Os Trabalhadores do Mar/Parte III/Livro II

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terceira Parte- Livro Segundo-RECONHECIMENTO EM PLENO DESPOTISMO

<Os Trabalhadores do Mar

<Autor:Victor Hugo

Tradução: Machado de Assis

ALEGRIA CERCADA DE ANGÚSTIA[editar]

Mess Lethierry agitava o sino com sofreguidão. De súbito parou.
Viu um homem voltar a esquina do cais. Era Gilliatt.
Mess Lethierry correu a ele, ou, para melhor dizer, atirou-se a ele, tomou-lhe a mão entre as suas, e olhou-o fixamente em silêncio; um desses silêncios de explosão, não sabendo por onde irromper.
Depois, com violência, sacudindo, e puxando, e apertando-o nos braços, fez entrar Gilliatt na sala baixa de Bravées, empurrou a porta com o tacão, que ficou entreaberta, assentou-se ou caiu, em uma cadeira ao lado de uma grande mesa iluminada pela lua, cujo reflexo embranquecia vagamente o rosto de Gilliatt, e, com uma voz onde havia gargalhadas e soluços misturados, gritou:
- Ah! Meu filho! Homem do bagpipe! Gilliatt! Eu sabia que eras tu! A pança! Que diabo! Conta-me isso! Pois foste! Há cem anos queimavam-te. É feitiçaria. Não falta nada. Já examinei, reconheci, apalpei. Adivinho que as rodas estão nas duas caixas. Então chegaste.
Fui procurar-te na pança. Toquei o sino. Procurava-te. Eu dizia comigo: onde está ele? Quero devorá-lo. É preciso convir que se passam coisas extraordinárias. Aquele animal volta do escolho Douvres. Traz-me a vida. Com os diabos! Tu és um anjo. Sim, sim, sim, é a minha máquina. Ninguém acredita. Hão de vê-la e dizer: não falta nem uma serpentina. O tubo de água não se deslocou. É incrível que não houvesse avaria. Falta só por um pouco de azeite.
Mas como foi? E a Durande vai agora navegar! A árvore das rodas está desmontada como se fosse feita por um ourives. Dá-me a tua palavra de honra que eu não estou doido.
Levantou-se, respirou e prosseguiu:
- Jura-me. Que revolução! Dou beliscões em mim mesmo, vejo que não sonho. Tu és meu filho, és meu rapaz, és Deus. Ah! Meu filho.
Ir buscar a minha pobre máquina! No mar alto! Naquela emboscada do escolho! Tenho visto muita coisa espantosa em minha vida.
Nunca vi coisa assim. Vi os parisienses que são uns satanases.
Boas! Não faziam isto. É pior que a Bastilha. Vi os gaúchos lavrarem nos pampas, tendo por charrua um galho de árvore, do comprimento de 1 côvado e por grade um feixe de espinhos puxado por corda de couro; colhem, com isto, grãos de trigo do tamanho de avelãs. Não valem dois caracóis ao pé de ti. Fizeste um milagre, um verdadeiro milagre. Ah! Tratante! Salta-me ao pescoço. Como vai rosnar a gente de Saint-Sampson! Vou tratar já e já de fazer o navio. É admirável não ter quebrado a vara da redouça. Meus senhores, ele foi às Douvres. Às Douvres! Um penedo que não tem rival. Já sabes, está provado que a coisa foi feita de propósito.
Clubin perdeu a Durande para furtar-me o dinheiro que devia trazer- me. Embriagou Tangrouille. É longo, depois te contarei a pirataria dele. Eu era um bruto, tinha confiança em Clubin. Mas o malvado não pode naturalmente sair de lá. Há um Deus, canalha!
Olha, Gilliatt, quanto antes, ferro na forja, vamos reconstruir a Durande. Dar-lhe-emos 20 pés mais. Agora fazem-se os navios mais compridos. Hei de comprar madeira em Dantzig e Bremen.
Agora que tenho a máquina hão de emprestar-me dinheiro. A confiança voltará.
Mess Lethierry deteve-se, levantou os olhos com aquele olhar que vê o céu através do teto, disse entre dentes: Há um meio.
Depois pós o dedo médio da mão direita entre as sobrancelhas, com a unha apoiada no alto do nariz, o que indica passagem de um projeto no cérebro, e continuou:
- É o mesmo, para começar em grande escala, algum dinheiro basta. Ah ! Se eu tivesse as minhas três notas de banco que o tratante de Rantaine me restituiu e que o tratante de Clubin me roubou!
