Os correspondentes

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Os correspondentes
por Lima Barreto
Crônica publicada em Vida Urbana


O curioso dessas coisas todas é que ninguém quer ficar com os sentimentos ocultos. Eles se lembram de manifestá-los, desta ou daquela forma, aqui ou acolá.

Se a tua dor te incomoda, faze dela um poema, mas o que se não pode entender é que certos sujeitos não podendo fazer dela um poema, venham pedir que se revele pelas co­lunas dos jornais o espetáculo de suas mágoas e amores.

Tudo isto é respeitável e digno; mas o que não é digno é revelar semelhantes coisas.

Não há dia que não recebamos cartas de amorosos decla­rando os seus sentimentos à sua amada: não há dia que não encontremos no nosso correio denúncias de despeitados contra as suas prováveis apaixonadas. Tudo isto é absolutamente idiota e não é de nossa competência. Estamos aqui para fazer troça, pilheriar contra a humanidade; mas não para atravancá-la com perseguições e maldades.

Imaginem os senhores se fossemos publicar com o nome a bobagem que ai vai.

Nós fazemos para regalo dos nossos leitores, mas pedimos que semelhantes missivistas não repitam a pilhéria de nos incomodar com semelhantes tolices.

Eis aí a carta:

"Ilustríssimo senhor redator da Careta.

Com máximo respeito, solicito um abrigo a este escrito na página literária do vosso jornal, de antemão agradeço, a vossa gentileza.

À F...

Através das blandícias e amplexos dos que te admiram, passas feliz o teu aniversário! No entanto, eu, sorvendo a poção de tantos sofrimentos, assisto passar como que uma caravana, tudo, quanto senti, neste amor agora indelével! Es­peranças, não mais me alegram a face merencória! Caminho esta trilha que se chama vida, prestes, a encontrar talvez, o recanto escuro, onde, o corpo se exila do mundo e a tal terra de ilusões, não volta mais! nunca mais! Perdoa-me, a liberdade de te dirigir estas linhas. Antes porém, de dar termo a este conjunto medíocre, prosternado, recitarei, por esta data faus­tosa, uma prece a Deus, para que sejam marchetados de rara felicidade, os dias, que te restam na vida, acobertados, com o manto sublime da virtude e da Glória! São estes, os sin­ceros votos, que te não esquece de desejar, o teu admirador humilde

J. G. Júnior"

Foi este senhor Gonçalves que nos enviou esta carta, sobre a qual escrevemos os comentários que aí vão.

Careta, Rio, 27-9-1919.