Suriname; chamava-se Imbrancam. O negro Imbrancam compreendia e servia admiravelmente a máquina. Nos primeiros tempos, contribuiu ele não pouco, quando aparecia na fornalha, para dar um ar diabólico à Durande.
O timoneiro, jerseiano de nascimento, originário da costa, chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta nobreza.
É verdade isto. As ilhas da Mancha são, como a Inglaterra, países hierárquicos. Ainda existem castas nessas ilhas. As castas tem as suas idéias, que são os seus dentes. Essas idéias são as mesmas em toda a parte, na índia, como na Alemanha. A nobreza conquista- se pela espada e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. Não fazer coisa alguma é viver fidalgamente; quem não trabalha e reverenciado. Oficio faz decair. Na França de outrora só se excetuavam os operários de vidro. Sendo glória para os fidalgos esvaziar garrafas, faze-las não era desonra alguma.
Nas ilhas da Mancha, assim como na Grã-Bretanha, quem quiser ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman não pode ser gentleman. Ainda que o tenha sido, já não o é mais. Tal marujo descende de cavalheiros e é apenas marujo. Há trinta anos, em Aurigny, um Georges autentico, que ao que parece tinha direitos à senhoria de Georges confiscada por Filipe Augusto, apanhava sargaço com os pés nus. Há em Serk um Carteret que é carreiro.
Existe em Jersey um mercador de panos, e em Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram Grouchy e primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do bispado de Coutances mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta evidente de Tancarville no Baixo-Sena, que é Montmorency. No século XV Johan de Heroudeville, besteiro e afim do Sr. de Tangroville, levava sempre consigo justilhos e arneses. Em maio de 1371, em Pontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas ilhas normandas quem cai em pobreza é logo eliminado da fidalguia.
Basta uma mudança de nome. De Tangroville faz Tangrouille, e tudo se arranja.
Foi o que aconteceu ao timoneiro da Durande.
Há em Saint-Pierre-Port, no Bordage, um mercador de ferros chamado Ingroville, que é provavelmente Ingroville. No reinado de Luís, o Gordo, os Ingroville possuíam três paróquias em Valognes.
Fez um padre Trigan a História Eclesiástica da Normandia. este cronista Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se caísse no populacho, chamar-se-ia Digouille.
Tangrouille, Tancarville provável e Montmorency possível, tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave num timoneiro: embriagava- se.
O Sr. Clubin teimava em conservá-lo. Respondia por ele a Mess Lethierry.
O timoneiro Tangrouille não saía nunca do navio e dormia a bordo.
Na véspera da partida, quando o Sr. Clubin foi, já a horas mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua maca e dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o bêbado não é senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava despensa. A despensa secreta de Tangrouille era no por ão onde se guardava a água. Po-la aí para torná-la inverossímil.
Estava certo de que só ele conhecia aquele esconderijo. O Capitão era severo, porque era sóbrio. O pouco rum e gim, que o timoneiro podia subtrair à vigilância do capitão, punha de reserva naquele misterioso cantinho, no fundo de uma selha de sonda, e quase todas as noites tinha entrevista amorosa com aquela despensa.
Era rigorosa a vigilância, pobre devia ser a orgia, e de ordinário os excessos noturnos de Tangrouille limitavam-se a dois ou três goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a despensa estava vazia. Nessa noite Tangrouille achou lá uma garrafa de aguardente inesperada.
Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De que céus lhe caiu aquela garrafa? Não pode lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio. Bebeu-a imediatamente. Em parte fe-lo por prudência; tinha medo que a aguardente fosse descoberta e confiscada. Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte, quando tomou a cana do leme, Tangrouille tinha certa oscilação.
Todavia governou o barco quase como nos outros dias.
Quanto a Clubin, sabe-se que voltou a dormir na Pousada João.
Clubin trazia sempre debaixo da camisa um cinto de couro, de viagem, onde guardava uns 20 guinéus, e que só tirava à noite. No interior do cinto estava escrito o nome dele, escrito por ele mesmo no couro bruto com tinta litográfica, que é indelével.
Ao levantar, antes de partir, pós no cinto a caixinha de ferro contendo 75 000 francos em notas de banco, depois atou o cinto como costumava, à roda do corpo.

PALESTRA INTERROMPIDA[editar]

Fui alegre a partida. Os passageiros, apenas arranjadas as malas por baixo e em cima dos bancos, passaram, ao navio, essa revista que nunca falta, e que parece obrigatória, tal é o costume. Dois passageiros, o turista e o parisiense, nunca tinham visto vapores, e, desde os primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois o fumo. Examinaram peça por peça, e quase fio por fio, na cobertura e entre ponte, todos os aparelhos marítimos, argolas, ganchos, fateixas, cilindros, que, à força de precisão e justeza, são uma espécie de colossal ourivesaria; ourivesaria de ferro dourado com ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno canhão de rebate atado na coberta, com uma corrente de cão de sentinela, observou o turista, e coberto com blusa de linho alcatroado para impedir as constipações, acrescentou o parisiense.
Afastando-se de terra, trocaram-se as observações do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emitiu o axioma de que as perspectivas do mar iludem, e que, a 1 légua da costa, nada se parece mais com Ostende como Dunquerque, Completou- se o que havia a dizer de Dunquerque, observando-se que os seus navios de vigia, pintados de vermelho, chamam-se um tingue e o outro Mardyck.
Saint-Malo foi diminuindo até que desvaneceu-se de todo.
O aspecto do mar era o vasto calmo. O rasto do navio fazia no oceano uma rua franjada de espuma que se prolongava quase sem torção a perder de vista.
Guernesey está no centro de uma linha reta tirada de Saint-Malo na França, e Exeter na Inglaterra. A linha reta no mar nem sempre é a linha lógica. Entretanto, os vapores tem, até certo ponto, o poder de seguir a linha reta que não podem seguir os navios de vela.
O mar e o vento formam um composto de forças. O navio é um composto de máquinas. As forças são máquinas infinitas, as máquinas são forças limitadas. Entre os dois organismos, um inesgotável, outro inteligente, trava-se o combate que se chama navega ção.
Uma vontade no mecanismo faz contrapeso ao infinito. Também o infinito encerra um mecanismo. Os elementos sabem o que fazem e para onde vão. Não há força cega. Cabe ao homem espreitar as forças e descobrir-lhes o itinerário.
Enquanto se não descobre a lei, prossegue a luta, e nessa luta a navegação a vapor é uma espécie de vitória perpétua que o gênio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os pontos do mar. A navegação a vapor é admirável porque disciplina o navio.
Diminui a obediência ao vento e aumenta a obediência ao homem.
Nunca a Durande trabalhou no mar como naquele dia, Andava maravilhosamente.
Pelas 11 horas, soprando uma fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a Durande do lado de Mínquiers, trabalhando com pouco vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e belo estava o céu. Todavia iam voltando para terra todos os pescadores.
A pouco e pouco, como se todos pensassem em ancorar nos portos, ia-se o mar limpando de navios.
Não se podia dizer que a Durande estivesse no caminho do costume.
A tripulação não se preocupava com isso, era absoluta a confiança no capitão; entretanto, talvez por culpa do timoneiro, havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey. Pouco depois das 11 horas, o capitão retificou a direção e aproou para o lado de Guernesey. Perdeu-se algum tempo.
Nos dias curtos o tempo perdido tem inconvenientes. Fazia um belo sol de fevereiro.
Tangrouille, no estado em que estava, já não tinha nem pés nem braços firmes. Resultava daí que o bravo timoneiro desviava-se da costa e atrasava a marcha.
O vento ia amainando.
O passageiro guernesiano, que tinha um óculo na mão, firmava-o de tempos a tempos para um floco de espuma coada pelo vento no extremo horizonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de algodão, empoeirado em roda.
O Capitão Clubin tinha o aspecto puritano do costume. Parecia redobrar de atenção.
Tudo estava calmo e quase risonho a bordo da Durande; os passageiros conversavam.
Fechando os olhos, no meio de uma viagem, pode-se avaliar do estado do mar pelo trêmulo da conversa. A plena liberdade de espírito dos passageiros corresponde à perfeita tranqüilidade da água.
É impossível, por exemplo, que houvesse uma conversa, como esta que se segue, em mar que não fosse calmo.
- Perdeu-se no mar e descansa no navio.
- As moscas não se cansam muito.
- Pudera! São tão leves. Carrega-as o próprio vento.
- Já se pesou 1 onça de moscas e, contadas depois, viu-se que eram 6 268.
O guernesiano do óculo tinha-se chegado aos maioenses mercadores de gado, e a conversa deles era pouco mais ou menos esta: - O boi de Aubrac tem o tronco redondo e bojudo, as pernas curtas, o pelo amarelo. É demorado no trabalho por causa da pequenez das pernas.
Neste ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.
Vi dois magníficos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas curtas, o joelho espesso, alcatra grossa, as nádegas largas, bom comprimento da nuca à garupa, boa altura no garrote, manejo fácil, pele boa de arrancar-se. O segundo apresentava todos os sinais de um engordamento judicioso, tronco reforçado, pescoço robusto, pernas leves, pele branca e vermelha, alcatra caída.
- Isso é raça da costa.
- Sim, mas com certa semelhança com o touro Angus ou o touro Suffolk.
Acredite se quer, no meio-dia há concurso de bestas.
- De bestas?
- De bestas. Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias é que são bonitas.
- Então são como as jumentas. As feias é que são boas.
- Justamente. A jumenta deve ter barriga grossa e pernas grossas.
- A melhor jumenta deste mundo é uma barrica sobre quatro estacas.
- A beleza dos animais não é como a beleza dos homens.
- E sobretudo das mulheres.
- Justo.
- Eu cá, quero que a mulher seja bonita.
- Prefiro-a bem trajada.
- Sim, limpa, asseada, esticadinha.
- Ares de mocidade. Urna rapariga deve parecer que sai do joalheiro.
- Volto aos bois. Vi vender os tais bois no mercado de Thouars.
- Conheço o mercado. Os Bonneau de ia Rochelle, e os Baliu, os mercadores de trigo de Marans, não sei se ouviu falar deles, devem ter ido a esse mercado.
O turista e o parisiense conversavam com o americano das Bíblias; a conversação aí era como nos outros grupos.
Dizia o turista: - Eis a tonelagem flutuante do mundo civilizado: França, 716 000 toneladas; Alemanha 1 milhão; Estados Unidos, 5 milhões; Inglaterra, 5 milhões e meio. Acrescente-se o contingente das pequenas bandeiras. Total: 12 904 000 toneladas distribuídas por 145 000 navios na água do globo.
O americano interrompeu: - Os Estados Unidos é que tem 5 milhões e meio.
- Convenho - disse o turista. - O senhor é americano?
- Sim, senhor.
Houve um silêncio; o americano missionário perguntou a si mesmo se era ocasião de oferecer uma Bíblia.
- Será verdade - continuou o turista - que os senhores à na América gostam tanto das alcunhas a ponto de as por em todos os homens célebres? Será verdade que chamaram ao famoso banqueiro do Missouri, Thomas Benton, a velha barra de ouro?
- Do mesmo modo que chamamos ao Zacharias Taylor o velho Zach?
- E o General Harrison, o velho Tip? E o General Jackson, o velho Hickory?
- Sim, porque Jackson é duro como pau hickory e Harrison bateu os peles-vermelhas em Tippecanoe.
É um costume bizantino esse.
É costume nosso. Chamamos Van Buren o feiticeirinho; Seward, que mandou fazer bilhetes miúdos do banco, o bilhete miúdo; e Douglas, o senador democrata do Illinois, que tem 4 pés de altura e uma grande eloqüência, o gigantinho. Percorra do Texas ao Maine, não encontrará ninguém que diga esse nome: Cass; todos dizem: o grande Michigantier; nem este nome: Clay; dizem todos: o rapaz do moinho acutilado. Clay é filho de um moleiro.
- Eu prefiro Clay ou Cass - observou o parisiense -, é mais curto.
Pois estaria fora do uso. Nós chamamos Corwin, que é secretário do Tesouro, o rapaz da carreta. Daniel Webster é o negro Dan.
Quanto a Winfield Scott, como a sua primeira ida, depois de bater os ingleses em Chippeway, foi assentar-se à mesa, chama-mo-lo Dá-cá-um-prato-de-sopa-depressa.
Tinha se agigantado o floco de neve. Ocupava no horizonte um segmento de cerca de 15 graus. Dissera-se uma nuvem arrastada à flor da água por falta de vento. Não havia um sopro de brisa sequer. Embora fosse apenas meio-dia, o sol ia empalidecendo.
Alumiava, mas já não aquecia.
- Creio - disse o turista - que o tempo vai mudar.
- Talvez haja chuva - disse o parisiense.
- Ou nevoeiro - disse o americano.