Gilliatt, em silêncio, procurou na algibeira alguma coisa, que colocou diante de si. Era o cinto de Clubin. Abriu e pós na mesa o cinto, no interior do qual a lua deixava ler a palavra: Clubin; tirou da abertura uma caixinha, e da caixinha três pedaços de papel que desenrolou e estendeu a Mess Lethierry.
Mess Lethierry examinou os três pedaços de papel. Havia bastante claridade para que o número 1000 e a palavra thousand fossem perfeitamente visíveis. Mess Lethierry pegou nos três bilhetes, po-los na mesa um ao lado do outro, olhou para eles, olhou para Gilliatt ficou um momento calado, depois foi como que uma erupção depois de uma explosão.
- Também isto! Tu és prodigioso. As minhas notas do banco! Todas três! Mil cada uma! Os meus 75 000 francos! Então foste ao inferno? É o cinto de Clubin. Por Deus: leio-lhe o nojento nome. Gilliatt traz a máquina e mais o dinheiro! Isto deve ser contado nos diários públicos. Vou comprar madeira de primeira qualidade. Adivinho, achaste o esqueleto. Clubin apodreceu lá em algum canto. Compraremos pinho em Dantzig e carvalho em Bremen, faremos um bom casco, carvalho por dentro, pinho por fora. Em outro tempo fabricavam-se navios menos perfeitos e eles duravam mais; é que a madeira era mais seca porque não se construía tanto. Faremos talvez a quilha de olmo. O olmo é bom para estar sempre na água: andando ora molhado, ora seco, apodrece: o olmo alimenta-se de água. Que bela Durande vamos fazer! Não me hão de impor. Já não preciso crédito. Tenho dinheiro. Já se viu coisa assim como Gilliatt? Eu estava prostrado, abatido, morto. Chega ele põe-me de pé. E eu que não pensava nele! Já nem me lembrava. Agora lembra-me tudo. Pobre rapaz! Ah! Bem, sabes, tu casas com Déruchette.
Gilliatt encostou-se à parede como se vacilasse e baixinho, mas distintamente, disse:
- Não.
Mess Lethierry teve um sobressalto.
- Como, não?
Gilliatt respondeu:
- Não a amo.
Mess Lethierry foi à janela, abriu-a e fechou-a, pegou nas três notas do banco, dobrou-as, pós a caixa em cima, coçou a cabeça, pegou no cinto de Clubin, atirou-o violentamente contra a parede e disse:
- Há alguma coisa!
Meteu as mãos nos bolsos, e continuou:
- Não amas Déruchette! Era então por minha causa que tocavas bagpipe?
Gilliatt, sempre encostado à parede, empalidecia como um homem que está prestes a não respirar. A proporção que se tornava pálido, Lethierry tornava-se vermelho.
- Vejam este parvo! Não ama Déruchette! Porque ela não há de casar senão contigo. Que histórias são essas? Cuidas que te acredito? Estás doente? Pois bem, manda chamar um médico, mas não digas extravagâncias, é impossível que tivesses tempo de brigar com ela e ficares arrufado. É verdade que os namorados são uns tolos! Vamos, tens alguma razão? Se tens, fala; ninguém é tolo sem ter razão. Demais, eu tenho algodão nos ouvidos, talvez ouvisse mal, repete o que disseste.
Gilliatt replicou:
- Disse que não.
- Disseste que não. E teima o bruto! Tens alguma coisa, é claro.
Disseste que não! É uma estupidez que passa os limites do mundo conhecido. Por muito menos dão-se banhos medicinais a uma criatura.
Ali! Tu não amas Déruchette! Então foi por amor do velhote que fizeste tudo isto! Foi pelos bonitos olhos do papá que foste às Douvres, que tiveste frio, que tiveste calor, que tiveste fome e sede, que comeste bichos do rochedo, que tiveste por quarto de dormir o nevoeiro, a chuva e o vento, e que me trouxeste a máquina como se traz a uma mulher bonita o canário que fugiu? E a tempestade de há três dias! Se tu imaginas que eu não faço idéia do que passaste! Estiveste em boas! Foi então com o pensamento em mim que cortaste, rachaste, viraste, arrastaste, limaste, serraste, inventaste, e fizeste tantos milagres, tu só, mais que todos os santos do paraíso? Ali! Idiota! Pois olha que me aborreceste com a tua sanfona! Sempre a mesma toada, animal! Ah! Tu não amas Déruchette! Não sei o que tens. Lembra-me agora, eu estava neste canto. Déruchette disse: Casava-me. E há de casar contigo. Ah! Não a amas! Feitas as reflexões, eu não compreendo nada. Ou tu estás doido ou eu! E não diz palavra! Não é lícito fazer o que fizeste e dizer no fim: Não amo Déruchette. Não se faz um obséquio à gente para obrigá-la a ficar com raiva. Pois bem, se não te casas com ela, Déruchette não se casa com pessoa alguma, fica para tia. Em primeiro lugar, preciso de ti. Serás piloto da Durande. Se cuidas que vou deixar-te ir assim! Ta, ta, ta, nada, meu amigo, já te não largo. És meu. Nem te quero ouvir. Onde há um marinheiro como tu? És o meu homem. Mas fala, com os diabos! O sino tinha acordado a gente da casa e da vizinhança. Doce e Graça tinham-se levantado e acabavam de entrar na sala baixa, espantadas, sem dizer palavra. Graça trazia uma vela. Um grupo de vizinhos, burgueses, marinheiros e aldeões, saídos à pressa, estava fora no cais, contemplando com pasmo e susto o cano da Durande na pança.
