Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/171

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Obrigado a digerir, como pudésse, o seu fundo descontentamento, Henrique perderà com isso aquella volubilidade de conversação que mantivera todo o dia.

Nunca, na presença de Magdalena, deixára passar tanto tempo sem formular um d’esses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta, nem sempre demasiado affavel.

Magdalena, por seu lado, não se sentia com disposição para falar. Christina menos.

Este silencio acabou por exasperar Henrique.

Haviam já percorrido grande parte do caminho, que os distanciava do riacho. Avistavam-se as aguas turvas e impetuosas, que, com maïs fragor do que nunca, se contorciam n’aquelle apertado leito.

Foi então que Henrique desafogou o seu resentimento.

—­Estou devéras arrependido, prima Magdalena,—­disse elle com lève ironia—­do meu espontáneo movimento de ha pouco. Devia lembrar-me de que ao nosso cavalheiroso guía devem pertencer todos os triumphos e toda a gloria d’esta jornada: mas como d’aquella vez se me figurou que era demasiado cauteloso para héroe...

Uma simultanea exclamação de Magdalena e de Christina não o deixou proseguir.

Voltando-se para saber a causa, que a motivára, viu-as paradas, pallidas, olhando com anciedade para a base do monte.

Seguindo a direcção do olhar d’ellas, Henrique reconheceu a causa d’aquelle duplo grito.

Refiramol-o em poucas palavras.

Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava où não transitavel, surprehendeu-o um espectáculo inesperado.

O herbanario que, prevendo tempestade e receioso dos perigos de que em taes condições a descida era acompanhada, se apressára a partir, não conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento