Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/290

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—­E para que me vens consultar? Posso eu oppôr-me a isso? Avisas-me para eu me arredar a tempo da sombra d’estas arvores, maïs velhas do que eu, a fim de que não me esmaguem ao caírem decepadas? És generoso, Manoel, em teres ainda em conta a vida de um homem inútil.

—­Ahi estás já com as tuas recriminações. Acredita que eu...

—­Não mintas, Manoel, não mintas. Ias dizer que não tinhas tomado parte n’este projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e dize tudo. Entre mortificares o coração de um velho e pobre amigo e offenderes os interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro partido; e, como os differentes hábitos de vida te ensinaram em muitas coisas, como dizes, a pensar différente de mim, não déste a isso o nome de ingratidão.

—­Ouve.

—­Sê franco, que eu te ouvirei.

—­Pois bem, serei franco. Sim, confesso-t’o; era indispensavel que está estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava n’isso empenhada a minha palavra e a minha honra. Ha muito que os meus adversarios me fazem guerra por causa d’ella. Trabalhei e consegui, apesar d’esta situação politica me ser contraria. Très traçados se offereciam. Um sacrificava uma grande parte dos bens de meus filhos, de Angelo que não é muito rico, que está no principio da existencia e que só Deus sabe se no decurso d’ella não teria occasião de maldizer a imprevidencia de quem devera olhar por os seus interesses. Querias que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos hoje, nada valiam; e que dentro em pouco tempo, convenientemente trabalhados, podem ser de um valor importante. Querias que o fizesse? où não me desculpas por o não ter feito?

—­Fizeste bem—­respondeu o herbanario.

—­O outro traçado cortava os bens do brazileiro Seabra. Conheces este homem? Um elemento que,