Alguns, ouvindo a voz de Lethierry na sala baixa, começavam a entrar silenciosamente pela porta entreaberta. Entre duas caras de comadres, passava a cabeça do Sr. Landoys, que por acaso costumava sempre estar presente nos lugares onde sentiria se não estivesse.
As grandes alegrias querem sempre um público. Agrada-lhes o ponto de apoio um pouco esparso que oferece uma multidão; partem daí.
Mess Lethierry descobriu repentinamente que tinha gente à roda de si. Aceitou logo o auditório.
- Ah! Vocês estão aí? Que felicidade. Já sabem a notícia. Este homem lá foi e de lá trouxe aquilo. Bom dia, Sr. Landoys. Ainda há pouco quando acordei vi o cano. Estava debaixo da minha janela.
Não falta nem um prego. Fizeram-se gravuras de Napoleão; eu prefiro isto à batalha de Austerlitz. Sabem vocês da coisa. A Durande chegou enquanto dormiam. Enquanto se metiam nos lençóis e apagavam as velas, há pessoas que são heróis. Uns são covardes, vadios, aquecem os seus reumatismos; felizmente isso não impede que haja espíritos fogosos. Esses vão onde é preciso ir, fazem o que é preciso fazer. O homem da casa mal-assombrada chegou do rochedo Douvres. Pescou a Durande do fundo do mar, pescou o dinheiro da algibeira de Clubin, abismo mais profundo que o outro. Mas como fizeste isso? Tinhas todos os diabos contra ti, o vento e a maré, a maré e o vento. É verdade que tu és feiticeiro.
Os que dizem isto já não são tão pascácios. Voltou a Durande! Em vão se enfurecem as tempestades, este estrangula-as. Meus amigos, anuncio-lhes que já não há naufrágios. Já examinei a máquina.
Está como nova, está completa! Movem-se os cilindros tão facilmente como dantes. Parecia novinha em folha. Sabem que a água que sai é levada para fora do navio por um tubo colocado em outro tubo por onde passa a água que entra para utilizar o calor; pois bem, os dois tubos estão salvos. A máquina toda! As rodas também! Ah! Hás de casar com ela!
- Com quem? Com a máquina? - perguntou o Sr. Landoys.
- Não, a pequena. Sim, a máquina. Ambas. Há de ser duas vezes meu genro. Good-bye, Capitão Gilliatt. Vamos ter Durande! Vamos fazer negócio, vai haver circulação e comércio, e transporte de bois e carneiros! Não troco Saint-Sampson por Londres. E aqui está o autor. Digo-lhes que é uma aventura. Há de ler-se isto sábado na gazeta de Mauger. O engenhoso Gilliatt é um finório. Que dinheiro é este em ouro?
Mess Lethierry acabava de ver, pela fresta da tampa, que havia ouro na caixinha posta sobre as notas de banco. Pegou nela, abriu-a, esvaziou-a na palma da mão, pós o punhado de guinéus sobre a mesa.
- Para os pobres. Sr. Landoys, de estes pounds da minha parte ao condestável de Saint-Sampson. Sabe da carta de Rantaine? Mostrei- lha outro dia; pois bem; aqui estão as notas do banco. Com isto posso comprar carvalho e pinho, e fazer a carpintaria. Veja.
Lembra-se do tempo que houve há três dias? Que ataque de vento e de chuva! O céu disparava tiros de canhão. Gilliatt recebeu tudo isso nas Douvres, sem que lhe obstasse o desaferrar o navio como eu tiro o meu relógio da parede. Graças a Gilliatt, já sou alguém. A galeota do pai Lethierry vai continuar o serviço, senhores e senhoras. Uma casca de noz com duas rodas, e um tubo de cachimbo, foi sempre a minha mania. Disse sempre comigo: Hei de fazer uma máquina destas! Data de longe; foi uma idéia que tive em Paris, no café que faz a esquina da Rua Cristina e da Rua Delfina, lendo um jornal que falava do invento. Sabem que Gilliatt era capaz de meter a máquina de Marly na algibeira e passear com ela? Este homem é de ferro batido, é aço de têmpera, é diamante, um marujo de polpa, um ferreiro, um rapazola extraordinário, mais espantoso que o Príncipe Hohenlohe. A isto chamo eu um homem de engenho. Nós não valemos nada. Os lobos do mar somos nós; o leão do mar é ele. Hurrah, Gilliatt! Não sei o que ele fez, mas certamente fez o diabo, e como é que não lhe hei de dar Déruchette! Desde alguns instantes Déruchette entrara na sala. Não dissera palavra, não fizera rumor. Entrou como uma sombra. Assentara-se, quase despercebida, em uma cadeira por trás de Mess Lethierry de pé, loquaz, tempestuoso,. alegre, abundante de gestos, e falando em voz alta. Um pouco atrás dela veio outra aparição muda.
Um homem vestido de preto, de gravata branca, com o chapéu na mão, parara na abertura da porta. Havia agora muitas velas no grupo lentamente engrossado- As luzes batiam de lado no homem vestido de preto; o seu perfil, de alvura jovem e deliciosa, desenhava-se no fundo obscuro com uma pureza de medalha; apoiava o cotovelo numa almofada da porta, e tinha a fronte na mão esquerda, atitude que lhe era graciosa, sem ser meditada, e que fazia valer a grandeza da fronte na pequenez da mão. Havia uma ruga de angustia no canto de seus lábios contraídos. Examinava e ouvia com atenção profunda. Os assistentes, tendo reconhecido o reverendo Ebenezer Caudray, cura da paróquia, tinham-se afastado para deixá-lo passar, mas ele ficou na soleira. Havia hesitação na sua postura e decisão no seu olhar. O olhar de quando em quando encontrava o de Déruchette. Quanto a Gilliatt, ou por acaso ou de propósito, estava na sombra, e mal se podia vê-lo.
Mess Lethierry não viu ao princípio o Sr. Ebenezer, mas viu Déruchette. Foi a ela e beijou-a com toda a sofreguidão que pode ter um beijo na fronte. Ao mesmo tempo estendia o braço para o canto escuro onde estava Gilliatt.
- Déruchette - disse ele -, estás outra vez rica e o teu marido é aquele.
Déruchette levantou a cabeça desvairada e olhou para a sombra.
Mess Lethierry continuou:
- Há de se fazer o casamento quanto antes, amanhã, se for poss ível, há de haver dispensas, mas as formalidades são simples, o decano faz o que quer, casa-se a gente antes de gritar: guarda de baixo! Não é como na França, onde se precisam banhos, publicações, dilações, um chuveiro de formalidades e tu serás mulher de um homem valente e não há de que dizer, é um marinheiro, sempre o pensei desde o dia em que o vi voltar de Herm com a peça de artilharia. Agora volta das Douvres com a tua fortuna, e a minha, e a fortuna da terra; é um homem que há de dar o que falar; tu disseste: Caso-me com ele; pois hás de casar; e hão de ter filhos, e eu serei avo, e terás fortuna de ser a lady de um rapagão sério, que trabalha, que é útil, que é surpreendente, que vale por cem, que salva as invenções dos outros, que é uma providência, e ao menos não casarás, como todas as raparigas ricas deste lugar, com um soldado ou um padre, isto é, o homem que mata e o homem que mente. Mas que fazes aí metido no canto, Gilliatt? Ninguém te vê. Doce! Graça! Todos! Luzes! Iluminem o meu genro a giorno. Caso-os, meus filhos, e eis teu marido, e eis o meu genro, o Gilliatt da casa mal-assombrada, o grande marinheiro, e eu não terei outro genro, e não terás outro marido, torno a dar a minha palavra de honra a Deus. Ali! Ali! E Vossa Reverendíssima, senhor cura, há de casar-me estes pequenos.
O olhar de Mess Lethierry acabava de cair no Reverendo Ebenezer.
Doce e Graça tinham obedecido. Duas velas postas na mesa iluminavam Gilliatt da cabeça aos pés.
- Como está bonito! - gritou Lethierry.
Gilliatt estava hediondo.
