Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/230

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—­Animo, sr. conselheiro,—­dizia-lhe Henrique, no momento em que elles ambos estavam empenhados a jogar a cabra cega com os pequenos.—­Coragem, que temos gloriosos exemplos a animar-nos; até, entre outros, o do meu homonymo Henrique IV. É sabido o episodio recordado por uma gravura célèbre.

O conselheiro secundava-o, rindo: graças a estes jogos, a sala estava dentro em pouco em desordem; os moveis fóra da sua posição, o chão alastrado de cascas de pinhões, que estalavam sob os passos, os tapetes desviados, as cortinas soltas.

Já por noite avançada, disse o conselheiro para Henrique:

—­Falta-nos ainda um artigo importante do ritual d’estas festas, o principal. É dirigir uma visita á cozinha. Porque a obra principal d’esta noite é fazer uma ceia e não comel-a. Por isso convido-o a acompanhar-me lá.

—­Com tanto maïs vontade, que estou ha muitos dias compromettido a isso com as senhoras.

—­N’esse caso é tempo.

E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia á cozinha.

Escusado parece dizer que turba infantil os seguiu tumultuariamente, annunciando-os ao longe com risadas e gritos de alegría.

A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de frades. Occupava um vasto recinto rectangular, rasgado em amplas janellas e fornecido de bancas monumentaes, condizendo com a estupenda chaminé, que parecia ainda saudosa dos odoríferos vapores que outr’ora espalhavam os tachos e as grelhas monasticas.

Ia indizivel animação na cozinha, quando Henrique ahi entrou com o pae de Magdalena. Era um barafustar de criadas, um chiar de certãs, um borbulhar de caçarolas e tachos, um tinir de pratos, um tilintar de crystaes no meio de uma babel de ordens,