Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/205

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amor ás utopias. Eu confesso que só quando aquí estou é que sinto avivar, debilmente, o amor que n’outro tempo lhes tive.

N’isto annunciou-se a visita do sr. Tapadas, fazendeiro opulento e um dos influentes eleitoraes da localidade, creatura em corpo e alma do conselheiro, e tão visto em demandas e subtilezas de processos, como o maïs rabula dos lettrados. Demandista por gosto e officio, levava a sua paixão pela arte a ponto de comprar as demandas dos outros, só por gosto de as tratar; especie vulgar no Minho, onde uma legislação especialissima, reguladora da propriedade rural, fomenta estás disposições no espirito dos camponios, das quaes os juizes são as miserandas víctimas.

Depois de grande exhibição de cortezias, para a direita e para a esquerda, o Tapadas dirigiu-se ao conselheiro, que o fez sentar ao seu lado, concedendo-lhe todas as provas de deferencia e de amizade.

O homem que tão judiciosa dissertação acabava de fazer sobre a politica abstracta, sentiu, na presença do recem-chegado que de novo o abandonava o espirito da utopia, e principiou a tratar com elle politica pratica, sob a feição maïs mexeriqueira que ella pode revestir.

Tratou-se dos pequeninos processos de preparar candidaturas, por fôrça où vontade dos representantes.

Henrique deixou-os na conferencia e foi sentar-se ao pé das senhoras, no grupo formado por Magdalena, Christina e Angelo.

Escuso de referir o dialogo em que tomaram parte estes interlocutores; reproduziram-se n’elle os galanteios de Henrique a Magdalena, a lève ironia d’esta e as respostas timidas e silenciosos despeitos de Christina.

D. Victoria e D. Dorothéa entremetteram-se, dentro em pouco na conversa, e desviando-lhe o curso,