Estava tal qual saíra, naquela manhã, do escolho Douvres, em frangalhos, os cotovelos rotos, a barba longa, os cabelos eriçados, os olhos queimados e vermelhos, a face esfolada, as mãos sangrentas; tinha os pés descalços. Algumas das pústulas da pieuvre estavam visíveis nos braços cabeludos.
Lethierry contemplava-o.
É o meu verdadeiro genro. Como se bateu com o mar! Está em frangalhos! Que ombros! Que pés! Como és belo!
Graça correu a Déruchette, amparou-lhe a cabeça. Déruchette tinha desmaiado.


A MALA DE COURO[editar]

Desde madrugada Saint-Sampson estava de pé e Saint-Pierre-Port começava a chegar. A ressurreição de Durande fazia na ilha um rumor comparável ao que fez no meio-dia da França a Salette.
Havia multidão no cais para contemplar o cano que saía da pança.
Tinham vontade de ver e tocar na máquina, mas Lethierry, depois de repetir, e à luz do dia, a inspeção triunfante da mecânica, tinha posto na pança dois marinheiros encarregados de impedir que ninguém se aproximasse. O cano, porém, bastava à contemplação. A multidão pasmava. Só se falava de Gilliatt. Comentava-se e aceitava-se a alcunha de engenhoso, a admiração acabava sempre por esta frase: Nem sempre é agradável ter na ilha gente capaz de fazer coisas destas.
De fora via-se Mess Lethierry assentado à mesa diante da janela e escrevendo, com um Olho no papel, e outro na máquina. Estava de tal modo absorto que apenas uma vez interrompeu-se para gritar: "Doce!" e para pedir notícias de Déruchette. Doce respondeu: "A menina levantou-se e saiu." Mess Lethierry disse: "Faz bem tomar ar. Esteve incomodada de noite por causa do calor.
Havia muita gente na sala. E depois a surpresa, a alegria e as janelas fechadas. Vai ter um marido soberbo!" E tornou a escrever. Já tinha escrito e fechado duas cartas dirigidas aos mais notáveis construtores de Bremen. Acabava de fechar a terceira.
O rumor de uma roda no cais fez-lhe levantar a cabeça. Inclinou-se à janela e viu desembocar do atalho que ia ter à casa de Gilliatt um rapaz empurrando um carrinho de mão. O rapaz dirigia-se para o lado de Saint-Pierre-Port. Havia no carrinho uma mala de couro amarela com pregos de cobre e estanho.
Mess Lethierry falou ao rapaz:
- Onde vais?
O rapaz parou, e respondeu:
- Ao Cashemere.
- Para que?
- Levar esta mala.
- Pois bem, levarás também estas três cartas.
Mess Lethierry abriu a gaveta da mesa, e pegou num pedaço de barbante, enlaçou as três cartas que acabava de escrever, e atirou o embrulho ao rapaz que o recebeu no ar entre as duas mãos.
- Dirás ao capitão do Cashemere que sou eu quem escrevo, e que ele tenha cuidado com elas. É para a Alemanha. Bremen via Londres.
- Não falarei ao capitão, Mess Lethierry.
- Por que?
- O Cashemere não está no cais.
- Ah!
- Está na barra.
- É justo, por causa do mar.
- Só posso falar ao patrão do escaler.
- Recomenda-lhe as minhas cartas.
- Sim, Mess Lethierry.
- A que horas parte o Cashemere?
- Ao meio-dia.
- Ao meio-dia hoje, é a enchente da maré. Tem contra si a maré.
- Mas tem vento de feição.
- Rapaz - disse Mess Lethierry pondo o dedo índex no cano da máquina - vês isto? Isto zomba do vento e da maré.
O rapaz pós as cartas na algibeira, pegou outra vez no carrinho, e continuou a viagem para a cidade.
Mess Lethierry chamou:
- Doce! Graça!
Graça entreabriu a porta.
- Que há, Mess?
- Entra e espera.
Mess Lethierry pegou numa folha de papel e começou a escrever; se Graça, de pé atrás dele, fosse curiosa e esticasse o pescoço, poderia ler, por cima do ombro, isto: Escrevo a Bremen para ver madeira. Tenho de falar durante o dia aos carpinteiros para a avaliação. Vai ter à casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se faça o mais cedo possível, e já, será melhor. Estou tratando de Durande, trata tu de Déruchette.
Datou e assinou "Lethierry".
Não se deu ao trabalho de fechar a carta, dobrou-a simplesmente em quatro e deu-a a Graça.
- Leva isto a Gilliatt.