Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/19

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toada plangente, melancolica, monotona, que exacerbou estes effeitos.

― É uma fiada em casa do Tapadas ― disse o almocreve. ― É um dos maiores amigos do pae da morgadinha. Vê aquelle muro acolá?

― Eu não vejo nada. Deixa-me!

― Pois pertence já á quinta dos Cannaviaes, que a morgadinha...

― Outra vez! Cala-te para ahi com essa morgadinha ― exclamou Henrique.

Era evidente emfim que estavam em pleno coração do povoado. As casas appareciam mais juntas. De algumas saía um surdo rumor de vozes que tinha o que quer que era de lugubre. Era a corôa rezada em familia a Nossa Senhora. A voz grave do lavrador casava-se com a voz quebrada e trémula do avô, com a voz sonora e fresca da mãe, e a juvenil das raparigas e creanças n’aquelle piedoso côro, produzindo um effeito que acabou por levar ao auge a impaciencia do nosso spleenetico viajante.

― Sumiu-se essa endiabrada quinta de Alvapenha, que não a acabamos de attingir?

O almocreve d’esta vez nem respondeu; sacudiu uma chicotada sibilante junto ás orelhas do muar, o qual com desusada rapidez galgou uma ladeira orlada de arvores, volveu á direita e, á voz do almocreve, estacou em frente de um portão de quinta resguardado por um telheiro rustico.

― É aqui ― disse o guia.

― Até que emfim! ― exclamou Henrique, suspirando. Suspiro de conforto e de tristeza ao mesmo tempo, como o do homem cançado da vida, quando antevê o repouso do tumulo. Em Henrique era intima a convicção de que a quinta de Alvapenha lhe havia de servir de cemiterio.