- Na Itália - continuou o turista - o lugar em que cai menos chuva é Molfetta, e onde cai mais 6 em Tolmezzo.
Ao meio-dia, segundo o uso do arquipélago, tocou a sineta para jantar. Jantou quem quis. Alguns passageiros levavam comida consigo e comeram no convés. Clubin não jantou.
Ao jantar, a palestra continuou.
O guernesiano, tendo o faro das Bíblias, aproximou-se do americano.
O americano disse-lhe: - Conhece este mar?
- Sem dúvida, sou filho dele.
- E também eu .
O guernesiano aderiu com um cumprimento, e continuou: - Agora estarmos ao largo mas não me agradava nada ter nevoeiro enquanto estávamos ao pé dos Minquiers.
O americano disse ao maloense: - Os insulares são mais homens do mar que a gente da costa.
- É exato, nós, os filhos da costa, temos apenas metade do mar.
- Que coisa é essa dos Minquiers? - continuou o americano.
O inaloense respondeu: - São umas pedras ruins.
- Há também os Grelets - disse o guernesiano.
- Ora! - disse o maloense.
- E os Chouas - acrescentou o guernesiano.
O inaloense deu uma gargalhada.
- Dessa forma - disse ele -, temos também os Sauvages.
- E os Maine - observou o guernesiano.
- E o Canard, - disse o maloense.
- O senhor tem resposta para tudo - disse o guernesiano com rapidez.
- Maloense, malicioso.
Dando esta resposta, o maloense piscou o olho.
O turista interpôs uma pergunta: - Dar-se-á o caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os senhores falam?
- Qual! Deixamo-la a sudoeste. Já ficou atrás de nós.
E o guernesiano continuou: - Entre grandes e pequenos os Grelets tem 57 pontas de rocha.
- E os Minquiers 48 - disse o maloense.
Aqui o diálogo concentrou-se entre o maloense e o guernesiano.
- Parece-me, senhor de Saint-Malo, que há três rochedos que o senhor deixou de contar.
- Contei tudo.
- A Derée da Maitre-Ile?
- Sim.
- E Maisons também?
- Que são sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.
- Já vejo que conhece os cachopos.
- Quem não os conhece não é de Saint-Malo.
- Causa gosto ouvir o raciocínio dos franceses.
O maloense cumprimentou, e disse: - Sativages são três rochedos.
- E Maines são dois.
- Canard é um.
- Basta dizer Canard; já se sabe que é um.
- Não, porque a Suarde são quatro rochedos.
- Que é a Suarde? - perguntou o guernesiano.
- Chamamos Suarde ao que o senhor chama Chouas.
- Não é bom passar entre Chouas e Canard.
- Só os pássaros podem passar aí.
- E os peixes.
- Nem sempre. Quando há mau tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.
- Há areia em Minquiers.
- A roda de Maisons.
- Vêem-se oito rochedos de Jersey.
- Da praia de Azette, é justo. Não são oito, são sete.
- Nas vazantes pode-se passear entre os Minquiers.
- Sem dúvida, há espaço.
- E Dirouilles?
- Dirouilles não tem nada com Minquiers.
- Quero dizer que é perigoso.
- É do lado de Granville.
- Vê-se que, como nós, os senhores de Saint-Malo gostam de navegar nestes mares.
- Sim - disse o maloense -, com a diferença de que nós dizemos: estamos acostumados, e os senhores dizem: gostamos.
- São bons marinheiros os senhores.
- Eu sou mercador de gado.
- Quem é que foi também de Saint-Malo?
- Surcouf.
- Não, outro.
- Duguay-Trouin.
Aqui o viajante parisiense interrompeu.
- Duguay-Trouin? Foi apanhado pelos ingleses. Era tão amável quão valente. Agradou a uma jovem inglesa. Foi ela quem lhe quebrou os ferros.
Neste momento uma voz tremenda gritou: - Estás bêbado!


MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO CAPITÃO CLUBIN[editar]

Voltaram-se todos.
Era o Capitão Clubin que interpelava o timoneiro.
O Sr. Clubin não tratava ninguém por tu. Para que ele atirasse a Tangrouille semelhante apóstrofe era preciso que estivesse colérico ou quisesse mostrar-se assim.
Uma expressão de cólera, vindo a propósito, demite a responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de outrem.
O capitão, de pé no lugar de comando, entre as caixas das rodas, olhava fixamente para o timoneiro. Repetiu entre dentes: Beberrão! O honesto Tangrouille abaixou a cabeça.
Desenvolvia-se o nevoeiro. Já ocupava metade do horizonte. Avançava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o nevoeiro parece-se com a gota de óleo. A bruma alargava-se insensivelmente. O vento soprava-a sem pressa e sem rumor. A pouco e pouco ia ele apoderando-se do oceano. Vinha de nordeste e o navio estava com ela pela proa. Era um vasto penedo movediço e vago. Cortavase no mar como se fosse uma muralha. Havia um ponto preciso em que a água imensa entrava por baixo do nevoeiro e desaparecia.
Este ponto de entrada no nevoeiro estava ainda a meia légua de distância. Se o vento mudasse, podia-se evitar a imersão na bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia légua de intervalo enchia-se e diminuía a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro também. O nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.
Clubin mandou aumentar o vapor e obliquar a leste.
Deste modo costeou-se algum tempo o nevoeiro, mas ele avançava sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno sol.
Perdia-se o tempo naquelas manobras que dificilmente podiam dar bom resultado. Anoitece cedo em fevereiro.
O guernesiano contemplava a bruma. Disse aos maloenses:
- É atrevido este nevoeiro.
- Desasseio do mar - observou um dos maloenses.
O outro acrescentou:
- Isto atrasa a viagem.
O guernesiano aproximou-se de Clubin.

- Capitão Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro.
Clubin respondeu:
- Eu queria ficar em Saint-Malo, mas aconselharam-me que partisse.
- Quem?
- Veteranos do mar.
- Fez bem em partir - continuou o guernesiano. - Quem sabe se não haverá tempestade amanhã. Nesta estação espera-se o pior.
Alguns minutos depois a Durande entrava no nevoeiro.
Foi singular esse momento. Toda a gente que estava na popa ficou de repente sem ver a gente que ia na proa. Tênue tabique cinzento cortou o navio ao meio.
Depois, todo o navio mergulhou na bruma. O sol parecia uma lua. Súbito todos começaram a tiritar. Os passageiros vestiram as capas, e os marinheiros as japonas. O mar, quase sem uma dobra, tinha a fria ameaça da tranqüilidade. Tudo estava pálido e enfiado. O negro cano e a fumaça negra lutavam contra a lividez que cercava o navio.
A derivação a leste já não tinha razão de ser. O capitão aproou de novo sobre Guernesey e aumentou o vapor.
O passageiro guernesiano, andando à roda da máquina, ouviu o negro Imbrancam que falava a um dos companheiros. O passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro:
- Quando havia sol, íamos devagar; agora que há nevoeiro vamos depressa.
O guernesiano foi ter com o Sr. Clubin.
- Capitão Clubin, não há cuidado; mas não acha que vamos depressa demais?
- Que quer, senhor? É preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquele bêbado.
- É verdade, Capitão Clubin.
E Clubin acrescentou:
- Quero chegar quanto antes. Já basta o nevoeiro; com a noite ficaríamos asseados.
O guernesiano foi ter com os maioenses e disse-lhes:
- Temos um excelente capitão.
De quando em quando ondas grandes de bruma, que pareciam cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol reapareceu mais pálido e como que enfermo. O pouco céu que se via assemelhava-se às faixas de ar sujas e manchadas de uma velha decoração de teatro.
A Durande passou junto de um cúter que tinha ancorado por prudência. Era o Shealtiel, de Guernesey. O patrão do cúter notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que não estava no caminho exato; afigurou-se-lhe que obliquava a oeste. Vendo aquele navio, andando a todo vapor no meio do nevoeiro, o homem pasmou.
Pelas 2 horas a bruma era tão espessa, que o capitão foi obrigado a deixar o lugar do costume, e a aproximar-se do timoneiro. O sol desmaiara, tudo era nevoeiro. Havia na Durande uma espécie de escuridão branca. Navegava-se na palidez difusa. Já se não via nem o céu nem o mar.
Não ventava.
A ancoreta da terebintina suspensa em uma argola ao pé da caixa das rodas já não tinha oscilação.
Os passageiros tornaram-se silenciosos.
Contudo o parisiense cantarolava entre dentes a canção de Béranger Un Jour lè Bon Dieu s'Éveillant.
Um dos maloenses dirigiu-lhe a palavra: - O senhor vem de Paris?
- Sim, senhor. Il mit la tete à la fenêtre.
- Que se faz por lá?
- Leur planète a péri peut-être. Lá em Paris tudo anda mal.
- Então é tanto lá em terra como aqui no mar.
- Realmente, este nevoeiro é o diabo.
- E pode causar desgraças.
O parisiense exclamou:
Mas por que desgraças? A propósito de que? De que servem desgraças? É o caso do incêndio do Odeon 1 Ficou uma porção de famílias reduzidas à miséria! É justo isto? Olhe cá, eu não sei qual é a sua religião, mas digo-lhe que não estou contente.
- Nem eu - disse o maloense.
- Tudo o que se passa neste mundo - falou o parisiense - parece um desconcerto. Creio que Deus não entra nisto.
O maloense coçou o alto da cabeça, como quem procura compreender.
O parisiense continuou:
- Deus está ausente. Devia-se lavrar um decreto para obrigá-lo a residir aqui. Anda lá na sua casa de campo e não se importa conosco. E tudo vai torto e mal encaminhado. É evidente, meu bom senhor, que Deus já não está no governo, está em férias, e é o vigário, algum anjo seminarista, algum beócio com asas de pardal, quem dirige os negócios.
O Capitão Clubin, que se aproximara, pôs a mão no ombro do parisiense.
- silêncio - disse ele. - Cuidado nas palavras. Estamos no mar.
Ninguém mais falou.
No fim de cinco minutos o guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos ouvintes:
- É um capitão religioso.
Não chovia e todos estavam molhados. Só se reparava no caminho que o navio descrevia por uma espécie de mal-estar. Parecia que se entrava na tristeza. O nevoeiro emudece o oceano, adormenta a vaga e sopita o vento. Naquele silêncio, o rumor da Durande tinha um não sei que de inquieto e lamentoso.
Já se não encontravam navios. Só ao longe, quer do lado de Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios estavam no mar, fora do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, não era visível, e a sua longa fumaça, presa a coisa nenhuma, parecia-lhes um cometa negro no céu branco.
De repente Clubin exclamou: - Com seiscentos! Estás dirigindo mal. Olha que me avarias o barco.
Mereces bem que te ponha a ferros. Vai-te, bêbado! E tomou a cana do leme.
O timoneiro humilhado refugiou-se na cordoalha da proa.
Disse o guernesiano: - Estamos salvos.
A marcha continuou rápida.
- Pelas 3 horas, a orla inferior do nevoeiro começou a levantar-se e viu-se o mar.
- Mau! - disse o guernesiano.
Só o sol ou o vento deve levantar a bruma. Quando é o sol, é bom sinal; quando é o vento, não é tão bom sinal. Era tarde já para ser o sol. Às 3 horas, em fevereiro, o sol está fraco. Não era coisa desejável a volta do vento naquela situação crítica. Muitas vezes anuncia o furacão.
Verdade seja que se havia brisa, mal se sentia.
Clubin, com o olhar na bitácula, governando o leme, mastigava algumas palavras que chegavam aos passageiros; era isto mais ou menos: - Não há tempo a perder. Aquele bêbado demorou a viagem.
O seu rosto, porém, não tinha expressão alguma.
O mar estava menos adormecido. Já se enxergavam algumas vagas.
Luzes geladas flutuavam na água. Essas placas de clarão nas ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por cima do nevoeiro. A bruma levantava-se e tornava a cair mais densa. Às vezes a opacidade era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De quando em quando aquele círculo tremendo abria-se como uma tenaz, deixava ver o horizonte, e fechava-se depois.
O guernesiano, armado de um óculo, estava como uma vedeta, na frente do navio.
Clareou, depois escureceu outra vez.
O guernesiano voltou-se assustado: - Capitão Clubin!
- Que é?
- Vamos direto aos cachopos de Hanois.
- É engano - disse Clubin friamente.
O guernesiano insistiu:
- Estou certo.
- Impossível.
- Vi uma pedra no horizonte.
- Onde?
- Ali!
- É ao largo. Impossível.
E Clubin continuou a por o navio no ponto indicado pelo passageiro.
O guernesiano travou do óculo.
Minutos depois correu para o capitão.
- Capitão!
- Que é?
- Vire- de bordo.
- Por que?
- Vi uma rocha muito alta e muito perto. É o grande Hanois.
- Há de ser algum nevoeiro mais escuro
- É o grande Hanois. Vire de bordo, em nome do céu!

