Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/15

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arvores, mas continuou a não enxergar vestigios de casas.

― Onde está a aldeia que dizias, homem?

― D’ahi já se vê ― disse o almocreve, correndo para alcançar o cavalleiro. ― Não vê v. s.a, além, além, aquelles pinheiraes mansos?

― Vejo, sim.

― Pois já são da freguezia. Se fôsse mais claro havia de avistar a casa do guarda. É a tapada dos Bajuncos, que pertence á morgadinha dos Cannaviaes.

Henrique não respondeu. A distancia a que ficava ainda a tal tapada fel-o suspirar.

Emfim, passados minutos, principiaram a descer para o valle, costeando sempre obliquamente o monte.

Cem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno ponto branco, que se divisava ao longe por entre a rama do arvoredo, mas já indistinctamente, em virtude do adeantado da hora e da intensidade da neblina.

― Lá está a capella da freguezia ― dizia o homem.

― Alli? É um seculo para lá chegar!

― Qual! Estamos aqui, estamos lá. Eh, russo!

E applicou uma vigorosa vergastada nas ancas do macho, que accelerou o passo.

O homem continuou:

― Até se fôsse mais dia podia-se vêr d’aqui a pedra, que está no cemiterio novo, e que é da familia da morgadinha dos Cannaviaes. Foi a mãe d’ella a primeira pessoa que lá se enterrou, e até hoje mais ninguem. O povo, como o outro que diz, tem sua aquella em se enterrar fóra da egreja. Elle, a falar a verdade... Eu bem sei que tudo vae do costume... mas emfim a gente foi creada n’isto... Mas a pedra é coisa asseada. É como as que estão na cidade.

Henrique, transido de frio, quebrado de desalento, já nem attendia ao que o homem ia dizendo.