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sas que se desfazem ao sôpro dos verdadeiros principios economicos.

A sciencia ensina, e os factos demonstrão: que o trabalho feito por braço escravo, não pode competir com o que é feito por braço livre.

O primeiro é mais barato e mais bem feito. Sem me alongar na exhibição de exemplos tirados dos differentes povos esclavocratas, cuja prosperidade coincide com o facto da abolição, limitar-me-hei a chamar a attenção do leitor para um facto que é para nós o mais eloquente de quantos se possão citar, porque é nosso e porque é de muito recente data.

A província do Ceará participava, como as outras suas irmãs, da maldição que peza sobre o paiz todo, pela escravidão.

O serviço doméstico e industrial, não se fazia, até 1845, senão á braço escravo.

Quem não possuía escravos não podia ser lavrador! E por isso a producção agrícola da província era diminutissima.

Os fazendeiros, alem do que tiravão de suas terras para o custeio de suas fazendas, mal produsião, todos juntos, quanto chegasse para o consumo da província.

A exportação era nulla, ou quasi nulla, e o commercio era tão insignificante que a renda geral ali cobrada, pouco se elevava acima de 100:000$ por anno.

Esse phenomeno era devido: primeiro, a não se fazer agricultura senão com braço escravo; e segundo, a deixar toda a população livre, que não possuía escravos, de produsir para seu próprio gasto, e tornar-se, por isso, toda ella consumidora das sobras que podião realisar os poucos que se empregavão na lavoura.

Assim, pois, a producção estava limitada ao trabalho escravo, ao passo que o consumo se estendia a toda a grande população da provincia.

A gente pobre preferia occupar-se em caçar, e pescar, ou mesmo em vadiar, a tomar um machado e uma enxada e ganhar com elles o pão para seus filhos.

Dizia-se, por isso, que o povo do Ceará era o mais