Clubin deu uma volta à cana do leme.

CLUBIN LEVA A ADMIRAÇÃO AO CÚMULO[editar]

Ouviu-se um estalo. O rasgamento do flanco de um navio, em um cachopo, em mar alto, é um dos sons mais lúgubres que se pode imaginar. A Durande parou.
Com o choque muitos passageiros caíram e rolaram no tombadilho.
O guernesiano levantou as mãos para o céu.
- Nos Hanois! Eu bem dizia!
Longo grito soou no navio.
- Estamos perdidos!
A voz de Clubin, seca e breve, dominou o grito.
- Ninguém está perdido! E silêncio!
O corpo negro de Imbrancam, nu até a cintura, saiu do espaço da máquina.
O negro disse com calma: - Capitão, a água está entrando. A máquina vai apagar-se.
Terrível foi o momento.
O choque assemelhava-se a um suicídio. Se fosse de propósito, não seria mais terrível. A Durande atirou-se como se atacasse o rochedo. Uma ponta da rocha penetrou no navio como um prego.
Mais de 1 toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de proa, fracassou a quilha, Partiu-se o gurupés, o casco aberto bebia água aos borbotões. Era uma chaga por onde entrava o naufrágio. A reação foi tão violenta que quebrou na popa a caixa do leme, que ficou solto e oscilante. O cachopo arrancara o fundo e à roda do navio não se via nada, além do nevoeiro espesso e compacto e agora quase negro. Chegava a noite.
A Durande mergulhava pela proa. Era o cavalo que tem nas entranhas a ponta do touro. Estava morta.
Sentia-se no mar a hora da maré.
Tangrouille estava desperto da embriaguez; ninguém fica bêbado em um naufrágio; desceu abaixo, subiu e disse: - Capitão, a água enche o porão. Dentro de dez minutos está nos embornais.
Os passageiros corriam no tombadilho fora de si, torcendo os braços, inclinando-se na amurada, olhando para a máquina, fazendo todos os movimentos inúteis do terror. O turista desmaiou.
Clubin fez um sinal com a mão, calaram-se todos. Interrogou Imbrancam: - Quanto tempo pode a máquina trabalhar ainda?
- Cinco ou seis minutos.
Depois interrogou o passageiro: - Eu estava ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois estamos nós?
- Na Mative. Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.
- Sendo a Mative - continuou Clubin - temos o grande Hanois a bombordo e o pequeno Hanois a estibordo. Estamos a 1 milha de terra.
A equipagem e os passageiros escutavam, trêmulos de ansiedade e de atenção, com os olhos fixos no capitão.
Alijar o navio era inútil e, demais, impossível. Para por a carga ao mar, era preciso abrir às portinholas e aumentar as probabilidades de entrar água. Atirar a âncora era inútil; estavam pregados. Demais podia ficar presa. Não estava avariada a máquina, e continuando à disposição do navio enquanto o fogo não estava apagado, isto é, por alguns minutos, podia-se, à força de rodas e de vapor, recuar e arrancar o navio do escolho. Nesse caso iria ao fundo imediatamente. O rochedo, até certo ponto, tapava o rombo e tolhia a passagem da água. Servia de obstáculo. Desobstruída a abertura, seria impossível impedir a entrada da água. Quem retira o punhal de uma ferida no coração, mata logo o ferido. Sair do cachopo era ir ao fundo. Clubin ordenou: Os bois, atacados pela água, começavam a mugir. - A chalupa ao mar. Imbrancam e Tangrouille precipitaram-se e desataram as amarras. O resto da tripulação olhava petrificado. - Todos à obra - gritou Clubin. Desta vez obedeceram todos.
Clubin, impassível, continuou a dar ordens, naquela velha língua do mar, que os marinheiros de hoje não compreenderiam.
A chalupa estava no mar.
No mesmo instante, as rodas da Durande pararam, cessou o fumo, a fornalha estava cheia de água.
Os passageiros, resvalando ao longo da escada ou pendurando-se nas enxárcias, deixavam-se antes cair que descer na chalupa.
Imbrancam. apanhou o turista desmaiado, levou-o para a chalupa, depois subiu ao navio.
Os marinheiros atiravam-se após os passageiros. O grumete rolou; eles pisavam o rapaz. Imbrancam barrou a passagem: - Ninguém antes do moço - disse ele.
Afastou com os braços negros os marinheiros, o grumete, e estendeu- o ao passageiro guernesiano, de pé na chalupa, recebeu o rapaz.
O grumete salvo, Imbrancam deu caminho e disse: Passem.
Entretanto, o Sr. Clubin foi ao seu camarote e fez um embrulho dos papéis de bordo e dos instrumentos. Tirou a bússola da bitácula.
Entregou os papéis e os instrumentos a Imbrancam. e a bússola a Tangrouille, e disse-lhes: - Desçam à chalupa.
Eles desceram. A tripulação tinha-os precedido. A chalupa estava cheia. Estava quase rasa.
- Agora - disse Clubin - vão embora.
- E o senhor, capitão?
- Fico.
As pessoas que naufragam tem pouco tempo de deliberar e ainda menos de enternecer-se. Entretanto, os que estavam na Chalupa, e relativamente em segurança, tiveram uma comoção que não era por eles. Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo: - Venha conosco, capitão.
- Fico.
O guernesiano, que conhecia o mar, replicou: - Ouça, capitão. O senhor naufragou nos Hanois. A nado há apenas 1 milha até Plainmont. Mas na chalupa só se pode abordar na Rocquaine, e são 2 milhas. Há cachopos e nevoeiro. Esta chalupa não chega à Rocquaine antes de 2 horas. Não tarda a anoitecer.
Enchendo a maré, refresca o vento. Está próxima a borrasca. É nosso desejo vir buscá-lo depois, mas se romper o temporal, não será possível. Se fica está perdido. Venha.
O parisiense interveio: - A chalupa está cheia, e cheia demais, é verdade, e um homem de mais seria ainda pior. Mas nós somos treze, é mau número para a barca, e é melhor sobrecarregá-la de um homem que de algarismo.
Tangrouille acrescentou: - A culpa é minha, não é sua. Não é justo que o senhor fique.
- Fico - disse Clubin. - O navio será despedaçado pela tempestade hoje de noite. Não o deixarei. Quando o navio se perde, morre o capitão. Dir-se-á de mim que eu cumpri o meu dever. Perdôo-te, Tangrouille.
E cruzando os braços, gritou: - Atenção às ordens. Larguem a banda da amarra. Partam !
Abalou-se a chalupa. Imbrancam tomou o leme. Todas as mãos que não remavam voltaram-se para o capitão. Todas as bocas gritaram: Hurrah para o Capitão Clubin!
- Eis um homem admirável - disse o americano.
- É o mais honrado homem do mar - respondeu o guernesiano.
Tangrouille chorava.
- Eu devia ter ficado com ele.
A chalupa internou-se por entre o nevoeiro, e desapareceu.
Não se viu mais nada.
O rumor dos remos diminuiu e perdeu-se.
Clubin estava só.

ALUMIA -SE O INTERIOR DE UM ABISMO[editar]

Quando aquele homem achou-se naquele rochedo debaixo daquela nuvem, no meio daquela água, longe do contato humano, deixado por morto, sozinho entre o mar que subia e a noite que descia, teve profundo júbilo.
Alcançara o que queria.
Realizara-se-lhe o sonho. Estava paga a letra de longo prazo que ele sacou sobre o destino.
Para ele, ficar abandonado, era ficar livre. Estava no Hanois, a 1 milha de terra; tinha 75 000 francos. Nunca se realizou mais acertado naufrágio. Nada falhou; é verdade que tudo estava previsto.
Desde a juventude, Clubin teve uma idéia; fazer da honestidade uma parada no jogo da roleta da vida, passar por homem probo, e partir daí, esperando que a sorte corresse; não apalpar, segurar; fazer um lance, mas só um, agarrar tudo, e deixar atrás os papalvos.
Assentava que devia alcançar de uma vez aquilo que os larápios tolos deixam de agarrar vinte vezes, e, enquanto estes vão ter à forca, ele iria à fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de luz. Construiu imediatamente o plano: obrigar Rantaine à restitui ção; quanto às suas revelações possíveis, anulá-las desaparecendo; passar por morto, que é a melhor desaparição do mundo; para isso fazer naufragar a Durande. O naufrágio era necessário.
Além de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era fazer da sua existência uma obra-prima. Quem pudesse ver Clubin naquele naufrágio acreditaria ver um demônio feliz.
Viveu toda a sua vida naquele minuto.
Toda a sua pessoa exprimia esta palavra: enfim! Tremenda serenidade empalideceu aquela fronte obscura. Os olhos embaciados, no fundo dos quais parecia haver um tabique, tornaram-se profundos e terríveis. O abrasamento interno daquela alma reverberou-se neles.
O foro íntimo, como a natureza externa, tem a sua tensão elástica.
Uma idéia é um meteoro; no momento do triunfo, entreabremse as meditações acumuladas que o preparam, e jorra uma faísca; ter em si uma garra do mal, e sentir nela uma presa, ventura é esta que tem a sua irradiação; mau pensamento que triunfa e ilumina o rosto daquele que o concebeu; certas combinações triunfantes, certos desejos realizados, certas felicidades ferozes fazem aparecer e desaparecer nos olhos dos homens lúgubres e luminosas dilatações. É a tempestade jubilosa, é a aurora ameaçadora. Tudo isso sai da consciência, que se faz sombria e enevoada.
Foi esse fulgor que iluminou aqueles olhos.
Relâmpago que não se parecia com coisa alguma do que se pode ver no céu e na terra.
O velhaco comprimido que havia em Clubin fez explosão.
Clubin fitou a imensa obscuridade, e não pode reter uma gargalhada baixa e sinistra.
Estava livre! Estava rico!
Achara a incógnita. Resolvera o problema.
Clubin tinha tempo de cuidar de si. A maré enchia e por conseguinte sustentava a Durande e afinal devia pô-la a nado. Mas o navio aderia solidamente ao rochedo; não havia perigo de soçobrar. Além disso, era preciso deixar à chalupa o tempo de afastar-se, perder-se talvez; Clubin contava com isso.
De pé sobre a Durande naufragada, cruzou os braços, saboreando aquele abandono nas trevas.
A hipocrisia pesou àquele homem durante trinta anos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a virtude com um ódio de mal casado. Teve sempre uma premeditação malvada; desde que se fizera homem, trazia aquela armadura rígida, a aparência. Era monstro internamente; vivia em uma pele de homem de bem, com um coração de bandido. Era o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade, estava fechado naquele caixão de múmia, a inocência; tinha nas costas asas de anjo, esmagadoras para um velhaco.
Pesava-lhe demais a estima pública. Passar por homem honrado é duro! Manter constante equilíbrio, pensar mal e falar bem, que labutação 1 Clubin era o fantasma da retidão, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino dele. Era-lhe preciso mostrar ares apresentáveis, escumar por baixo do nível, sorrir em vez de ranger. A virtude, para ele, era coisa que esmagava. Passou a vida a ter vontade de morder aquela mão que lhe tapava a boca.
E querendo morde-la foi obrigado a beijá-la.
Ter mentido é ter sofrido. O hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpétuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjôo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. O verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. O traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. O hipócrita é um titã-anão.
Clubin imaginava de boa fé que tinha sido oprimido. Por que razão não nascera rico? O que ele queria era que os pais lhe houvessem deixado 100 000 libras de renda. Por que não as tinha? Não era culpa dele. Por que motivo, não lhe dando todos os gozos da vida, forçaram-no a trabalhar, isto é, a enganar, a trair, a destruir? Por que motivo condenaram-no assim a essa tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que não era dele? Dissimular é uma violência imposta. Odeia-se diante de quem se mente. Soara enfim a hora. Clubin vingava-se.
De quem? De todos e de tudo.
Lethierry não lhe fez senão bem: queixava-se demais; vingava-se de Lethierry. Vingava-se de todos aqueles ante quem foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem dele, era seu inimigo, porque ele foi cativo desse homem.
Clubin achava-se livre. Realizava-se a fuga. Estava fora dos homens.
O que se tinha por morte, era vida; ele ia começar agora. O verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um lance dissolveu tudo. Empurrou, com o pé, Rantaine ao espaço, Lethierry à ruína, a justiça humana às trevas, a opinião ao erro, a humanidade inteira para longe de si. Tinha eliminado o mundo.
Quanto a Deus, Clubin curava pouco dessa palavra de quatro letras.
Passou como religioso. Que importa?
Há cavernas no hipócrita ou, antes, o hipócrita é uma caverna.
Quando Clubin ficou só, abriu-se-lhe o antro. Teve um instante de delícias; arejou a alma.
Respirou largamente o seu crime.
O fundo do mal tornou-se visível naquele rosto. Clubin abriu-se.
Nesse momento o olhar de Rantaine ao pé daqueles olhos pareceria um olhar de recém-nascido.
Arrancar a máscara, que livramento! A consciência de Clubin alegrou- se por ver-se hediondamente nua, e por tomar livremente um banho ignóbil no mal. O constrangimento de um longo respeito humano acaba por inspirar um gesto violento à impudência. Chega-se a uma certa lascívia na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas morais tão pouco sondadas uma não sei que ostenta ção atroz e agradável, que é a obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputação dá apetite de vergonha. Desdenham se os homens a ponto tal que se deseja o desprezo deles. Ser estimado aborrece. Admira-se a franqueza da degradação. Olha-se cobiçosamente a torpeza que se mostra tão a seu gesto na ignomínia. Os olhos obrigados a baixar-se tem muitas vezes destes olhares oblíquos. Nada se aproxima tanto de Messalina como Maria Alacoque. Vede Cadière e a religiosa de Louviers.
Clubin vivera debaixo do véu. O descaramento foi sempre a sua ambição. Invejava a mulher pública e a fronte de bronze do opró- brio aceito; sentia-se mais mulher pública do que ela e tinha desgosto em passar por virgem. Foi o Tântalo do cinismo. Enfim, naquela solidão, podia ser franco; era-o. Que volúpia não é sentir-se sinceramente abominável! Todos os extases possíveis no inferno teve-os Clubin naquele momento; foram-lhe pagos todos os atrasados da dissimulação; a hipocrisia é um adiantamento; Satanás embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfaçamento, pois que os homens tinham desaparecido e apenas ficara o céu. Disse consigo: Sou um pícaro! E ficou satisfeito.
Jamais houve coisa igual em uma consciência humana.
Erupção de um hipócrita, não há rompimento de cratera igual a esse.
Achava-se feliz por não haver ali ninguém, e não desgostaria que alguém o visse. Teria prazer em ser medonho à vista de uma testemunha.
Teria prazer em dizer ao gênero humano: és idiota!
A ausência de homens assegurava-lhe o triunfo, mas diminuía-o.
Só ele era o espectador da sua glória.
Há certo encanto em estar de golilha. Toda a gente vê que és infame.
Obrigar a multidão a examinar-te é reconhecer a tua força. Um galé sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao pescoço, é o déspota de todos os olhares que ele obriga a voltarem-se para si.
Aquele cadafalso é ao mesmo tempo pedestal. Que mais belo triunfo do que esse de ficar no centro de convergência para a atenção geral? Obrigar o olhar público é uma das formas de supremacia.
Os que tem o mal por ideal acham no opróbrio uma auréola.
Domina-se daí. Olha-se de cima de alguma coisa. Mostra-se com soberania. Um poste, à vista de todo o universo, tem alguma analogia com um trono.
Estar exposto é ser contemplado.
Um mau reinado tem evidentemente júbilos do pelourinho. Nero incendiando Roma, Luis XIV tomando traiçoeiramente o Palatinado, o Regente Jorge matando lentamente Napoleão, Nicolau assassinando a Polônia em face da civilização, deviam sentir um pouco daquela volúpia sonhada por Clubin. A imensidade do desprezo parece grandeza ao desprezado.
Ser desmascarado é uma derrota, mas desmascarar-se é uma vit ória. É a ebriedade, é a imprudência insolente e satisfeita, é uma nudez transportada que insulta tudo diante de si. Suprema felicidade.
Estas idéias em um hipócrita parecem contradição, e não são.
Toda a infâmia é conseqüente. O mel é fel. Escobar confina no Marques de Sade. Prova: Léotade. O hipócrita, sendo perverso completo, tem em si os dois pólos da perversidade. De um lado é padre, do outro cortesão. O seu sexo de demônio é duplo. O hipócrita é o horrível hermafrodita do mal. Fecunda-se a si próprio; gera-se, transforma-se. Queres vê-lo formoso? Olha-o. Queres vê-lo horrível? Vira-o.
Clubin tinha em si toda esta sombra de idéias confusas. Pouco as percebia, mas gozava-as muito.
Uma porção de faíscas do inferno, atravessando a noite, era a sucessão dos pensamentos naquela alma.
Clubin conservou-se pensativo algum tempo; olhava para a sua honestidade com o ar com que a serpente contempla a pele que despiu.
Toda a gente acreditou naquela honestidade, ele próprio acreditou um bocadinho nela.
Deu segunda gargalhada.
Iam pensar que ele estava morto, e estava vivo.
Pensavam que estava perdido, e estava salvo. Que boa caçoada à tolice universal!
E nessa tolice universal contava-se Rantaine. Clubin pensava em Rantaine com um desdém sem limites. Desdém da fuinha para com um tigre. Tinha conseguido o que falhara a Rantaine. Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triunfante. Tomou o lugar de Rantaine no leito da sua má ação, e foi ele quem teve a boa fortuna.
Quanto ao futuro, Clubin não tinha plano. Possuía os bilhetes do banco na boceta de ferro atada à cintura; bastava-lhe esta certeza.
Mudaria de nome. Há países onde 60 000 francos valem 600 000. Não seria má solução ir para um desses lugares viver honestamente com o dinheiro apanhado ao ladrão Rantaine. Especular, entrar em um grande negócio, engrossar o capital, tornar-se seriamente milionário também não era mau.
Por exemplo, em Costa Rica, como era o começo do grande com ércio do café, podia ganhar tonéis de ouro. Veria isso.
Demais, pouco importava. Clubin tinha tempo de pensar nessas coisas. O mais difícil estava feito. Despojar Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto era simples. Não havia obstáculo possível. Nada a temer. Não podia acontecer nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas da praia, iria à casa mal-assombrada, entraria facilmente por meio da corda de nós escondida de antem ão no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo roupa e víveres, dentro de oito dias lá estavam os contrabandistas da Espanha, Blasquito provavelmente; por alguns guinéus, far-se- ia transportar, não a Tor Bay, como disse a Blasco para iludir, mas a Pasages ou a Bilbao. Daí iria a Vera Cruz ou a Nova Orleans.
Já era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava longe, uma hora a nado era coisa nenhuma para Clubin, só 1 milha o separava da terra, pois que estava no Hanois.
Neste ponto dos seus cálculos, rasgou-se uma fresta do nevoeiro.
O formidável rochedo Douvres surgiu aos seus olhos.

INTERVÉM O INESPERADO[editar]

Clubin olhou espantado.
Era o medonho escolho isolado.
Não era possível a ilusão a respeito daquela configuração disforme.
As duas Douvres gêmeas campeavam horríveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que falamos. Dissera- se um quebra-costas do oceano.
Estavam perto dele as rochas Douvres; o nevoeiro, como cúmplice, escondera-as.
Clubin errara o caminho por causa do nevoeiro. Apesar de toda a atenção, aconteceu-lhe o mesmo que a dois grandes navegadores, a González, que descobriu o cabo Branco, e a Fernandez, que descobriu o cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excelente para a execução do projeto, mas tinha os seus perigos.
Clubin desviou-se para o oeste e enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.
A Durande, arrombada por um dos bancos do escolho, estava separada das Douvres apenas por algumas centenas de braças.
A 200 braças mais longe via-se um maciço cubo de granito. Descobriam-se nas faces escarpadas desta rocha algumas estrias e relevos apropriados para galgá-la.
Os cantos retilíneos dessas rudes muralhas de ângulo reto faziam pressentir no cume uma planura.
Era o Homem.
A rocha Homem era mais alta ainda que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessíveis das duas rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava uma certa regularidade arquitetural. Não se podia imaginar nada mais triste e funesto. As vagas iam dobrar as suas tranqüilas toalhas nas faces quadradas daquele enorme rochedo negro, espécie de pedestal para os espectros imensos do mar e da noite.
Tudo aquilo estava mudo e morto. Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquela superfície muda da água adivinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.
Clubin vira muitas vezes de longe o escolho Douvres.
Convenceu-se bem que eram ali as Douvres.
Não podia duvidar.
Súbita e terrível mudança. As Douvres em vez de Hanois. Em vez de 1 milha, 5 léguas do mar! O impossível. A rocha Douvres, para o náufrago solitário, é a presença visível e palpável dos últimos momentos.
É impossível chegar à terra.
Clubin estremeceu. Tinha se metido na goela da sombra. Não havia outro refúgio além do rochedo Homem. Era provável que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa da Durande, sobrecarregada, soçobrasse. Nenhum aviso do naufrágio chegaria à terra. Não se saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres.
Não havia outra perspectiva senão a morte por frio e fome. Os seus 75 000 francos nem mesmo lhe davam um bocado de pão.
Tudo quanto ele construíra deu em resultado aquela cilada; foi ele próprio o arquiteto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso.
Nenhuma solução possível. O triunfo fazia-se precipício. Em vez da liberdade, a captura. Em vez de um futuro próspero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o edifício. O paraíso sonhado por aquele demônio retomou a sua verdadeira figura: o sepulcro.
Entretanto, soprava o vento. O nevoeiro, sacudido, furado, repuxado, desfazia-se no horizonte em grandes lanhos informes. Reapareceu o mar.
Os bois, cada vez mais invadidos pela água, continuavam a berrar no porão.
Aproximava-se a noite; provavelmente a tempestade.
A Durande, a pouco e pouco levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, depois da esquerda para a direita, .
e começava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.
Podia-se pressentir o momento em que uma vaga arrancaria o navio e o levaria água abaixo.
Havia menos obscuridade do que no momento do naufrágio. Apesar da hora ser já avançada, estava mais claro. O nevoeiro levou consigo uma parte da escuridão. O oeste limpou-se de nuvens. O crepúsculo é um vasto céu branco. Essa vasta claridade alumiava o mar.
A Durande naufragara em plano inclinado de popa a proa. Clubin trepou à proa que estava quase fora da água. Fitou no horizonte os olhos.
É próprio da hipocrisia ater-se à esperança. O hipócrita é homem que espera. A hipocrisia é uma esperança horrível:
- O fundo dessa mentira é feito desta virtude, tornada vicio.
Coisa estranha de dizer, há confiança na hipocrisia. O hipócrita confia-se a certa indiferença do desconhecido, que consente no mal.
Clubin olhava para a extensão.
A situação era desesperada: aquela alma sinistra não desesperou.
Dizia consigo que depois daquele longo nevoeiro os navios conservados na bruma, à capa ou ancorados, iam continuar viagem e algum passaria no horizonte.
E, com efeito, apareceu uma vela.
Vinha de leste e ia para oeste.
Aproximando-se, desenhava-se o navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurupés era quase horizontal.
Antes de meia hora devia passar por perto do escolho Douvres.
Clubin disse consigo: Estou salvo.
Em momentos semelhantes, pensa-se primeiro na vida.
O cúter era quase estrangeiro. Quem sabe se não era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se não era Blasquito? Nesse caso, não somente salvava a vida como a fortuna; e o encontro do rochedo Douvres, apressando a conclusão, suprimindo a espera na casa mal-assombrada, dando desfecho à aventura em pleno mar, seria um incidente feliz.
Toda a certeza do bom êxito entrou freneticamente naquele espírito sombrio.
Estranha coisa é ver com que facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem sucedidos.
Cumpria fazer apenas uma coisa.
A Durande, metida nos rochedos, misturava a sua configuração à deles, confundia-se com os seus recortes, sobre os quais parecia apenas um lineamento, ficava indistinta e perdida, e não bastava, com o pouco dia que havia, para atrair a atenção da embarcação que ia passar.
Mas uma figura humana, desenhando-se na alvura crepuscular, de pé na planura do rochedo Homem, e fazendo sinais de perigo, seria vista, sem dúvida alguma. Mandariam um escaler para recolher o náufrago.
O rochedo Homem ficava a 200 braças. Era simples atingi-lo a nado, fácil trepar por ele.
Não havia tempo a perder.
Estando a proa da Durande-sobre a rocha, era do alto da popa e do ponto em que estava que Clubin devia atirar-se ao mar.
Começou por deitar uma sonda, e reconheceu que havia ao pé da popa muito fundo. As conchas microscópicas de foraminíferos e de policistináceos que à sonda trouxe consigo estavam intatas, o que indicava que havia ali profundas cavas de rocha, onde a água, qualquer que fosse a agitação da superfície, era sempre tranqüila.
Despiu-se, deixando as roupas no tombadilho. Acharia roupa no cúter.
Conservou apenas o cinto de couro.
Depois de despir-se, levou a mão ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o olhar a direção que devia seguir no meio dos parcéis e das vagas para alcançar o rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabeça para baixo.
Como caiu de alto, mergulhou muito.
Chegou ao fundo do mar, tocou-o. Costeou alguns instantes as rochas submarinas, depois fez um movimento para subir à superfície.
Nesse momento sentiu-se agarrado pelo pé.